Após o ataque: as consequências

Berzah depois do ataque

Há uma parte da imprensa internacional que fica insatisfeita com o ataque perpetrado contra a Síria.
“Mais, mais!” é a palavra de ordem.

Que, não por mero acaso, é quanto pede israel, porque a tentativa de Netanyahu de arrastar EUA e a Europa para uma guerra decisiva na Síria parece falida.

O ataque dos três agressores, EUA, França e Grã-Bretanha, parece ter-se resolvido num dano político, militar, psicológico e de imagem. E confusão. Muita confusão.

O General Mattis, chefe do Pentágono, anuncia que “o nosso é um golpe isolado”; Nikki Haley, o Embaixador na ONU decreta novas sanções contra a Rússia; o francês Macron que declara ter convencido Trump acerca da necessidade de deixar tropas americanas na Síria (o que deseja Netanyahu) e é imediatamente desmentido pela Casa Branca. Antes um boato de que Trump queria bombardear locais iranianos e russos, mas Mattis conseguiu opor-se; depois o detalhe contraditório de que Trump, colocado na frente de três opções de ataque, escolheu a menos cara, limitando tudo aos três locais que a fantasia ocidental chama “fábricas clandestinas de armas químicas”. A principal delas, a construção de Berzah, era um laboratório farmacêutico regularmente visitado pela OPCW (Organização para a Proibição de Armas Químicas).

Tel Avive: “Mais, mais!”

O estado de espírito do governo sionista após o ataque é revelado pelo título do Jerusalem Post: “Trump está a abandonar israel?”.
Duas frases:

Sem uma presença americana na Síria para nos ajudar a conter o regime de Assad, israel pode sentir-se compelido a aumentar o nível e a letalidade das suas ações unilaterais para proteger as suas fronteiras.

É um grave golpe estratégico negativo para a liderança americana e a segurança israelita. Os governantes do Estado judaico não podem deixar de se perguntar se Washington iria ajuda-los se for decidido um ataque preventivo contra a ameaça do Irão baseada na Síria.

A única esperança é John Bolton, “que tem muitos amigos em israel”. Pelo que: ordem à lobby para pressionar o conselheiro com bigodes.

Emmanuel, o pequeno Napoleão

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Emmanuel Macron, ao participar no ataque, prejudicou a sua posição internacional, que ele pensava melhorar. O seu governo publicou um documento (Evaluation Nationale) que alega trazer a “evidência” das violações da Síria para justificar “legalmente” o ataque ao regime de Damasco. Sem o mandato da ONU. Ou seja, como até mesmo a televisão francesa, a TV5 Monde, reconheceu, tratou-se de “violar a lei internacional para reforçá-la”. Uma posição insustentável que fez a felicidade da oposição, desde Marine Le Pen até Melenchon: é a primeira vez desde 1945 que a França abandona a legalidade internacional.

Macron sofreu uma óbvia pressão “talmúdica”, que afasta ainda mais a França da tradicional proximidade ao mundo árabe. Mas que esta atitude justiceira seja tomada por uma super-potência como os EUA é uma coisa, que possa ser Paris a fazer isso é duvidoso.

Netanyahu e Macron

No recente passado, Sarkozy começou a sua descida após o ataque à Líbia para matar Khaddafi, pagando com a derrota eleitoral antes e todos os problemas judiciários depois. Em qualquer caso, Macron já foi isolado no seio da União Europeia e a “relação especial” que esperava construir com a Alemanha foi para as urtigas. Até a posição de Paris como um honesto mediador internacional foi destruída: Médio Oriente, Irão, África de língua francesa.

Macron perdeu o apoio da União. Os 28 Ministros das Relações Exteriores, que encontraram-se dois dias depois do ataque, pediram o diálogo com a Rússia. Mas os danos maiores ficam na vertente interior: apesar dos esforços dos órgãos de informação para pintar um Presidente chefe de guerra, há a ironia e o escárnio da opinião pública, em particular quando, depois de todas as acusações contra a Rússia “culpada”, foi sabido que a França advertiu a Rússia acerca de locais e tempos do ataque. Sobra só o Le Monde, o diário dos Rothschild, que faz eco ao Jerusalem Post: “Missão inacabada”.

A catástrofe militar

JASSM-ER

Do ponto de vista militar o ataque foi um redondo fracasso, quanto mais o tempo passa tanto mais
fica claro. Especialistas militares franceses e americanos concordam com isso.

No sito Sic Semper Tyrannis, tal Publius Tácito (pseudónimo sob o qual se esconde um general ou almirante ainda em serviço) avalia como “o General Mattis e o General Dunford ficaram desonrados em prestarem-se a esse baile em máscaras”.

O general Dominique Delawarde é sarcástico. Relata a versão russa (103 mísseis disparados dos quais 71 interceptados) e a versão americana (105 mísseis, todos bem sucedidos) e lembra:

Os americanos forneceram as fotos do satélite para o Battle Damage Assessment (a estimativa dos danos infligidos depois dum bombardeio). Também em Dezembro de ’98, na época da Operação DesertFox, os americanos haviam fornecido esse tipo de foto. Os nossos satélites, muito precisos, deram resultados bem diferentes. Ficaram surpresos com a forma como os apanhámos em flagrante mentira. […] Lembro-me pessoalmente as mentiras diárias do porta-voz da Nato acerca das falsas perdas dos sérvios em Kosovo entre Março e Maio de 1990. A NATO declarou mais de 800 materiais importantes destruídos em 78 dias de bombardeio. A contagem real feita após o cessar-fogo, acabou por ficar na casa dos trinta. Todos os MIG “destruídos” em Pristina no primeiro dia da guerra, cerca de vinte, na altura do acordo de cessar-fogo saíram do subsolo e partiram calmamente para Belgrado. Esta coligação mentiu demais no passado para ser credível hoje.

O General francês tende a apoiar as estimativas russas. Caso seja verdade que 70% dos mísseis foram interceptados:

Os resultados seriam simplesmente catastróficos para os três atacantes. Significa que se tivessem intervido os S-400 russos, nenhum míssil de EUA, Reino Unido e França teria chegado até o território sírio.

Com uma excepção: nenhum dos 19 mísseis JASSM-ER, lançados pelos bombardeiros B-1B e utilizados pela primeira vez num conflito, foi nem interceptado nem visto pelos radares russos. Todos alcançaram o alvo. Os russos terão que trabalhar nisso.

A Turquia, a Arábia, o Egipto…

O Presidente da Turquia Erdogan

Mas o ataque teve repercussões em toda a área medioriental.

O Presidente da Turquia, por exemplo. Antes do ataque, o seu Ministro das Relações Exteriores aplaudiu os lançamentos de mísseis e Erdogan declarou que Assad tinha que ser removido. A Turquia, portanto, decidiu voltar para os braços da Nato. Só que ninguém tinha avisado Ankara da natureza limitada do ataque: o que significa que a Nato ainda não fala com o “aliado” turco.

Agora Erdogan fica em silêncio. Perdeu a confiança de Moscovo e de Teherão, que o tinham acolhido na coligação para reconstruir a Síria, fechando os olhos sobre a ocupação turca de Afrin. Agora Moscovo e Teherão afastam-se de Erdogan (que pode dizer adeus ao S-300) enquanto a Nato não lhe perdoa o “namoro” com os inimigos.

Na Arábia, Mohamed Bin Salman fez o mesmo erro: esperava que os mísseis contra Assad fossem o prelúdio duma guerra contra o Irão. Agora o seu apoio ao ataque será reembolsado no Yemen pelo Irão enquanto as boas relações com Moscovo, que tanto procurou, estão novamente congeladas. O reino dos Wahabitas é o único aliado de israel na área: uma posição embaraçosa.

Nem Netanyahu pode exultar. Além do ataque ter sido uma operação limitada e não uma invasão com tanto de atómicas, ele teve sempre um bom relacionamento pessoal com Putin: mas provou ser o verdadeiro instigador da guerra contra a Síria. E Moscovo tomou nota.

O Egipto preferiu não juntar-se ao coro anti-Assad, nem cometeu o erro de ser inimigo de Moscovo. Tática inteligente, evitou de “queimar-se”. Isto coloca o Cairo numa futura posição de liderança do mundo sunita, especialmente depois dos erros da Turquia.

Mais no geral, o resultado do ataque aos olhos das capitais do Médio Oriente é interpretado como uma demonstração de fraqueza e confusão mental das potências globalistas ocidentais. É óbvio que israel tentará novamente e será cada vez mais letal. Mas também está mais sozinha: os seus aliados, de Macron até a Arábia passando pelos EUA, provaram ser ineficazes, até mesmo do ponto de vista militar.

Ipse dixit.

Fontes: The Jerusalem Post, RT, Réseau International, Reuters, Blondet & Frineds, Sic Semper Tyrannis

4 Replies to “Após o ataque: as consequências”

  1. Boa análise, sóbria fundamentada. Existem um outros intervenientes nesta equação que como a industria da defesa cujas ações em bolsa perante esta "crise" fazem lembrar: " gato escondido com o rabo de fora".
    Notar quais as multinacionais que se valorizam em bolsa nestas circunstancias dá uma visão panorâmica do pântano .
    Resultado Final: Multinacionais -10 ,Resto do mundo – 0

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