A dissonância cognitiva do Ocidente e a sua origem arcáica – Parte II

Como vimos na primeira parte, os povos indo-europeus chegaram à Europa antiga e entraram em
contacto com as populações locais: de forma violenta ou de forma mais gradual? É provável que tenha acontecido em ambas as modalidades, mas com um maior peso da forma gradual. Como é que sabemos isso?

Quando
uma cultura guerreira inicia campanhas militares, há basicamente duas
possibilidades: o saque ou a conquista permanente da terra.

No saque, um determinado território é atacado, é ocupado com a violência, há o extermínio das populações locais que resistem, há a “terra queimada” que sobra uma vez terminada a operação.
Quando, em vez disso, uma conquista quer ser definitiva, com a
consequente ocupação da terra, a população assaltante, uma vez tomado o controle do território, deve estipular compromissos com os derrotados. Mesmo
mantendo o papel hegemónico para os vencedores, há a necessidade imediata de pessoas
que possam fornecer sustento e matérias-primas para a sobrevivência
da classe hegemónica: se todos os derrotados fossem eliminados, ninguém ficaria disponível para servir os novos donos.
Eis que surge um novo problema: as vidas dos vencidos devem ser
preservadas e também deve ser assegurado que estejam disponíveis
para trabalhar para os vencedores.

A criação das classes e a religião

Um método possível para alcançar
esse objetivo é aquele utilizado pelos espartanos: separar a sociedade em classes e manter os vencidos num estado de escravidão. Mas
este sistema é frágil no longo prazo e os conquistadores, que sempre constituem
uma minoria na sociedade recém formada, nunca podem governar com
total segurança: as revoltas ditadas pela insatisfação dos subjugados
estarão sempre à porta.

Outro método é aquele da fusão gradual: os vencedores assumem o poder, formando uma nova aristocracia, enquanto os derrotados são incorporados num sistema mais suave, dando-lhes a oportunidade de participar ativamente, até um certo ponto, na vida social da nova realidade.
Com o passar do tempo, as divisões entre vencidos e vencedores tornam-se menos marcadas, até que continua a existir a divisão em classes mas esta é vista já não como uma “ocupação dos estrangeiros” quanto como o curso natural das coisas. Este segundo método foi o que prevaleceu na altura das invasões indo-europeias, o deu origem à nossa civilização: foi naquele momento histórico de fusão que foi originada a bagagem de valores que o Ocidente transmitiu por gerações.

Os vencedores, com a sua ideologia de conquista e a exaltação das virtudes viris e violentas, entraram
em contacto com a ideologia dos vencidos, cujos valores reflectiam o respeito da criação, a veneração da terra e dos seus produtos, uma predisposição para fraternidade e respeito mútuo.

A sociedade indo-europeia original já estava claramente separada em três castas: havia os sacerdotes, os guerreiros e os servos (aqueles que tinham a tarefa de produzir os bens necessários para a sobrevivência da comunidade). A casta dos guerreiros deu origem à classe aristocrática enquanto, desde o final da Idade Média, foi acrescentada a classe dos comerciantes, a partir dos quais se desenvolveu a burguesia da sociedade moderna. A casta dos servos era formada pela grande massa dos camponeses, por milénios a maioria da população, que tinha a tarefa de cultivar o solo e proporcionar os alimentos para toda a sociedade; muito mais tarde tomou o nome de “força de trabalho” e de “proletariado”. Como podemos ver, a separação da sociedade em classes da cultura indo-europeia foi herdada na íntegra por nós, ao ponto de constituir um simples “facto” ao longo da história ocidental.

As sociedades dos povos europeus originários, pelo contrário, não seguiam uma divisão tão rígida: havia uma certa separação nas tarefas (sempre há), mas num contexto muito mais fluido e, acima de tudo, não havia diferenças de status entre os membros da comunidade, nada que desse origem a estruturas sociais piramidais.

As religiões dos dois povos também olhavam em direções diferentes: os deuses dos indo-europeus viviam no céu, com a figura do Pater-Zeus-Júpiter qual chefe do panteão. Eram deuses guerreiros, armados de relâmpagos e podiam desencadear vingativas tempestades. Os deuses dos povos da Europa eram arcaicos, habitavam a terra e, como a Deusa Mãe, acolhiam as criaturas; eram basicamente maternais, ofereciam sustento, apesar de possuirem também aspectos obscuros e terríveis, (aspectos obscuros que perturbavam os povos conquistadores: o poder oculto e aterrador da Deusa Mãe era misterioso e assustador até pelas divindades guerreiras).

Assim nasceu um universo religioso completamente novo, onde o panteão celeste viu a chegada das divindades femininas protectoras, que prosperaram ao lado dos deuses guerreiros.

Os valores: palavra e acção

A classe dominante teve que desenvolver uma nova narrativa ideológica e uma nova escala de valores para manter equilibrada a sociedade recém-formada. O guerreiro indo-europeu podia exaltar a violência e as virtudes heroicas, mas estes eram factores que já não podiam ser entendidos por todas as classes da sociedade. Então, a coragem e a força sempre permaneceram virtudes indiscutíveis, mas a violência passou a ser justificada apenas contra populações inimigas e em outras ocasiões especiais.

Para manter a ordem civil foram mutuados os conceitos de solidariedade, fraternidade, respeito mútuo, que já faziam parte do património cultural ocidental. Todo o conjunto monumental das leis não nasceu como um acto de bondade espontânea dos governantes, mas como uma operação necessária para manter uma ordem entre a massa dos explorados: a classe dominante, de facto, precisava dos bens que os camponeses e os artesãos forneciam, e para que estes pudessem continuar a ser produtivos era preciso que a classe dominante actuasse de forma suficientemente (e aparentemente) “clara”. Por isso foi posto no papel que o abuso do homem sobre o homem não era mais aceitável quando, na realidade, a classe dominante limitou-se a garantir essa prerrogativa para si mesma.

É nesse momento que nasce a dicotomia entre ação e pensamento do Ocidente: enquanto o guerreiro
indo-europeu exaltava a guerra e a violência, enquanto o camponês europeu acreditava na paz e vivia em conformidade, a nova classe dominante rogava agora as virtudes dos vencidos ao mesmo tempo que continuava a agir de acordo com as sua própria escala de valores, que prega a fraternidade mas explora os perdedores, que traz paz mas continua a preparar guerras. É o começo da dissonância cognitiva do Ocidente.

A partir desta altura os dois sistemas de valores ficam sobrepostos num equilíbrio instável. Toda a civilização europeia e ocidental se desenvolve fazendo sua (nas instituições, nos documentos) a moral dos perdedores: bondade, irmandade e paz são aclamadas em todo o mundo, indicadas como o objetivo supremo que a própria civilização representa. Isso nas palavras. Porque ao mesmo tempo, na altura de agir, toda a civilização adopta a concepção belicista, onde a guerra e a conquista representam uma forma “legítima” de apropriar-se dos recursos dos outros.

Friedrick Nietzsche foi o primeiro a identificar esta dicotomia na sociedade ocidental: nos seus escritos define esses dois como “a moral do senhor” e “a moral do servo” . Enquanto o primeiro, típico de guerreiros e homens livres, exalta força, nobreza, crueldade e determina o valor de uma ação baseando-se no resultado, a segunda, típica dos “fracos”, prega bondade, compaixão, amizade, o que se adapta àqueles que não têm força para agir e rejeitam os poderosos. Nietzsche afirmou que era o cristianismo, e até mesmo o antigo judaísmo, o verdadeiro culpado da propagação da moral dos servos no Ocidente; pregava um retornar à celebração do impulso vital e à força da mente digna dos “espíritos livres”.

Na realidade, o que Nietzsche chamou com uma intenção depreciativa “a moral do servo” era um sentimento generalizado no Velho Continente bem antes da chegada daquelas religiões.

O verdadeiro problema da sociedade ocidental contemporânea é que não há consistência entre o esquema de valores que afirmamos e o modo de atuação do sistema que construímos. A retórica ocidental democrática, igualitária e de ajuda, está em contraste com uma sociedade estruturada na prevaricação. O ocidental é portanto esquizofrénico: a dicotomia entre a retórica e a prática é a verdadeira doença que corrói homens e sociedade a partir do interior. A nossa sociedade ainda carrega a marca da antiga ideologia indo-europeia: o mais forte conquista, a supressão do mais fraco ainda é considerada uma expressão natural das coisas. A máscara que é utilizada tem o rosto pacífico da Deusa Mãe na sua versão pacífica e acolhedora.

Essas duas ideologias estão na base do nosso esquema de valores, da nossa moral: são duas ideologias opostas, que durante milénios o Ocidente tentou amalgamar, sem sucesso. O resultado é uma doença subjacente, irreprimível, porque o contraste entre palavras e ações consome os homens e a sociedade.

Addendum

Como afirmado na primeira parte do artigo, esta tese está fundamentada em obras bem conhecidas. A
tese pode ser criticada, complementada ou até rejeitada; todavia temos que ter honestidade intelectual e admitir que, se reconhecemos a transmissão de princípios e valores ao longo dos séculos, de geração em geração, o mesmo deve ser dito da sociedade, pela simples razão de que esta é formada pelos mesmos homens e mulheres que constituem as gerações.

Sendo assim, temos que responder à pergunta: o que foi transmitido ao longo dos séculos? Qual foi a herança?

Por qual razão a religião de maior sucesso no planeta prega a humildade, eleva a pobreza, abençoa o afastamento dos bens materiais e, ao mesmo tempo, rodeia-se de riquezas? Como é possível que uma espécie como a nossa, que reconhece maioritariamente o valor da Paz, tenha evitado as guerras apenas em 268 dos últimos 3.400 anos (8%)? Como é possível que a “Terra da Liberdade”, máximo exemplo de Democracia (os EUA, óbvio), tenham 241 anos de história dos quais 225 passados em guerras?

É evidente que existe a tal Dissonância Cognitiva citada no artigo, é
presente uma dicotomia entre palavra e acção, e não desde hoje. Então o reconhecemos que o Homem é incapaz de actuar segundo o esquema de valores que mais preza, por exemplo porque desviado por outras pulsões (o que é sempre uma possibilidade), ou admitimos que esta “incapacidade” é mais o fruto duma escolha consciente, uma escolha antiga.
Não sei qual resposta possa ser considerada melhor.

Ipse dixit.

Relacionado: A dissonância cognitiva do Ocidente e a sua origem arcáica – Parte I

Fonte: Tra Cielo e Terra

Para acabar, vale a pena reportar os principais títulos que formam a base de quanto escrito até aqui:

  • Francisco Villar, Los indoeuropeos y los orígenes de Europa. Lenguaje e historia, 1991
  • Miriam Robbins Dexter e Karlene Jones-Bley, The Kurgan culture and the Indo-Europeanization of Europe. Selected articles from 1952 to 1993 by M. Gimbutas, (1997)
  • Iaroslav Lebedynsky, Les Indo-Européens: Faits, débats, solutions, (2006)
  • Mircea Eliade, Traité d’histoire des religions, (1949)
  • Jared Diamond, Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies, (1997)
  • Julius Evola, Rivolta contro il mondo moderno, (1934)
  • Massimo Fini, Il vizio oscuro dell’occidente. Manifesto dell’antimodernità, (2003)
  • Friedrick Nietzsche, Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, Eine Streitschrift, 1887)
  • Friedrick Nietzsche, Além do Bem e do Mal, Prelúdio a uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse. Vorspiel einer Philosophie der Zukunft, 1886)
  • William Blake, The Marriage of Heaven and Hell (1790-1793)

7 Replies to “A dissonância cognitiva do Ocidente e a sua origem arcáica – Parte II”

  1. Hipótese brilhante, construída a partir de uma espécie de arqueologia da moral ocidental. Grata Max, gostei muito. É desta história arqueológica que pensei quando elegi a história como fundamental no trabalho de II.

  2. A lógica civilizatória imposta pelos dominantes é mantida até o presente, com o diferencial que facilitou e muito o "trabalho" das minorias, a globalização, que repaginou a escravidão (dita pós-moderna), a partir de sua propaganda.

    1. Claro que a logica civilizacional imposta pelos dominantes e mantida ate ao presente e assim sera no futuro. Os dominantes dominam, obvio. Tal como tambem e obvio que se retirassem os dominantes que estam no topo da piramide ou hierarquia passariam os nivel abaixo a ser os dominantes e assim sucessivamente ate so ja existir uma pessoa e mesmo esse teria de se dominar assim mesmo.

  3. Processo que forma um indivíduo precarizado, no sentido existencialista, e que aprenderá a gostar de sua vidinha escravizada, travestido de homem moderno e feliz…

  4. Grande Max, esta teoria parece muito rebuscada, há uma hipótese mais simples. A nossa cultura é hierárquica e todos os valores bondosos servem de propaganda que tem como função estabilizar o sistema. Estou de acordo com esta parte da tese.

    Mas a instituição desta cultura não necessitou da invasão dos povos do norte, bastou a invenção das cidades há coisa de 8.000 anos ou da agricultura há alguns 30.000 anos. Talvez tenha sido a criação de excedentes alimentares que desencadeou o retorno à barbárie dos macacos.

    Os fortes dominam? Tolice. O rei e o pedinte são igualmente vitimas neste sistema que se alimenta da liberdade de cada um nós.

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