Da besta e da imprensa (parte 2)

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Segundo artigo dedicado ao trágico Donald Trump com o fim de evidenciar (caso ainda fosse necessário…) quanto má é a imprensa de regime.

E falemos de taxas. O Presidente dos EUA apresentou a reforma fiscal há poucas semanas, no começo de Dezembro. Eis alguns títulos da imprensa:

  • Donald Trump quer aumentar os teus impostos (The New York Times, EUA, 29.10.2017)
  • Plano de reforma fiscal deixa círculo de amigos de Donald Trump “mais ricos” (Jornal Económico, Portugal, 25.12.2017)
  • Proposta tributária de Trump reduz impostos de empresas e ricos, mas déficit preocupa (Globo, Brasil, 27.09.2017)
  • Por que multinacionais e milionários são os maiores beneficiados pelo corte de impostos nos EUA (BBC, 21.12.2017)

Muito bem, então a síntese parece ser clara: Trump baixa os impostos para os amigos ricos. Classe média e pobre? Nada. Aliás, pior do que nada, porque o deficit aumenta e o deficit é pago por todos, justo?


1. Para começar: Trump efectivamente aumenta o deficit dos Estados Unidos. Mais ao pormenor: o deficit aumentará de 1.460 biliões de Dólares durante os próximos 10 anos. Então: qual o problema?

Numa economia soberana (não como na Zona Neuro) o deficit é a riqueza líquida de cidadãos e empresas. Sim, leram bem: “riqueza”. Vamos fazer um exemplo: o Estado gasta 120 moedas e impõe 100 moedas de taxas e impostos. Isso significa que o Deficit do Estado é de 20 moedas (120-100=20). Mas onde ficaram as 20 moedas? Nos bolsos de cidadãos e empresas. Isso significa que cidadãos e empresas estão mais ricos. Washington aumentará em 1.460 biliões o deficit? Isso significa que cidadãos e empresas dos EUA terão mais 1.460 biliões de Dólares para gastar: um enorme bónus.

Dúvida: mas se Trump corta os impostos só dos ricos, serão apenas estes a ficarem com as 20 moedas nos bolsos? Calma, vamos ver.

2. O imposto das empresas (Corporate Tax) nos EUA hoje é de 35% e vai cair para 21%. Perfeito, é oxigénio para as grandes empresas, é o ordenado para quem aí trabalha. O Estado terá em impostos menos dinheiro para gastar? Falso.

Os impostos, num Estado com economia soberana, não são usados ​​para pagar os gastos públicos: não é possível que isso aconteça por uma questão de pura matemática. Se o Estado é o monopolista do dinheiro, antes o Estado cria dinheiro, a seguir o Estado gasta e só depois o Estado pode taxar: não pode retirar dinheiro de cidadãos e empresas sem antes ter gasto. Portanto, é matematicamente impossível que os impostos proporcionem ao Estado dinheiro para gastar: o colossal corte do imposto corporativo não prejudica as despesas públicas, e só ajuda as empresas que, se tiverem cérebro, aproveitarão para investimentos.

3. A reforma de Trump reduz a taxa máxima para os americanos ricos: de 39,6% para 37%. Bom, terão mais dinheiro para gastar: os gastos significam mais vendas e mais vendas significam mais produção e mais produção significa mais economia e emprego.

4. A reforma de Trump elimina a Alternative Minimum Tax (AMT) para as empresas. Tanto para entender, até o Washington Post admite que esta taxa “desencorajou os empresários que queriam abrir novas fábricas, comprar máquinas e investir em pesquisa, porque realmente cancelou os incentivos fiscais relacionados”. Mais nada.

5. Depois: Trump faz um enorme desconto sobre os impostos de herança para os super-ricos.
Ok pessoal, vamos ser claros, pode ser? O objectivo duma sociedade normal não pode ser a constante punição dos ricos mas a eliminação da pobreza. Eu sei, muitos terão cólicas intestinais ao ler isso e o pensamento irá com uma lágrima até a imagem do Che com charuto e sorriso: mas não será tempo de crescer? Quem faz funcionar uma economia (numa sociedade doentia como a nossa, claro) não são os pobres, simplesmente porque estes não podem gastar: não é a riqueza que tem de ser eliminada, é a pobreza. E um Estado com economia soberana poderia fazê-lo, sem que para isso fosse preciso penalizar as classes mais favorecidas.

Basta com a história de “tirar aos ricos para dar aos pobres”: num Estado com economia soberana é possível gerir correctamente o dinheiro criado a partir do nada pelo Estado, com riscos mínimos de inflação (ver declarações dos dois ex-governadores da FED, Alan Greenspan e Ben Bernanke), eliminando a pobreza e, ao mesmo tempo, acabando também com o choque (criado e mantido de forma artificial) entre classes ricas e pobres. Numa sociedade como a nossa (portanto péssima, é bom lembra-lo) o lema tem que ser “quem tiver dinheiro, que gaste quanto mais possível”. Caso contrário, a economia não funciona e os primeiros que pagam a factura são os pobres.

6. As deduções fiscais para 2/3 das famílias duplicarão. Atenção: não as deduções para as famílias ricas, mas para todas as famílias.

7. Os americanos isentos de impostos aumentam de 44% para 47,5%: até 2025, a grande maioria dos cidadãos e das pequenas e médias empresas pagará menos impostos; depois, as classes médias manterão as deduções fiscais sobre os juros dos empréstimos estudantis, as deduções sobre as despesas médicas em excesso e os descontos fiscais para os novos licenciados. Uma alteração proposta pelo Senador Marco Rubio aumenta consideravelmente as deduções fiscais para as crianças de famílias de rendimento baixo e médio.

8. Mais: o imposto Alternative Minimum Tax sobre os agregados familiares será aplicado a muitos menos americanos, porque antes atingia famílias que ganhavam mais de 160.900 Dólares brutos, hoje, com Trump, apenas quem ganhar 1.000.000 de Dólares brutos.

9. O limite máximo de dedução por criança duplica de 1.000 para 2.000 Dólares.

10. As deduções sobre as despesas médicas introduzidas pelo antigo Presidente Obama continuam na íntegra. Mas a partir de hoje os mais ricos enfrentam um limite máximo de 10 mil Dólares no âmbito das deduções: e se antes era possível deduzir os juros sobre empréstimos imobiliários até o primeiro milhão de Dólares, com Trump o limite fica abaixo do milhão.

Resumindo: Trump (ou melhor: alguém do seu grupo de trabalho, pois ele sozinho estaria ainda a procurar a calculadora) fornece uma saca de plasma à anémica economia dos Estados Unidos. É uma boa reforma fiscal? Não, de todo, mas seria ingénuo esperar um programa “justo” vindo de Washington: estamos sempre a falar da Administração dos Estados Unidos, estamos a falar de multinacionais, de Wall Street, de lobby, de imperialismo e de tudo o resto. Mas tomara que o simpático Obama tivesse feito o mesmo em vez de salvar os grandes bancos com o bail-in (matando assim centenas de pequenos bancos).

E no fim retomamos a questão central: quantos órgãos de informação deram-se ao trabalho de explicar as coisas tais como é possível lê-las acima? Quantos, pelo contrário, limitaram-se a obedecer perante a raivosa palavra de ordem democrata, segundo a qual Trump ajuda os ricos e penaliza os pobres?

Ipse dixit.   

Fontes: no texto, Paolo Barnard

10 Replies to “Da besta e da imprensa (parte 2)”

  1. " o Estado gasta 120 moedas e impõe 100 moedas de taxas e impostos. Isso significa que o Deficit do Estado é de 20 moedas (120-100=20). Mas onde ficaram as 20 moedas? Nos bolsos de cidadãos e empresas. Isso significa que cidadãos e empresas estão mais ricos."

    Max… não tenho tanta certeza disso. O governo dos eua nao cria o seu proprio dinheiro o que faz é a emissão de Treasury Bonds que basicamente e pedir dinheiro emprestado o qual tera de ser pago com juros.

    The Monetary System Visually Explained

    Ah.. e a FED reserva federal dos eua e um banco privado 😉

    EXP001

  2. Olá EXP!

    Concordo: na realidade a Fed fica nas mãos dos privados. Aliás: o difícil é encontrar um banco central que não esteja nas mãos dos privados…

    Todavia, e contrariamente ao que se passou na Europa, não acho que Trump terá grandes problemas acerca do deficit. A razão? Não sei, mas tenho a impressão de que um Presidente que reconheça Jerusalém como capital do Estado hebraico ganhe instantaneamente uma série de bónus, válidos no curto e médio prazo. Juntamos também a mudança de atitude em relação ao Irão… Obviamente é só uma impressão, juro que ainda não entendi qual o verdadeiro relacionamento entre Trump e a potente lobby pró-israel.

    Mas o reparo está perfeitamente correcto (e agradeço!): a Fed não está nas mãos do povo americano.

    Grande abraçooooo!!!!!

  3. Algo não bate bem aqui, porque é que tanto China e Rússia estão a apostar mais que nunca em dinheiro baseado em algo que pode ser medido, físicamente são bens, seja ouro, commodities (matéria prima) agricola/ matais raros, produção de bens ou seja algo de fa(c)to existe pode até ser quatificado. Os átomos formam algo (logo existe). Não vejo a Europa sem ser alguns ogres de leste a seguir isto. Trump é basicamente um básico do Twitter e rodeado pelo pior da esfera banqueira, aliás o tipo que o ajudou($$) o tal de Mercer já vai tirar/tirou de lá o staff dele do governo, objetivo atingido(o oposto de Hillary que nem isso soube explicar) . Mas se esta economia é basicamente uma acumulação de divida baseada em nada (sem ser confiança, dai os to big to fail). Até quanto se pode levar algo baseado num esquema ponzi,(o expo colocou o link) baseada em nada, talvez uma porrada de armas e empresas tipo Tesla(essa útil p.ex e outras que tais das poucas que ainda investem forte e feio em r&d). Continuo a achar que a bolha vai rebentar mais tarde ou cedo, este modelo é impossível de ser sustentável indefinidamente. É dinheiro virtual, transacções virtuais, bolsas de valores virtualuzadas. O bitcoin agora que o minning mais um esquema é mais do mesmo a codificação (sha 256) é da NSA.
    Mas alguém come comida ou água virtual, vive debaixo de um teto virtual? en troco de algo baseado em nada, sem ser confiança aliás praticamente tudo é tipo uma religião apocalípticas daqueles que quem paga mais portagem/ pedagio está nos assentos da frente.

    nuno

    1. Caro Nuno,

      subscrevo na íntegra.
      É desde a massiva financiarização da economia que vivemos num enorme esquema Ponzi, onde a crise de 2007 foi apenas a primeira duma série de "ajustamentos" sistémicos.

      Há, de facto, um distância cada vez maior entre a riqueza real (ou "material") e a riqueza virtual: o fenómeno Bitcoin é muito interessante neste aspecto e voltaremos a falar do assunto também porque aí o fim da bolha está a aproximar-se bem rápido (sobretudo agora que os grandes bancos entraram na corrida).

      Quanto ao Trump: contrariamente ao que dizem os órgãos de informação, Trump não tem apenas o apoio de alguns camponeses do profundo Sul dos EUA. Ninguém se torna Presidente dos EUA sem as ajudas dos máximos níveis do "establishment".

      Pelo que, estamos perante uma fase algo estranha da política americana: um Presidente-besta ao quadrado, populista, sem os requisitos mínimos para lidar a (ainda) maior potência mundial. E, mesmo assim, um Presidente que tem apoios determinantes no seio das maiores forças económicas.

      Não é a primeira vez que os EUA apresentam um Presidente-besta: é suficiente lembrar o último Bush. Mas atrás do Bush estava um Dick Cheney, um Donald Rumsfeld, um Colin Powell, uma Condoleezza Rice. Sobretudo, havia uma doutrina, aquela desenhada por Zbigniew Brzezinski.

      Quem fica atrás do Trump? Qual a "inspiração" dele? Não é tão claro assim até agora. Mas parece alguém disposto a ajuda-lo sobremaneira também nas questões económicas. Por isso acho que a presidência Trump será mais tranquila neste aspecto.

      (obrigado por ter citado o Bitcoin, vamos falar disso amanhã!)

      Grande abraçooooooo!!!!

    2. Max não querendo ser chato que raio se passa nos kernels dos procesadores : intel e outros por arrasto mas não tanto?
      linus trovalds

      https://lkml.org/lkml/2018/1/3/797

      http://www.businessinsider.com/intel-ceo-krzanich-sold-shares-after-company-was-informed-of-chip-flaw-2018-1

      https://en.m.wikipedia.org/wiki/Speculative_execution

      Security vulnerabilitiesEdit

      "In January 2018 severe vulnerabilities in the implementations of speculative execution on many processors, called Meltdown (Intel) and Spectre (AMD, ARM, Intel), were published by multiple sources.[6] These potentially allow malicious software to read other memory on the system and gain access to information such as passwords and encryption keys."

      E isto:

      https://www.bleepingcomputer.com/news/hardware/researchers-find-a-way-to-disable-much-hated-intel-me-component-courtesy-of-the-nsa/

      Para o mercado chinês está disabled/desabilitado.

      Peço desculpa pelo off-topic mas é só backdors ou obsolescência programada, mas basicamente é isto que vai afectar servidores e obviamente usuários as empresas do setor já estão a reclamar:

      https://www.theguardian.com/technology/2018/jan/03/major-security-flaw-found-intel-processors-computers-windows-mac-os-linux

      Nuno

      mais uma vez peço desculpa por estar fora do tópico, mas acho que dado todos aqui usarmos estes meios, isto pode afetar o funcionamento de redes p/ex.

  4. Discordo do conceito de tributação sobre a riqueza, pois sua maior parte foi e é desdobramento justamente de distorções econômicas brutais, como o próprio controle privado e não público das moedas nacionais. Mudando essa lógica, aí sim, poderemos retomar o assunto. Não é mera questão de Che Guerava…

  5. Olá Chaplin!

    O discurso de eliminar a pobreza e não os ricos vai muito além da nossa actual sociedade, que é distorcida por natureza. Mesmo assim, tentamos fazer um discurso ligado à realidade.

    Se a nossa sociedade doentia conseguisse explorar os actuais recursos para eliminar a pobreza, com cada pessoa no planeta livre da fome e da miséria, não seria isso um enorme passo em frente? Afinal qual a nossa prioridade: punir os ricos ou ajudar os pobres?

    Eu prefiro a segunda resposta: em primeiro lugar ajudar os pobres, porque esta é a emergência. Uma pessoa sem comida quer antes um pedaço de pão, só depois justiça.

    Na nossa actual sociedade, "punir" os ricos significa em primeiro lugar atingir os pobres: porque o rico terá sempre vários recursos, enquanto o pobre depende só do miserável trabalho oferecido pelo rico. O qual, se em dificuldades, corta logo o lugar de trabalho.

    É um discurso extremamente racional, que esquece os princípios em prol do útil; é um discurso que até dói, porque todos desejamos um mundo melhor, onde a justiça também triunfe. Mas não podemos esquecer que acabámos com um Presidente (o simpático Obama) que com o seu "yes we can" e a sua política "progressista" prometia ajudar os pobres, com o resultado de aumentar ainda mais a concentração da riqueza nas mãos dos poucos.

    Ouvir alguém que faz um discurso um pouco diferente merece, no mínimo, uma possibilidade. Até se este alguém for uma emérita besta ao quadrado como Trump.

    Grande abraçooooo!!!!!!

    1. Pois…. essas historias de penalizar os ricos ou ajudar os pobres tem sido muito utilizada para dispersar a atencao de outras coisas.

      Bastaria haver igualdade de oportunidades para muita gente poder ter uma vida agradavel.

      Exemplos:
      Grandes cadeias de supermercados e lojas (desporto, electrodomesticos etc) que rebentaram com o negocio de muito comercio tradicional. Que e que pode concorrer contra um grupo economico forte.

      Agora ca em Portugal temos o negocio no franhaising das clinicas dentarias. Antes alguem formado nessa area abria o seu consultorio e ganhava um dinheiro jeitoso, actualmente o mais certo e irem trabalhar a recibos verdes para uma grande clinica. Porque? Pq nao podem concorrer contra uma rede de clinicas que sao financiadas por bancos e ainda por cima veem dificultado acordos com as seguradoras (muitas ate pertencem a bancos ;))

      Basicamente o acesso ao negocio/actividade esta a ficar cada vez mais restrito a ricos (quem tem dinheiro para ter peso no mercado) e os outros teem de ir trabalhar para eles. Isto nao e questao de penalizar ricos e beneficiar pobres e antes demais uma questao de justica para que todos possam ter os frutos do seu trabalho sem estarem condicionados pelo mais forte.

      EXP001

  6. Caro Max! essa visão tem premissa diversionista, consciente ou não. Jamais uma sociedade doente poderá ter autonomia verdadeira, por um simples motivo. O indivíduo, por questões que envolvem dominação de minorias sobre maiorias (que aqui não vamos especificar, quem são esses segmentos), é precarizado e condicionado, desde sua gestação, onde "aprende" a priorizar valores numa ordem invertida. Não há chance de reversão civilizatória se não atentarmos para isso. A perversa realidade contempla, primeiro os valores econômicos, secundariamente, os sociais, negligenciando os principais/fundamentais, que são os existenciais.

Obrigado por participar na discussão!

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