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Aprender a pensar: os mecanismos da informação

De certeza que o Leitor já se interrogou porque é que ninguém está a reagir à infame onda de opressão e abuso de todo o tipo que estamos a sofrer. E já tratámos de várias razões nestas páginas. Mas continua a existir um aspecto inquietante: qual a razão da extrema passividade? Não estamos a falar dum fenómeno local, mas de algo global.

Não é preciso cavar no mundo da informação alternativa e procurar exóticas teorias da conspiração, pois os escândalos são continuamente relatados pelos meios de comunicação: corrupção, injustiça, roubo… por qual razão o cidadão não reage, mesmo perante a evidência, mesmo perante o facto que sejam os meios “oficiais” de comunicação a relatar e amplificar tais notícias? Não deveria ser isso suficiente para obter alguma consequência, além duma inútil vaga de indignação?

Deveria mas assim não é: qualquer tipo de informação que poderia ter danificado a estrutura do Sistema até às suas fundações já foi tornada pública, mas a estrutura continua intacta sem sequer um arranhão superficial. Isto torna óbvio um facto perturbador que está mesmo debaixo dos nossos olhos e ao qual quase ninguém parece prestar atenção: conhecer a verdade é absolutamente inútil. A informação não é relevante, falar dos segredos mais obscuros e colocá-los no domínio público não produz qualquer efeito, nenhuma resposta do público, por mais terríveis e chocantes que sejam tais segredos.

Crescemos com a ideia de que conhecer a verdade era crucial para criar um mundo melhor e mais justo; que a luta pela verdade era o maior inimigo dos tiranos poderosos. E, talvez, alguma vez no passado tenha sido assim. Mas hoje a “evolução” da sociedade e especialmente da psicologia das massas trouxe um novo estado de coisas: um estado de espírito da população que os mais ferozes dos ditadores nem ousariam imaginar. O sonho de cada tirano: não ter de esconder quase nada ao seu povo.

Para que serve o acesso à informação e à verdade se não isso causa mudanças, alterações, transformações? Qual é a utilidade de saber de forma explícita e documentada que, por exemplo, os bancos são entidades criminosas dedicadas ao roubo e à lavagem de dinheiro? De que os alimentos estão adulterados e contaminados com todo o tipo de produtos tóxicos, cancerígenos ou transgénicos? De que serve saber a verdade sobre qualquer facto importante se não houver uma reacção?

Este é o grande erro (e o pecado de presunção) do mundo da informação alternativa, do qual Informação Incorrecta faz parte, que fique claro: não entender que, na sociedade de hoje, a verdade não tem muito sentido. Informar sobre os factos que realmente acontecem não tem uma utilidade prática; pode interessar alguns, mas a maioria da população atingiu um tal nível de degradação psicológica que, como mostraremos, a verdade e o acesso à informação não têm efeitos. Pior: como veremos, apenas reforçam a incapacidade de resposta e a inércia mental.

A grande questão é: porquê? O que nos levou a esta apatia geral? A resposta está relacionada com um mecanismo bem conhecido, um condicionamento psicológico (não obrigatoriamente aplicado de forma voluntária ou “conspiratória”) a que o indivíduo na sociedade de hoje está sujeito. Um mecanismo simples e eficaz que faz parte da nossa vida quotidiana.

O ponto de partida é o excesso de informação. Um bombardeamento constante de estímulos tão exagerado que provoca uma cadeia de acontecimentos lógicos que acabam por resultar numa falta de resposta efectiva: pura apatia. E para lutar contra este fenómeno, é bom saber como o processo se desenvolve.

O mecanismo

Primeiro, temos de compreender que os estímulos sensoriais que recebemos estão carregados de informação. Todos eles.

O nosso corpo está predisposto à percepção e ao processamento de estímulos sensoriais, mas a chave da questão reside na percepção da natureza linguística da informação. “Linguística” significa qualquer sistema organizado para codificar e transmitir informação de qualquer tipo. Por exemplo, ouvir uma frase ou lê-la envolve a sua entrada no nosso cérebro a um nível linguístico. E a “língua” (escrita, ouvida, visual, etc.) utilizada na percepção dos estímulos sensoriais é um código que o nosso cérebro reconhece e sabe processar. Portanto, o mesmo acontece quando olhamos para o logótipo de uma empresa, ouvimos as notas musicais de uma canção, vemos um sinal de trânsito, só para dar alguns exemplos. Hoje em dia, uma pessoa é sujeita a milhares de estímulos linguísticos deste tipo num único dia; muitos conseguem ser entendidos de uma forma consciente, mas a grande maioria são recebidos de uma forma não consciente que deve ser processada pelo nosso cérebro.

Atenção: não estamos a falar aqui de mensagens sublimináis, falamos de estímulos “em claro”. Por exemplo, ao passear na rua podemos ver um sinal de trânsito ou um cartaz: não prestamos nenhuma atenção, não observamos, no entanto o nosso cérebro vê e processa os objectos.

Podemos dividir o processo de captura e processamento da informação em três fases:

  1. percepção
  2. valorização
  3. resposta

A percepção

Sem dúvida pertencemos à geração que tem a maior capacidade de processar informação a nível cerebral, com poder de diferenciação especialmente a nível visual e auditivo. “Evolução”? Talvez seja melhor falar de “adaptação”. À medida que nascem e crescem novas gerações, estas adquirem uma maior velocidade de percepção da informação.

Uma demonstração disto pode ser encontrada no cinema. Comparem um filme de acção dos anos ’50 com um do nosso tempo. Hoje nas películas tudo acontece mais depressa, com sucessões rápidas de pequenos e grande planos: numa questão de segundos aparecem várias figuras, várias perspectivas e cada grande plano terá uma duração de dez segundos, no máximo. No entanto, o espectador consegue ver tudo e processar a mensagem contida.

Num filme dos nos ’50 não podem ser encontras sucessões de cenas com o mesmo tipo de ritmo, mas sim sucessões de cenas com uma duração mais longa e um campo de visão mais amplo. Provavelmente um espectador dos anos ’50 teria desconforto ao ver um filme actual porque não habituado a processar tanta informação visual e sonora a uma tal velocidade. Pelo menos das primeiras vezes: depois habituar-se-ia, sendo que o nosso corpo tem amplas margens de adaptabilidade. Só que nós já fomos criados com ritmos mais acelerados, não precisamos de adaptação. E com as novas gerações a velocidade aumentas ainda mais.

Este é um simples exemplo do bombardeamento de informação a que os nossos cérebros estão hoje sujeitos em comparação com uma pessoa de há cinquenta anos atrás. Adicionamos a isto todas as fontes de informação que nos rodeiam, tais como televisão, rádio, música, a omnipresente publicidade, sinais de vários tipos, os diferentes vestuário usado pelas pessoas que passamos na rua (cada um dos quais representa um código linguístico que nós recebemos e descodificamos), as informações do nosso telemóvel, do tablet, da internet, e também dos nossos compromissos sociais, contas, preocupações e desejos, etc. etc. …

Esta é uma verdadeira inundação de informação que o nosso cérebro tem de processar constantemente. Tudo isto com um cérebro do mesmo tamanho e capacidade que o espectador dum filme de cinquenta anos atrás.

Tanto quanto sabemos, parece que os nossos cérebros têm capacidade suficiente para receber tais volumes de informação e compreender a mensagem associada a estes estímulos. O problema, portanto, não reside aí. Aliás: parece que o nosso cérebro aprecia uma sobre-dosagem de estímulos: somos transformados em viciados em estímulos, uma toxicodependência cerebral.

Pelo que, se o nosso cérebro não tem problemas e até gosta de mais informação, onde fica o problema?

A valorização

Os problemas ficam nos nossos limites quando temos de avaliar a informação que recebemos, ou seja, quando chega o momento de julgar e analisar as suas implicações. É um pouco como encher uma mala: esta tem um grande capacidade, mas depois quem consegue transporta-la?

No caso das informações, a questão é o tempo: não temos o tempo material para fazer uma avaliação profunda de toda a informação que recebemos. Antes que a nossa mente, sozinha e com os seus próprios critérios, possa julgar de forma mais ou menos profunda a informação que recebemos, somos bombardeados por uma nova vaga de estímulos que distraem. É por esta razão que não conseguimos avaliar correctamente a informação que recebemos, por mais importantes que sejam as implicações.

A garrafa de leite

Para melhor compreender isto, vamos fazer um exemplo. Imaginemos uma pessoa muito introvertida que passa a maior parte do seu tempo em casa: praticamente não se envolve em relações sociais de qualquer tipo. Um dia esta pessoa vai ao supermercado para comprar uma garrafa de leite e, junto ao pé da caixa, deixa cair a garrafa no chão, causando confusão e manchando a sua roupa debaixo dos olhos de todos.

Quando esta pessoa regressar a casa, isolada como está e sem um estímulo social, provavelmente irá dar grande valor ao que aconteceu no supermercado. Na sua cabeça analisará os olhares e os comentários dos clientes e dos funcionários, observará também as manchas na sua roupa, tentará adivinhar o que os outros pensaram dele. Vai sentir-se ridículo, desajeitado. Julgará um facto meramente anedótico como sendo muito mais importante do que realmente foi.

Mas o que terá realmente pensado, por exemplo, a funcionária da caixa? “Outro imbecil”. E nada mais. Porque o episódio foi insignificante.

Vamos substituir a pessoa introvertida, sem relações, por um modelo oposto: uma pessoa extrovertida, que passa o dia inteiro rodeada de muitas pessoas, que interage freneticamente com amigos, colegas de trabalho, telefone, reuniões, compras, vendas… cai-lhe uma garrafa de leite no supermercado? A avaliação dele do incidente será anedótica, uma vez que representa mais um evento entre todos os eventos sociais que vive durante o dia. E dentro de algumas horas terá esquecido o assunto.

Uma pessoa na sociedade de hoje é muito semelhante ao segundo modelo, sujeito a uma grande quantidade de estímulos sensoriais, sociais e linguísticos. Para nós, qualquer informação recebida é rapidamente digerida e esquecida, levada pelo fluxo incessante de informação que entra no nosso cérebro como um rio. Não esquecemos que vivemos imersos numa cultura “idiota”, um mundo onde cada reflexão sobre um evento dura 140 caracteres. E esta parece ser a profundidade máxima que a nossa capacidade de análise atinge.

É por esta razão, devido à nossa impotência em avaliar e julgar sozinhos o volume de informação a que estamos sujeitos, que a informação é transmitida muitas vezes com embutida a opinião que devemos ter sobre ela, ou seja, o que deveríamos pensar depois de termos realizado uma avaliação exaustiva dos factos. Quem emite a informação poupa ao destinatário o esforço de ter de pensar.

Este é o processo utilizado pelos grandes meios de comunicação social. Um processo que, num mundo de indivíduos genuinamente pensantes, seria classificado como manipulação e lavagem cerebral. A televisão é um excelente exemplo. O caso dos convidados “especialistas” é perfeito: apresentam os factos (isso é: transmitem a informação) e fornecem logo a interpretação (o julgamento). O espectador nem tem que pensar, só tem que absorver. A função dos “especialistas” é gerar a opinião de que nos deveríamos construir sozinhos.

Assim, o bombardeamento contínuo e incessante de informação no nosso cérebro impede de julgar correctamente o valor dos factos, segundo os nossos próprios critérios. Transforma a realidade em fragmentos de 140 caracteres e torna tudo um julgamento breve e superficial, muitas vezes já embutido na informação recebida.

Resposta

Quando a apreciação pessoal dos factos é reduzida a uma expressão mínima, entramos na fase decisiva do processo, aquela que é desprovida da nossa resposta. É aqui que as emoções e os sentimentos entram em jogo, o motor de cada resposta e acção. Ao fragmentar e reduzir a nossa realidade, reduzimos a carga emocional que associamos à cada informação.

Observemos as nossas reacções: podemos ficar muito indignados quando vemos a notícia dum caso de corrupção política, mas após alguns segundos somos bombardeados por uma informação diferente que nos leva a outra emoção superficial que faz esquecer a anterior. Para expressar isto duma forma mais simples: a nossa capacidade de julgar e analisar é igual a um tweet, a nossa resposta emocional é igual a um emoticon. 140 caracteres, tudo incluído.

E aqui está a chave: a nossa possível (potencial) resposta permanece desactivada. Para melhor compreender, vamos voltar ao exemplo da garrafa de leite, que tanto sucesso teve entre grandes e pequninos.

O regresso da garrafa de leite

A pessoa introvertida, trancada no seu próprio mundo, aquela que valorizou mais profundamente o acontecimento ocorrido no supermercado, continuará a reflectir sobre tal episódio: não esquecerá facilmente as emoções relacionadas com o sentido de ridículo que experimentou naquele momento. Pode sentir-se envergonhada e até evitar aquele supermercado ao longo dum tempo. A energia emocional que colocou sobre este pequeno facto concreto tornar-se uma reacção real, prática, ao facto.

Por outro lado, a pessoa extrovertida voltará ao supermercado sem qualquer problema porque, mentalmente, o que aconteceu não tem qualquer relevância emocional. A pessoa extrovertida não tomará acções reais e tangíveis resultantes do incidente com a garrafa de leite.

A pessoa extrovertida tem uma vida mais densa, mais rica de acontecimentos: tem uma vida mais “fragmentada”. O bombardeamento incessante de informação a que estamos sujeitos tem a mesma função: acaba por fragmentar a nossa energia emocional e por isso acabamos por dar uma resposta superficial ou até nenhuma resposta.

Voltamos à nossa questão principal: não conseguimos dar uma resposta perante a realidade, mesmo ao intuir que deveríamos, porque já falta a energia para o fazer, energia que deveria ser obtida com o julgamento dos factos, com a consequentes força das emoções e dos sentimentos. Assim, todos ficamos a olhar um para os outros e a perguntar: “Porque ninguém reage?”. Uma desilusão que acaba por tornar-se um sentimento de frustração e de apatia geral.

Não pode haver nenhuma revolução numa sociedade nestas condições: entre as outras razões (e há outras razões, é bom não esquece-lo), este mecanismo básico interrompe qualquer resposta perante os abusos e as injustiças. Um mecanismo, como vimos, bastante simples que pode ser resumido desta forma: o bombardeamento excessivo de informação impede de ter o tempo necessário para dar o valor certo a cada informação recebida e, consequentemente, associá-la a uma carga emocional suficiente para gerar uma reacção real e eficaz.

Conspiração?

É tudo fruto duma conspiração? Pergunte errada.

Não importa se tudo isto faz parte de uma grande conspiração para controlar as massas, se é um desenho com séculos ou milhares anos, se envolve políticos, religião, multinacionais; não importa se chegámos a este ponto devido à natural evolução da sociedade. As consequências são exactamente as mesmas: os mais poderosos, a assim chamada “elite”, farão tudo o possível para manter estes mecanismos activos e também fomentarão o seu desenvolvimento para continuar a receberem os relativos benefícios.

Neste sentido, quais os melhores cúmplices da elite? Os meios de comunicação social e o mundo da informação alternativa. Exacto, estas mesmas páginas que estão a ler. A revelação das “verdades ocultas” contribui para o aumento do volume de informação com que somos bombardeados. E mais: a informação alternativa contribui introduzindo no contexto elementos de dúvidas que desorientam ainda mais o público. Cada segredo “revelado” traz novas vagas de informação: e esta pode ser manipulada e tornada tóxica pela adição de dados falsos, contribuindo assim para a confusão e caos da informação. E daí surgem novas vagas secundárias de informação que atordoam ainda mais e mergulham o público mais profundamente na apatia.

Mas mesmo que a informação alternativa exponha a verdade, sem alguma manipulação, mesmo que atire para a cara do público factos reias incontrovertíveis, será sempre mais uma vaga de informação que irá somar-se a todas a miríade de informações recebidas em cada dia. Ao tentar combater esta apatia, que é o resultado da pouca energia emocional com que tentamos responder, demasiadas vezes o resultado é limitado; os responsáveis das injustiças e dos abusos por vezes nem são punidos, e isso gera novas vagas de frustração, cada vez mais fortes, que levam o público até à rendição e à submissão total.

Não podemos ter dúvidas: as pessoas que ostentam poder estão interessadas em bombardear as massas com enormes volumes de informação tão superficial quanto possível; porque uma vez estabelecida esta forma de interagir com a informação recebida, todos nos ficamos como pessoas viciadas nesta incessante troca de dados. O bombardeamento com estímulos, como afirmado, é uma droga para o nosso cérebro, que precisa de cada vez mais rapidez na troca de informação e requer menos tempo para analisa-la.

Cada vez mais a nossa sociedade é feita de espelhos. E os espelhos somos todos nós, ao receber e reflectir estas vagas de informações superficiais. Problema: os espelhos são planos e não têm vida própria, tudo o que conseguem reflectir vem de fora.

Solução?

Não há. Pessoal, vamos ser honestos: a única solução para reverter a actual situação seria limitar ao máximo as vagas de informação que nos atingem. E isso significa desconectar-se: nada de televisão, nada de diários, nada de internet, nada de publicidade, etc.. Ou seja: o primeiro efeito seria uma revolta popular para obter de volta tais instrumentos. Pelo que, não há um remédio universal e de eficácia imediata.

Outro caminho? Em teoria há. Apesar do termo ser assustador, pois faz lembrar os piores totalitarismos, seria necessário ré-educar as pessoas. De facto, o que foi descrito até aqui foi uma “educação” das massas; lógico, portanto, pensar numa contra-educação para anular os efeitos da anterior.

É preciso entender que uma profunda transformação da sociedade passa inevitavelmente pela mudança dos indivíduos, de todos nós e de cada um de nós. Devemos descer às profundezas da nossa psique, até à sala das máquinas, onde todos os mecanismos que determinam as nossas acções e movimentos tomam lugar. É aqui que a verdadeira guerra para o futuro da humanidade está a passar-se.

Ninguém salvará os cidadãos com proclamas e promessas. Nenhuma ideologia, nenhum partido, nenhuma organização. Ninguém salvará ao contar a “verdade” ou revelando os segredos mais obscuros dos poderes ocultos. Como já tive ocasião de afirmar, é absolutamente inútil atirar a verdade para a cara das pessoas: informação e a verdade não contam porque os nossos mecanismos permanecem inalterados. Temos de chegar até estes mecanismos e repará-los; e para o fazer temos de saber como funcionam mas, sobretudo, actuar.

Tranquilos: não são necessários complexos cursos de psicologia, não é algo esotérico, nada de estranhas crenças de natureza mística, religiosa ou New Age. É pura lógica: nenhuma revolução é possível sem uma profunda transformação dos nossos mecanismos básicos, a nível individual, porque a nossa mente é hoje programada (voluntariamente ou não) pelo sistema.

A receita é simples: observar com atenção e raciocinar. Não temos tempo? Em bom italiano: balle (“mentiras”). As ocasiões para pensar existem. E se não existem podem ser criadas. Não esquecemos dum aspecto extremamente importante: o homem é um animal rotineiro, gosta de padrões e por isso, uma vez aprendido um exercício, é cada vez mais simples repeti-lo até tornar-lo automático. Será cada vez mais fácil reflectir sobre o que interessa, fazer ligações, contextualizar os factos. Será um processo natural.

Este é o objectivo final de cada um de nós: deixar de ser um sujeito passivo da informação e passar a elaborar conscientemente a informação recebida.

É um processo que pode falhar? Não temos garantia de sucesso? Podemos errar? Sim, claro: então? Os erros são uma bênção: ajudam a melhorar (homem = ser rotineiro = padrões. Erro = padrão negativo que aprendemos a evitar).

O Leitor acha não ter instrumentos/capacidades para analisar as informações? Não existem instrumentos ou capacidades já prontos, cada um tem que desenvolver os seus. A ré-educação da qual falava-se antes não pode consistir em fornecer às pessoas modos pré-confeccionados de pensar: isso é exactamente o que está a acontecer na nossa sociedade. A ré-educação só pode dizer: “Tomem o tempo que for necessário para pensar com a vossa cabeça”. E nada mais.

Acham pouco? Fogo… acreditem que se todos funcionássemos assim o mundo seria um lugar bem diferente. Para mudar o sistema que aprisiona, temos primeiro que desinstala-lo da nossa mente.

 

Ipse dixit.

Imagem: Photo by Alex Iby on Unsplash (modificada)