O que é o Capitalismo? Pode parecer uma pergunta supérflua, mas a verdade é que existe uma certa confusão nas definições normalmente utilizadas.
O que é o Capitalismo?
Wikipedia, por exemplo, assim descreve o Capitalismo:
Capitalismo é um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção e sua operação com fins lucrativos.
Esta é um definição ridícula. Se assim fosse, seriamos obrigados a admitir que o Capitalismo existe praticamente desde sempre, tendo nascido na altura em que o primeiro agricultor decidiu vender ao vizinho o seu surplus de cereais. Obviamente, aquele não era Capitalismo.
Pela mesma razão não podem ser indicadas como características específicas do Capitalismo a acumulação de capital, a iniciativa privada, o trabalho assalariado, um sistema de preços ou um mercado competitivo (o “livre mercado”): qualquer oficina dum artesão babilonês trabalhava num contexto deste género mas não é possível falar dum Capitalismo na Antiguidade.
Na verdade, o Capitalismo reúne todas as características acima descritas mais uma, fundamental: um sistema de lei que defenda a propriedade privada dos cidadãos e reduza ao mínimo a intervenção do Estado no mercado. Então tudo faz sentido: o agricultor do Neolítico não era capitalista porque operava fora dum sistema jurídico que protegesse a propriedade privada; e o mesmo se passava com a oficina babilonês, com o moinho medieval, etc.
Foi só mais tarde, no princípio do 18 º século, que foi possível observar o surgimento de algo que pode ser definido como “Capitalismo”, filho do Mercantilismo, da Fisiocracia e duma nova atitude política perante o papel do mercado. Propriedade privada, acumulação de capital, trabalho assalariado, sistema de preços e mercados competitivos, leis que defendem o capital, Estado que deixa de regular o mercado: são estes os elementos básicos que devem estar presentes, todos e ao mesmo tempo, para que seja possível falar de Capitalismo.
Há outras características que determinam este sistema económico: por exemplo, um certo afastamento da política da Ética (Maquiavel), uma marcada industrialização, o trabalho entendido como mercadoria e outras ainda. Mas todas estas últimas características, embora importantes, são secundárias quando comparadas com aquelas listadas mais acima.
Mas é mesmo neste ponto que surge uma dúvida: é ainda possível falar de Capitalismo?
Vivemos num sistema capitalista?
Hoje, no ano de 2020, estamos a viver num sistema capitalista? E o futuro: é possível prever qual será a ordem económica a vingar? Porque o Capitalismo não passa duma fase, temporária tal como temporários foram o Mercantilismo, a Fisiocracia e todos os sistemas económicos dos tempos passados. O processo que levará ao fim do Capitalismo já começou?
Na minha óptica, estamos a viver um período de transição, caracterizado pelo fim do Capitalismo e o surgimento dum novo modelo económico. Para ser mais preciso: estamos a assistir à rápida morte do Capitalismo, do qual hoje sobrevive apenas o invólucro exterior, sendo que o interior já é algo muito diferente, definitivamente não capitalista.
Um bom economista poderia realçar como, em boa verdade, de Capitalismo puro é possível falar apenas em relação a poucos e bem limitados períodos históricos, sendo que a normalidade é constituída por um Capitalismo que tem de pactuar com o Estado. Isso é verdade, mas por simplicidade, e para não sobrecarregar inutilmente um discurso já comprido, vamos entender como “capitalista” todo o período que teve início com a Revolução Industrial.
Neste aspecto, e nas últimas décadas, o Capitalismo gozou de boa saúde em particular após a Segunda Guerra Mundial, tendo tido o seu “canto do cisne” na altura da dupla Reagan/Thatcher. A partir daí, algo diferente começou a surgir, ao ponto que apareceram novos termos para descrever a realidade, termos como “turbo-capitalismo”. Este “algo” mais tarde teria encontrado uma definição bem mais clara: Globalização, a última e derradeira fase do Capitalismo.
A Globalização
Definir a Globalização não é simples: tal como acontece com o Capitalismo, a Globalização é um conjunto de características. Intensificação do comércio internacional, investimentos à escala mundial, economias nacionais cada vez mais interdependentes, rapidez das comunicações e circulação da informação, aumento da concorrência, redução dos custos para o utilizador final; mas também degradação ambiental, aumento das desigualdades sociais, perda de identidades locais, redução da soberania nacional, a diminuição da privacidade. Tudo isso (e mais ainda) é Globalização.
Mas há dois aspectos da Globalização que interessam particularmente o nosso discurso: o papel da Finança e o aparecimento das corporações privadas.
A Finança
A Finança não é novidade nenhuma, como é óbvio, mas a globalização permitiu que jogar na Bolsa de Valores fosse mais lucrativo de que investir numa fábrica: o resultado é que hoje as empresas são transferidas para os mercados onde a mão de obra é mais barata (o que aumenta a rentabilidade duma empresa assim como o respectivo valor das acções) enquanto os lucros são subtraídos dos investimentos para gerar novos lucros com os instrumentos oferecidos pela Finança. Portanto, hoje a Finança subtrai recursos ao Capitalismo clássico: já não há o capital investido nos meios de produção mas o capital que gera mais capital através dos meios que a Globalização põe a disposição (rapidez nas comunicações, troca instantânea de dados, etc.).
Tudo isso poderia ser considerado apenas como uma nova forma do Capitalismo “clássico”: afinal é só substituir a velha figura do “patrão” com aquela do investidor e os meios de produção com a Bolsa de Valores. Mudanças importantes, sem dúvida, mas que não têm um reflexo decisivo no âmbito da composição social: haveria sempre uma classe de “patrões” dum lado, uma classe de trabalhadores (o velho “proletário”) do outro lado, um Estado que tenta mediar mais um maior número crescente de desempregados (inevitáveis na altura em que o capital já não é destinado ao investimento em novas unidades de produção, a força-trabalho é reduzida e as empresas deslocadas).
Mas ao lado deste importante fenómeno há outro: e é mesmo aquele que determinará o desaparecimento do Capitalismo.
As multinacionais
Nem as multinacionais são uma novidade: a história destas grandes empresas funde-se com aquela do Colonialismo. Mas a empresa multinacional de hoje já não é o que foi no passado. Antes do início da Segunda Guerra Mundial, o comércio de matérias-primas estava ligado às relações entre os diferentes Estados: pelo que, de um modo geral, a iniciativa era sim privada mas levada a cabo através de organismos institucionais. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a “máquina” industrial tinha avançado enormemente, a capacidade de produção excedia as exigências do mercado interno e muitas indústrias privadas começaram o planeamento para uma forte expansão das suas infra-estruturas. As instituições nacionais e as empresas privadas aumentaram exponencialmente a sua esfera de interferência e controlo, adquirindo e absorvendo pequenas empresas ou empresas com especializações específicas em sectores-chaves (por exemplo, investigação e desenvolvimento).
Este processo de expansão e absorção continuou com uma rapidez cada vez maior enquanto as instituições nacionais praticamente desapareceram do horizonte: estavam criadas as multinacionais como existem hoje, enormes conglomerados com uma capacidade produtiva como nunca antes vistas na História, com lucros que em não poucos casos ultrapassam o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns Países.
O poder das multinacionais parece não ter limites, ao ponto que conseguem influenciar, de forma directa e indirecta, as decisões políticas tomadas pelos vários Estados ou por conjuntos deles (União Europeia). Já não há o capitalista que tenta fugir do controlo do Estado: é o dono da multinacional que determina a política do Estado, que propõe e faz eleger os seus próprios representantes políticos.
A elite
É aqui que encontramos a “elite”, o grupo de poder que reúne os mais abastados, poderosos e influentes donos de empresas do planeta, o famoso 1% que detém a maioria da riqueza mundial. Uma classe “nova”, que substituiu a antiga aristocracia mas que já não responde dos seus actos perante um Rei; aliás, substitui a figura tanto do Rei quanto aquela dos governos nacionais ou supranacionais. As leis hoje devem ser elaboradas pensando no bem das multinacionais, favorecendo uma ulterior expansão do poder delas: qualquer político que se atreve a obstaculizar este processo terá que lidar com ferozes campanhas difamatórias, conduzidas pelos órgãos de comunicação social obviamente na posse da elite.
Pergunta: quando uma multinacional (ou um conjunto delas) consegue determinar o rumo político e económico dum mercado em prol duma única e extremamente reduzida classe social, é ainda possível falar de Capitalismo? A resposta é “Não”. O Capitalismo, para poder funcionar, precisa dum mercado “democrático” por assim dizer, onde qualquer empreendedor possa investir e competir numa realidade onde o preço é determinado pela procura dos consumidores e não é estabelecido em função dos interesses dum só sujeito (ou dum grupo deles).
O Capitalismo em coma
O mercado das multinacionais, o mercado gerido pela elite, já não é o “livre mercado” do Capitalismo; a pequena e média iniciativa privada é cada vez mais limitada aos sectores de nicho ou até tem que sucumbir quando confrontada com a esmagadora potência das empresas transnacionais; o mercado deixa de ser competitivo porque o preço já não é determinado pelo procura mas sim pelos acordos entre os cartéis das multinacionais e pela exploração de mão de obra cada vez mais barata e desesperada em Países do Terceiro Mundo ou em desenvolvimento; o Estado já não actua como possível mediador ou limitador do mercado mas participa nele ao favorecer determinadas empresas em detrimento de outras.
Caem desta forma algumas das mais importantes bases do Capitalismo, não apenas daquele clássico e utópico mas também do Capitalismo real que serviu o planeta ao longo dos últimos duzentos e passa anos. A nossa é ainda formalmente uma sociedade capitalista mas já estão visíveis e actuam forças que em breve irão ultrapassar o Capitalismo em prol de algo “novo” (com aspas necessárias porque de “novo” aqui não há rigorosamente nada). Podemos tranquilamente afirmar que o Capitalismo ainda se encontra vivo mas num estado de coma irreversível. Quem ainda insiste em descrever o nosso modelo político e económico tendo como base a contraposição entre capitalistas e proletariado, não entende o que se está a passar, vive numa realidade paralela onde o planeta ficou imobilizado na década dos anos ‘80 ou ‘90 (ou ainda antes). Nunca como hoje os modelos políticos e económicos do Comunismo e do Liberalismo encontraram-se tão afastados da vida real: e no futuro esta desactualização irá crescer cada vez mais.
A próxima fase: o modelo chinês
Mas então, como será o “novo”? Se o poder das multinacionais e dos seus donos elitários não for travado, o projecto económico (mas também político e social) dos próximos tempos é bastante claro. Reformado definitivamente o Capitalismo, a nossa sociedade será completamente subjugada pelas maiores forças económicas mundiais. A política não desaparecerá, tal como oficialmente não desapareceu até hoje, mas ficará nas mãos dum grupo de “representantes” cada vez mais restrito e, sobretudo, dobrado perante os ditames da elite.
O que está a acontecer na China oferece um bom ponto de partida se o desejo for ter uma ideia acerca do futuro. Um grupo reduzido de dirigentes, não eleitos mas nomeados; cidadãos e empresas privadas controlados com o auxílio da tecnologia de ponta; direitos suprimidos em favor do “bem comum”; censura. E do ponto de vista económico, o que mais interessa na óptica do presente artigo: fim do livre mercado, com empresas obrigadas a colaborar com a elite disfarçada de grupo político no âmbito dum mercado cujos objectivos são pré-determinados. Este é o projecto.
Poderá ser implementado no resto do planeta nos próximos tempos? Depende qual o sentido de ”próximos”. A China é uma caso especial, onde a cega obediência foi treinada ao longo de décadas de regime comunista. Também Pequim reformou o Comunismo (embora não de forma oficial), mas manteve os hábitos instaurados; implementar o projecto da elite numa realidade onde os cidadãos estão habituados a obedecer é coisa relativamente simples. Mais complicado obter o mesmo em Países onde existem sólidas tradições democráticas: aqui a transição demora tempo, requer um percurso escalonado onde os direitos dos indivíduos são apagados de forma gradual, criando artificialmente as condições para que isso possa acontecer. Além disso, e contrariamente a quanto acontecido na China, é lícito esperar resistências por parte de grupos mais ou menos organizados.
Por todas estas razões, é razoável pensar que o modelo chinês sofrerá algumas alterações, mais estéticas que substanciais, para conseguir a plena implementação em outras partes do planeta. Mas, apesar da questão do tempo e de alguns formalismos, está fora de dúvida que o modelo chinês seja o escolhido para o nosso futuro. E a razão é simples: é um modelo de sucesso. E este aspecto não pode ser negado.
O modelo chinês ultrapassa de forma brilhante os limites do Capitalismo e consegue conjugar as vantagens deste sistema com aqueles da oligarquia capitalista, evitando ao mesmo tempo os defeitos do primeiro e da segunda. Estamos a falar do Capitalismo de Estado (ou Estatal, tanto faz).
Nota: a partir daqui será utilizado o termo “Capitalismo” por conveniência, sendo que, em boa verdade e pelas razões acima descritas, do Capitalismo original sobra bem pouco hoje e sobrará ainda menos no futuro.
Futuro: o Capitalismo de Estado
O Capitalismo de Estado existe em Países onde o Estado dirige a Economia, pelo que são os governos e não os investidores privados que determinam quais as actividades económicas que devem ser estabelecidas e reforçadas; no entanto, o sistema económico no seu conjunto, com excepção de algumas pequenas actividades, é de natureza capitalista, porque o Estado reconhece os direitos de propriedade e os decorrentes dos contratos, enquanto os mercados determinam os preços dos bens e dos serviços produzidos e o nível de salários da mão-de-obra.
Neste aspecto, o modelo chinês não pode ser estritamente definido como “Capitalismo de Estado”: há alguns aspectos que diferenciam o rumo de Pequim, como por exemplo o facto da classe política não actuar sozinha mas em conjunto com forças supranacionais que, ao mesmo tempo, participam activamente no interior da economia chinesa. Há outras características que diferenciam o Capitalismo de Estado original do modelo chinês, todavia, por uma questão de comodidade, vamos continuar a definir a política económica de Pequim como “Capitalismo de Estado”, também porque é esta a definição que melhor consegue representar o que acontece naquele País.
Estamos acostumados a ouvir falar de “Capitalismo de Estado” como este tivesse sido o regime da antiga União Soviética, mas este é um erro, como veremos de seguida: o Capitalismo de Estado é o actual modelo chinês.
Os governos, no capitalismo estatal, possuem diferentes meios para dirigir o crescimento do sistema económico; um dos mais importantes, se não o mais importante, é a propriedade pública ou o controlo público do sistema bancário, que é o “canal” necessário para transferir recursos das poupanças para os investidores. Mesmo que os bancos não sejam de propriedade pública, nas economias do Capitalismo de Estado os governos podem, em qualquer caso, exigir aos bancos que cumpram as suas directivas através de formas enérgicas de “persuasão”.
É importante diferenciar o Capitalismo de Estado do sistema de gestão económica através do método de planeamento a partir do centro: é mesmo aqui que podemos observar a diferença entre o modelo chinês e aquele em vigor na antiga URSS. Entre as duas formas de governo do sistema existe uma diferença substancial: nas economias planeadas a partir do centro, o Estado não só escolhe as actividades produtivas que devem ser privilegiadas, mas é também o proprietário dos meios de produção. Depois fixa os preços dos bens, dos serviços produzidos e dos salários da mão-de-obra, tendo em pouca consideração as necessidades dos consumidores.
Neste aspecto, o sucesso do modelo chinês pode ser encontrado no abandono do planeamento central (em teoria ainda em função, na prática dedicado agora a objectivos muito específicos), na abertura ao “livre” mercado e, sobretudo, na capacidade de aceder à tecnologia de ponta e combiná-la com os baixos custos da sua força de trabalho. Isso permitiu entrar num caminho de crescimento economicamente sustentado e o facto de ter conseguido antes absorver, depois replicar e agora até liderar os conceitos da alta tecnologia eliminou o risco de depender da tecnologia estrangeira.
Os problemas do Capitalismo de Estado
Quais os problemas do Capitalismo de Estado? Basicamente três.
O primeiro é a corrupção, que costuma ser bem presente neste tipo de organização. De facto, a China tem uma legislação particularmente feroz para combater a corrupção, mas sem particular sucesso.
O segundo problema é mais grave: a tecnologia tem fronteiras estabelecidas pelos avanços científicos. Quando um Capitalismo de Estado acusa a incapacidade de conceber e vender inovações radicais (liderando o respectivo sector), isso é, quando deixa de poder canalizar os recursos de actividades de baixo rendimento para actividades mais remuneradoras, pode haver uma crise.
O terceiro problema é, na minha óptica, o mais grave em absoluto. Um “Capitalismo”, mesmo que mutilado como no modelo chinês, acaba sempre por gerar uma classe que o Marxismo costumava definir como “burguesia”, na verdade uma classe média. O pequeno empreendedor conseguiu juntar uma pequena fortuna, então já não faz parte do massa da mão de obra barata, os seus meios permitem-lhe desejar algo mais. Livre dos problemas da sobrevivência, começa a satisfazer os seus desejos, em primeiro lugar os práticos (boom de vendas das marcas status symbol como Mercedes, Ferrari, etc.), depois outros mais abstractos, entre os quais temos o conhecimento.
História velha esta: pode demorar uma, duas ou até mais gerações, mas cedo ou tarde o problema apresenta-se. A classe média deu-se uma instrução, é agora capaz não apenas de entender o que se passa como também de imaginar umas alternativas. A classe dirigente chinesa está bem ciente do problema e o sistema de crédito social parece ser um óptimo mecanismo de controlo e supressão neste aspecto. Mas não será suficiente, não para sempre, e ignoro a forma como a nova burguesia chinesa (e a mundial a seguir) será mantida “calma e cooperante” num futuro mais longínquo.
Provavelmente este futuro “Capitalismo de Estado” planetário terá, por sua vez, que encontrar uma forma de organização social mais estável, que consiga justificar a existência duma elite dominante e duma injusta distribuição dos rendimentos (um aspecto que o Capitalismo de Estado não resolve e que, aliás, exaspera). A visão naïf duma Nova Ordem Mundial onde uma sociedade fundamentalmente idêntica à nossa é gerida por uma elite que tudo possui e controla é, na verdade, a descrição dum projecto destinado ao fracasso desde o início.
Comunismo real: o Capitalismo oligárquico
Como antecipado, o Capitalismo de Estado nada tem a ver com o regime da antiga União Soviética onde, pelo contrário, vigorava um Capitalismo oligárquico. É importante realçar este aspecto porque, cúmplice a simbologia ainda em uso na China, poderia ser possível equiparar o actual regime de Pequim àquele soviético: mas este seria um erro e, como veremos, os dois sistemas têm algo em comum mas divergem em aspectos fundamentais.
O Capitalismo oligárquico é aquele que podemos encontrar nas economias onde as políticas públicas visam principalmente promover e proteger os interesses dum grupo social restrito. Nestes sistemas, os governos e os grupos dominantes podem também ter interesse em promover o crescimento, mas apenas como um objectivo marginal, normalmente perseguido para evitar possíveis revoltas populares ou para aumentar a acumulação nacional.
Em geral, as economias capitalistas oligárquicas são caracterizadas por uma série de aspectos todos negativos, facto que ajuda a perceber o insucesso do “Comunismo real” em quase todos os lados. Um deles é a distribuição muito desequilibrada do rendimento e da riqueza. Os outros aspectos negativos são o surgimento duma economia informal (o mercado negro) e uma corrupção endémica que é possível encontrar em todos os níveis da sociedade. Neste aspecto, as economias do Capitalismo oligárquico estão infestadas por actividades que, embora não proibidas, são realizadas sem o total cumprimento das leis em vigor; por esta razão, as actividades informais devem ser distinguidas das actividades ilegais, que são proibidas de forma explícita porque prejudiciais à preservação da coesão social.
No geral, os grupos dominantes são responsáveis pelas baixas taxas de crescimento das economias oligárquicas, também porque não têm interesse em ver aumentar a concorrência interna. Como consequência, os grupos de poder oligárquicos não são movidos pelo interesse no crescimento: no pior dos cenários, os Capitalismos oligárquicos são governados por líderes corruptos e, na melhor das hipóteses, tendem a preservar a primazia económica dos grupos dominantes em detrimento da iniciativa privada.
Tudo isso explica por qual razão as actividades de produção não são muito inovadoras e dinâmicas: o sector bancário é virtualmente ausente pois, dados os baixos consumos, não há necessidade de crédito: o Capitalismo oligárquico geralmente dispõe dos recursos de que necessita (repetimos: a procura é controlada e por isso muito limitada, tal como o mercado interno), o que as torna autónomas em relação ao mercado do crédito.
Especializadas na produção em massa, as empresas do Capitalismo oligárquico tendem a ser “escleróticas”, relutante perante a inovação e resistente às mudanças, tudo em detrimento dos consumidores.
O caso 124
Um exemplo entre os infinitos possíveis. Em 1970, o regime soviético decidiu oferecer ao povo um carro que fosse acessível, cómodo e suficientemente robusto. A escolha caiu no modelo Fiat 124, para produzir o qual foi estreada uma colossal unidade de produção na cidade de Togliatti (anteriormente conhecida como Stavropol’-na-Volge). A escolha não era das melhores: a 124 encontrava-se nos seus últimos anos de vida e a sucessora (Fiat 131) era um projecto já em fase avançada.
Seja como for, a 124 soviética, conhecida como modelo 1201, permaneceu em produção idêntica ao original ao longo de 18 anos, até 1988. Com mínimas variações (mais estéticas que de substância) foi produzida até 2012, quando já o regime soviético tinha fracassado.
Na óptica dos defensores do Comunismo, esta longevidade deve-se à filosofia marxista que tencionava disponibilizar ao proletariado um modelo eficiente e de baixo custo: uma vez encontrado, não havia razões para modifica-lo a não ser por razões ditadas pelas modas capitalistas. Lógico, portanto, continuar a produção sem grandes alterações ao longo de décadas. Mas as coisas não estão bem assim: durante as décadas nas quais a 124 soviética esteve em produção, muito mudou no mundo do automóvel. Enquanto no Ocidente apareciam airbags e sistemas de travões melhorados (ABS), motores mais poupados, luzes mais eficientes, etc., o modelo 1201 continuou a ignorar estes itens que melhoravam a qualidade de vida, a segurança, o aspecto ambiental… Com a queda do Muro de Berlim, a 1201 foi confrontada com a equivalente produção ocidental e de imediato foi claro que a 124 soviética não passava dum dinossauro.
Este é apenas um dos exemplos possíveis, como afirmado, mas há outros. Já conduziram uma Trabant, o carro por definição da Alemanha comunista, produzido entre 1957 e 1991? Eu tive a oportunidade e posso testemunhar que se a ideia for dar umas boas gargalhadas por causa das miseráveis prestações, dos interiores paupérrimos ou ao observar a densa nuvem preta que sai do escape, então não há problema; mas se a intenção for conduzi-la no transito real, então a graça desaparece porque trata-se dum carro muito perigoso. Que, no entanto, foi produzido praticamente sem alterações ao longo de mais de trinta anos.
São suficientes estes dois banais exemplos para entender quão profundo seja o abismo que separa a ideologia do Capitalismo oligárquico soviético do Capitalismo de Estado praticado na China. Se no primeiro caso o crescimento é um acessório (quando não propositadamente evitado), no segundo caso é o cerne de toda a filosofia económica; se num regime comunista a inovação é limitada ou até ausente, na China é o objectivo continuamente perseguido; se no regime “comunista” os bancos são virtualmente inexistentes, em Pequim são um dos melhores instrumentos nas mãos da classe política.
E mais: os quatros principais bancos comerciais chineses são muito activos na frente internacional (a China Construction Bank Corporation desde Junho de 2015 tem acesso ao mercado bancário offshore), têm filiais em dezenas de Países e estão muito bem inseridos no universo bancário ocidental (a Bank of China – que não é o Banco Central Chinês – é nominalmente propriedade do governo mas entre os seus accionistas podemos encontrar nomes como Royal Bank of Scotland ou UBS).
O Capitalismo de Estado chinês
Resumindo: a China há muito deixou de ser comunista, entrou sem hesitação no “livre” mercado e hoje parece ser o berço dum novo Capitalismo que, apesar da definição (“Capitalismo de Estado”), Capitalismo não é. É algo diferente, que reúne várias experiências dos últimos séculos, modificadas à luz do avanço tecnológico e social.
A China não apenas está perfeitamente inserida na lógica do mercado “livre” (aspas cada vez mais necessárias) mas é um dos melhores (mas seria bem dizer “piores”) exemplos daquela exploração do “proletariado” em muito superior ao que acontecia nos antigos regimes comunistas e ao que ainda acontece no Ocidente; pratica uma política nos factos fortemente proteccionistas, cúmplice o valor duma moeda mantida artificialmente demasiado baixo; sacrifica no altar da produção e do crescimento o conceito de “meio-ambiente”.
Ao mesmo tempo, não é um regime democrático e nem liberalista, sendo governada por uma rígida nomenklatura que se reconhece no único partido político existente, consegue ultrapassar os antigos regimes comunistas na aplicação do controlo dos cidadãos (algo típico também dos regimes fascistas) e adopta um planeamento económico e social de esquerdista memória.
Neste sistema híbrido não faltam até os estreitos relacionamentos com a reduzida elite das multinacionais e da Grande Finança, de facto a aristocracia dos tempos modernos.
Por todas estas razões, o termo “Capitalismo” fica cada vez mais longe da realidade. Falta algo para descrever o modelo chinês, um neologismo que consiga condensar a essência dum modelo que reflecte as antigas experiências mas que vai além delas. Nada de grave: com o sem rótulo, o que conta é entender que a era do Capitalismo acabou e que um “novo” sistema está para vir.
A despedida
Seja como for, estes são problemas das futuras gerações, não da nossa que vive uma época de transição. O objectivo deste artigo era demonstrar como talvez seja ainda possível falar de Capitalismo, mas como dum sistema à beira do desaparecimento e, em qualquer caso, já amplamente ultrapassado. O Capitalismo, seja nas sua forma clássica seja na sua mais recente “turbinação”, já não consegue dar conta do recado: o perigo de implosão é real e, em qualquer caso, é tempo de avançar (ou de retroceder, pontos de vista).
Poderia ser uma óptima ocasião para repensar o nosso sistema todo, adoptando medidas que respondam às emergências presentes na nossa sociedade: a desigualdade, a pobreza, a fome, o ambiente… Infelizmente, quem pode decidiu de outra forma.
A China, fruto dum programa desenvolvido ao longo das décadas por parte da elite neoaristocrática e transnacional, representa neste quadro o laboratório criado para testar o novo modelo. Um modelo para ser exportado, obviamente: pensamos, por exemplo, ao lockdown imposto em Wuhan e a facilidade com a qual uma instituição supranacional como a Organização Mundial da Saúde, financiada pelos privados da Big Pharma, exportou este modelo ao resto do planeta, conseguindo que biliões de pessoas ficassem retidas nas suas casas ao longo de meses.
Há anos que Informação Incorrecta indica a China como novo “umbigo do Mundo” e isso não foi por causa dos fantásticos planos quinquenais de Pequim mas porque tudo apontava para Pequim como a nova fronteira das multinacionais. O que se está a passar agora é a lógica conclusão dum processo em acção há tempo, claro nas linhas gerais mas ainda não totalmente pormenorizado. Normal que assim seja: certas coisas não podem ser encontradas nos manuais escolares.
Seja como for, é um processo no meio do qual o Capitalismo representava um instrumento (a Economia é sempre um instrumento) cuja função está agora completamente esgotada.
Paciência, ninguém irá sentir a falta dele. Ou talvez sim, porque em boa verdade o novo modelo não parece tão risonho.
Ipse dixit.

