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Mas afinal: qual Coronavirus?

Novo artigo a partir da prisão domiciliária de Informação Incorrecta! E aqui tenho que agradecer vários Leitores: os últimos comentários realçaram uma questão absolutamente vital que tinha passado despercebida. É o que dá o ter Leitores que usam o cérebro.

Resumindo ao máximo, a questão é a seguinte. O vídeo apresentado por Krowler contém uma afirmação significativa do Professor Champagne:

Até agora tivemos efectivamente 4 mortes que foram associadas ao Coronavirus, mas um só Coronavirus chinês, depois do inicio do ano, e três a um Coronavirus não chinês.

Correcto: sabemos que o Coronavirus é uma família de vírus, cada um dos quais pode provocar constipações, gripe, etc. E algumas “variedades” de Coronavirus podem circular ao mesmo tempo. E aqui surge uma dúvida: para onde foi a velha e querida gripe, aquela que colocava as pessoas na cama durante dois dias e então voltavam como nova? A velha e querida gripe sazonal desapareceu, suplantada pelo Coronavírus chinês? Acho que não e é o mesmo professor Croissant que explica isso: os “outros” Coronavirus circulam e até matam (como todas as gripes sazonais).

E então surge a seguinte dúvida: por qual razão todas as mortes, na Itália e em todos os outros Países, até agora foram ligadas ao vírus na versão chinesa? Ninguém morre mais de gripe “normal”? Fui ver com atenção os casos italianos, procurando por mortes provocadas não pelo COVID-19 mas por outro Coronavirus: não há. Ou por melhor dizer: não há relatos. O que não faz sentido porque, como testemunha o Professor Baguete, os outros Coronavirus (os das gripe “normal”) matam na França, por exemplo.

Pelo que temos que pensar nos testes que estão a ser efectuados nestas semanas: são testes específicos para a COVID-19, a doença causada pelo vírus chinês, ou procuram apenas um Coronavirus qualquer? Pelo que li, consultando numerosas páginas, os testes são específicos, isso é: procuram mesmo a doença COVID-19.

Então surge uma nova pergunta: dado que as autoridades sanitárias têm instrumentos para diferenciar entre as variedades de Coronavirus em circulação, as estatísticas difundidas apresentam apenas os mortos “por” COVID-19 ou incluem os mortos provocados por todos os Coronavirus? O problema é que os órgãos de comunicação utilizam o termo “Coronavirus” que, como sabemos, não indica exclusivamente o agente viral que provoca a doença COVID-19. Em princípio as estatísticas deveriam incluir apenas as mortes “por” COVID-19, mas neste caso criam-se os seguintes cenários:

Qual cenário temos que escolher? Reposta: nenhum deles. A realidade é um pouco diferente.

Encontrei a resposta em dois artigos, um do diário Il Messaggero, outro de La Repubblica. Mas é sobretudo o segundo a ser significativo.

Vamos ler (o negrito é meu).

O Instituto [Instituto Superior de Saúde, ndt] também faz um estudo aprofundado sobre a temporada 2019-2020. “Os dados disponíveis até agora mostram que se caracterizou por um período inicial de baixa incidência, que durou até o final de Dezembro de 2019, e uma intensificação da actividade viral com o início do novo ano”. O pico da epidemia ocorreu na quinta semana de 2020 (de 27 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2020), “com um nível de cerca de 13 casos por mil doentes, o que coloca a época actual a um nível de intensidade média”. Na temporada anterior, o pico havia sido atingido na mesma semana, mas a incidência havia sido um pouco maior (14 por mil).

Desde o início da vigilância (prevista para 14 de Outubro de 2019) até à sétima semana de 2020, foram estimados 5.632.000 casos de síndrome gripal em todo o país”. As regiões do centro da Itália foram particularmente afectadas. […] Dados de vigilância sobre formas graves e complicadas de gripe, confirmadas no laboratório em pacientes admitidos em terapia intensiva, mostram que 157 casos graves de gripe (incluindo 30 mortes) foram confirmados desde o início da vigilância. 82% dos casos graves e 97% das mortes confirmadas por gripe têm pelo menos uma doença crónica pré-existente. “Os casos graves que analisamos, por exemplo, não incluem as pneumonias de pacientes que não vão em terapia intensiva. E depois há todos aqueles que também têm outras patologias, das quais a gripe pode ser uma complicação“.

Ou seja: normalmente, os especialistas não consideram nas suas estatísticas as mortes devidas a complicações e nem são tomados em conta aqueles pacientes que não são internados em terapia intensiva. Exactamente o contrário do que acontece com as estatísticas da COVID-19.

Os especialistas bem sabem distinguir entre a gripe sazonal a COVID-19, mas os resultados são tratados de forma muito diferente. Como seriam as estatísticas se da lista de mortos “por” COVID-19 fossem retirados os casos não internados em terapia intensiva ou nos quais o Coronavirus é apenas uma complicação?

O estudo de Oxford

Entretanto queria apresentar um estudo da Universidade de Oxford, publicado ontem, segundo o qual a maioria da população italiana já pode estar infectada com o Coronavírus (o da COVID-19) com sintomas leves ou inexistentes. Os resultados do estudo sugerem que as epidemias em andamento na Inglaterra e na Itália teriam começado com bastante antecedência da primeira morte relatada. Além disso, níveis significativos de “imunidade de rebanho” teriam sido alcançados nos dois Países.

Os pesquisadores José Lourenço, Robert Paton, Mahan Ghafari, Moritz Kraemer, Craig Thompson, Peter Simmonds, Paul Klenerman e Sunetra Gupta, da Universidade de Oxford, construíram um modelo matemático calibrado nos dados da mortalidade associada ao Coronavírus na Inglaterra e na Itália.

Com uma percentagem de 1% da população em risco de doença grave, os resultados para a Itália mostram que o momento de entrada do vírus teria ocorrido 17 dias antes do primeiro caso confirmado e cerca de um mês antes da primeira morte estar confirmada. Uma percentagem entre 60% e 64% da população já teria sido infectada até o passado dia 6 de Março.

Com uma percentagem de 0.1% da população em risco de doença grave, os dados mudam: o início da transmissão poderia ter ocorrido 17 dias antes da detecção do primeiro caso e 38 dias antes da primeira morte confirmada, com 80% da população já infectada no dia 6 de Março.

O estudo pode ser encontrado e descarregado neste link (ficheiro Pdf, em inglês), um resumo está disponível nas páginas do Financial Times (sempre em inglês).

 

Ipse dixit.