Muito bem.
Então até agora vimos que existem duas teorias acerca do petróleo: uma teoria biogénica (petróleo formado a partir de resíduos fósseis) e uma teoria abiogénica (sem restos fósseis).
As implicações são profundas, pois no primeiro caso o petróleo será um recurso limitado (existe até quando existirem reservas no subsolo), no segundo caso o petróleo não será um recurso limitado (existe e continuará a ser formado a partir de reacções químicas naturais).
Vamos aprofundar o discurso acerca do petróleo como recurso finito. Esta seria uma tragédia para a nossa sociedade, amplamente baseada na exploração do ouro negro: neste caos falamos da teoria de Hubbert, o geólogo que na década dos anos ’50 formulou a hipótese do petróleo limitado.
Marion King Huibbert (1903 – 1989) era um geólogo americano. Nascido no Texas, formado na Universidade de Chicago, desde 1943 até 1964 trabalhou na companhia petrolífera Shell e como pesquisador pelo Unites States Geological Survey até 1976, além de ser professor de Geologia nas universidades de Stanford e de Berkeley.
Hubbert não tratou apenas de petróleo, mas é verdade que o marco da carreira dele foi a formulação duma lei que segue a evolução temporal da exploração de qualquer reserva fóssil. Observando a produção de carvão na Pennsylvania, Hubbert determinou que no início a exploração acontece apenas nas camadas superficiais e atinge o máximo da produção uma vez chegada à metade das reservas; a seguir a produção diminui de forma constante e são precisas tecnologias cada vez mais sofisticadas não para aumentar a produção mas para limitar o abrandamento dela.
Simplificando, Hubbert disse que as reservas fósseis cedo ou tarde acabam.
Utilizando a lei na área do petróleo extraído nos Estados Unidos, Hubbert fez a previsão (1956) de que no começo dos anos ’70 os EUA teriam atingido o pico de produção.
Na altura poucos acreditaram nele, mas com a crise dos anos ’70, quando os 48 Estados continentais dos EUA atingiram o pico, as coisas mudaram e Hubbert tornou-se o geólogo mais famoso do mundo.
Nos últimos anos, outros cientistas (Colin Campbell, Jean Laherrére, por exemplo) retomaram as previsões de Hubbert para tentar estabelecer o pico da produção mundial.
Vamos conhecer um pouco melhor a teoria de Hubbert? E vamos.
A teoria de Hubbert não se aplica apenas a algo que irá acontecer no futuro. Pelo contrário, é uma descrição de casos históricos bem conhecidos. Mais do que uma vez que foi possível observar que a produção de um recurso finito segue uma tendência que tem a forma duma “curva de sino”.
Historicamente, o primeiro caso foi a produção de óleo de baleia, nos Estados Unidos do século XIX. Outro caso é o da produção de carvão na Pensilvânia, como é possível observar no gráfico abaixo:
Mas o caso mais conhecido é aquele do petróleo dos Estados Unidos, onde a produção mostrou um pico muito claro em 1970.
Nos anos 60, como vimos, tinha sido o mesmo Hubbert a prever o pico dos Estados Unidos. Naquela época, tinha sido acusado de ser um visionário e um louco, mas logo as coisas mudaram. Em tempos mais recentes, um pico foi observado na produção de petróleo da União Soviética em 1990 e outro na produção de petróleo do Mar do Norte em 1999.
Nem sempre são observados picos e curvas em clara forma de sino. Em geral, pode-se dizer que a curva de Hubbert é observada quando a extracção do recurso ocorre em condições de livre mercado. Se isso não for o caso, devido por exemplo a intervenções do governo, criação de monopólios, oligopólios ou cartéis, guerras e/ou desastres naturais, então a curva pode ser irregular, mostrando vários pontos máximos. Este parece ser o caso da produção dos Países pertencentes à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
As razões da curva
Inicialmente, a curva em forma de sino da produção foi proposta por Hubbert como um modelo puramente empírica. Mais tarde, foi possível esclarecer quais os motivos que determinam esse comportamento. O ciclo de Hubbert é o resultado lógico de como os factores económicos operam perante um recurso limitado fisicamente, que é o caso do recurso petrolífero. Dada esta característica, a curva em forma de sino de Hubbert é inevitável numa economia de mercado.
Podemos distinguir diferentes fases do ciclo de Hubbert:
- Primeira fase: expansão rápida. Inicialmente, o recurso é abundante, com custo modesto o suficiente para puxar os investimentos. Nesta fase, o crescimento de produção é exponencial.
- Segunda fase: o início da exaustão. As reservas “fáceis”, ou as menos caras, são exploradas antes. Com o esgotamento destas, começa a ser necessário o uso de tecnologias mais complexa, que exigem investimentos mais substanciais. A produção continua a crescer, mas não exponencialmente.
- Terceira fase: o apogeu e o declínio. Numa certa altura, a reserva é tão fraca que já não justifica os investimentos. A produção atinge um máximo (o pico do petróleo) e depois começa a diminuir.
- Quarta fase: o declínio final. Nesta fase, normalmente não há investimentos mais significativos. A produção continua, mas o declínio continua até tornar-se tão reduzida que no fim é descontinuada.
No gráfico, podemos reconhecer uma fase inicial de crescimento exponencial rápido (cerca de 7% ao ano), interrompida pela “crise do petróleo” de 1973-1985 aproximadamente. Após esta fase, a produção começou a crescer a um ritmo muito mais lento, cerca de 1.5% por ano. Desde 2000, a produção não é aumentada ou aumentou de forma leve. Esta tendência pode ser interpretada como uma aproximação à fase do pico.
A previsão do pico global
Neste caso, o pico do petróleo convencional é esperado, muito aproximadamente, por volta do ano 2005, enquanto que para o petróleo “não convencional” a data é aquela de 2070. A curva total, a soma dos dois recursos, atinge o seu pico por volta de 2010.
Outros especialistas chegaram a resultados semelhantes. A estimativa do geólogo britânico Colin Campbell, por exemplo, apresenta o pico de petróleo convencional por volta de 2005, enquanto que para todos os líquidos a data é de 2010.
Há muitas outras interpretações baseadas na teoria de Hubbert. A maioria estima a data do pico na primeira década do século XXI. Mas também há interpretações que partem dos mesmos dados geológicos e que chegam a estimativas mais optimista, com um pico por volta de 2030 ou ainda mais tarde.
A grande transição
O que esperamos que aconteça exactamente na “terra incógnita” do pós-pico? O facto do pico ser um evento bem definido deu origem a várias interpretações: hoje o petróleo representa 40% da energia primária e 90% da energia utilizada pelos transportes. Mas não há só isso: há os derivados do petróleo, como plásticos, medicamentos, até vestuário.
O fim do petróleo, se verdadeiro, traria profundas mudanças na nossa sociedade.
Quanto profundas? É o que veremos na terceira parte.
Ipse dixit.
Relacionados:
O petróleo – Parte I
Peak Oil

