Exemplo destes primeiros Primatas (que Primatas não eram: é correcto falar de espécies com algumas das características dos Primatas) é o Purgatorius,(imagem à direita), algo parecido com um esquilo, vivido na América do Norte 65 ma.
A data é importante, pois estamos pouco após a grande extinção dos Dinossauros. É provável que durante o reinado dos grandes repteis, os proto-primatas ficassem bem caladinhos, tentando não dar muito nas vistas para não serem transformados em suculentos almoço: situação que mudou após a Grande Extinção, quando os antigos Primatas tiveram mais possibilidade de evoluir com uma certa tranquilidade.
O Purgatorius era um animal pequeno, era omnívoro, vivia nas árvores e distinguia-se da restante família dos ratos por ter dentes com uma estrutura parecida com aquela dos Primatas. Este minúsculo animalzinho foi o antepassado ancestral dos modernos macacos e do homem também? Assim parece.
Outro passo importante na direcção dos Primatas foi o Plesiadapis, vivido 58-55 ma na Europa e na América do Norte. Também este muito parecido com um esquilo, mesmo nas dimensões, na realidade não tinha nada a ver com o simpático bichinho actual.
Mas o excepcional estado de conservação dos fósseis (num dos quais foram encontrados restos da pele, dos pelos e uma causa completa) permite uma reconstrução do seu aspecto bastante precisa.
O Plesiadapis tinha os olhos posicionados nos lados, como o Purgatorius, o que não permite a visão tridimensional, mas o volume do crânio era maior quando comparado com os animais similares; com um peso de apenas dois quilogramas, provavelmente vivia nas árvores, sendo um hábil trepador, mas a constituição permitia-lhe também a deslocação no terreno, com as quatros patas.
O Plesiadapis, tal como o Purgatorius, não era um Primata, mas reunia algumas características que mais tarde serão encontradas nos macacos e nos homens.
Um problema surge com sucessivo género dos Esosimias: eram Primatas, e disso não há dúvidas, só que foram descobertos na China e isso não bate certo com as teorias mais difundidas.
Os cientistas tendem a considerar a África como o berço evolutivo dos Primatas, mas as Esosimias contradizem esta ideia: de facto, não apenas eram Primatas como também pertenciam à subordem dos Catarrhini, o mesmo dos modernos seres humanos. E sugerir o aparecimento de Primatas em várias partes do planeta ao mesmo tempo não faz sentido: mais provável que a partir da China as Esosimias conseguissem alcançar o continente africano, onde teriam continuado o processo evolutivo.
Na imagem ao lado é possível observar uma reconstrução obtida a partir dos ossos encontrados. Os mesmos ossos e dentes fornecem importantes informações acerca dos hábitos.
Apesar do aspecto de gato histérico, a Esosimia Sinensis era uma macaco de dimensões muito reduzidas: vivido entre 45 e 40 ma, tinha uma peso entre 60 e 120 gramas, a sua comida era composta por vegetais e pequenos insectos, provavelmente procurava a comida durante a noite e era capaz de trepar ou andar de quatro patas no chão. Isso embora a maior parte da vida fosse passada nas árvores, onde era mais simples proteger-se dos predadores.
Este pequeno macaco pode ser visto em definitiva como o nosso mais antigo antepassado directo. O antepassado de todos os homens (e dos macacos também), sem excepções. A Esosimia Siniensis proporciona a primeira evidência do relacionamento entre os proto-primatas (os animais com as primeiras características dos Primatas, como o Purgatorius, os que provavelmente viveram desde 85 ma) e os antropóides, seres com características em comum com o homem moderno.
Nesta altura pode surgir uma dúvida: África, Ásia, América…mas como é possível que estes bichos pré-históricos percorressem tais distâncias? Não tinham mais nada para fazer? Como atravessaram o Oceano Atlântico, por exemplo?
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A dúvida surge porque estamos habituados a ver o planeta, com os seus mares e continentes, como algo de imutável, mas assim não é. Ao longo das épocas, os continentes mudaram muitas vezes de posição, naquela que é chamada a Deriva Continental. Até 225 ma, por exemplo, existia um super-continente, chamado Pangeia; mais tarde, Pangeia partiu-se originando Laurasia e Gondwana.
Laurasia era o conjunto das actuais América do Norte, Europa e Ásia, enquanto Gondwana incluía as actuais América do Sul, África, Índia, Antárctica e Oceania. Até 55 ma, Ásia, Europa e Gronelândia estavam unidas, o que explica as movimentações dos primeiros primatas que não encontravam obstáculos naturais (como mares) nas deslocações.
Uma curiosidade: Gondwana era nas tradições hindus um continente agora desaparecido no Oceano Indiano, do qual também a Índia fazia parte com outras terras. Constituía a terra natal dos Gond, hoje sediados no Estado indiano de Chattisgarh.
Os cientistas modernos reutilizaram o nome Gondwana para indicar algo de muito diferente, todavia é interessante realçar que na teoria da Deriva Continental a Índia teve de facto um percurso que desde as costas da actual África implicou uma lenta migração para Norte, atravesso daquele que hoje é conhecido como Oceano Indiano.
Curioso, considerado que na altura não havia oficialmente ninguém para tomar nota do acontecimentos…
Mas voltemos ao discurso da Deriva Continental: existem provas de que realmente aconteceu um tal fenómeno? Sim, mais do que uma:
- a correspondência na composição mineral das terras nos pontos que antigamente constituíam o contacto entre os vários continentes;
- a correspondência geográfica das mesmas terras, como os perfis da América do Sul e da África ocidental;
- a correspondência climatéricas, com climas e habitat um tempo idênticos em terras hoje separadas por milhares de quilómetros;
- a correspondência da fauna e da flora nas mesmas terras hoje separadas, com fósseis das mesmas espécies em continentes hoje separados.
Resumindo, a teoria da Deriva Continental não pode ser hoje seriamente refutada. A não ser que alguém consiga demonstrar que uma planta da América do Sul foi capaz de construir um barco para deslocar-se até a África…
Muito bem: temos os proto-primatas, temos o primeiro Primata, e agora? Agora a história se torna confusa.
Uma vez livres da ameaça dos grandes dinossauros, os Primatas (mas não apenas eles) puderam evoluir e dividiram-se em muitos grupos.
É importante entender que este é um percurso comprido, que desde os primeiros quase-Primatas leva até o aparecimento dos primeiros macacos e, sucessivamente, da raça humana. Cada divisão (e as divisões não faltam nas linhas seguintes) é um aperfeiçoamento neste sentido: cada vez Primatas mais “especializados”, cada divisão aproxima aos macacos hoje conhecidos e aos homens modernos.
Até que os primeiros macacos começaram a aparecer um pouco por todos os lados.
40 ma os Primatas dividem-se em duas subordens: Strepsirrhini e Haplorrhini: da primeira fazem parte os actuais lémures (as prossímias), da segunda os macacos (e os homens).
30 ma uma nova divisão: os Haplorrhini dividem-se em Platyrrhini e Catarrhini. Os primeiros colonizarão o Novo Mundo, enquanto os segundos ficarão na região africana.
A separação entre América do Sul e África tinha começado 55 ma, pelo que os macacos do Novo Mundo tomaram uma direcção distinta, desenvolvendo em animais de pequeno e médio porte, com hábitos ligados as árvores: bom exemplo disso é a Branisella, o mais antigo Primata do Sul América (30-25 ma).
Os restos da Branisella são muitos, mas a maior parte incluem apenas dentes, pelo que reconstruir o aspecto geral é complicado: provavelmente as dimensões eram reduzidas, na ordem da quilograma, a dieta era de tipo vegetariano (fruta) e tinha hábitos diurnos.
Interessante o facto da dentição da Branisella ter muitas analogias com a homologa do Proteopithecus, vivido na zona do moderno Egipto na mesma época. Isso cria uns problemas, pois como vimos os dois continentes estavam já separados; por isso, ou alguns exemplares conseguiram atravessar o Oceano Atlântico (que na altura tinha dimensões bem mais reduzidas, acerca de 700 km: mesmo assim, não é simples atravessar 700 quilómetros de água sem uma imbarcação …), ou existiu um Primata anterior na América do Sul, ainda não descoberto (o que parece fazer mais sentido).
| Gibraltar Barbary Macaque |
E no resto do mundo? No resto do mundo outra divisão: 25 ma os Catarrhini dividem-se em dois grupos, Cercopithecoidea (os antigos macacos) e Hominoidae (os macacos mais modernos, entre os quais aparecerá o homem).
Dos primeiros ainda existem os descendentes: são os macacos que vivem em Gibraltar, os Barbary Macaque, únicos macacos da Europa.
Dos segundos será importante seguir as sucessivas fases evolutivas, pois é entre eles que poderão ser encontrados os primeiros homens. Mas ainda é uma viagem muito longa…
Ipse dixit.
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Origens – Parte I
Origens – Parte II
Origens – Parte III
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