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Digital = Energia

Diz P.Lopes:

Com certeza que o modelo digital actual tem defeitos […] porém gostaria de ouvir do mesmo autor quais as alternativas propostas para melhorar o sistema.

Passei três dias no Alentejo, mesmo na fronteira com Espanha. Após o jantar, ia passear o Leonardo numa estrada secundária no meio dos campos: quilómetros e quilómetros de percurso iluminado sem um único carro a passar. No horizonte Olivença, já em território espanhol: idêntica situação, com quilómetros de campos iluminados. Energia gasta para quê? E hoje temos os recursos para evitar tais desperdícios: uma rede de sensores de movimentos “inteligentes” seria suficiente para ligar a iluminação pública apenas quando necessário. Não há carros ou pessoas na rua? Nada de luz. Poupança, e tudo com a ajuda da electrónica.

É o que temos? Não. A electrónica hoje ajuda a programar a máquina lava-loiça a partir do smartphone, enquanto estamos no escritório ou no meio do trânsito. É a mesma função dum simples timer (até mecânico): programa-se a está feito. Vice-versa, o que acontece é que temos que utilizar um smartphone (energia), ligado a uma rede wi-fi (energia), para dizer a um electrodomestico via wi-fi caseiro (energia) para pôr-se a funcionar e gastar energia também quando não estivermos presentes. Uma vez chegados em casa é só dizer “luz!” e a luz liga-se, evitando esticar o bracinho até o interruptor, com o risco de perde-lo. E a nossa loiça já está limpa. Poupámos imenso tempo que agora pode ser investido no Facebook. É a internet das Coisas (IoT).

O digital pode fazer maravilhas, acerca disso não há dúvidas. Eu gosto do digital e muito: não há por aqui uma cruzada contra o digital, o que há é uma série de problemas que foram cometidos no passado e a partir dos quais deveríamos ter aprendido algo. Este sim que seria progresso. Nomeadamente: o petróleo deveria ter ensinado algo. E, repito, não é preciso inventar nada: neste sentido temos já os instrumentos.

Não vamos falar aqui das medidas ao pormenor porque o problema reside não nas possibilidades de poupança, que existem e são inúmeras (obsolescência programada, reciclagem, etc.), mas fica na filosofia do nosso modelo de “desenvolvimento”. Partimos da questão mais complexa e que fica na base de tudo: a energia.

E a energia?

Qual o fim duma empresa privada? O lucro. Acho que acerca disso estamos todos de acordo.

Pergunta: pode uma empresa privada ficar preocupada com a disponibilidade energética num determinado País? Resposta: sim, porque o lucro aumenta quando a disponibilidade dum bem for escassa. Menos energia disponível significa energia mais cara.

Também a sociedade está preocupada com a disponibilidade energética mas a razão é diametralmente oposta: a sociedade quer cada vez mais energia. E barata.

Dado que o digital é 100% energia, o desenvolvimento e a implementação das infraestruturas digitais não pode continuar ao sabor das multinacionais mas deve ser integrado nos planos energéticos nacionais. Não faz sentido que um grupo de empresários decida que o mundo deve tornar-se “verde”, também porque são os mesmos sujeitos que gastam enormes quantidades de energia e que provocam boa parte do desperdício. Antes de qualquer decisão são necessários estudos (não privados) que indiquem quais as necessidade e quais as possíveis soluções, procurando um equilíbrio entre necessidade e sustentabilidade (com esta última a desenvolver um papel cada vez mais preponderante nas decisões finais). Só na altura será possível escolher o caminho.

É isso que acontece? Não.

Há Países onde a questão energética faz parte da agenda política de longo prazo. E faz sentido, pois trata-se duma programação vital: a Alemanha tem um plano energético para os próximos 100 anos, o Japão 30 anos. Mas estas são excepções: em Portugal não sabemos o que vai acontecer amanhã às 15:20. Mas se o digital está (e estará) cada vez mais faminto de recursos, então deve ser pensado e gerido numa óptica de política energética nacional (pelo menos continental) e uma tal decisão só pode caber ao sector público, nunca ao privado.

Vice-versa, tanto o World Economic Forum quanto os Parlamentos de vários Países estão decididos a seguir a “revolução verde”. É uma programação privada à qual todos estão a adaptar-se. Com base em quê? Quais as teorias científicas que ficam atrás desta decisão? O Aquecimento Climático, a teoria daqueles que manipulam os dados das pesquisas e falham todas as previsões? Não mal como ponto de partida.

Mas mesmo que o Aquecimento Climático seja uma realidade fora de discussão, para resolver os problemas é preciso conhecer qual a situação actual. É aqui que o Aquecimento encontra os problemas da energia e do digital.

Qualquer discussão só pode partir das respostas que somos capazes de fornecer. Sem estas respostas, uma discussão é inútil porque não sabemos do que estamos a falar. Então o problema não é a alternativa: o problema é perceber qual a política energética que estamos a perseguir já hoje.

Qual o modelo-padrão? Uma nebulosa conversão para o eléctrico “verde”? Não são precisas muitas contas para entender que o eléctrico “verde” não é suficiente: um Inverno mais rigoroso já serviu para fritar o sistema eléctrico duma realidade como o Texas e provocar problemas no México também, com milhões de pessoas às escuras. E o Texas converteu ao “verde” apenas 25% da sua rede… É este o futuro energético? É neste meio que terá que mexer-se o digital? Não pode ser, como é óbvio. Então temos um problema.

P.Lopes deseja saber quais as alternativas propostas. Mas a resposta é por sua vez uma pergunta: alternativa a quê? Qual é o actual programa energético da nossa sociedade? O digital sem energia não existe: falar de digital é falar de energia.

Eu não entendo qual o futuro energético programado, pelo que não posso apontar uma alternativa que não considere a exploração das fontes energéticas fósseis. Que são más, sem dúvida, mas que actualmente são o único meio para permitir a continuação da sociedade tal como foi pensada até hoje (sem considerar o nuclear). E que serão ainda mais importantes num futuro dominado pelo digital.

Admito, trata-se de ignorância a minha, mas não percebo como a sociedade possa ser capaz de seguir o binómio “renováveis + digital”: parece faltar algo na equação.

No futuro haverá limitações na disponibilidade energética? Como aconteceu com o petróleo, haverá um cartel de produtores com uma situação de monopólio (veja-se a recente venda das seis barragens portuguesas)? O preço da energia será maior e o digital ficará um “luxo”? É este o futuro? Tenho dúvidas: o digital não pode estar ao alcance de poucos, é previsto que tenha um papel cada vez mais importante na sociedade do futuro, uma cada vez maior interacção entre digital e indivíduos. Mas isso significa que as contas não batem certas: menos energia e digital para todos? Não é possível. Digital para todos significa mais energia. O que limita muito a conversão para o “verde” que estamos a seguir.

Muitos dos outros problemas do digital são consequências que podem ser geridas tendo em conta a maior ou menor disponibilidade de energia. O lixo electrónico? Pode tornar-se uma indústria, actualmente cara e ineficiente, mas se a energia já não for um problema… Streaming, blockchain, clouds: disponibilidade de energia, nada mais.

A obsolescência programada? Não é um problema exclusivo do digital, pois abrange uma multidão de bens. O digital amplifica a questão, isso sim, mas a resolução passa pela reprogramação dos mercados e dos nossos hábitos, não na limitação do digital.

Os desperdícios produzidos pelo comércio? Há décadas que o tema é debatido sem que seja implementada uma solução, o digital limita-se a acrescentar mais uma camada.

As ligações multinacionais digitais – petrolíferas? Isso deveria fazer reflectir acerca da tão louvada “revolução verde”, mas enfim…

Caro P.Lopes, estamos a percorrer os mesmos passos já seguidos com o petróleo. As soluções não foram implementadas ao longo das décadas anteriores e não serão implementadas agora. Mas não podemos ficar com a ilusão de que os problemas criados poderão ser novamente ignorados ou até resolvido com o digital, porque há uma diferença fundamental: o petróleo é energia, o digital consome energia.

O digital deveria ser utilizado desde já para reduzir drasticamente o desperdício e optimizar ao máximo os recursos (que não são infinitos). É possível, é viável. O que estamos a ver, pelo contrário, é o digital utilizado como chamariz para mentes débeis obrigadas a consumir cada vez. Um “suicídio colectivo”? Não acho. Uma programação consciente para uma nova sociedade com indivíduos tecno-dependentes? Possível. E a energia necessária? Reler: “ligações multinacionais digitais – petrolíferas”.

O digital (que, repito, aprecio) não oferece soluções para problemas antigos e cria problemas “novos”. Ninguém aqui quer travar o digital (o que seria também hipócrita: estas linhas são escritas e lidas no digital). Só que, ao escolher um novo caminho, seria bom ter uma ideia de como este será percorrido, de onde acaba, e, possivelmente, da razão da viagem. Não um roteiro ao ínfimo pormenor (que nem é o meu estilo, pelo contrário), mas uma certa ideia sim.

 

Ipse dixit.