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O Mecanismo de Antikythera: resolvido o mistério?

Em 2013 (praticamente ontem) falámos do Mecanismo de Antikythera, um curioso objecto perdido no fundo do mar após uma tempestade em 65 a.C. enquanto estava a ser transportado por um navio romano, e encontrado no ano de 1900 por alguns pescadores de esponjas no mar da ilha de Antikythera, na Grecia.

O Mecanismo é considerado o primeiro computador analógico do mundo, talvez a invenção de engenharia mais complexa do mundo antigo e desde que tem sido recuperado os cientistas têm debatido a origem e o funcionamento deste instrumento muito especial e único do seu género.

O Mecanismo é uma complexa combinação de 30 engrenagens de bronze que permitia prever a posição do Sol e dos planetas, as fases da lua, as eclipses lunares e aquelas solares e até as datas dos Jogos Olímpicos.

Embora os cientistas tenham feito progressos durante as últimas no estudo do Mecanismo, ainda não era possível uma compreensão completa tanto do funcionamento quanto da utilidade.

Como informam as edições inglesa e italiana de Sputnik News, agora algo pode ter mudado: os investigadores do College of London talvez tenham resolveram o mistério e até criaram um modelo funcionante do Mecanismo. Explica o professor de Engenharia Mecânica Tony Freeth:

O nosso modelo é o primeiro a corresponder a todas as provas físicas e descrições gravadas no próprio mecanismo.

O estudo dos pesquisadores já foi publicado nas páginas de Scientific Reports e descreve de forma excepcionalmente pormenorizada o funcionamento das engrenagens.

O Mecanismo em si é composto por cerca de 82 fragmentos intactos, mais ou menos uma terceira parte do original. A partir do maior dos fragmentos, conhecido como Fragmento A, os pesquisadores adquiriram conhecimentos sobre as características dos rolamentos e das várias outras partes. Outro, conhecido como Fragmento D, é representado por um disco, uma engrenagem de 63 dentes e um prato.

As pistas eram as inscrições gravadas nas superfícies interiores do Mecanismo, lidas em 2005 utilizando um método de imagem de raio X tridimensional. Estas inscrições incluíam uma descrição do cosmos tal como os antigos gregos a imaginavam: com planetas movimentando-se em órbitas circulares. Além disso havia também números que indicam a duração dos ciclos cósmicos.

O que chamou a atenção dos investigadores foram dois números em particular: 462 e 442, que coincidem exactamente com os anos dos ciclos dos planetas Vénus e Saturno. Quando observados da Terra, os planetas mudam periodicamente as suas posições em relação às estrelas, mas para calcular estes ciclos, os astrónomos teriam que seguir as posições dos planetas ao longo de milénios ou obtê-las por cálculo.

Um membro da equipa e doutorando Dave Higgon:

Após um trabalho considerável, conseguimos fazer corresponder as provas dos fragmentos A e D a um mecanismo para Vénus, que modeliza exactamente a sua relação com o período planetário de 462 anos com a engrenagem de 63 dentes e desempenha um papel crucial

Outro investigador envolvido no estudo, Aris Dacanalis:

A astronomia clássica teve origem na Babilónia, mas não há indicação de que os antigos gregos tivessem obtido um ciclo extremamente preciso de 462 anos para Vénus e um ciclo de 442 anos para Saturno.

Pelo visto: obtiveram.

Os investigadores aplicaram o antigo método matemático descrito pelo filósofo grego Parmenides e não só receberam de volta os ciclos de Vénus, de Saturno e de todos os outros planetas, como também compreenderam o princípio com o qual o Mecanismo de Antikythera funciona. O momento decisivo foi a comparação do período planetário de 462 anos de Vénus com a roda de 63 gamas.

A seguir, os pesquisadores conseguiram reproduzir o mecanismo capaz de calcular os ciclos astronómicos de forma precisa. O Professor Freeth explicou também como os investigadores “criaram mecanismos inovadores para todos os planetas que calculam os ciclos astronómicos avançados e minimizam o número de engrenagens do sistematodo, de modo a caberem no apertado espaço disponível”.

Mas o estudo ainda não acabou. Como afirma o Dr. Adam Wojcik (da UCL Mechanical Engineering), co-autor do estudo:

Um desafio particular será o sistema de tubos aninhados que transportam os resultados astronómicos.

Um mecanismo com 2.000 anos de idade que consegue desafiar ao longo de décadas os modernos pesquisadores. Não dá para reflectir?

 

Ipse dixit.

Imagem de abertura: a reconstrução do Mecanismo (fonte: A Model of the Cosmos in the ancient Greek Antikythera Mechanism)