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As ovelhas alternativas

Mah…

Salto na internet, um pouco aqui, um pouco aí…até mudo de idioma, nunca se sabe. Mas o resultado não muda. É só queixar-se, apontar as falhas, os erros do sistema, a frustração.

Parem um pouco e perguntem: mas não haverá algo que está a fugir-nos? Tranquilos, não quero começar com a história do “temos que fazer alguma coisa, acção, mexam-se”. Acho que nesta altura do campeonato certas coisas devem estar claras, inútil repetir.

O discurso é outro, um pouco mais complexo.

Alternativas: uma má, outra pior

Quem desejar encontrar notícias tem duas opções: ou confia na informação de regime ou tenta espreitar a informação alternativa.

A informação de regime (mainstream) é conhecida: passam notícias, com certeza, mas na maior parte dos casos não aquelas que interessam ou que podem ser definidas como realmente úteis.

Então o leitor acede ao mundo da informação alternativa: e aqui encontra o caos total. Não “um pouco de confusão”, não, o caos total mesmo. Há teorias para todos os gostos, desde a loucura total até o razoável.
Mas existem alguns pontos em comum, os seguintes:

  • relatórios de notícias e/ou factos negativos
  • apresentação de teorias que justificam as notícias negativas
  • falta de soluções viáveis.

Isso no geral, depois há excepções.


Dos três pontos listados, em ordem inversa:

  • a falta de soluções é flagrante, muito frustrante e constitui uma das maiores críticas ao mundo da informação alternativa;
  • as teorias muitas vezes estão baseadas em não-factos, às vezes são puros delírios, outras vezes são muito razoáveis mas com pouca esperança de poderem ser implementadas;
  • o relatório de notícias ou factos negativos é que nunca falta; aliás, muitas vezes é o ponto de partida de tudo.

Porque na ordem inversa? Porque o aspecto fundamental é mesmo este último: a difusão de notícias e factos negativos. Não “fundamental” para quem escreve o blog, fundamental porque se a internet livre ainda existir é porque continua a espalhar frustração.

Eu, após dois anos de Informação Incorrecta, começo a ter sérios problemas: muitas vezes não sei o que escrever. Não que faltem notícias ou acontecimentos tristes: estes continuam, como sempre. Só que as razões foram já explicadas, mais do que uma vez.

Continuar a martelar-se as…ehm, os dedos só para poder dizer “Já viram? É uma vergonha!” parece agora o principal objectivo da informação alternativa.

A Publicidade do Pensamento Único

É aqui que o Leitor tem que parar para tentar encontrar uma explicação e perguntar: mas onde é que já vimos esta atitude?
Resposta: em todos os lugares, com uma coisa chamada “publicidade”.

O que faz a publicidade? Cria frustração, elemento essencial para estimular o desejo. Eu vejo um bom carro com sentada no lado do passageiro uma mulher bonita e fico frustrado porque penso no meu Renault Clio com 12 anos de idade, no qual evidentemente nenhuma top model irá alguma vez sentar-se. Então surge o desejo.

No caso da internet, a publicidade opera de forma diferente: não tem que apresentar um modelo contrastante para que possa surgir o desejo, a causa da frustração já está presente e repetida (gratis) milhões de vezes em qualquer canto da Web.

Surge um desejo? Sim, surge, é natural que isso aconteça. Neste caso o desejo tem o nome de “rebelião”.
E aqui entra em acção o segundo mecanismo da informação alternativa: o “ganhar tempo”. Este mecanismo é involuntariamente propagado por quem mais desejaria fazer alguma coisa para inverter o sistema: as forças das pessoas ficam retidas em discussões das quais nem se consegue lembrar o começo, em exemplos, em contra-exemplos, em contradições e contra-argumentações.

É uma autêntica maravilha. A melhor maneira para controlar o descontentamento dos cidadãos é dar-lhes um instrumento para comunicar e exprimir este descontentamento. O resultado final será (e é) o caos total do qual nada poderá nascer.

Os blogueiros que pensam fazer informação alternativa trabalham a favor daquele sistema que querem mudar. Os Leitores caem nestas engrenagens e aqui ficam presos.

E há outro ponto que não podemos esquecer: como não há acção, a frustração acumula-se. Com o tempo será algo de muito valioso para quem deseje utiliza-la na implementação duma nova ordem. Não necessariamente “mundial”.

É a glória do Pensamento Único.

Massacres para todos

Dúvidas? Legítimas. Mas pensem num pormenor.
Quantas vezes ao abrir um diário somos confrontados com notícias e/ou imagens de massacres? “Dezenas de mortos” é uma boa notícia, “centenas de mortos” é óptima, “milhares de mortos” é a apoteose.

A experiência ensina que as notícias com “milhares de mortos” são raras.  Mas isso não é verdade: simplesmente não são publicadas.
A cada ano morrem, nos Estados Unidos, 500.000 pessoas de cancro.
A cada dia morrem, no mundo, 30.000 crianças por causa da fome.

Todavia, estas notícias não atingem as capas dos jornais. Porquê? Porque não vendem e até são prejudiciais.
Se fosse difundida e repetida constantemente a ideia de que meio milhão de pessoas morrem nos EUA de cancro, nas pessoas poderia ganhar forma uma pergunta: “Mas que raio comemos? Mas que porcarias respiramos?”.
As notícias ficam assim entregues à boa vontade da informação alternativa que, por definição, não é de confiança e tende a exagerar. “500 mil? Sim, já é muito se forem um décimo…”.

A informação alternativa depois faz a parte de trabalho que lhe compete, que é a destruição total desta incómoda realidade: os 500 mil cancros foram provocados pelos rastos químicos, por experiências secretas dos militares, foi o Haarp, foi a grelha energética negativa, foram os Reptilianos, foi o Sol que enlouqueceu…em breve a realidade (os 500 mil mortos) torna-se uma piada de mau gosto e não passa disso.

Mas este é apenas uma parte do trabalho da informação alternativa. Como afirmado, há também a criação de frustração, do consequente desejo de reacção e da maior frustração obtida uma vez realizada a impossibilidade de fazer alguma coisa.

Até onde leva tudo isso? Qual o fim último?
Loucamente simples: a aceitação da nossa sociedade tal qual ela é.

Pode parecer absurdo, mas uma vez desligado o ecrã, uma vez saídos do caótico mundo das teorias alucinadas ou dos relatos deslegitimados, o que encontramos é o nosso mundo. O nosso velho e querido mundo, onde as coisas acontecem de forma mais calma, muito mais tranquilizadora, onde afinal temos a ilusão de exercer um certo poder.

Sigam o dinheiro!

Eu sei, até sou aborrecido com esta história, mas vou repetir mais uma vez: para perceber o que se passa é preciso olhar para a economia. Dito de outra forma: sigam o dinheiro.

Não é uma paranóia a minha, nem uma deformação profissional.
Alguns entre os Leitores achavam-me um economista, um empregado da Bolsa ou algo parecido. Não, nada disso. Na minha vida sempre tinha ficado longe da economia, até como interesse pessoal.

Só que há alguns anos pensei informar-me um pouco mais acerca das coisas que se passam no mundo: as mesmas dúvidas de cada Leitor deste blog. Nem sei quantos blogues e sítios de informação alternativa visitei, mas com certeza foram muitos. E passei não poucas noites a ler tudo e mais alguma coisa, isso enquanto uma pessoa com um pouco de cérebro deveria dormir ou dedicar-se a actividades bem mais agradáveis.

Afinal reparei numa coisa que ainda hoje reputo ser fundamental: não apenas os blogues que tratavam da economia eram capazes de fornecer uma explicação teórica dos acontecimentos, mas, ainda mais importante, conseguiam fazer previsões em boa medida acertadas.

É esta a enorme diferença entre uma teoria da conspiração e a tentativa de interpretar a realidade tendo como base os relacionamentos económicos: as teorias da conspiração na maior parte dos casos pretendem explicar o passado enquanto as previsões são (quando presentes) limitadas a poucos eventos de carácter episódico.

Podem reler o que este blog escreveu acerca da Grécia nos últimos dois anos: a Grécia vai sair do Euro, uma previsão obtida não com a interpretação de tábuas sanscritas mas com alguns instrumentos só económicos. A Grécia irá sair do Euro e no blog podem encontrar, bem explicadas, todas as razões.

Utilizar a economia também permite perceber qual o nosso papel.
E qual é o nosso papel?

Leonardo e as ovelhas

No Domingo fui com Leo para o campo até encontrar um grupo de ovelhas. As criaturas estavam calmamente a pastar enquanto Leo estava enervado: queria saltar, entrar no campo, correr atrás das ovelhas, ladrar, fazer barulho, criar confusão. Não é maldade, é que Leo é feito assim, se fosse uma criança já teria sido rotulada como hiperactiva.

Eu olhei para as ovelhas e fiquei triste: uma ovelha ia pastar um pouco para à direita e todas iam no mesmo sentido; esquerda? Mesma coisa. Eram o nosso retrato!

De facto, comparar a actual sociedade a uma grupo de ovelhas não é errado.
Não sabemos para onde vamos nem porquê, por isso seguimos a “onda”. De vez em quando aparece um pastor que indica o caminho e nós, todos contentes, obedecemos: finalmente uma direcção certa, alguém que percebe algo.

Qual o papel da informação alternativa no rebanho? A informação alternativa deveria ser como Leonardo: saltar a cerca, entrar no campo, abanar a calma olímpica do rebanho, pôr todos a correr.

O problema é que a informação alternativa muitas vezes opera na tentativa de ser um pastor ou, pelo menos, um aprendiz tal. Tenta direccionar o rebanho, tenta até fornecer uma razão para isso, mas consegue o resultado contrário: não apenas não consegue abanar a tranquilidade das ovelhas como não percebe que não passa, ela mesma, duma simples ovelha.

Porquê isso acontece? Há aqui duas razões, subtis mas simples:
1. é espalhada a convicção de que cada um pode ser pastor
2. a cerca fica escondida.

Não é apenas a informação alternativa que acha poder desenvolver o papel de pastor: cada um de nós está convencido de poder gerir a própria vida. (“…o nosso velho e querido mundo, onde as coisas acontecem de forma mais
calma…”), pois os blogues são, em algumas medidas, espelhos da sociedade.

Mas além disso há a segunda razão: poucos conseguem ver a cerca.

“Ehi, ehi, ehi, calma lá: isso significa que tu, Max, és tão arrogante ao ponto de afirmar que és um dos poucos que conseguem ver a tal cerca?”
Sim, sem hesitação: sou um entre os poucos. Há os poucos blogues que tratam dos mesmos assuntos, há os Leitores deste como dos outros blogues que compartilham esta visão, há os donos do rebanho, há os economistas que sabem e não falam ou falam de forma “limitada”, há os que trabalham no sector. E mais ninguém.

Há também muitas pessoas que já ouviram falar do problema, mas não querem/não sabem/não podem ligar.
Há quem conheça o problema e mesmo assim prefere percorrer outros caminhos.
Em termos absolutos podemos não ser poucos, mas em termos relativos, quando comparados com todos os que vivem neste mundo e que tratam de informação alternativa, o número é bem limitado. A maioria das pessoas pouco ou nada sabem.

A maioria das pessoas, por exemplo, acha que o dinheiro é riqueza; que o dinheiro é criado pelo Estado; que a dívida pública é um pecado; que a Grécia está falida porque gastaram demais antes; que o FMI tenta ajudar os Países em dificuldade; que o Banco Mundial tenta resolver os problemas económicos; que a União Europeia é uma instituição democrática; que o Banco Central Europeu está ligado à União Europeia; que o Euro é a moeda da União Europeia; que a austeridade é necessária porque o Estado gasta muito; que pagar taxas e impostos é justo; que a Federal Reserve pertence ao governo dos Estados Unidos…isso e muito, muito mais.

Este conjunto de crenças representa a explicação que satisfaz a maioria das pessoas. Só que são crenças e nada mais do que isso: a realidade é bem diferente. Mas quantos sabem disso? Façam duas contas, tentem somar todas as pessoas da vossa cerca de familiares-parentes-amigos que têm consciência desta situação: no final será mais simples perceber porque afirmo “sim, sou um dos poucos”. Porque somos poucos, ponto final: a cerca permanece em boa medida invisível.

E aqui, mais uma vez, em destaque fica a culpa da informação alternativa e a forma como esta ajuda, nos factos, o sistema.

Tratamento?

Fiz uma lista de teorias da conspiração há poucos dias. Na lista constam coisas nas quais eu acredito. O problema não é acreditar numa ou em algumas destas teorias: o problema é que esta é altura para pegar em todas as teorias e fecha-las num armário, porque vivemos tempos complicados que requerem outros assuntos no centro das atenções.

Existem os Ufo? Acredito que sim, apesar de não poder dizer qual a explicação deste fenómeno. Mas agora estou nas tintas acerca dos Ufo, porque enquanto eu observo o céu à procura da amizade galáctica, o meu vizinho perde o trabalho, os supermercados aumentam os preços, o governo aumenta os impostos, a gasolina está cada vez mais cara e todos perdemos parte das nossas liberdades.

Neste contexto, para que serve ser um dos poucos que conseguem ver a cerca?
Resposta: nada. Não “pouco”, mas nada mesmo.

É como ir ao médico e ouvir dizer: “Meu amigo, você tem um cancro, não há tratamento e vai morrer no prazo de 3 meses”.

Importa numa altura como esta conhecer os mecanismos com base nos quais o cancro se desenvolve? Como a célula tumoral entrou no organismo, ataca as outras células, multiplica-se? O que conta é saber que não há tratamento, isso é o que realmente conta. Tudo o resto é inútil. Pode ser útil como forma de cultura pessoal (pelo menos sabemos de que morremos…), mas do ponto de vista prático é inútil.

O discurso muda caso haja possibilidades de tratamento. Neste caso é útil, aliás decisivo poder entender a doença.
No nosso caso: há possibilidade de tratamento?

Não faço ideia.
Se tivesse que olhar para os simples dados a resposta seria “Não, sorry, tentem da próxima vez”.
Os “inimigos” que enfrentamos representam o maior exército alguma vez existido em termos de recursos. E isso sem considerar que o mais perigoso dos inimigos vive em nós.

Seria bom, por exemplo, que o mundo da informação alternativa tomasse uma atitude diferente. Não mais “controlada”, pois é um mundo anárquico por definição: mas que tentasse pelo menos concentrar-se num menor número de assuntos. Não vale a pena abrir o blog de manhã e começar a disparar em todas as direcções: cria-se uma nuvem de poeira e nada mais.

Também os Leitores poderiam fazer alguma coisa: por exemplo, pedir que nos blogues que costumam frequentar fossem tratados determinados assuntos.

Não é necessário que todos criem um ABC da Economia, nada disso: mas começar a espalhar a noção de que a economia tem um papel nada secundário já não seria tão mal.

Eu sei que o mundo da economia é bastante aborrecido: mas, na minha óptica, é aí que podemos encontrar muito do sentido da realidade.
Qual a alternativa? Continuar a esperar o regresso de Nibiru? Continuar a publicar a “lista dos maus”? Replicar as notícias que todos já tratam? Continuar a fazer o trabalho por conta do sistema, pelo qual nem somos pagos?

Um dos Leitores do blog, Voz, acha impossível ganhar o sistema a partir do interior do mesmo.
Eu não concordo. Concordaria no caso dum ataque frontal. Mas é sempre possível atacar tendo como alvo algo diferente, algo do qual o sistema não está à espera. Neste caso seria possível explorar as fraquezas do sistema e torna-las uma arma em nosso favor.

Mas disso podemos falar uma próxima vez.

Ipse dixit.