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A maçã podre: do fim da democracia

Interessante troca de comentários após os dois vídeos do post anterior.

O primeiro é de Bruno António:

Já agora…digo aquilo que te escusas a dizer para não seres acusado de heresia, estou-me lixando para esta democracia, se isto em que vivemos é democracia já não me sinto um democrata, que venha alguém e ponha ordem nisto, chamem-lhe ditador, chamem-lhe o que quiserem… mas que devolva a dignidade que nós esta a ser sugada ao mesmo ritmo das condições de vida, só espero que a reposição da legitimidade não seja tentada pelos militares (…).


Este é um ponto extremamente importante.
Bruno, eu acho que este sentimento é bastante difundido e fundamentado: como é possível gostar desta democracia?

É dito que a democracia, longe de ser perfeita, é o menor entre os males possíveis: escrevi o mesmo neste blog no recente passado. Mas agora surgem as dúvidas: será de facto o mal menor?

Ao viver no continente europeu posso falar da experiência vivida aqui; uma experiência alucinante.

A nível supranacional estamos dirigidos por um grupo de pessoas que nunca foram eleitas e que gostam de definir-se “Comissão Europeia”, enquanto os verdadeiros eleitos, os membros do Parlamento Europeu, nada podem fazer a não ser falar e pôr o carimbo em decisões já tomadas.

A nível nacional quando uma pessoa é eleita com pouco mais de dois milhões de votos (o presidente Cavaco Silva) afirma-se que “os Portugueses escolheram”. Isso enquanto nas eleições legislativas o primeiro partido é aquele da abstenção, que é tranquilamente ignorado. Resulta portanto interessante o funcionamento desta democracia, onde uma minoria (e bem pequena, diga-se) pode legitimamente eleger uma pessoa, mas onde uma maioria relativa pode ser ignorada.

E isso sem entrar no mérito dos vários partidos, só porque não somos masoquistas.

Depois há o nível local. E aqui há a nota mais dolorosa, porque na minha óptica é aqui que nascem os grandes males desta democracia. Nem todos, mas uma boa parte sim. Os eleitos pertencem sempre aos partidos do costume, mas nem é este o verdadeiro problema. O problema é que, para ficar em Portugal, são eleitas (às vezes com maioria esmagadora) pessoas que numa sociedade normal deveriam passar uns bons tempinhos nas pátrias prisões.

Pessoas que criaram uma verdadeira máfia local (João Jardim), pessoas que já foram condenadas por vários crimes e que conseguem não ficar presas só porque conseguem pagar advogados que fazem bem (ou mal, pontos de vista) o próprio trabalho.
Este não é algo ponto que possa ser ignorado: o que o cidadão diz ao votar nestes criminais é “não me importo se tu fores um criminal, o que quero é que continues a favorecer-me”.

A isso podemos acrescentar o exército de pessoas que votam só porque gostam dum determinado partido (que, consequentemente, poderá infringir qualquer lei pois será sempre justificado), as pessoas que votam nos mesmos “porque afinal são todos iguais”, as pessoas que votam e nem percebem o que fazem…

A democracia não funciona pela simples razão que a sociedade está podre já nos alicerces. Como podemos esperar bons governantes nacionais se já os locais forem eleitos com estas bases? O mundo político é como uma pirâmide, na qual há um lento intercâmbio entre base e topo: os ladrões eleitos ou nomeados hoje nas câmaras podem ser os deputados de amanhã.

Que tipo de colaborador poderá nomear um presidente de câmara que abriu uma conta na Suíça em nome do neto (e falamos de Isaltino Morais)? Nomeará um vereador íntegro ou alguém disposto a ter uma visão suficientemente “elástica” para entender os negócios ocultos do chefe?

José Socrates, o anterior primeiro-ministro, tinha sido engenheiro técnico do Conselho da Cidade da Covilhã e depois membro da assembleia municipal da mesma localidade. Assim, começou em âmbito local.

Pedro Passa o Coelho (ou algo parecido) era (ou ainda é, nem sei) presidente da assembleia municipal de Vila Real. Hoje é primeiro-ministro. Outro caso da ligação entre poder local e nacional.

Em primeiro lugar, portanto, temos de pôr em evidência a nossa responsabilidade. Nossa e de mais ninguém. A democracia é o que é porque nós permitimos que assim fosse e que ainda seja.

Mas, claro, nesta altura falar de democracia faz pouco sentido. Formalmente sim, há eleições, campanhas eleitorais e todo o resto. Mas além da fachada, o que sobra? Pouco: apenas uma elite, para fazer parte da qual há um percurso que podem bem começar com cúmplices silêncios num escritório municipal para acabar na Assembleia da República.

Eis que então surge o desejo: que apareça alguém e ponha ordem, um ditador ou em qualquer caso uma pessoa com poderes fortes, que devolva a dignidade.

Parece uma heresia, não é? Mas não é: é História. Mais uma vez.
Porque Portugal já passou por isso, com Salazar. Não é minha intenção aqui fazer elogios a um regime ditatorial, pois não é este de certeza o meu ideal político. Mas se conseguirmos afastar dos prejuízos, podemos observar que, do ponto exclusivamente financeiro, Salazar conseguiu excelentes resultados. E não há como negar isso.

E em que tipo de crise estamos aparentemente mergulhados agora? Olha só, uma crise financeira.
Juntamos a isso um nunca desaparecido sebastianismo, traço tipicamente português, e pronto, teremos uma legítima vontade de alguém que ponha um pouco de ordem na casa.
E sublinho: legítima.

E aqui surge o segundo comentário, de Walner.

É compreensível o sentimento de que só um salvador da pátria possa nos tirar do lodaçal, mas pergunto: será que a coisa toda não foi planejada com esta finalidade? O tal trinômio problema, reação, solução?

Aqui no Brasil a mesma coisa. Uma boa parcela da sociedade se sente orfã da ditadura militar. Sei que não é o que Bruno deseja, mas qual a diferença entre ditaduras? Todas no final das contas estarão a serviço das corporações, que são na verdade nossos verdadeiros e terríveis algozes. Claro, também a democracia está a serviço destes senhores.

“Todas no final das contas estarão ao serviço das corporações”.
Não sei se for mesmo assim, mas este comentário traz de volta uma dúvida que já tinha aparecido no blog: será esta desacreditação da democracia um evento natural ou um plano?

Quem apoia a ideia duma Nova Ordem Mundial verá nisso um plano bem orquestrado para uma viragem autoritária das sociedades ocidentais. Eu tendo a considerar esta Nova Ordem como mais ligada ao mundo económico, mas feitas as contas é óbvio que Estados autoritários e complacentes favoreceriam uma economia já amplamente “pilotada”.

Pode ser esta uma explicação? Sim, pode bem ser. Mas acho que, mais uma vez, temos de prestar atenção para distinguir entre causas verdadeiras e o nosso desejo de desresponsabilizar os nossos actos (ou a falta deles). Dito de forma mais clara: a Nova Ordem Mundial não pode ser apenas um álibi, uma forma de dizer “é por isso que tudo está mal”.

Não, não é por causa disso: tudo está mal porque nós deixamos que tudo esteja mal.
Porque não seria possível explicar de outra forma como 1% consiga controlar 99% da população. Sim, podemos acrescentar a cumplicidade dos media, o condicionamento psicológico, as mensagens subliminais, o programa MK Ultra, o Haarp, as alienígenas, tudo… mas será sempre 1% contra 99%.

Na hora que as pessoas fizerem saques massivos nos bancos, boicotarem as corporações em geral, relegarem o governo à sua insignificância, eles serão obrigados a expor suas abominações. Do jeito que vai, estão ganhando tempo para agirem no momento que lhes for propício.

É isso. Até quando a sociedade civil não tiver uma reacção, não haverá mudanças positivas. E neste panorama os moldes institucionais tornam-se insignificantes: uma democracia podre pode bem deixar o lugar para uma ditadura podre.

Quando no banco dum supermercado aparecer uma maçã podre, é boa norma deita-la no lixo. Porque podemos mudar a embalagem, pô-la numa caixinha branca revestida de celofane transparente, mas não deixará de ser uma maçã podre.

A maçã podre não é a classe política, mas a sociedade. Que é o húmus no qual desenvolve a classe política e não o contrário.

Eu continuo com as minhas dúvidas perante a democracia. Acho que já demonstrou não ser suficientemente forte para resistir aos riscos do empodrecimento da sociedade. Talvez nem exista um sistema político capaz de ser ao mesmo tempo ao serviço da sociedade e estímulo para a mesma sociedade, porque qualquer sistema funciona com base em nós e nas nossas escolhas.

Então, talvez, seja a sociedade a ter um “bug” e deveria ser repensada. Mas este é outro discurso.

Caro Bruno, como você estou farto deste triste espectáculo, e acho que a maioria dos Leitores deste blog prova o mesmo. Mas acho que há razões profundas que justificam esta situação, razões que devem ser procuradas não no “macro” mas no “micro”. Nós, a falta de respeito que temos em relação ao que nos rodeia, aos bens comuns, aos ideais, aos valores, aos nossos vizinhos.

Em última analise: a falta de respeito que temos por nós.

Ipse dixit.