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As coisas que este cão sabe… – Parte VI

– Escreve: Então? Ohé?
– Este é o começo?
– É. Continuemos: Mas eu digo, o que é isso?
– “..que é isso”.
– Ponto de interrogação.
– Ah, pois. Olha Leo, mas tens a certeza que é assim que tem que começar o post?
– Certeza.
– É que me parece um pouco…bah…
– Shhhht! Em frente: Nesta altura, até o mais distraído dos Leitores deveria ter percebido!
– “…percebido!”
– A dívida não é má! A dívida é boa!
– “…boa!”.
– Mas será que toda a dívida é boa? Resposta: não!
– “…não!”.
– Isso significa que há dívida má também! Paciência!.
– “…Paciên…”…como “Paciência”?
– “Paciência!”. Significa que acabou o post.
– E deixas as pessoas assim, penduradas? Tens que explicar, não é?
– Nada disso. O Leitor fica num estado de suspense, fica atormentado pela dúvida…dúvida da dívida. Como diz Schnauzer no seu livro “Como tornar um post interessante em 179 passos”, o Leitor tem que saber e não saber para que fique a pensar.
– Sim mas não gosto disso, e quem é este Schnauzer?
– É um alemão, não conheces.


– Ó Leo, conclui o pensamento, força.
– Tá bom…então escreves: Pois é assim, há a dívida que não é de facto um verdadeira dívida mas um investimento, este é a assim chamada dívida pública. Mas se um Estado não tem a soberania monetária? Se o dinheiro que utiliza e faz utilizar aos cidadãos não é dinheiro dele? Aí as coisas mudam. Podemos falar de Dívida Boa e Dívida Má. “Má” com acento.
– Sim, eu sei, continuas.
– Da Dívida Boa já falámos. Dívida Boa significa investimento, coisas que trazem bem estar para todos; a Dívida Boa cria um círculo virtuoso, como diz Pinscher.
– Quem?
– É um alemão, não conheces. Mas continuemos. Se, pelo contrário, o Estado gasta o dinheiro em favor das elites criminais, se um Estado gere mal as coisas e torna a economia algo de pouco produtivo, então a coisa muda. Então o Estado tem que intervir com dinheiro, por exemplo, para ajudar as empresas em dificuldade, para pagar o subsidio dos desempregados, para remediar os problemas causados pela pobreza. Este é dinheiro que não produz nada, pode ser definido como Dívida Má. Mas esta Dívida Má é sempre fruto duma má gestão anterior. Isso cria um paradoxo. “Paradoxo” com “x”.
– Eu sei como se escreve.
– Estas elites que não querem ver o dinheiro do Estado gasto, afinal conseguem fazer o Estado gastar na mesma, só que de forma improdutiva. Eis o truque para que os Países sejam obrigados a gastar sem criar riqueza: criar Dívida Má, que não cria riqueza. Desta forma eis que os cidadãos ficam ignorantes como tu…
– Obrigado…
– …com péssimos serviços, cada vez mais pobres e, ao mesmo tempo, vejam a Dívida como algo de mau, sempre. Assim está criado o fantasma da Dívida Má. E todos concordam: a Dívida é algo de terrível, deve ser combatida, reduzida. Na Europa foram mais além: convenceram todos que o importante era submeter os Estados com leis mais fortes daquelas que um Estado poderia criar. E para facilitar a tarefa, substituíram o dinheiro com pedaços de papel privado.
– O Euro…pois Leo, esta é uma coisa que nunca percebi: porque os políticos agora não podem gastar os Euros como antes faziam com as moedas locais? Como os Escudos, por exemplo, as Lire, os Francos…
– Para perceber este ponto é fundamental ler a obra de Spitz.
– Spitz?
– É um alemão, não conheces. Na sua obra, “Perceber o Euro em 179 episódios”, explica que existe uma grande diferença entre Euro e moedas nacionais: as moedas nacionais podem ser criadas, teoricamente sem limitações, o Euro não, deve ser adquirido. Quem cria o Euro (isso sim a partir do nada) é o Banco Central Europeu, o BCE, nas mãos dos privados. Mas para comprar o Euro, os vários Estados têm que pagar. E como pagam se já não podem criar dinheiro? Criando dívida, mas dívida real desta vez. Emitem Títulos de Estado que vendem no mercado; com o dinheiro obtido compram Euros. Mas, repito, desta vez a dívida é bem real, o Estado (e toda a sociedade com ele) fica endividado.
– Então porque o Estado não cria um número infinito de Títulos de Estado com os quais, uma vez vendidos, possa comprar um número infinito de Euros?
– Spitz explica isso também. Antes, como dissemos, o Estado tinha uma dívida mas o problema qual era? Era suficiente imprimir dinheiro e pagar a dívida. Isso dito de forma simples, claro. E emitir Títulos de Estado era uma opção. Mas na altura os investidores não tinham problemas em comprar as dívidas do Estado, pois tinham a certeza de que o Estado teria pago os Títulos uma vez chegado o prazo. E o Estado pagava sempre, sem problema: era só imprimir dinheiro. Agora a coisa é bem diferente. Hoje Portugal, tanto para fazer um exemplo, emite Títulos de Estado que vende e com o dinheiro obtido compra Euros. Mas se Portugal não conseguir vender os Títulos? Não pode comprar Euros. E se não pode comprar Euro, como pode reembolsar os Títulos já vendidos?
– Ahhhhhh…por isso surgiu esta coisa da agências de rating…o rating da dívida…
– Exacto. O rating da dívida nunca deu problema na Europa ao longo das décadas, pois os Estados criavam a própria moeda e os Títulos emitidos eram pagos, sempre. Agora não, agora a dívida pode não ser paga. Agora toda a dívida é paga em Euros; e para pagar em Euros, os Estados têm que emitir mais dívida para poder pagar os Títulos já emitidos, com juros obviamente, e ao mesmo tempo para fazer funcionar a máquina do Estado. E quando um Estado entrar em dificuldade,os juros dos Títulos de Estado crescem e a dívida, a Má Divida, também. Então o Estado terá que emitir cada vez mais Títulos, com juros cada vez maiores e a dívida começará a subir em flecha. Até o ponto que emitir Títulos é um suicídio, tantos são os juros.
– É por isso que a Grécia faliu, Portugal faliu, Irlanda faliu…
-…Italia falirá, Espanha falirá, até a França. O jogo não é sustentável, é apenas criação de dívida, Má Dívida. O Euro é dívida. Os bancos não emprestam dinheiro porque estão cheios de Títulos de Estado que são apenas dívida e não serão pagos. Assim limitam o crédito. Mas ao fazer isso, a economia encontra cada vez mais dificuldades em funcionar, são cada vez mais as empresas que fecham e diminuem os investimentos. Então os bancos olham para os Estados, para a economia, e dizem : “Uhi, como estão endividados”. E limitam o crédito ainda mais, pois sabem que nesta situação bem poucas são as possibilidades de honrar as dívidas.
– E os Estados? Que acontece com a Gaveta do Estado?
– Acontece nada. Os políticos actuam com cortes, que depois significam menos dinheiro para os cidadãos. Mas, como vimos, menos dinheiro na gaveta dos cidadãos significa menos riqueza. Menos riqueza significa cada vez menos impostos pagos. Menos impostos pagos significa menos receita para o Estado que assim fica mais pobre e tem que cortar ainda mais.
– É como um cão que morde a cauda.
– Que é isso?
– É uma maneira de dizer, significa é um círculo.
– Que maneira estúpida de falar. Seria como dizer “um homem que morde os dedos do pé”.
– Ok, ok, então dizemos: “pescadinha de rabo na boca”, pode ser?
– Assim já é melhor…
– Mas Leo, este é um esquema bem triste…
– Qual esquema, o da pescadinha?
– Não, o do Euro…quero dizer, ninguém pensou nas consequências?
– Claro que pensaram nisso, coisas assim não acontecem por acaso.
– Então foi tudo orquestrado? E quem foi o autor? Um político?
– Político? Esquece os políticos, estes são apenas a parte visível da peça, são os actores. Os autores ficam atrás, nos bastidores. Mas disso vamos falar da próxima vez, agora publica o post que eu tenho que acabar de ler “Como entender quem está atrás do Grande Esquema em 179 lições”, de Rottweiler.
– Rottweiler? Mas onde buscas estes autores? Quem é esta gente?
– É um alemão, não conheces.
– Mas não conheço ninguém?
– E que culpa tenho eu que sou cão? Atordoado…

Ipse dixit.

As coisas que este cão sabe… – Parte I
As coisas que este cão sabe… – Parte II
As coisas que este cão sabe… – Parte III
As coisas que este cão sabe… – Parte IV
As coisas que este cão sabe… – Parte V