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Porque Nibiru não existe

(actualizado em 04 de Março de 2019)
Experimentem procurar a palavra Nibiru com Google: 7.230.000 resultados.

Impressionante.

Acho que nesta altura todos sabemos o que é suposto ser Nibiru: um planeta que está a aproximar-se ao nosso planeta, a Terra. Ou, em alternativa, uma estrela com os seus planeta sem volta.

Depois há a história dos Annunaki, o povo feroz que o pseudo-arqueológo hebreu Sichtin descobriu nas antigas tábuas da Sumeria. E graças aos quais ganhou não pouco dinheiro.

Todos estão livres de acreditar naquilo que mais lhes apetecer, isso parece-me claro. Tudo bem. Mas eu tenho o direito de não acreditar, também isso é claro, e de explicar porque acho Nibiru uma excelente ideia editorial mas um péssimo assunto histórico-científico.

Começamos pelo início.

O economista falido

O simpático Sitchin (que é bem lembrar nunca foi arqueólogo mas economista) afirma ter encontrado a saga de Nibiru e dos Annunaki em antigos escritos originários da Sumeria, além de documentos em antigo hebraico, acádico e babilonês.

O primeiro problema é que outros arqueólogos tinham traduzido antes e depois os mesmos textos e os resultados sempre foram completamente diferentes. Sitchin atribui às palavras originais significados diversos dos “colegas”. Isso por si poderia ser bom, pois Sitchin poderia ter sido um génio.

Mas Sicthin esqueceu-se que os Sumeros tinham inventado também os dicionários, alguns dos quais chegaram até nós. E, segundo os dicionários criados pelos mesmos Sumerios, Sitchin está redondamente errado.

Hoje existe o Sumerian Lexicon, um livro que pode ser adquirido por pouco mais de 60 Euros, e que fornece as bases da gramática sumera (que Sitchin ignora). Mas sem gastar dinheiro, podem fazer um pouco de aprendizagem em Sumerian.org e verificar.

O que eu digo é o seguinte: mas porque todos confiam nas traduções de Sitchin, que nem arqueólogo, histórico ou linguista era? É um pouco como ter a febre e ir ao médico e depois tomar um ansiolítico e não a aspirina porque segundo o carpinteiro, que leu muito, é bem melhor. Faz sentido?

Todas as pessoas que acreditam cegamente em Nibiru deram-se ao trabalho de verificar, não digo todos os livros de Sitchin, mas aos menos duas ou três frases, as mais importantes? Já isso seria suficiente para definir Nibiru como algo sem sentido. Mas vamos em frente.

Nas tábuas analisadas por Sitchn não existe o termo Annunaki. Não é que apareça poucas vezes: não existe mesmo. É bom lembrar que as tábuas em questão não são 6 ou 7, mas cerca de meio milhão.

Vamos ver o selo que está na base de toda a teoria. É isso:

O que interessa é a representação dum planetário visível na zona em cima à esquerda:
Segundo Sichtin, os Sumeros tinham conhecimentos astronómicos muito avançados, ao ponto que conseguiram representar todos os planetas do Sistema Solar:

Primeira observação: os Sumerios conseguiam ver até Plutão (e como?) mas não repararam que Saturno tem anéis? Bastante curioso, pois esta é uma das características mais evidentes de quem observe o nosso sistema solar..

A seguir: os Sumerios conseguiam ver até o 11 planeta mas depois eram incapazes de representar o Sistema Solar com um mínimo de ordem (pois os planetas aparecem segundo uma disposição caótica). E até confundiam a Lua com um planeta.

A impressão é que a imagem não mostre o Sistema Solar; de facto, é mais parecido com as Plêiades, algo recorrente nas mitologias e nas observações dos antigos povos.

Mas Sichtin vai além: consegue encontrar descrições de Úrano e Neptuno (o que não deve ter sido complicado: ao atribuir significados diferentes às palavras é possível encontrar tudo e mais alguma coisa). Segundo o escritor, os dois planetas seriam verdes, ricos de vegetação e de vida. Pena que ambos os planetas sejam na realidade bolhas de gás, com uma temperatura média de -215 ºC. Mas para os adeptos de Nibiru estas são ninharias.

Nibiru, planeta fresquinho

Depois há a questão de Nibiru, o planeta.
Pensamos nisso.

Nibiru não tem um Sol como nós, por isso o dia em Nibiru é preto, com apenas as luzes das estrelas. Mas sem Sol não há calor: e como a temperatura no espaço está perto do zero absoluto, podemos postular um clima bastante fresco, à volta de 200 e passa graus negativos. Nada mal: não há estações, não há luz para a fotossíntese, nada, só frio e um gelo desgraçado. Não admira que os Annunaki sejam um povo mal-humorado.

Claro está: para um “fiel” de Nibiru estas coisas não contam, pois são todos pormenores que os Annunaki ultrapassaram graças a uma tecnologia superior.

Então vamos em frente. E que tal uma demonstração científica da impossibilidade dum planeta como Nibiru? Em internet é bastante simples encontrar bom material em propósito: é só boa vontade, nada mais do que isso.

Resumimos: teorizar a existência dum planeta que de vez em quando entra no interior do Sistema Solar não tem sentido. E isso por uma razão extremamente simples: planetas como Úrano, Neptuno ou até Saturno hoje não estariam aí onde na verdade estão e sempre estiveram. Teriam sido afastados pelas imensas forças gravitacionais.
E esta não é uma afirmação da Nasa, mas de Sir Isaac Newton.

História? Física? No lixo

O facto dos planetas exteriores ainda estarem onde estão é a melhor prova de que Nibiru nunca entrou no nosso Sistema Solar.

O que vamos fazer? Deitar no lixo 300 anos de física só porque um economista diz que está tudo errado? Ou também Newton era parte duma conspiração contra Nibiru?

Mas vamos em frente. Admitimos que:

  • Sichtin era mais inteligente e preparado de que todos os verdadeiros arqueólogos.
  • Arqueólogos, históricos e astrofísicos de todo o mundo são ao serviço da grande conspiração que encobre a verdade.
  • Nibiru não é um planeta gélido e sem luz mas um lugar maravilhoso, o berço dos Annunaki.
  • Todos os conhecimentos da física dos últimos 300 anos são lixo, pois Nibiru demonstra o contrário.

Isso significa que Nibiru já passou nas nossas redondezas, correcto? Segundo os cálculos de Sitchin Nibiru tem uma periodicidade de 3.600 anos e isso significa que há 3.600 anos, mais ou menos, Nibiru esteve aqui. Então pergunto: como é possivel que apenas os Sumeros tenham recordações do evento?

Há 3.600 anos corria o século XVI a.C., ou 1.500 a.C.
Os Hititas corriam com os seus cavalos, os Chineses inventavam a bússola, os Aquéios migravam para a Grécia, nascia a civilização micênica. Isso para não falar do Antigo Egipto. Porque nenhum destes povos fala de destruições terríveis, de terramotos abismais, de novos planetas visíveis no céu?

Em particular os Egípcios: mantinham relatos completos e pormenorizados de tudo o que acontecia no Reino: porque nem uma palavra?

Mas ok, vamos supor que todos estes povos transmitiram algo e que ao longo dos séculos estes conhecimentos foram escondidos por uma elite malvada e conspiracionista.

As provas

Vamos ver as provas. Porque podemos não acreditar, mas de Nibiru existem montes de provas, justo? Alguém viu Nibiru? É possível fornecer uma imagem de Nibiru? Há milhões de astrófilos espalhados pela Terra, dado que Nibiru está a aproximar-se deveria ser simples ter uma imagem. E, segundo os fiéis de Nibiru, é possível ver mesmo isso: Nibiru em aproximação. Pena que todas as imagens disponíveis na internet sejam:

  • objectos normais do espaço
  • fotomontagens
  • reflexos
  • parélios (fenómeno absolutamente natural quando apontamos uma câmara na direcção do Sol ou de outra fonte de luz)

Não há excepções. E os vídeos não são melhores. Aqui, por exemplo, a última fadiga dum youtuber brasileiro que publicou há poucos dias um vídeo originário dos EUA: é Nibiru, visível com um “potente” telescópio aos infravermelhos.

Mas afinal usar um telescópio para quê? Nibiru pode ser visto tranquilamente a olho nu a partir das praias do Brasil: nada de infravermelho, é só ver o que se passa no céu.

Há centenas de vídeos como estes, com centenas de Nibirus diferentes: pequeninos, enormes, azuis, vermelhos, verdes, com luas, sem luas… Nibiru: o planeta à medida do observador.

A fé Nibiru

Falar de todos os disparates que circulam em relação a Nibiru pede muito mais de que um simples artigo: Nibiru vem do Sul, Nibiru e a Sonda Estéreo, Nibiru atrás da cometa, Nibiru em forma de aves, Nibiru e os 7 satélites…

A verdade é que Nibiru é uma fé. E, como tal, a razão não pode vencer. Quem acredita encontrará explicações para tudo e não mudará de ideia.

Eu tenho sorte: sempre gostei de astrofísica, sempre estive fascinado por estrelas e planetas e nunca as leituras ou a vontade de perceber neste sentido faltaram. Por isso é muito simples perceber porque a história de Nibiru não tem nem pés nem cabeça. Seria possível encher páginas de provas que demonstram a não existência de Nibiru, mas a verdade é que não vale a pena gastar tanto tempo com um não-assunto como este.

Vice-versa, há quem nunca ficou interessado em astrofísica ou história então as coisas podem mudar: aparece um fulano que diz ser perito, faz afirmações, traz documentos, diagramas, esquemas, e pronto, eis que uma teoria absurda, sem um mínimo fundamento histórico ou físico, torna-se uma realidade. Se o Leitor tiver dúvidas pode contactar-me, não há problemas. Para já um conselho: abram os vossos olhos.

 

Ipse dixit.