Estados Unidos numa guerra civil?
Não seria a primeira vez. Mas por enquanto a perspectiva não parece iminente.
Todavia é sintomático o facto duma revista conceituada como Time dedicar espaço ao assunto.
Vamos ler um artigo de Prison Planet:
Enquanto os manifestantes em França entram no sétimo dia de greve e manifestações contra as medidas de austeridade draconianas, muitos observadores políticos nos Estados Unidos perguntam quanto tempo falta antes que tais cenas ocorram nas ruas da América, e até o Time Magazine admite que a perspectiva duma guerra civil nos EUA “não parece tão absurda “. Para ser claros, o artigo de Stephen Gandel intitulado “A Reserva Federal irá causar uma guerra civil? ” exclui a possibilidade de que a próxima reunião da Federal Reserve de Novembro, no dia 3, na qual Ben Bernanke deve anunciar uma nova rodada de dinheiro “fácil”, possa desencadear tumultos internos; mas não redimensiona a hipótese dum “deslocamento social” de longo prazo como resultado da economia em ruína, como muitos esperam.
Parece apenas uma questão de tempo antes dos Americanos serem afectados por medidas de austeridade quase idênticas às que levaram os Franceses a bloquear o fornecimento de combustível, aos choques com a polícia, a bloquear o transporte aéreo e ferroviário e paralisar boa parte do País.
A pergunta que fica é a seguinte: como os Americanos vão reagir se o governo Obama ir em frente com o plano para “tomar posse” das pensões privadas de todos, pensões que serão engolidas pela Social Security Administration no âmbito do programa dos Guaranteed Retirement Account (GRA) obrigatórios?
Como os Americanos irão reagir ao anúncio iminente de que a Federal Reserve pode enfraquece ainda mais o Dólar com a compra de activos de alto risco (a preços inflacionados), actualmente nas mãos dos gigantes bancários, com dinheiro impresso a partir do nada?
A revista Time, como bom guardião do establishment, não deveria diminuir o potencial da desobediência civil em massa? Pelo contrário:destaca o conceito (avançado num artigo de Zero Hedge) segundo o qual o plano do Fed para um novo Quantitative Easing “coloca a sociedade norte-americana à beira da guerra civil, se não pior.”
O artigo também contém uma citação dum artigo do Washington Blog que adverte, com as palavras do economista que as políticas da Fed poderiam levar à destruição da própria república:
[potência dos blogs! Acabo esta artigo e logo vou escrever para o Governo de Portugal…NDT]Num sentido muito real, Bernanke está a empurrar as avós e avôs abaixo das escadas, e de propósito. E, literalmente, ameaça os membros das classes económicas mais baixas, também quem é aposentado, com a pobreza extrema e a morte; e numa nação justa, onde a justiça controlasse os abusos dos cleptocratas, seria acusado de conspiração sediciosa, consideradas as suas políticas que inevitavelmente levam à destruição da nossa república.
Sustentando esta noção, Gandel escreve que “com o aumento dos seguidores do Tea Party, a ideia duma guerra civil por motivos económicos, não parece tão absurda nos dias de hoje.”
Sim, não é um engano: agora mesmo a revista Time admite que a tendência da actual conjuntura económica do País poderia levar direito para a guerra civil e revolução.
Gandel conclui o artigo deixando a perspectiva duma desordem civil generalizada como uma questão em aberto:
Assim, parece claro o que a Fed poderia fazer. A forma como a economia, o exército eo resto de nós vai reagir será explodir. A contagem regressiva já começou. Faltam 15 dias para o Fedarmageddon.
É claro, muitas pessoas já fizeram previsões acerca de desordem civil, distúrbios para os alimentos e rebeliões fiscais ao longo dos últimos dois anos, mas o facto do Time Magazine levar a sério a noção de guerra civil nos Estados Unidos lembra que a distancia entre nós e o precipício é muito reduzida.
O relatório do U.S. Army War CollegeMuitos especialistas em previsões, governos, agências de inteligência e organismos internacionais estão à espera de motins em massa e distúrbios em resposta ao agravamento do quadro económico.
Em Novembro de 2008, mesmo na altura em que estava a desenrolar-se a implosão económica, o U. S. Army War College publicou um relatório oficial intitulado Known Unknowns: Unconventional ‘Strategic Shocks’ in Defence Strategy Development.
O relatório advertia que o exército tinha que estar pronto para uma “violenta deslocação estratégica dentro dos Estados Unidos, que poderia ter sido causada por um colapso económico inesperado, por uma forte resistência nacional, as emergências generalizada na saúde pública ou perda de ordem legal e político.
A violência civil generalizada forçaria a defesa a reorientar as prioridades in extremis para defender a ordem nacional basilar e segurança humana
Um relatório do Ministério da Defesa britânico chegou perto disso ao prever que dentro de 30 anos, o fosso crescente entre ricos e classe média, junto com uma subclasse urbana que ameaça a ordem social, implica que:
as classes médias de todo o mundo poderiam unir-se, utilizando o acesso aos conhecimentos, competências e recursos para modelar processos transnacionais no interesse da própria classe, e que as classes médias poderiam tornar-se uma classe revolucionária.
A maneira em que os Americanos irão reagir ao que muitos vêem como o ponto de viragem da economia americana, o anúncio do Fed do dia 3 de Novembro, depende em grande medida da forma como eles compreenderem que o seu futuro financeiro e o dos seus filhos está no fio da navalha, como nunca tinha acontecido antes.
Como indicado no Economic Collapse Blog , o Quantitative Easing 2 (QE2) é o maior roubo da história, e nada mais é que uma outra enorme transferência de riqueza dos contribuintes norte-americanos para os grandes bancos. O dinheiro que Bernanke imprime do nada, além de desvalorizar a moeda, cada Dólar ganho ou poupado pelos cidadãos norte-americanos, será usado para comprar grandes quantidades de “activos tóxicos” dos bancos dos EUA a um preço bem acima do preço de mercado.
Os bancos pequenos serão deixados morrer, enquanto os enormes monólitos poderão recolher montanhas de dinheiro à custa dos trabalhadores americanos.
O impacto a longo prazo da compra destes activos-lixo será um holocausto inflacionário que não fará nada para salvar a economia americana e, em vez disso, provocará a desvalorização dos imóveis dos contribuintes americanos.
Os Estados Unidos já estão na direcção da inflação e a Reserva Federal ainda não tem imprimido um Dólar:o que irá acontecer depois de ter injectado triliões de Dólares na desastrada economia dos EUA?
Mas, infelizmente, os eleitores americanos não podem expressar uma opinião contrária a isso. A nossa política monetária nacional está nas mãos dum banco central não eleito, que pode fazer tudo o que ele desejar. [faz lembrar outro continente…NDT]
Se mais Americanos estivessem cientes do que a Reserva Federal está para fazer com o nosso futuro financeiro, então a “guerra civil”, que mesmo a revista Time já justifica como uma resposta à crise, seria uma muito plausível.
Não sabem o que é um Quantitative Easing? Maus!
Então podem ler este artigo, “Quantitative quê?” publicado no passado dia 6 de Outubro.
E que tal ler “Quem cria o dinheiro“? Não seria má ideia.
Para complementar, algumas considerações adicionais.
Imaginem de ter fome, muita fome: e, em cima da mesa, uma maçã.
Como esta maçã é a única, ela tem grande importância. Se a maçã caísse, seria uma desgraça, não seria possível comer nada.
Imaginem agora ter sempre fome mas ter em cima da mesa 10 maçãs. Quanto vale cada maçã? Vale menos: cai uma maçã? Paciência, temos outras nove! O valor intrínseco de cada maçã depende assim da nossa fome e do número de maçãs que temos a disposição.
O mesmo acontece com o dinheiro. No mercado há muito dinheiro? Então cada nota tem um valor menor.
Esta é a inflação.
Dúvida: mas o valor imprimido nas notas é sempre o mesmo: antes valiam 10 Euros, agora continuam a valer 10 Euros.
Sim, verdade: mas antes com 10 Euros era possível comprar 10 pacotes de bolachas, agora com os mesmos 10 Euros posso comprar só 5 pacotes (o que é bom pois as bolachas engordam).
Se os nossos 10 Euros perdem valor e o nosso ordenado aumenta, então não temos problema. Mas se o nosso ordenado fica na mesma começam os problemas.
Agora, imaginem de viver nos Estados Unidos. O leitor tem guardados no banco uma nota de 10 Euros, e está todo feliz porque esta nota tem grande valor. É o fruto duma vida de trabalho e vale muito, vale bem 10 pacotes de bolachas! (mas que raio de trabalho fazia o leitor?)
No dia 3 de Novembro a Federal Reserve diz: meus amigos, a nossa economia está mal e para melhorar temos que imprimir dinheiro e inundar o País com triliões de notas.
Assim como acontece com as maçãs, cada nota perde valor. Também os 10 Euros guardados no banco valem menos. O fruto duma vida de trabalho reduzido, de repente.
O leitor não fica enervado? Claro que fica.
E mais: com estes triliões de dinheiro que faz a Federal Reserve? Compra títulos sem valor que os bancos detêm e com os quais não sabem o que fazer. Estes títulos são verdadeiro lixo, nunca poderão permitir recuperar o investimento.
E quem são estes bancos? São os mesmos com os quais o leitor contraiu um mútuo que já agora paga com esforço. Mas, após a inflação, o dinheiro do leitor terá um valor mais baixo, assim como o seu ordenado: pagar o mútuo será ainda mais difícil, pois tudo será mais caro!
O leitor fica muito enervado.
Mas estes bancos não são os mesmos que provocaram a crise? Não foram eles que em 2008 despoletaram a crise por causa dos subprimes e dos produtos financeiros sem valor, tudo pelo desejo de ganhar ainda mais?
O leitor fica extremamente enervado.
Agora, juntem alguns milhões de leitores extremamente enervados e podemos ter algumas consequências desagradáveis.
Moral da história: nunca guardar só 10 Euros na conta 🙂
Ipse dixit
Fonte: Prison Planet
