Site icon

Quem ganha com o aumento do combustível?

Os preços da gasolina e do gasóleo não param de aumentar. Malditas empresas petrolíferas que exploram a conjuntura geopolítica internacional para sacar o dinheiro dos cidadãos e realizar lucros fabulosos! Ahi, guerra desgraçada que empobrece todos com a excepção de quem vende petróleo! Ahi… ahi?

Esperem um segundo: as empresas petrolíferas são um bando de criminosos e acerca disso não há muito mais para dizer, longe de mim a ideia de gastar uma só palavra para defende-las. Mas acerca dos preços dos combustíveis: temos a certeza de que seja toda culpa da guerra?

Combustíveis em Portugal

Vamos ver como é composto o preço dum litro de gasolina em Portugal segundo quanto relata a DECO:

Duas simples contas.

Cotação e transporte incidem 31% sobre o preço final. Acrescentamos um 3.2% por causa do biocombustível que é incorporado e outro 0.30% porque alguém tem que descarregar o carburante e guarda-lo antes que seja vendido. Depois há um 10.10% que é quanto ganham a petrolífera e o distribuidor (a bomba).

Pelo que temos: 31% + 3.2% + 0.30% + 10.10% = 44.6%

Estes são os custos “vivos”, por assim dizer. Para chegar ao preço final (100%) falta 55.4%. Não é pouco: é mais de metade. Que nasce desta forma:

Portanto, mais de metade do preço dum litro de gasolina é composto por impostos. Que acabam nos bolsos de quem? Das petrolíferas? Não. Das bombas? Não. São os bolsos do Estado.

Considerado que o preço médio da gasolina simples 95 é hoje (16/03/2022) uns alucinantes 2.028 Euros, significa que o Estado mete 1.123 Euros no bolso por cada litro adquirido. E dado que qualquer automóvel é capaz de armazenar por volta de 40 litros de combustível, cada depósito atestado significa 44.92 Euros “doados” ao Estado português. Nada mal como gorjeta.

As contas não são muito diferentes no caso do gasóleo, cujo preço médio é agora de 1.979 Euros por litro:

Neste caso temos 49.8% de custos “vivos”, por assim dizer, e 50.20% de impostos. No Sábado fui atestar e, como o meu automóvel leva 80 litros de combustível, quase tiveram que reanimar-me. Mas isso foi antes dos últimos aumentos. Da próxima vez, antes de pegar na mangueira, terei que confirmar a presença dum desfibrilador nas proximidades.

Pergunta: quanto custaria um litro de combustível sem impostos?

Seria um pouco diferente. Ah, mas taxas e impostos são necessários, o que seria do Estado sem eles, como poderiam funcionar os hospitais, etc.,etc.

Combustíveis no Brasil

No Brasil a situação é um pouco diferente (e também mais complicada), no sentido que o País é um grande produtor de petróleo (pelo que seria lícito esperar preços mais baixos) e porque os preços finais são influenciados pelas políticas locais. Os preços estão mais baixos, de facto, mas não tanto quanto seria lícito esperar.

Segundo o portal Global Petrol Price, um litro de gasolina custa hoje, em média, 6,683 Reais (1.192 €), mas há diferenças regionais importantes: na Bahia, o valor cobrado é de 8,770 Reais (1.555 €), enquanto em Macapá (Amapá) é de 5,190 Reais (0.920 €) ao litro.

O etanol, desconhecido aqui na Europa, pode custar até 7,50 Reais, enquanto a média nacional fica perto dos 5 Reais.

Consideradas as diferenças entre os respectivos salários, podemos tranquilamente dizer que também no Brasil os preços dos combustíveis são elevados. O que é estranho, repetimos, porque o País é um forte produtor de petróleo.

Explicação? O preço de cada litro de gasolina no Brasil é composto (em média) por:

Feitas as contas, por cada litro de combustível o Estado brasileiro arrecada 2.44 Reais através de impostos (tributos federais), mais ou menos uma terceira parte. Que até nem seria um exagero, comparado com quanto acontece aqui na Europa. Só que estamos a falar do Brasil, então as coisas não ficam tão simples assim.

Existe a “realização da Petrobras” que complica tudo: porque a empresa (de maioria estadual) cobra na refinaria os chamados PETR3 e PETR4 (que a mim parecem um forma de extorsão), que incidem de forma determinante sobre os preços praticados nas bombas. Além disso, a fórmula usada pela Petrobras para calcular a relação entre os preços praticados pela empresa no Brasil e o mercado internacional não é conhecida. E a Petrobras, se do ponto de vista legal já não opera num regime de monopólio, na prática continua a ter uma posição única no panorama do petroquímico brasileiro.

Lamento, mas nesta altura levanto as mãos e rendo-me: é demais para o meu cerebrinho. Simplificamos e sintetizamos desta forma: também no Brasil os preços dos combustíveis são caros.

O Estado e o café

Resumindo: sim, está a guerra, há as petrolíferas que querem lucrar, há a escassez (onde?), mas o Estado tem o papel principal nos absurdos preços praticados ao consumidor. Por incrível que pareça, e ao contrário do que é nós contado, as margens de lucro das empresas petrolíferas incidem de forma residual no que pagamos. A maior fatia do bolo vai para os cofres do Estado.

Temos que amaldiçoar as empresas petrolíferas? Sim, sempre: é a primeira coisa que qualquer pessoa tem fazer ao levantar-se de manhã, mesmo antes do café. Mas imediatamente a seguir é obrigatório um pensamento dedicado ao nosso Estado que espreme os seus cidadãos como limões, sem um pingo de vergonha e atirando as responsabilidades para outros.

E antes de pegar nas chaves de casa, um último pensamento: quem é que vota e continua a eleger estes agiotas que entre nós chamamos simpaticamente de “representantes do povo”? Muito bem, agora podem sair de casa.

Quem determina o preço?

Para acabar, vamos esquecer os impostos sobre os carburantes para perguntar: quem decide qual o preço do barril de petróleo? Não de cada litro de gasolina ou gasóleo, mas directamente do barril.

É importante? É. Porque na realidade o preço dos combustíveis não depende do custo de um barril de petróleo, mas dos preços definidos por uma agência privada como sede em Londres e cujo nome é S&P Global Commodity Insights, Platts para os amigos. Na Platts operam os principais fundos de investimento do mundo, começando por Barclays Global Investors, Goldman Sachs Asset Management, Vanguard Group, Deutsche Asset Management Americas, Barclays, Global Investor…

Estes fundos definem o preço dos combustíveis todos os dias, através de autênticas apostas sobre os movimentos das cotações, não através dos custos de extracção, transporte e armazenamento. Por outras palavras, o petróleo bruto ou o gás aumentam 10%? O preço ao consumidor poderia aumentar apenas de 10%, mas se a Platts “aposta” numa futura crise, com relativos aumentos de 30 ou 40%, é isso que pagaremos desde já.

As divertidas “apostas” da Platts determinam os preços de petróleo, electricidade, gás natural, carvão, energia nuclear, refinação petroquímica, benzeno, metanol, ouro, alumínio… na prática: tudo.

Algo muito curioso: quando as “apostas” da Platts forem descendentes, os preços não baixam com a mesma rapidez. A razão deste fenómeno é um mistério.

Como vimos, a Platts determina também o preço do gás: e, apesar da guerra na Ucrânia, a Rússia continua a fornecer a Europa através dos seus gasodutos. Os preços de extracção e transporte podem ter aumentado (todos querem uma fatia do bolo) , mas não há escassez, pelo menos não há ainda. Todavia o preço do gás disparou. Porquê será?

 

Ipse dixit.

Imagem: Max Pixel CC0 Public Domain