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Feliz Natal Anormal!

Honestamente: nem queria saber do Natal.

E este Natal é ainda pior. Deveria ter sido o Natal do definitivo “regresso à normalidade”, será o segundo Natal da “manutenção da anormalidade”. Espero que um dia seja possível olhar para trás como se costuma olhar para um pesadelo que passou, um período de loucura colectiva como a História ocasionalmente apresenta.

Mas enquanto esperamos por aquele momento, se ele vier, uma nota. Se dum lado o psicodrama quebrou muitas ilusões, também abriu uma dimensão humana inesperada. Estou em contacto com pessoas que até pouco tempo atrás não conhecia e que nem planeava conhecer: não sei qual a ideologia política deles e nem me interessa. Descobrimos afinidades e solidariedade ideologicamente transversais, conseguimos encontrar conforto nas palavras e nos actos de pessoas “novas”, com as quais estabelecemos uma ligação baseada num sentido primário de liberdade, respeito pela pessoa e justiça. Tudo isso é típico das alturas de opressão, como é a presente.

Esta ligação é “pré-política” é, ao mesmo tempo, verdadeiramente política no sentido primitivo do termo: é a confiança humana na capacidade de cooperar. É o abandono definitivo das categorias políticas do passado, começando pelas gaiolas mentais da “Direita” e da “Esquerda”.

Somos poucos, sem dúvida. Mas, como foi notado nalguns comentários por aqui, alguém da maioria silenciosa e cúmplice começa agora a revisitar o que fez e foi feito: é já algo, pequenas brechas.

O mundo que nos espera depois desta esquina é um mundo que deve ser politicamente reconstruido a partir do zero, porque já não há pedra sobre pedra do velho mundo, embora muitos ainda não se tenham apercebido disso. Se Natal é o tempo da esperança, então mais vale lembrar que o que é humano tem falhas: sempre e sem excepções, não importa quanto dinheiro ou quanto poder estiverem envolvidos. E por cada acção haverá sempre uma reacção. Eu acredito firmemente nisso.

Na medida do possível, Feliz Natal para todos os Leitores. E obrigado por terem criado e manterem esta pequena comunidade.

 

Ipse dixit.