Site icon

O Peak Oil e o custo das energias renováveis – Parte I

Artigo dividido em duas partes, nas quais serão tratados os assuntos Peak Oil e custos das renováveis.

 

O 2020 ficará na história como o ano em que o sector do petróleo, gás e carvão passou por uma mudança radical? Provável. De acordo com analistas e especialistas, de facto, a indústria fóssil está a viver estes dias o maior desafio dos seus 100 anos de história e assim será presumivelmente nos próximos meses. A baixa procura de petróleo devida à pandemia do coronavírus combinada com uma guerra selvagem de preços entre os principais produtores mundiais, está a empurrar empresas e corporações para uma crise sem precedentes.

Se ainda é demasiado cedo para compreender se, no final deste verdadeiro terramoto, tudo voltará a ser como era antes ou se mudará radicalmente, o facto continua a ser a “carnificina” da indústria fóssil: as valorizações bolsistas diminuíram para metade, pelo menos dois terços dos investimentos anuais (cerca de 130 mil milhões de Dólares) desapareceram, a capacidade de armazenamento está cada vez mais saturada e, em alguns mercados, os preços do petróleo atingiram um valor negativo, com os vendedores que têm de pagar pelo petróleo ser vendido.

Enquanto a procura de petróleo cai devido aos encerramentos relacionados com a “pandemia”, segundo vários analistas (por exemplo Carbon Tarcker) este mesmo choque está a atingir uma indústria que já estava à beira de um pico estrutural, criado pelo crescente empenho dos Países em minimizar as emissões futuras ao abrigo do Acordo de Paris. De facto, já em 2018 as estimativas apontavam para o pico da procura em 2023, mas é possível que a “pandemia” tenha acelerado o processo: o pico já foi em 2019, talvez haja outro mini-pico em 2022, antes que o declínio inexorável comece.

No entanto, nem todos os peritos pensam que este declínio inexorável da indústria fóssil seja necessariamente bom para a energia limpa e para o clima. Dieter Helm, professor de política energética na Universidade de Oxford: “Pode ser uma má notícia do ponto de vista climático, porque pode manter a quota do petróleo no mercado por mais tempo, uma vez que é mais barato”, disse, e sublinhou a importância crucial das escolhas políticas a este respeito: “É aí que entra o imposto sobre o carbono. Agora é o momento”.

O que significa: “O petróleo é mais barato? Vamos taxa-lo para que as renováveis pareçam mais baratas”. E neste momento os governos estão a empregar somas extraordinárias para estimular a economia global devastada pelo Coronavírus. Dinheiro caído do céu ou pago pelos cidadãos? Fica a dúvida, justo? No entanto, o jogo tem tudo a ver com a forma como estes montantes são utilizados. Os líderes da União Europeia comprometeram-se a alinhar as suas medidas de emergência com o Acordo Verde (Green Dial), e Fatih Birol, director executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), afirmou que existe uma “oportunidade histórica” de investir em tecnologias energéticas que possam reduzir as emissões de gases com efeito de estufa.

Ao mesmo tempo, o pacote de ajuda dos EUA está a distribuir 60 mil milhões de Dólares entre as companhias aéreas em dificuldades enquanto oferece empréstimos a juros irrisórios à indústria fóssil, não exigindo praticamente qualquer garantia. O governo canadiano também afirmou que emprestará às suas companhias petrolíferas, realçando como estas são um “apoio vital” para ultrapassar a crise. Outros vão mais além, chegando a sugerir a nacionalização das principais companhias petrolíferas no Reino Unido, EUA e Canadá para evitar a falência em massa da indústria fóssil.

Aconteça o que acontecer, porém, todos os peritos parecem concordar que a indústria fóssil nunca mais será a mesma depois do duplo golpe da “pandemia” e da guerra de preços. Conclui Carbon Tracker: “As empresas não voltarão a emergir da crise à medida que entram nela”. Ámen.

Interessante sem dúvida: e estas são as considerações que é possível encontrar com maior facilidade nos órgãos de comunicação. Mas nada disso responde a uma simples pergunta: há petróleo ou não? Porque uma coisa é ser obrigado a mudar o paradigma energético por falta de recursos, outra coisa é mudar como opção unicamente política. As considerações acima reflectem o pico da procura, não o pico da produção. E são duas coisas diferentes.

O petróleo está a acabar?

Resposta breve: não.

Há décadas que se fala do fim da era dos combustíveis fósseis, mas parece que o que determinará o início de uma nova era não será a falta de petróleo, mas a sua substituição por fontes de energia alternativas que possam ser obtidas a um custo (alegadamente) mais baixo e mais rentável.

O fim da era do petróleo foi repetidamente adiado pelos analistas, mas as estimativas da indústria dos combustíveis fósseis feitas no início de 2020 não tinham tido em conta duas grandes perturbações: a guerra de preços desencadeada pela Arábia Saudita e a “pandemia” do Coronavírus. Variáveis às quais deve ser adicionado outro elemento que já tinha alarmado os produtores de petróleo: o óleo de xisto americano.

O aquecimento global é realidade? Pouco interessa nesta altura porque os Países de todo o mundo estão já a investir em fontes de energia renováveis. Esta mudança nas políticas energéticas já tinha feito soar os primeiros sinais de alarme nos Países que baseiam as suas economias nas exportações de petróleo, convencendo os mais avançados a diversificar as suas economias com resultados mais ou menos satisfatórios.

A entrada dos Estados Unidos no mercado do petróleo com o óleo de xisto (que pode ser extraído do solo graças a técnicas particularmente nocivas para o ambiente) também alterou o equilíbrio do sector, aumentando a concorrência e transformando os EUA de importadores em produtores, com consequências não só económicas mas também geopolíticas. Foi precisamente o desejo de limitar a concorrência americana que levou a Arábia Saudita em 2015 a não alterar os níveis de produção apesar da grande quantidade da oferta, provocando assim a queda do preço do petróleo.

Dúvida: mas a Arábia baixou os preços para prejudicar a industria do xisto americana ou foi uma operação concertada para provocar prejuízos em outros pontos do planeta como Brasil, Venezuela ou Irão? É possível apoiar uma ou outra teoria, ou até uma mistura das duas: o Leitor é que decide. Por aqui o foco está no petróleo.

E, do ponto de vista do ouro negro, a estratégia saudita falhou: o xisto resistiu (mal, mas resistiu) e o sector recuperou em 2017, quando foi assinada uma aliança com a Rússia que levou ao nascimento da Opec+, inaugurando uma época de cortes na produção para fazer subir o preço do barril. Com a chegada do Coronavírus, contudo, a situação agravou-se. Os sauditas impuseram novos cortes, mas a Rússia respondeu “não, obrigado”. A Arábia aumentou a produção provocando uma queda insustentável dos preços, forçando Moscovo a ceder. Com danos também para a economia e para os cofres da própria Arábia Saudita. A “pandemia” do Coronavírus e as consequências económicas do bloqueio fizeram o resto, causando uma acumulação excessiva de petróleo bruto e uma nova queda nos preços, estabilizados em cerca de 50 Dólares por barril no índice de Brent.

Como é possível observar neste curto resumo, os produtores aumentam ou cortam a produção segundo escolhas políticas e/ou económicas, não por falta de crude. E se o consumo continuar ao ritmo actual, as reservas do nosso planeta serão suficientes para os próximos 70 anos. Como relatava Focus (revista decididamente pró-ambientalismo e politicamente perto dos Democratas americanos), um estudo publicado em 2012 pelo site de informação financeira Bloomberg com base nos últimos dados divulgados pelo U.S. Geological Survey afirmava que, segundo os cientistas da agência americana, no subsolo da Terra haveria pelo menos 2 triliões de barris de petróleo bruto à espera de serem extraídos. E nos últimos anos as estimativas das reservas mundiais de crude tornaram-se mais optimistas porque começaram a ser considerados exploráveis novos campos como o da Patagónia ou do Vale do Rift Africano.

Doutro lado, todas as previsões acerca do fim do petróleo publicada desde os anos ’50 até hoje falharam redondamente: o Clube de Roma foi obrigado a adiar repetidamente o seu “fim do mundo” até deixar de fazer previsões. Se o primeiro Peak Oil tinha sido previsto no início dos anos ’70, as novas tecnologias de exploração e perfuração deslocaram repetidamente os picos de produção para a frente.

Actualmente, as modernas técnicas de prospecção geo-sísmica permitem explorar vastos trechos do fundo do mar em apenas alguns dias: navios especiais lançam cargas poderosas de ar comprimido na água, enviando violentas ondas de choque em direcção ao fundo do oceano. A análise do reflexo destas ondas permite aos investigadores extrapolar dados sobre a composição do subsolo. Se a procura do depósito for bem sucedida, a perfuração é confiada a outros navios especialmente equipados, capazes de perfurar o fundo do mar a profundidades até 8 km, em áreas onde as plataformas tradicionais nunca poderiam alcançar.

O problema reside aqui: quanto custa extrair o petróleo com as novas tecnologias? Ainda é rentável?

O custo da energia

Estabelecido que o fim do domínio do petróleo não será decretado pelo seu desaparecimento, mas sim pela sua menor rentabilidade e pela sua substituição por outras fontes de energia, sobra a pergunta: quanto custa a energia? Isso é: quanto custa um barril de petróleo comparado com a energia renovável? E aqui a resposta torna-se dificílima. Há teorias para todos os gostos e, sobretudo, há um oceano de dados não fiáveis porque, dependendo da visão do pesquisador, os custos de petróleo e renováveis mudam.

Por exemplo: as renováveis são mais rentáveis? Há artigos que demonstram que sim, sem dúvida: só esquecem-se de citar as subvenções estatais ao sector “verde”, as taxas sobre o CO2 ou o terrível impacto ambiental das “energias limpas”. Retirando estes “pormenores”, as renováveis são ainda mais caras do que o petróleo e do ponto de vista ambiental e social não há ganhos, bem pelo contrário.

São vários os custos “ocultos” do Green Dial. E são enormes. Pensamos só na remodelação das infraestruturas, algo que interessará o planeta todo. Pensamos nas recaídas geo-políticas. Imaginar uma transicção para o novo paradigma energético com custos limitados significa não ter a mínima noção da realidade. Não apenas isso, mas a inevitável diminuição da procura de petróleo nas próximas décadas tornará o barril cada vez menos caro: segundo o FMI, o rendimento do ouro negro no Médio Oriente e na África do Norte passou de mais de 1 trilião de Dólares em 2012 para 575 mil milhões de Dólares em 2019. Menos procura significa preços mais baixos: e preços mais baixos significam margens de lucro menores para os produtores mas preço final mais em conta para o consumidor. Este é outro factor que seria preciso ter em conta ao falar de “custo da energia” das renováveis, mas na realidade costuma ser alegremente esquecido.

Por esta razão é ainda possível encontrar artigos como o seguinte, publicado no diário Público no ano passado:

O mercado grossista, tal como funciona hoje em dia, surgiu em todo o Mundo há mais de 45 anos, muito antes da eletricidade renovável ser de origem eólica ou solar. A produção dominante da altura era de origem hídrica, a carvão, ou nuclear, e as centrais a gás natural começavam a aparecer.

Este mercado é baseado no princípio dos preços marginais de produção de eletricidade, ou seja, no preço dos combustíveis. Isto é, considera-se que cada central está a funcionar em pleno, que todos os custos de funcionamento (investimento, operação, manutenção, financiamento, taxas, impostos e combustível) estão pagos e que o custo marginal dessa central é o custo do combustível para produzir 1 MWh adicional, ou seja, o custo marginal do combustível.

Para que o leitor tenha uma ideia, hoje em dia o custo marginal duma central a carvão oscila entre os 40 e os 50 €/MWh, o de uma central a gás natural entre 65 e 80 €/MWh e o de uma central renovável hídrica, eólica ou solar é 0€/MWh, pois não se paga nada pela água, pelo vento ou pelo Sol. […]

As centrais térmicas, mais caras que as renováveis, funcionam no “pára-arranca”, e sempre assim funcionaram, muito antes de haver centrais eólicas ou solares. Nada mudou com o aparecimento das centrais renováveis eólicas e solares, e quem não perceber isto não é de certeza especialista de energia.

Título do artigo: “Especialistas que não sabem há muitos” (sic!). O autor, tal Professor António Sá da Costa, assume aqui que todos os custos de funcionamento estejam já pagos. Pena que, numa mudança de paradigma energético, a quase totalidade das estruturas capazes de alimentar a procura energética do planeta têm que ser ainda construídas enquanto a maioria das estruturas petrolíferas (extracção, cadeia de distribuição, etc.), por exemplo, já estão amplamente em função há décadas. Pena que não estejam quantificado todos os custos de funcionamento, incluídos os custos ambientais que no caso das renováveis ameaçam ser incrivelmente elevados, provavelmente maiores do que os custos já astronómicos do petróleo. Pena que também as centrais solares e eólicas funcionem no “pára-arranca” porque em Portugal (mas ouvi dizer que o mesmo acontece em outros Países) de noite o Sol não está disponível e também o vento não é uma constante. Pena, portanto, que antes de poder produzir um único MWh de custo “zero” serão precisos investimentos imensos e um tempo não determinado.

Quero que fique claro: aqui não se põe em causa o princípio das renováveis, que é justo, correcto, sagrado, santificado e sempre bem vindo. E nem se trata de defender o petróleo, que é uma fonte de energia altamente poluente e que mais cedo ou mais tarde a humanidade terá finalmente que abandonar. Aqui o problema é o frenesim para abraçar as alternativas já e descartar o petróleo já, independentemente dos custos.

Um salto até as Ilhas Falkland ou Malvinas. Explica Bloomberg num artigo do passado mês de Agosto:

Em tempos estiveram na primeira linha da nova era da indústria petrolífera enquanto as empresas vasculhavam o planeta em busca de recursos. No entanto, uma década após a descoberta de cerca de 1.7 mil milhões de barris de crude nas águas circundantes, o território ultramarino britânico conhecido pela criação de ovinos e pela tensão com a Argentina parece mais remoto do que nunca. Em vez da próxima fronteira, o projecto de extracção de energia corre o risco de ser acrescentado a uma lista daquilo a que as empresas chamam “activos irrecuperáveis”, o que lhes poderia custar enormes somas postas em naftalina.

A razão é simples: com a crise a acelerar a mudança para uma energia mais limpa a nível mundial, os combustíveis fósseis serão provavelmente mais baratos do que o esperado durante as próximas décadas, enquanto as emissões de carbono que contêm tornar-se-ão mais caros. Estes dois simples pressupostos significam que a exploração de alguns campos já não faz sentido do ponto de vista económico. A BP disse a 4 de Agosto que não fará mais nenhuma exploração em novos Países. […]

Continua o magazine empresarial:

A pressão para reduzir as emissões poderia também levar as empresas a deixar no solo as reservas “mais pesadas”, como foi reconhecido no mês passado quando se exigiu uma redução de 8 mil milhões de Dólares em activos com elevado teor de carbono. A lista dos projectos de maior risco inclui descobertas em águas profundas ao largo do Brasil, Angola e no Golfo do México, disse Parul Chopra, vice-presidente para a investigação a montante na Rystad. Os projectos de areias petrolíferas canadianos, tais como a expansão do desenvolvimento do Sunrise em Alberta, também estão em dúvida.

Mas se o óleo do xisto canadiano é estruturalmente mais caro, o que dizer das clássicas plataformas offshore?

A Sea Lion [empresa de extracção, ndt] precisa de preços de petróleo na ordem dos 40 Dólares para atingir o limiar de rentabilidade, mas provavelmente precisará de pelo menos 50 Dólares por barril para assegurar o arranque. Em última análise, com petróleo em abundância, dúvidas sobre a força da procura a longo prazo e pressão para eliminar a produção intensiva de carbono, cada vez mais projectos poderiam ser arquivados como no caso Sea Lion. “Muitos activos já estão trancados numa perspectiva dos ciclos do preço do petróleo”, disse Christyan Malek, Chefe de pesquisa de petróleo e gás da EMEA na JPMorgan Chase & Co. “Mas quando se adiciona a curva de carbono, retira-se um parte ainda maior”.

Pelo que o problema não parece ser a falta de petróleo e nem os eventuais custos acrescidos de extracção (excluindo o já citado óleo de xisto norte-americano): com o barril na casa dos 50 Dólares (como está hoje o Brent) a extracção continuaria a ser viável. A não ser que intervenham factores externos: Carbon Tax, subsídios estatais…

Em síntese

Duas contas tendo como base os custos nus e crus para um (1) KWh de energia:

Petróleo: um barril de petróleo (158.9 litros) fornece 1.640 KWh de energia e custa 48.23 Euros (o WTI), pelo que o custo é de 0.035 Dólares por cada KWh. A seguir:

Custo (em Dólares)
Fonte Bloomberg IRENA* WTI
Petróleo 0.035
Solar 0.050 0.068
Eólico 0.044 0.053
Geotérmico 0.073
Eólico Offshore 0.113

* IRENA = International Renewable Energy Agency, agência observadora oficial da ONU

Os custos “vivos” (por assim dizer) são estes, actualizados para o ano de 2019. E não é possível afirmar que Bloomberg ou a IRENA sejam propriamente os melhores defensores do petróleo.

A síntese é simples: qualquer fonte de energia renovável, nesta altura, é à partida mais cara do que o petróleo. Podemos inflacionar o custo do petróleo com a Carbon Tax (e quem paga afinal a Carbon Tax?), podemos baixar artificialmente o preço das renováveis com subsídios estatais (e quem paga afinal os subsídios estatais?), mas a realidade está todos nos números da tabela acima. O resto é conversa.

 

Ipse dixit.