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Estados Unidos e aliados na óptica russa

O escritor, jornalista e político Nikolai Starikov analisou a situação dos Estados Unidos a partir das páginas do site Riafan. O que apresentamos aqui é a síntese do seu artigo: este trata da conduta política de Washington, em particular daquela dos últimos anos, na tentativa de enquadra-la num cenário que faça algum sentido.

Isso porque, durante os últimos anos, o mundo viu como Washington tem consistentemente trabalhado para demolir o mundo que havia construído até pouco antes. E aqui que encontramos a razão da retirada dos tratados contra a proliferação de armas nucleares, o abandono de líderes e regimes próximos dos Estados Unidos (como Hosni Mubarak no Egipto) e a continua pressão sobre os aliados do Pacto Atlântico para forçá-los a participar, com uma quota muito maior, às despesas do exército da Nato.

Washington atirou para o lixo as regras da Organização Mundial do Comércio, impôs sanções à Rússia e também lançou uma verdadeira guerra comercial contra a China. Mesmo alguns aliados próximos dos Estados Unidos, como o Canadá, não foram poupados a novas imposições.

O que está a acontecer? Trump enlouqueceu? Por qual razão os Estados Unidos se comportam assim? Por qual razão destroem a sua própria credibilidade e a imagem perante os aliados?

Na realidade, não há nada de estranho: os EUA não podem fazer de forma diferente.

O facto é que todo o poder dos Estados Unidos é baseado em dois postulados: 1) democracia e 2) um alto padrão de vida. Notamos que, de acordo com a doutrina americana, um alto padrão de vida é uma consequência directa da democracia. A ausência de uma democracia ao estilo ocidental (que não podemos confundir com a verdadeira democracia) é, portanto, negativa e criminosa, e presumivelmente leva à deterioração das condições de vida das pessoas. O que não é verdade: os altos padrões de vida têm aparecido nos EUA apenas nas últimas décadas, enquanto a democracia é presente desde o nascimento do País. Além disso, a democracia existe no planeta num grande número de Países e na maior parte dos casos não coexiste com o bem-estar.

Durante décadas, os Estados Unidos mostraram o padrão de vida na URSS destacando as suas fraquezas e os problemas dos seus cidadãos,e o mesmo (e ainda mais) acontecia com a China. Na prática os EUA diziam “Vejam como vivemos bem. Vocês querem viver como nós? Então façam como nós e tudo irá correr bem”.

Em outras palavras, a fim de preservar a hegemonia americana no mundo, era imperativo que os Estados Unidos mantivessem um alto padrão de vida “dentro” do seu mundo, um padrão superior. E aqui começam os problemas. A expansão da zona de influência e de controle dos EUA sob o lema dos direitos humanos, da democracia e dum alto padrão de vida forçaram Washington a compartilhar com outros países parte dos seus ganhos financeiros. Deve-se notar que o alto padrão de vida do Ocidente, e em particular dos Estados Unidos, não se baseia de maneira alguma na laboriosidade das respectivas populações: todo o segredo está na questão do dinheiro ilimitado (o Dólar), utilizado para trocar a principal fonte energética (o petróleo), e a criação de riqueza “do nada”: em particular isso é verdade nas última décadas, com a preponderância da Finança sobre a Economia. É por estas razões que o auge de Washington acontece no rescaldo da Segunda Guerra Mundial e não ocorreu antes, quando a democracia nos Estados Unidos já tinha mais de um século de idade.

Os Estados Unidos compartilharam a receita destes Dólares com os Países satélites, comprando a lealdade deles. Mas o número de vassalos aumentou cada vez mais e assim começou o crescimento da dívida nacional americana, que alcançou a cifra astronómica de 22 triliões de Dólares. E isso apesar do facto de que o resto das “democracias desenvolvidas” terem dívidas igualmente elevadas, poucas crianças e crescerem com o mesmo ritmo.

Como resultado, surgiu uma situação em que um mundo tão cuidadosamente construído poderia desmoronar sob o peso dos números e do fardo da dívida, sobretudo porque esta dívida já não é investida na produção mas apenas na manutenção da actual condição. E este é um factor de perigo: a dívida não é um problema até quando o dinheiro criar riqueza; mas é um terrível problema na altura em que suporta custos não produtivos (como o fortalecimento da Defesa, deslocações de tropas para os quatro cantos do mundo, especulação financeira, etc.).

O que fazer então? Cortar os custos. No sistema ilustrado aqui, isso significa interromper o financiamento de alguns dos satélites. Outro problema é que os EUA, quase de repente, encontraram um concorrente poderoso como a China; ao jogar de acordo com as regras estabelecidas pelos americanos, Pequim começou a ultrapassar os Estados Unidos e, a longo prazo, ameaça substituir o Dólar com o seu Yuan. A tarefa de Washington tornou-se assim ainda mais complicada: afinal, para travar a China, é necessário reconstruir a indústria que entretanto mudou-se para o Oriente. Uma situação paradoxal: a economia dos EUA têm que enfrentar a concorrência de empresas americanas que trabalham a partir do exterior.

E os EUA começaram a agir. Não agora, com Trump, mas já com Obama. Foi com a Administração do Nobel da Paz (!!!) que os Estados Unidos fizeram explodir uma região inteira do Oriente Médio e da África do Norte para sacrificar os seus leais ditadores. O objectivo dessa estratégia é diminuir o padrão de vida em todo o mundo: é rápido e muito grave. As pessoas devem começar a viver pior em todos os lados: na Europa, na Ásia, no Médio Oriente. Portanto, a instabilidade, o caos e a imprevisibilidade são hoje sinónimos da política americana. Ao baixar o padrão de vida em todos os lugares, os EUA querem mantê-lo relativamente elevado em casa e nas outras enclaves anglo-saxónicas. Esta é a razão pela qual o Reino Unido deixa a União Europeia: não é um “erro”, mas uma estratégia.

Então qual é o significado das acções dos Estados Unidos e dos seus aliados anglo-saxões? Simples: se em toda parte as coisas estiverem piores, nós estamos bem. A cadeia falsamente lógica “democracia = boa vida” pode continuar a funcionar. Democracias que antes eram consideradas “corretas” serão declaradas “erradas”. Porque o padrão de vida na Alemanha diminui e aumenta a ansiedade da população? Não porque os Estados Unidos, através das ONGs, organizaram e pagaram as “Primaveras Árabes”, mas também porque organizaram e pagam o transporte de milhões de refugiados na Europa. As pessoas vivem pior porque os políticos incompetentes na Europa adoptaram a austeridade antes e recebem milhões de desgraçados agora.

Problema: o padrão de vida nos Estados Unidos entrará em colapso. A política adoptada é só defensiva, não propõe, não constrói, e não poderá competir com as Tigres do Oriente. Quando não haverá mais nada para mostrar, o mito entrará em colapso. Não haverá nada para justificar a hegemonia, excepto a força bruta, e esta é sempre uma escolha eficaz no curto prazo.

O tempo não joga a favor dos EUA: na China, além dos poderes industrial e militar, cresce também o padrão de vida. Isso significa que cedo será preciso reconhecer a “democracia chinesa” ou acusa-la de ser um regime e combate-la com a força. Algo que já agora no Pentágono cria não poucos pesadelos.

De tudo isso, derivam a pressa e a falta de jeito das recentes acções dos EUA. A China avança e é vital trazer de volta a indústria para os Estados Unidos, sem permitir qualquer deterioração nos padrões de vida (que já desceram bastante). Tudo isso tem custos, que serão pagos pelo satélites e os aliados.

 

Ipse dixit.

Fonte: Riafan – Почему США предают своих союзников (“Porque os EUA traem os seus aliados).