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O glifosato, provavelmente.

O glifosato (N-(fosfonometil) glicina, C3H8NO5P) é
um velho amigo do blog: já falámos dele várias vezes, sendo um dos
herbicidas mais vendidos no mundo (principal nome comercial: RoundUp). Mas é
necessário voltar sobre o assunto por duas razões:

Mas vamos com ordem.

Saúde: uma questão de probabilidades

Escusado será dizer que o glifosato foi inventado pela Monsanto, nos anos ’70. É
um herbicida, muito utilizado em praticamente todas as culturas de soja
(“Bebo leite de soja porque contém aminoácidos, cálcio, vitaminas e
glifosato”). De acordo com a IARC (Agência Internacional de Investigação do
Cancro), o glifosato pode ser encontrado em pelo menos 750 produtos
destinados ao
consumo humano e há no mínimo três estudos que confirmam o seu perigo
para a saúde.

Segundo a IARC, o glifosato é “provavelmente cancerígeno”. Pelo contrário, de acordo com a Autoridade Europeia para a Segurança dos
Alimentos (EFSA) é “provavelmente não cancerígeno”. Portanto, é uma questão de probabilidade: podemos morrer mas também não. Que, por acaso, era quanto dito do famigerado DDT. E
se mesmo decidirmos teimosamente não morrer, há sempre uma boa
probabilidade de ficar com uma doença celíaca, como pensam no MIT.

Esperando que o glifosato faça os seus efeitos, é bom lembrar que esta substância pode ser encontrada em alimentos comuns: em quatorze tipos diferentes de cervejas alemãs (marcas Beck’s, Paulaner, Warsteiner, Krombacher, Oettinger, Bitburger, Veltins,
Hasseroeder, Radeberger, Augustiner, Franziskaner, Konig Pilsener e
Jever), na couve-flor,
nas lentilhas, no alho francês, nos figos, nas toranjas, nas batatas, no trigo e na aveia.
Evita-lo não é simples: pensem no trigo e em todos os produtos derivados, por exemplo.

Como
afirmado, a UE tem que decidir se a licença para o uso de glifosato
(licença que expirou em 2015) pode ser renovada por mais 15 anos. E vai fazê-lo até o final da semana. Em teoria todos estão em favor da renovação (excepto os Suecos). Mas por qual razão são favoráveis perante um produto que é suspeito de ser cancerígeno? As opiniões positivas estão baseadas num estudo que afirma como o glifosato não seja cancerígeno, um relatório produzido pela Glyphosate Task Force. Um painel de especialistas, portanto.

Podemos nós desconfiar dos especialistas? Sim, podemos, porque o semanário alemão Die Zeit foi espreitar e descobriu que a tal Task Force é na realidade um grupo no qual colaboram os produtores do pesticida. Para ser ainda mais claros: é o grupo de empresas que produzem o
glifosato que pediram para continuar a vender a dita substância na União
Europeia.

Portugal: Gondomar e a Feira do Glifosato

E a propósito: qual a situação num dos vários Países da UE? Um País escolhido aleatoriamente: Portugal.

O
Bloco de Esquerda questionou todas as autarquias do País sobre o uso do
herbicida. Até o passado dia 17 de Fevereiro, das 91 Câmaras Municipais
que já tinham respondido, apenas 16 afirmaram não utilizar o glifosato
(cujo nome comercial mais conhecido é, como já lembrado, o RoundUp). Ou seja, a esmagadora
maioria das autarquias (82%) continua a utilizar o composto nos espaços
públicos, apesar dos riscos para a saúde pública.

Gondomar, com 4.000
Litros, Matosinhos (2.800 L), Évora (2.500 L), Ferreira do Zêzere (2.420 L),
Portimão (1.800 L), Elvas e Cuba (1.000 L) são as autarquias que usam
mais pesticida à base de glifosato, em quantidades bastante superiores à
generalidade das autarquias.

Isso apesar da já citada
IARC ter estabelecido uma relação entre a exposição ao herbicida e o
Linfoma Não-Hodgkin, uma doença do sangue que é dos cancros que mais se
regista em Portugal (cerca de 1.700 novos casos por ano), País em que a
utilização de glifosato duplicou nos últimos 10 anos. O mesmo Bloco de
Esquerda tinha apresentado, em 2015, um projecto de resolução
no sentido de proibir o uso do glifosato, mas a proposta foi recusada
com os votos contrários do PSD (Partido Social Democrata), CDS-PP e a
abstenção do PS (Partido Socialista) e PCP (Partido Comunista
Português). Um “obrigado!” e um beijinho para todos.

Brasil: o glifosato? Como um café

E no Brasil? O
País é o maior importador de agrotóxicos do
planeta e consome pelo menos 14 tipos de venenos proibidos no mundo, dos

quais quatro (pelos riscos à saúde humana) foram banidos no ano passado.
Todavia, os pesquisadores suspeitam que ainda estejam em uso na
agricultura.

Um estudo, coordenado pelo médico
professor da UFMT Wanderlei Pignati, ainda constatou que os agrotóxicos
aparecem em todas as 62 amostras do leite materno de mães que pariram
entre 2007 e 2010, onde se destaca (além do Endosulfan, da Deltametrina, do
DDE – versão modificada do potente DDT -, do Paraquat e do Metamidofóis) o
glifosato, presente em 70 das 79 amostras de sangue e urina recolhidas
nas áreas rurais.

E a Monsanto, o que diz? Os
representantes da empresa participaram numa audiência pública na
Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEP),
em Recife (PE), em Agosto do ano passado. Andrea Aragon, gerente de
assuntos corporativos da empresa norte-americana, disse que o
“glifosato é igual ao cafezinho” e que “o sal de cozinha pode
matar mais rápido que o glifosato”.
Calamos um piedoso véu…

Ipse dixit.

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Fontes: IARC Monographs Volume 112: evaluation of five organophosphate insecticides and herbicides (ficheiro Pdf, inglês), EFSA, Anthony Samsel and Stephanie Seneff: Glyphosate, pathways to modern diseases II: Celiac sprue and gluten intolerance, Zeit Online, Terra, Portugal Mundial, Brasil De Fato, Notícias ao Minuto, Esquerda.net