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HFT: o esquema

Do High Frequency Trading já foi falado muitas vezes. Nos post que podem encontrar aqui, aqui e aqui. Eh? Faltam os links? Pois, faltou-me a vontade. Vou pô-los no fim do post.
Se chegar a inspiração, claro (é Sexta-feira, tenham paciência)..Bom, dizia: o High Frequequalquercoisa, acrónimo HFT. Quanto é importante o HFT? Já dissemos isso também: muito, muito, mas mesmo muito importante. Demais, sem dúvida. “Demais” porque o HFT significa duas coisas:
  1. um mercado totalmente despersonalizado, apenas nas mãos dos computadores.
  2. pura especulação.

Acerca do primeiro ponto seria até possível discutir, não é que um mercado nas mãos de indivíduos tenha criado maravilhas até hoje. Mas o segundo ponto é mais preocupante. E para completar a preocupação, é bom lembrar que 84% das transacções financeiras hoje está nas mãos (ou melhor, nos chips) do HFT. Isso significa que apenas 16% dos casos vê a participação dos operadores de Bolsa, o resto é tudo automático.
Pelo menos, esta era a situação em Dezembro de 2011, quando o Financial Times partilhou estes dados.

Mas como? Como é que funciona o HFT?
A coisa melhor é ver um gráfico.
O seguinte gráfico, feito com as minhas mãonzinhas santas (não é verdade, foi copiado, eu apenas traduzi):

09 (horas) 31 (minutos) 00 (segundos) 00 (centésimos de segundo)

Em detalhe:
09:31:00.00 Um investidor o apresenta uma proposta para adquirir 5.000 acções da empresa XY.
09:31:00.01
09:31:00.03 Neste espaço de tempo, e antes que a ordem seja executada, o HFT consegue ler a antevisão.
09:31:00.04 O HFT compra as acções da empresa XY.
09:31:00.05 O investidor de facto compra as acções da empresa XY.

Quanto ganhou o HFT? Pouco, muito pouco. A proposta de compra fez subir o valor da acção de 0.1 cêntimos e este foi o ganho efectivo. Mas tudo aconteceu no prazo de poucos milissegundos, tentamos imaginar esta operação repetida milhares e milhares de vezes num só dia: quantos cêntimos estarão ganho no final? E passada uma semana ou um mês?

Uma dúvida: no gráfico aparece uma frase: HFT lê a antevisão dos ordens de compra.
É bom realçar dois aspectos:

  1. “ordens” é feminino, não masculino. Chama-se este “erro”.
  2. esta é a passagem crucial. Os sistemas HFT estão conectados à rede informática da Bolsa, simplesmente conseguem ler a ordem alguns milissegundos antes que a mesma ordem apareça no ecrã do operador. É este microscópico espaço de tempo que o HFT desfruta para executar as operações de compra (ou de venda, depende dos casos).

Na prática, o sistema HFT não tem concorrentes humanos, só outros sistemas HFT. Por isso, tais sistemas ultrapassam constantemente a actividade dos operadores humanos, podendo emitir ou apagar ordens quase simultaneamente, explorando informações privilegiadas (mesmo que isso signifique milissegundos, como vimos).

Qual o futuro dos mercados perante esta nova componente?
Em primeiro lugar: o futuro já está entre nós.

Poucos meses depois de Informação Incorrecta ter vindo ao mundo, na Bolsa de New York aconteceu isso:

Na altura falou-se dum erro dum funcionário, mas após mais de dois anos sabemos que o acidente esteve relacionado com o mau desempenho dos sistema HFT. De repente, o Dow Jones ruiu 1.000 pontos por causa dos computadores.

Segundo um estudo de Andrei Kirilenko, chefe da Commodity Futures Trading Commission, os ganhos do sistema HFT são obtidos à custa dos investidores “normais”.

E a consequência será que, no médio prazo, este investidores humanos ficarão cada vez mais interessados nos mercados menos transparentes, onde os sistemas HFT ainda não chegam.

Doutro lado, porque pôr em risco o próprio dinheiro num mercado gerido por quem cria e destrói as regras para favorecer-se, onde os sistemas informáticos conseguem reduzir os ganhos já menores após a crise de 2008, onde não faltam as burlas e os escândalos (Libor, por exemplo)?

Sem medidas urgentes, as Bolsas ficarão cada vez mais nas mãos dos que conseguem pagar os algoritmos que estão na base dos sistemas HFT. Umas Bolsas para “poucos”, ainda mais afastadas (se possível) da realidade.

Pode pensar o Leitor: “Tá bom, mas isso o que tem a ver comigo?”.
Boa pergunta. Mas o Leitor deveria lembrar-se que o pão é feito com a farinha.
E quem estabelece o preço da farinha?

Ipse dixit.

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Fontes: New York Times