Nada disso. Na verdade uma Leitora chamou-me a atenção acerca deste post, que foi publicado há quase um ano. Então fui lê-lo e achei simpático. Por isso eis o primeiro episódio da Antologia. Que, fiquem descansados, será utilizadas com parcimónia. É uma maneira de realçar alguns pontos que já foram ditos (eheh…os Leitores aumentam!) e, para mim, de lembrar-me algumas coisas. A única coisa nova é a imagem.
Boa Leitura!
16.12.2011: “O que podemos fazer?”
“O que podemos fazer?”
É uma pergunta que aparece muitas vezes, mesmo aqui entre os comentários.“O que podemos fazer?”.
É o reflexo da nossa impotência, alegada ou real, mas assim percebida.“O que podemos fazer?”.
É Sexta-feira, uma boa altura para solucionar as grandes perguntas da humanidade.
Modestamente.Em primeiro lugar: calma, eis que Informação Incorrecta socorre o
coitado Leitor com um verdadeiro manual, um ABC que tudo diz e tudo
sabe. Como Wikipédia, só um pouco mais curto. E, tal como Wikipedia, é
algo já visto, pois muito do que o Leitor vai encontrar foi dito não uma
mas várias vezes.
Então porquê repetir?Porque:
1. poucos seguem a receita.
2. a receita é sempre boa.
3. porque é Sexta-feira.
Não existe uma palavra mágica. Já experimentei Abracadabra (que, dito
entre nós, tem origens satânicas) mas nada. E nem existe uma receita
infalível que possa mudar a nossa vida dum dia para outro tal como
desejado. Além disso, cada um de nós percebe a realidade de forma
diferente e perante os desafios encontra diferentes soluções.Ao olhar à nossa volta podemos observar sinais. Muitos apontam para uma
direcção. Eu acho que é a direcção da mudança, mas posso estar enganado.
Aliás, espero estar enganado, pois esta suposta mudança não traz nada
de bom.É uma situação que faz lembrar o domador de leões. Com o chicote, o
domador obriga as feras a saltar através do cerco de fogo. Uma vez
atravessado o fogo, o leão fica sentado num outro pedestal. Mas a sua
situação não muda: continua a ser um prisioneiro e, se solicitado,
voltará a saltar através do fogo.Todavia existem duas enormes diferenças entre esta cena circense e a nossa realidade:
1. Não há ninguém que pague para assistir ao espectáculo, aliás, somos nós que temos de pagar para receber ordens.
2. Connosco não é preciso um domador de leões, um cão pastor seria mais do que suficiente.Isso porque a nossa sociedade se encontra numa situação de paragem
cerebral quase total. A maioria das pessoas nem sabe porque costuma
levantar-se de manhã, porque faz filhos, porque vive.Os valores seculares, bons ou maus que fossem, foram substituídos com
valores mais “fáceis”, que todos podem alcançar com pouco esforço e que
por isso provocam um prazer momentâneo e têm de ser renovados com
frequência.Ao mesmo tempo, foi banido o pensamento, substituído pelo pensamento único.
Nisso o Capitalismo depravado alcançou e ultrapassou as formas mais
cruas do Totalitarismo. As notícias que encontramos no nosso diário são
as mesmas que é possível encontrar em qualquer outro diário mundial.
Globo? Público? New York Times? Qual a diferença?
E não é por falta de acontecimentos: é que as fontes são poucas, mas mesmo muito poucas, e em perfeita sincronia entre elas.E para qualquer reminiscência de pensamento eis a máquina anti-neurônios, a televisão.
Eu não tenho nada contra a televisão, bem pelo contrário, acho ser este
um meio fantástico se bem utilizado. Se bem utilizado: pois caso
contrário torna-se num triturador de cérebros. Que assim, atingidos,
confluem no pensamento único.Haveria outros sinais também, alguns deles importantes, como o roubo das
nossas raízes; mas agora vamos ver o outro lado da questão: o que
podemos fazer?Não tendo palavrinhas mágicas, como afirmado, é óbvio que a única
maneira de mudar algo será com o trabalho. Afinal a ideia é livrar-nos
das correntes invisíveis, o que não é pouco.Primeiro passo: Nós
Livrar a mente das gaiolasÉ óbvio: não podemos ir para lado nenhum sem ter as ideias claras. Não
“completamente” claras, mas um pouco sim, e que raio. E a única maneira
para ter algumas ideias claras é, em primeiro lugar, ter ideias.Quanto daquilo que pensamos é “nosso”? Quanto, pelo contrário, é fruto
do que ouvimos dizer? O Leitor, por exemplo, é de Direita ou de
Esquerda? Mas sabe o que significa ser de Direita ou de Esquerda? Sabe
sim? Com certeza?
E onde aprendeu isso? Leu alguma coisa? E leu também as ideias
contrárias ou apenas as ideias mais simpáticas? Ou, ainda pior, leu
“excertos” duma e da outra parte? Isso significa ter ideias?“Mas olha só este deficiente, mas acha que está a tratar com criança ou quê?”.
Não, caro Leitor, acho que estou a tratar comigo. Porque ainda hoje às
vezes sou obrigado a reparar na minha atitude de ler com atenção as
coisas “boas” e mais depressa, “por alto”, as “menos boas”. Mas qual o
sentido de ler coisas com as quais já sabemos concordar?
Muito, muito mais desafiador é poder confrontar as nossas ideias com as de quem tem uma visão completamente diferente da nossa.Custa mais, até pode doer o fígado, mas é a única maneira para que as ideias possam nascer.
“Ler”, “Leu”…pois. Não quero implementar uma campanha anti-televisiva,
mas desligar o aparelho de vez em quando para ler algumas páginas acho
ser uma medida saudável. E nem é preciso acabar com a televisão de forma
definitiva (e as crianças? Que fazem as crianças sem a televisão
ligada?). Trata-se apenas de desligar 15 minutos antes e dedicar o tempo
poupado à leitura de alguns parágrafos.
Um paragrafo hoje, um amanhã e cedo ou tarde o livro acaba. E quem sabe: pode nascer a vontade de ler mais.Voltemos ao discurso Esquerda/Direita: mas faz sentido? Estas divisões
foram criadas numa altura muito diferente da nossa. E foram criadas para
dividir, não para integrar. Ao criar duas partes, uma aqui e outra aí,
dividimos as pessoas em duas facções opostas. Que, obviamente, estarão
em luta para a supremacia. É meio caminho andado para poder governar sem
muitos problemas, uma maravilha se a ideia for comandar.Funciona? Sim, funciona muito bem, ao ponto que ainda hoje as pessoas do
Ocidente gostam de definir-se “de Direita” ou “de Esquerda”. Talvez nem
saibam qual o real sentido de pertencer a uma das duas partes, mas
ouviram dizer que “quem gosta dos patrões vota a Direita”.Obama e os ministros de Dilma, os exemplosOlhemos para os resultados práticos: Barack Obama, alegadamente da
Esquerda americana, define um resultado extraordinário acabar uma guerra
que destruiu um País, causou alguns milhões de mortos (3, segundo os
bens informados), obrigou milhões de pessoas a viver no mito da
Democracia, algo de muito afastado das tradições deles.E lembrem: Obama é de Esquerda, é um dos bons.
Brasil? 6 ou 7 ministros de Dilma demitidos por causa da corrupção. E era gente de Esquerda, eram os bons.
Nós preferimos não olhar para estas coisas e, quando obrigados, procuramos justificações.
“Ah, mas Obama é americano, não pode ser verdadeiramente de Esquerda”.E não meus amigos, porque eu estava aqui e vocês também quando as
Esquerdas de todo o mundo babavam com a eleição do primeiro presidente
afro-hawaiano-irlandês, ou já esqueceram?
Totalmente desconhecido, era glorificado como o “início do novo mundo”,
mesmo que ninguém soubesse rigorosamente nada acerca dele, da origem
dele, das ideias dele.Então como é? Um gajo é bom e de Esquerda até não começar a fazer
disparates? A verdade é que foram enganados (e neste caso não, não é
“fomos”), atingindo o orgasmo eleitoral só porque a máquina da
propaganda tinha convidado toda a Esquerda do Planeta a participar na
orgia da “Nova Era”.Mas isso deveria fazer reflectir: quantas vezes a propaganda actua desta
forma? Ou pensamos nós, inocentes criaturas, que isso aconteceu apenas
uma vez, com a eleição de McObama?E os ministros de Dilma? Quantos dos demitidos eram de Esquerda? Antonio
Palocci, Carlos Roberto Lupi, Orlando Silva de Jesus Júnior…Nada, continuemos fieis às nossas cores, obrigados a ver uma única
estrada, um só caminho. Passam os anos, passam os governos, a situação
não melhora, pelo contrário, mas nós temos confiança pois a culpa é
sempre “dos outros”.Meus amigos, se a culpa for sempre “dos outros” significa que “os
nossos” são uma cambada de atrasados mentais (na melhor das hipóteses),
incapazes de mudar alguma coisa.Acordem, s.f.f.
- usem o vosso cérebro, com os vossos pensamentos
- não há política ou religião que possa ter o direito de moldar as vossas ideias
- oiçam o vosso intuito que é o natural complemento da inteligência.
- aprendam a ver em technicolor, não apenas em preto e branco
Nós não conhecemos a verdade e mesmo assim pretendemos seguir uma
doutrina e recusar as outras? Com quais bases? Se não conhecemos a
verdade, como podemos fazer uma escolha razoável?Evolução ou Criação? E porque não uma mistura das duas? Ou talvez nem uma nem outra.
Porque tem de ser apenas A ou B?Duvidem, meus amigos, duvidem sempre.
Se o Homem conseguiu abandonar as cavernas foi por causa da dúvida, nada mais do que isso.
Um raio atingiu a árvore? A árvore pegou fogo?
Será que o fogo pode ser útil?D Ú V I D AA dúvida gera curiosidade, vontade de experimentar, de testar os limites.
Sem dúvida a curiosidade não nasce e tudo fica tal como é, sem dúvida não há movimento.Repito: Evolução ou Criação? Mas alguém entre os Leitores é um
antropólogo, um geneticista, um teólogo, um arqueólogo? Com que base
escolhem o vosso “partido”? Só porque um é de Esquerda e ou mais de
Direita? Minha Nossa Senhora do Céu e Arredores, mas que raio de visão é
esta?I N F O R M A Ç Ã OA informação é a única maneira para poder formar uma ideia de forma
consciente e ponderada. Sem informação, o máximo que podemos fazer é
repetir as coisas ditas por outros, como um eco.
É tudo o que podemos fazer.R E L A T I V I Z A RO que é bom para nós pode não ser tão bom para os outros.
A Democracia é a melhor forma de governo? Mas quem disse isso? E porquê?
Os Islâmicos não têm tradições democráticas e mesmo assim vivem na boa.
Porque será?Nós temos a exclusividade da razão? E porquê? Quem estabeleceu isso?
Cada solução é boa apenas se reconhecida como tal no interior da
comunidade onde é proposta. E tem de ser uma proposta surgida do
interior da comunidade, não imposta do exterior.O Leitor achas que os Islâmicos são uma cambada de bestas violentas? Mas
se eles estiverem satisfeitos assim, qual o problema do Leitor? É a
mesma atitude que permitiu dizimar os nativos da América do Sul por mão
dos “Cristãos”. Não conheciam Deus? Tinham que conhecer, ou isso ou
morrer.A T I T U D E E E X E M P L OInútil criticar os outros sem antes ter corrigido as nossas falhas.
Afastem-se dos malcriados, dos intolerantes, são apenas insultos para a
nossa inteligência. No geral, boicotem tudo o que é insignificante.Desejamos um mundo mais amigo dos desfavorecidos? E nós? O que fazemos
nós para os mais desfavorecidos? Porque esperar que sejam os outros a
fazer algo é idiota.Nós temos de ser o exemplo: só assim pode iniciar o contágio positivo.
Porque não dedicar algumas horas da nossa vida na ajuda do próximo?
Custa? Implica empenho? Mas porquê, o Leitor quer mudar o mundo só com o
click do rato? Quer fazer uma revolução ficando sentado?Se for isso, lamento informar que chegou até este ponto da leitura mas
gastou o seu tempo. Porque mudar o mundo significa mudar em primeiro
lugar nós e os nossos hábitos. Qualquer outra opção é totalmente inútil.L E M B R A RHá a tentativa de apagar as nossas raízes. Um homem sem raízes não sabe
donde vem e nem para onde vai. As raízes são extremamente importantes:
cultivem as tradições, preservem a sabedoria dos nossos antepassados.
Não são “coisas velhas”, foi a chave da sobrevivência de inteiras
gerações. E, acreditem ou não, voltarão a ser a chave do nosso futuro.E CO N O M I A C O M C É R E B R OQual o sentido de comprar garrafas de água produzida nas
montanhas do Tibete? Ou mesmo nos montes do vosso País mas longe 300
quilómetros?
Bebam a água da torneira. E se for má, prefiram água produzida nas redondezas.Prefiram produtos da vossa terra, não da terra dos outros. E abdiquem
dos produtos das multinacionais, não fornecem nada de “mais”, pelo
contrário: exploram os habitantes das zonas mais desfavorecidas do
planeta, utilizam pesticidas e outros produtos químicos.Se houver possibilidade, cultivem alguma coisa. É possível ter uma pequena horta mesmo na varanda. E acreditem, sabe bem.
Há a possibilidade de fazer trocas? Então façam trocas.
Não sabem como? Perguntem à Maria ou contactem associações de pessoas que operam neste sentido. Existem, é só procurar.Utilizem o sol.
Tenho um candeeiro que funciona só com energia solar, é uma maravilha.
Também carrego as pilhas da máquina fotográfica com o sol e até o
telemóvel. Inconvenientes? Não há. E sim, funcionam também com o céu
nublado.Medicamentos? Com moderação. Em particular os antibióticos. Antes de
tomar um medicamento, vejam se não for possível resolver o problema com
uma dieta adequada. Às vezes resulta (mas é preciso consultar um
especialista, nada de auto-medicação).E N V O L V E R – S ENão gostam dos partidos políticos do vosso País? Entrem no mundo da
política. Como? Não é preciso fundar um partido, é suficiente fazer
alguma coisa no vosso bairro: contactar os moradores, falar com eles,
ouvir, trocar ideias, propor soluções.“Difícil”? Mas estamos a brincar ou quê???
Custa? Outra vez? Mas escrevo para o boneco ou quê? Nada muda sem antes mudar-nos.Alternativa: não fazer nada, deixar que sejam os outros a fazer. Mas depois com que direito queixar-se?
E as eleições?
Bah, aqui a escolha é livre. Se o Leitor achar que votar nos actuais
partidos ainda possa fazer algum sentido, então vote. Tente pelo menos
escolher os bandidos melhores.Greve? Esqueçam as grandes greves dos sindicatos, não conseguem mudar a
cor dum camaleão. Se greve deve ser, então que greve seja: mas dos
consumos. Este é o ponto mais sensível, aliás, o único ponto sensível.A única arma dos cidadãos é recusar um determinado produto. E para que
funcione é preciso que a adesão seja elevada. É complicado, reconheço.P A C I F I S M O ? C U M ‘ C A N E C O !Em tempo houve uma pessoa que sugeria oferecer a cara para receber outro estalo.
Justamente foi crucificado.Temos de dialogar, falar, procurar soluções racionais. É justo. Mas há
limites, além dos quais deve haver uma reacção. Deve ser encarado como
último recurso, extremo: mas não pode ser excluído, porque cada um de
nós tem o direito de defender-se. Há limites entre pacifismo e
masoquismo.Lamento, mas fazer o mártir não é comigo.
D I V E R T I R -S EDivertir-se? Sim, mesmo isso.
Jogar, brincar, rir, são actividades fundamentais. Não “importantes”,
mas fundamentais mesmo. Desconfio profundamente das pessoas que não
riem. Ainda pior duma pessoa que não dedica parte do próprio tempo ao
jogo e ao divertimento. Uma pessoa que não consegue distrair-se e rir é
uma pessoa doente.Queremos mudar o mundo, mas no sentido melhor: não desejamos criar uma
sociedade de activistas fundamentalistas, sempre envolvidos em caças aos
maus.Riam, em primeiro lugar de vocês.
Só isso? Não, haveria muito, muito, muito , muito mais.
Mas uma coisa não pode ser esquecida e, pelo contrário, deverá sempre
ficar no topo das nossas escolhas: o princípio fundamental. Este é muito
simples e pode ser resumido assim:cada um de nós é um pequeno universoGostaria o Leitor de pontapear o Universo? Não, claro que não.
Então respeite o próximo e pretenda respeito para si.Acabou?
Acabou.
Bom fim de semana.Ipse dixit.

