Imaginemos: o Leitor tem um determinado montante e pretende entrar no mundo dos negócios para tornar o capital produtivo e juntar uns lucros que dão sempre jeito.
Como primeiro acto, contacta uma agência especializada e encomenda uma pesquisa de mercado para entender qual a situação: basicamente, como o mercado está orientado, o que pede.
Em seguida, decide qual o bem que será produzido, de acordo com os custos de produção e de distribuição, mais algumas características de acordo com as capacidade do Leitor e a visão das coisas.
Quantificado como 100 o capital que deseja investir, o Leitor destina uma mínima parte para os custos relacionados com a produção do bem, enquanto o resto (a grande maioria) é investido numa maciça campanha publicitária conduzida com um slogan atractivo que aponte directamente para o cérebro das pessoas.
Desta forma, o Leitor cria uma necessidade que antes não existia, nascido tendo como base o condicionamento da sugestão e a persuasão forçada. Muito simples.
Na verdade, o produto que o Leitor vende agora é inútil: na melhor das hipóteses é supérfluo, pois é apenas um entre os milhares de produtos expostos nas prateleiras de qualquer supermercado, todos com a mesma função. Pode chamar-se Danacol, Actimel, Bifidus Essensis, Acti Regularis e pode ser descrito como algo que faz emagrecer dormindo, tipo Somatoline Cosmetic. O limite é a fantasia.
Nos últimos tempos é moda realçar um ingrediente exótico: a aloe vera, as água do Mar Vermelho, os sais do Himalaya, os pelos das orelhas do rato da Tasmânia, todos com propriedades quase mágicas. Também neste caso é apenas uma questão de criatividade.
O trabalho e o emprego resultantes desta operação de marketing parece um buraco no meio do deserto: é cavado por milhões de trabalhadores e, em seguida, é novamente enchido e tapado. Pode parecer uma loucura, algo sem sentido, mas na verdade trata-se duma operação absolutamente necessária: a maior parte da nossa economia tem sobrevivido até hoje precisamente com este mecanismo perverso.
O problema nasce quando o mecanismo ficar partido. E é esta a nossa actual situação.
Quando o dinheiro no bolso começar a ser pouco, quando as despesas necessárias deixarem pouca margem, o sistema entra em crise e os gastos supérfluos são cortados. Fala-se de “crise”.
É realmente crise? Sim, é se o mecanismo for aquele acima descrito. Não, ainda não é se as coisas forem vista numa óptica diferente.
Um dos sectores que mais sente a crise nestes dias em Portugal é o sector da venda dos carros: em termos reais estamos perante uma queda de 50% quando as vendas forem comparadas com o mesmo período do ano passado.
Isso significa que em Portugal já não há carros? Que há pessoas obrigadas a caminhar porque não podem comprar um automóvel novo? Nada disso. Todos em Portugal temos carro: o que mudou é que agora, em vez de trocar de carro à cada dois ou três anos, o prazo é maior.
Pode parecer um pormenor, mas não é: a nossa economia está baseada em boa medida nos gastos não necessários.
Isso significa que a crise é “falsa”? Não, a crise é verdadeira: porque se a nossa economia for baseada em produtos não essenciais, isso significa que muitos dos lugares de trabalho existem só porque são produzidos bens “acessórios”. E quando um trabalhador perder o próprio salário, pouco importa se a ocupação dele era num tipo de empresa ou numa outra: sempre sem trabalho ficou.
O que importa realçar é que boa parte do mundo do trabalho, da economia, dos proventos das famílias encontram a própria origem no mecanismo perverso que literalmente cria as necessidades.
Não apenas a crise é “verdadeira” como é mais “abrupta”: uma economia baseada na produção de bens supérfluos é por definição uma economia frágil.
Paro de escrever e observo o que há à minha volta.
Na zona do computador tenho:
- uma bússola (para não perder-me quando for para a cozinha?)
- 17 canetas e 33 lápis (!!!)
- dois telemóveis (um não chega?)
- 8 canetas usb
- 6 isqueiros
- uma carteira (que nunca utilizo) da Sampdoria
- uma miniatura do carro Alfa Romeo da polícia italiana (útil nas perseguições dos mosquitos)
- uma pequena estátua do Buda (para que as almas dos mosquitos possam reencarnar-se)
- rato e teclado.
As únicas coisas necessárias são mesmo estas: rato e teclado, tudo o resto é supérfluo.
Esta é a sociedade do inútil, baseada em bens dos quais não temos necessidade.
O “inútil” não é sempre negativo, por várias razões.
O Homem não pode pensar apenas nos objectos indispensáveis, a vida seria um pesadelo: numa sociedade baseada exclusivamente no “necessário” não haveria desenvolvimento. Muitas das grandes obras artísticas, por exemplo, existem porque no passado houve pessoas que decidiram investir o dinheiro em coisas “inúteis” como uma pintura.
O mesmo discurso pode ser feito no caso do cinema, da literatura, da filosofia…
O problema é quando boa parte da economia ficar baseada no inútil. É difícil considerar o Danacol como uma obra artística, até é complicado afirmar que possa gerar benefícios (e, de facto, não gera: querem os efeitos benéficos do iogurte? Então comam iogurte, não esta porcaria). Não é apenas um produto inútil, é mesmo estúpido, não enriquece, pelo contrário.
O problema é que no universo Danacol trabalham:
- a agência que determina qual produto é pedido pelo consumidor
- os pesquisadores que tentam encontrar um produto “novo” e atractivo
- a agência de marketing que tem que fornecer a publicidade
- os trabalhadores da empresa onde é produzido
- a empresa que fornece a embalagem
- os transportadores que entregam o produto final
- os vendedores
- a loja onde é vendido
E esta é apenas uma simplificação.
O que acontece quando as pessoas não tiverem o dinheiro para adquirir um produto inútil como este? O castelo de papel começa a ruir, os trabalhadores perdem o emprego, os sindicatos organizam manifestações nas ruas para que…para quê? Para que o Danacol seja produzido e vendido.
É paradoxal (na verdade não é: é simplesmente normal), mas os sindicatos pedem ao governo medidas para ré-criar as condições ideias nas quais o Danacol possa ser vendido.
Alguém se lembra duma manifestação na qual a palavra de ordem fosse “Basta com esta sociedade do supérfluo, queremos produtos sérios?”. Ou o slogan era “Queremos trabalhar”? Então, como sempre, é só ligar os pontinhos.
O que se passa em Portugal, nesta primeira fase e na maioria dos casos (não em todos), é a crise do supérfluo. Na Grécia já entraram na segunda fase, onde falta o dinheiro para adquirir os bens realmente necessários e as famílias voam dos telhados. Mas em ambos os casos o ponto de parida era uma economia frágil, baseada num mecanismo nascido há 50 anos atrás.
Ipse dixit.

