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Estalos

Pergunta um Leitor Anónimo:

…mas há uma coisa que não entendo mesmo. […]

O BPN vai custar aos contribuintes um balúrdio.

Porquê aos contribuintes? Porque é que temos de ser nós a pagar uma
dívida privada só porque se trata de um banco? Se fosse a SONAE, a
PT, ou a Jerónimo Martins a falir, não se dizia que ia “custar aos
contribuintes” x valor, ou dizia-se?

Se um banco pode criar dinheiro do nada, que se trata tudo de informação electrónica, como é que pode falir? E se pode criar dinheiro do
nada…porque contrai empréstimos no estrangeiro? E porque não os pode
pagar?

Você, se calhar, já respondeu a estas questões mais do que uma vez..se é
esse caso, peço-lhe mesmo desculpa. Mas a situação é tão absurda para
mim, que me custa mesmo a entender! Isto, na Islândia, foi o que não se
passou…

Caro Anónimo, antes demais muito, muito obrigado mesmo. Gosto de receber perguntas e gosto mais quando sou capaz de responder. E não me parece este o caso.

Explico.
Estou em Portugal há alguns anos e, passados os primeiros tempos nos quais sabia dizer apenas “sim, não, obrigado, galão”, comecei a interessar-me pelos acontecimentos locais. Também na altura em que o blog começou a funcionar dediquei um pouco de espaço ao que se passava nesta terra. Só que a seguir, de forma lenta mas contínua, o interesse foi morrendo.

Até hoje, dias nos quais estou nas tintas. Por causa do panorama político ou económico? Não: por causa da reacção dos Portugueses. Ou melhor: da falta de reacção.

Pegamos na história dos subsídios de férias destas últimas 2 ou 3 semanas. Antes o governo afirma que os subsídios serão repostos em 2013. Depois descobre-se que será em 2014. Afinal não, só em 2018: sete anos depois de terem sido retirados.

É evidente que o governo está a gozar com os cidadãos. Ou está a gozar ou é formado por incompetentes que nem conhecem as medidas que introduzem. Prova mais clara não pode haver.

Reacção? Zero.
O Português aceita tudo, submisso.

Agora, se os Portugueses não se preocupam, porque deveria preocupar-me eu que nem Português sou? Porque aqui vivo? Mas eu não assinei nenhum contracto: ontem estava em Italia, hoje estou aqui, amanhã não sei. O que eu sei é que é cada vez mais improvável que aqui passe os meus últimos dias (que, espero, estejam ainda longe…). Até os Chineses começam a fechar as lojas e eu não tenho o espírito do kamikaze.

Isso para explicar que uma vez, ao abrir os diários, antes lia as notícias portuguesas e depois o resto: mas agora é o contrário. E já sei que nos próximos tempos as notícias políticas e económicas deste País ficarão depois das páginas do desporto.

O mesmo se passou com a história do BPN, banco privado, falido.

Pode falir um banco? Com certeza. O joguinho de criar dinheiro a partir do nada funciona até um certo ponto, pois há limites (por enquanto). E estes limites são as reservas do banco, por exemplo, com base nas quais pode criar dinheiro até um determinado ponto (é o esquema da reserva fraccionária). Se o banco criar mais dinheiro do que as reservas e conduzir maus investimentos, chegará uma altura em que o banco terá de pagar mas os cofres estarão vazios.

Este é apenas um exemplo muito simples, claro. No BPN a impressão é que boa parte do dinheiro foi utilizado em operações que já em princípio sabia-se não serem rentáveis ou com empréstimos despropositados (e sem adequadas garantias: porque as garantias são pedidas aos parvos como nós, outros nem conhecem o significado do termo).

Porquê devem ser os cidadãos a pagar a dívida dum banco privado? Isso lembro. Apareceu um gajo, há uns anos, a explicar que se a dívida do BPN não fosse paga, as consequências terríveis teriam recaído por cima da cabecinha de todos os Portugueses. Um efeito dominó que teria precipitado o sistema bancário nacional no caos, com famílias a viver na rua, crianças a chorar sem leite, etc. etc.

Nada disso era verdade, mas pouco importa, pois quem disse estas palavras sabia perfeitamente que esta desculpa teria sido suficiente, pois em qualquer caso os Portugueses não teriam mexido um dedo. E foi o que aconteceu.

Enquanto em Espanha ocupam-se as ruas e luta-se contra as próximas medidas do governo (que quer limitar fortemente o papel da internet em nome duma suposta “ordem pública”) e em Italia contestam-se os políticos nas praças (como em Torino no dia 1 de Maio: choques entre polícia e manifestantes) e o Presidente da República é alvo de várias queixas judiciais com a acusação de traição, já para não falar da Grécia, enquanto isso em Portugal tudo procede no âmbito duma calma deprimente e submissa.

Um banco contrai empréstimos? Com certeza.
O banco precisa de dinheiro, sempre. A actividade principal do banco (“principal” no sentido de “mais notória”) é pouco lucrativa, por isso o banco gosta de efectuar investimentos arriscados, aqueles que fornecem uma margem de lucro mais consistente. Mas esta actividade é arriscada, esvazia temporariamente os cofres, e o banco pede empréstimos. Óbvio, chega uma altura em que já não há empréstimos que possam cobrir os buracos anteriormente provocados, então o banco fecha.

A bolha imobiliária dos Estados Unidos (os subprimes) são um bom exemplo disso. Os bancos sabiam muito bem que muitos entre os clientes não teriam tido a possibilidade de pagar as hipotecas contraídas, mas esperavam conseguir despachar este risco (nas carteiras de outros investidores) antes da bolha estoirar. Alguns não conseguiram, e fecharam: foi uma forma de investimento que acabou mal.

Outro exemplo de investimento arriscado: os Títulos de Estado da Grécia. Prometem uma taxa de juro particularmente elevada (bem maior do que 10%), mas quem pode ter a certeza de que nos próximos anos ainda haverá alguém em Atenas para pagar?

Estes são investimentos que precisam de enormes quantias de dinheiro, não falamos do reformado que vai investir os 100 Euros. O banco pode ter a conveniência em investir dinheiro que não possui, através dos empréstimos. Pode parecer esquisita a ideia de investir dinheiro emprestado, mas em determinadas condições é vantajoso.

Se os bancos tivessem continuado a fazer simplesmente os bancos em vez de atirar-se para negócios tão arriscados, agora a situação económica global seria diferente. Mas temos de esquecer a clássica imagem do banco que empresta dinheiro para o jovem casal construir o próprio futuro: como afirmado, esta é uma actividade marginal, com lucros reduzidos e ainda mais perigosa numa altura como esta, na qual as pessoas não têm dinheiro. E num mundo cada vez mais competitivo, os bancos não podem dar-se ao luxo de ficar atrás.

Na Islândia não aconteceu? Em verdade aconteceu, só que os Islandeses são um bocado mais espertos e desfrutaram a ocasião para fazer um pouco de limpeza, punir os responsáveis, dar um pontapé ao FMI, voltar a crescer. É uma questão de atitude, a mesma que falta em Portugal.

Por isso: não conheço as últimas aventuras do BPN, deixei de seguir a coisa. Mas os pontos mais importantes acho serem aqueles lembrados: uma gestão desastrosa dos próprios activos, investimentos errados, empréstimos aos amigos dos amigos…

É isso que os Portugueses irão pagar. Não satisfeitos de manter uma classe política incapaz e corrupta, não contentes de pagar uma dívida pública absurda que enriqueceu (e enriquecerá) unicamente os privados, com o BPN chegou a altura de pagar também os negócios dos amigos dos amigos.

E, acreditem ou não, começo a pensar que afinal seja justo assim. Porque se eu dou um estalo na cara duma pessoa que não reage, posso pensar que:
1. a pessoa é idiota
2. a pessoa gosta

Então nada me impede de dar um segundo estalo, e depois um terceiro, um quarto…
Por isso Portugal ocupará cada vez menos espaço neste blog.

Simplesmente: não merece e eu não quero tornar-me uma pobre cópia dum Marcelo Rebelo de Sousa ou dum Miguel Sousa Tavares. Nem sou pago para isso.

Ipse dixit.