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A Rússia de Putin e o futuro multipolar

Putin ganhou as eleições.
O quê interessa? A Rússia é tão longínqua e fria.
Pelo contrário: interessa, e muito.

Os Estados Unidos, depois de terem aprovado Putin após a idade de ouro de Gorbachev e Yeltsin, a queda acelerada e até a fragmentação da Rússia sonhada por Zbigniew Brzezinski no grande tabuleiro geopolítico, agora desesperam: como raio livrar-se de Putin?

A tentativa duma nova Revolução Laranja na Rússia fracassou apesar da presença em Moscovo de Mac Faul, o embaixador que se auto-denomina “um especialista em movimentos democráticos, anti-ditaduras e revoluções”.

A actual oposição russa não tem líderes, não tem qualquer unidade e apresenta tendências diametralmente opostas no próprio seio: é uma criação dos media ocidentais, sem espessura.

O regresso da Santa Mãe Rússia? Parece. Mas fiquem descansados os nostálgicos do antigo regime soviético: a Rússia de Putin nada tem de comunista. É, pelo contrário, algo de novo, uma alternativa que ainda está à espera de ser totalmente decifrada.

Os povos das democracias ocidentais mas suportam os estadistas com uma visão histórica e que pedem autoridades, comprometimento, perseverança, coragem não só recuperar mas para desenvolver um País. Preferem uma tranquila navegação nas calmas águas do prazer, da idade da reforma aos 60, das 35 horas semanais, da flacidez e da dívida pública sem vergonha. Sacrifícios apenas se forem encomendados pelos bancos, pois comprometem as possibilidades de ser reeleito.

Os Estados Unidos acreditavam que Medvedev pudesse ser um novo Gorbachev, que prosseguisse na destruição do Estado russo e que encaminhasse Moscovo na via rápida rumo ao Capitalismo mais selvagem. O nosso Capitalismo. Mas Medvedev errou e os Estados Unidos com ele: não ter vetado a intervenção da Nato na Líbia fazia bem esperar em vista da Síria e do Irão. Putin retomou o controle da politica estrangeira, com a força de 70 milhões de Russos que escolheram o novo presidente sem margem para dúvidas.

Putin é, de facto, um obstáculo. Não apenas não perdeu a guerra na Tchechênia, como evitou que grupos ocidentais pudessem tomar o controle dos recursos russos. Mikhail Khodorkovsky, chefe da Jukos, foi preso no dia 25 de Outubro de 2003, num aeroporto na Sibéria, enquanto retornava dum fórum de negócios em Moscovo, poucos dias antes da companhia Exxon pagar 25 biliões de Dólares para conseguir  a fusão Jukos-Sibneft: isso teria significado a Exxon-Mobil e a Chevron-Texaco infiltrar-se com uma participação de 40% no santuário dos hidrocarbonetos da Sibéria. E a Rússia teria perdido os seus recursos e qualquer chance de recuperação.

Vladimir Putin é também o homem do KGB que conseguiu enfrentar todas as revoluções “laranja” na Ucrânia, na Geórgia, no Quirguistão, no Uzbequistão; as actuais e futuras manifestações anti-Putin são o canto do cisne do Ocidente na tentativa de se livrar do homem forte do Kremlin.

O novo presidente baseou a própria campanha nos valores tradicionais, o sentido de patriotismo, a grandeza e a Igreja Ortodoxa. O autoritarismo é absolutamente necessário na Rússia, como na China, para evitar uma implosão do País. E as prioridades são as seguintes:

  • desenvolver um rearmamento muito intenso e a modernização do exército russo;
  • concluir o desenvolvimento e a diversificação da economia russa;
  • combater o declínio da taxa de natalidade, algo de que Putin está bem consciente;
  • reabsorver na órbita russa a Bielorrússia e a Ucrânia, para criar um contrapeso de duzentos milhões de pessoas em relação à China, na Ásia Central e no Cáucaso.

Putin, nativo de San Petersburgo, fala alemão, é um ex-espião do KGB em Dresden, tem uma visão euro-continental, e por razões geopolíticas querer aproximar-se de França e Alemanha. Este é o verdadeiro pesadelo dos Estados Unidos: pois, como lembra a velha raposa Zbigniew Brzezinski, quem controlar a Eurásia controla o mundo.

Por isso Putin olha para o leste também. O fim da intervenção ocidental no Afeganistão não será o último dos perigos. Para não cair abaixo dos 100 milhões de pessoas, a Rússia precisará no futuro da Bielorrússia e da Ucrânia. Estes dois Países representam uma contribuição humana de 60 milhões de habitantes, suficiente para constituir uma super-potência que possa enfrentar a China.

E depois há o Irão, que bem representa a actual situação.

Vladimir Putin expressou no passado Janeiro a ideia de que estamos assistindo a formação de uma nova ordem mundial, de tipo multipolar. Nesta óptica também deve ser lida a declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, segundo o qual o Ocidente estaria a fazer um erro grave ao atacar o Irão. Isso significa que Moscovo não vai aceitar acordos, como aqueles feitos acerca do Iraque ou da Líbia.

Uma situação complicada aquela dos Estados Unidos: no leste a China, que afirma que “Washington não é mais capaz de impedir o nascimento do sol crescente da China”, mais a ocidente Moscovo, com os seus gasodutos e aproximação entre as ex-repúblicas soviéticas.

Putin escreveu: “O mundo está à beira dum período de desordem, que será longo e doloroso”. Pois não há espaço para ilusões: os Estados Unidos não entregarão a própria supremacia sem lutar. A Rússia não pode garantir a estabilidade global num momento em que os outros centros de influência ainda não estão prontos para assumir as próprias responsabilidades. Em outras palavras, estamos diante dum longo período de tempo de agonia do sistema unipolar, que durará até as outras potências poderem implementar uma nova ordem.

Será um longo caminho, que na verdade já começou. Um caminho feito de guerras não directas mas “construídas” nos bastidores e actuadas por protagonistas ocasionais com base regional. Etnias e religião serão as razões oficialmente apresentadas para justificar os confrontos. Para entende-las será necessário não perder de vista o quadro geral.

Na verdade, será um conflito global, simplesmente dissimulado: assim deve ser interpretada a Primavera Árabe, por exemplo. É a queda do Império e o nascimento duma nova ordem que terá os BRICS quais novos protagonistas.

Talvez, pois nada está escrito. Por enquanto temos três protagonistas na cena global: os Estados Unidos, a Rússia de Putin e a China de Pequim. Num mundo multipolar serão precisos mais.

Ipse dixit.

Fontes: Polemia, Voltairenet