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Entrevista: Soros, o filantropo – Parte II

E continuemos com a segunda parte da entrevista com o ídolo de grandes e pequenos: George Soros, uma pessoa que colocou “o bem público na frente dos interesses privados” como questão de princípio. E desculpem se pode parecer pouco…

Boa leitura.

 Parte 2 – O fracasso político da Europa

Spiegel: Como muitos Americanos, e como o governo dos Estados Unidos, você também deseja que seja injectado mais dinheiro para salvar o Euro. Porque então os EUA não aumentam a contribuição para o resgate através do Fundo Monetário Internacional?

Soros: Não vejo a necessidade de envolver o FMI. É apenas um fracasso político da Europa e especialmente da Alemanha, porque a Alemanha é a responsável. A Europa no geral está em equilíbrio e deveriam ser capazes de resolver os seus problemas internos.

Spiegel: O senhor tem repetidamente “empurrado” para a introdução dos Euro-bonds [as obrigações em Euro, ndt]. O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, respondeu com a afirmação de que as Euro-obrigações seriam um incentivo errado, porque “é preciso gastar sem deixar a conta para os outros.”


Soros: As pessoas como Schäuble parecem não entender que os Países altamente endividados estão em grande desvantagem, porque praticamente se tornam altamente endividados em moeda estrangeira, o Euro. Não podem controlá-lo, e então estão na mesma posição em que estavam Países do terceiro mundo da América Latina nos anos ’80, quando começaram a tomar empréstimos em Dólares. Uma situação que perdurou por décadas. A Europa tem de enfrentar uma década perdida. É por isso que precisamos de Euro-bonds e dum novo pacto fiscal na União Europeia.

Spiegel: A UE teve um pacto fiscal. Simplesmente, as regras adoptadas não foram aplicadas. Porque um novo pacto fiscal poderia fazer a diferença?

Soros: No passado, não havia nenhum mecanismo de aplicação. Se introduzirmos obrigações em Euros, a maior parte do financiamento seria em igualdade de condições entre Espanha e Alemanha. Se os Espanhóis pedissem um empréstimo adicional, este empréstimo utilizaria o crédito do seu próprio País, pelo que seria extremamente caro pois haveria uma forte sanção. Na prática, criar Euro-bonds também significa criar um mecanismo para controlar a quantidade de empréstimos em cada País.

Spiegel: Mas os políticos alemães têm-se esforçado para afastar os Euro-bonds.

Soros: Isso não é verdade. Claro, o ex-ministro das Finanças Peer Steinbrück costumava dizer: “Obrigações em Euros? Beco sem saída”. Hoje, no entanto, o peso máximo do Partido Social-Democrata, Frank-Walter Steinmeier, disse que, como eu, o que a Chancelera Merkel propôs em resposta à crise é necessário mas não suficiente.

Spiegel: Steinmeier não está no poder.

Soros: A questão é que a oposição aos Euro-bond já não podem ser considerada  como “a posição alemã” em absoluto. Mas deve ser atribuída às escolhas deste governo neste momento particular.

Spiegel: O que poderia acontecer com a Grécia?

Soros: A Europa terá de injectar em breve biliões de Dólares adicionais na Grécia para evitar um default imediato. Espero que em breve serão disponibilizados outros empréstimos, porque a Europa não está preparada para lidar com um default da Grécia. Um default confuso seria tão prejudicial que é melhor pagar agora e permitir uma falência controlada mais tarde.

Spiegel: O efeito de contágio no resto da Zona Euro seria inevitável se a Grécia declarasse falência agora?

Soros: Os governos da Itália e Espanha provavelmente não ficariam envolvidos graças ao mecanismo de ré-financiamento de longo prazo fornecido pelo Banco Central Europeu. Fico preocupado com os bancos e os depósitos bancários. Se os depositantes gregos perdessem dinheiro, ninguém seria capaz de travar um contágio dos bancos italianos e espanhóis, o que poderia levar à queda do Euro.

Spiegel: Também os Estados Unidos, sempre dispostos a dar conselhos a os Europeus, não estão a sair-se muito bem. O movimento Occupy Wall Street colocou na agenda a maciça desigualdade social da América. Como um dos principais investidores mundiais, o que acha do movimento?

Soros: Eu tenho simpatia pela raiva deles, porque são vítimas. Os investidores e as instituições financeiras de Wall Street tiveram grandes receitas com os lucros dos bancos. Mas cada vez que perderam dinheiro, o Estado foi forçado a assumir as perdas. Isto é extremamente injusto e as pessoas que pagam as consequências, porque perderam os seus empregos ou por ter que pagar mais impostos, travam um protesto legítimo.

Spiegel: O senhor também defende a ideia de que as pessoas ricas, como você, devem pagar impostos mais altos, tal como proposto pelo movimento?

Soros: Sim. E não apoio os Republicanos que querem salvar-me do pagamento dos impostos.

Spiegel: Qual é a sua faixa de imposto?

Soros: A minha faixa efectiva de imposto é relativamente baixa, mas apenas porque a cada ano devolvo pelo menos 50% do meu rendimento para a minha fundação.

Spiegel: Se gosta da ideia de pagar impostos mais altos, porque não pagar mais impostos em vez de doar dinheiro para sua fundação?

Soros: Porque acho que a minha fundação usa o dinheiro melhor do que governo. Em todo os casos, pago os impostos.

Spiegel: Está a dizer que, afinal, é mais inteligente do que o governo.

Soros: Bem, eu tenho mais liberdade de acção em relação a um sistema burocrático. Também gosto das causas para as quais contribuo.

Spiegel: Afirma que todos os outros ricos deveriam pagar mais impostos?

Soros: Se todos os ricos utilizassem 50% das suas fortunas em obras de caridade, neste caso não deveriam pagar mais impostos.

Spiegel: Você é um democrata de longa data, mas recentemente disse que não há muita diferença entre o provável candidato republicano à presidência, Mitt Romney, e Barack Obama. Sério?

Soros: Foi reportada apenas uma pequena parte da minha resposta. Há muitas diferenças entre as pessoas que gostariam de governar e o tipo de juízes que poderiam nomear. Mas mesmo assim, haveria algumas diferenças importantes. Por exemplo, Obama poderia insistir mais do que Romney num aumento dos impostos. É por isso que os meus clientes dos hedge funds suportam Romney e não Obama.

Spiegel: O senhor poderia gostar de Romney pois ele foi um empresário de sucesso. Nestes tempos de agitação social, um capitalista “de risco” pode tornar-se o próximo presidente dos EUA?

Soros: Romney diz que sabe como criar empregos, mas como um investidor de private equity provavelmente terá destruído mais empregos daqueles que criou, pois queria maximizar os lucros.

Spiegel: Tenciona apoiar o presidente Barack Obama com doações de milhões de Dólares, como fez na última campanha?

Soros: Não tenciono fazer contribuições daquele tamanho.

Spiegel: Está insatisfeito com o trabalho de Obama?

Soros: Decepcionado é a melhor palavra. Obama é mais um seguidor de que um líder, muito menos do líder de Angela Merkel, por exemplo. Infelizmente, a Merkel guia a Europa na direcção errada. É por isso que eu estou a tentar mudar a mente dela. Eu ainda acredito que os Alemães sejam pessoas razoáveis.

Spiegel: Obrigado por esta entrevista.

Como “obrigado”? E eu que traduzi a tralha toda? Malditos Alemães…

Bom, ficaram comovidos? Eu sim, e muito.
Mas atenção: como já lembrado, “há afirmações sábias por aqui”. Podem ser feitas para favorecer a posição de simpático Soros (e disso não temos dúvidas), mas têm fundamentação. Soros está “no jogo” há décadas e sabe do que fala.
Muito mais do que uma Angela Merkel.

A primeira parte da entrevista? No seguinte link:
Entrevista: Soros, o filantropo – Parte I

Ipse dixit.

Fonte: Der Spiegel via Megachip