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O mundo de Maria

Eis o que diz Maria.

Olá todos: Max nos brinda com informações objetivas bem organizadas, que da minha parte agradeço muito. Sei lá quem disse uma coisa interessante: pensar globalmente, agir localmente.

Mesmo sem grandes informações, tateando meio que intuitivamente, me parece que para quem busca alternativas de sobrevivência não seria oportuno gastar energia com organização de grandes massas, até porque a humanidade em geral esteve e está condenada a burrice crônica.

Que tal arranjar uma terrinha, plantar sua comidinha, como eu faço e me dou bem, embora nem por isso fique livre dos pesticidas que estão nas sementes já globalmente manipuladas!?

Que tal praticar pequenas trocas com o excedente com vizinhos?
Por exemplo: eu troco ovos por farinha, troco feijão por mel, e nisso sem alarde, em 10 anos, nos envolvemos 50 pessoas, dessas que não sabem nada de política global, mas sabem economizar o pouco que têm e ainda sabem distinguir pelo cheiro ou ausência de, comida de veneno puro!?


Que tal construir uma casinha boa e confortável basicamente com o que os idiotas jogam fora e não entendem ser material de construção!?

Que tal fazer um grande buraco no chão até encontrar água pura, potável (no meu caso foram 7m e meio, pedras abaixo)e eis a autosuficiência no líquido mais precioso no mundo!?

Que tal buscar um controle pessoal da energia elétrica que utiliza!? No meu caso, tenho um bom geradorzinho (na verdade ainda não encontrei petróleo, nem sei como refiná-lo em óleo diesel HIhihi…) mas melhor que pagar a luz tão cara por estes pagos do sul do Brasil!?

Que tal arranjar umas placas de energia solar e ter água quentinha a disposição!?

Que tal subir bem alto, bem alto, fincar uma torre de radio transmissão, captar sinal dos satélites a girar em torno do planetinha terra e dispor de internet, que está longe de ser uma maravilha mas me permite ler o Max e falar com vocês!?

Que tal gastar o mínimo dos mínimos em roupa, faze-las em casa, brincar de inventar modas pessoais em vestuário, utensílios domésticos e móveis!?

Que tal não se deixar seduzir por nada que consuma inadvertidamente!?

Que tal testar e fazer funcionar os próprios remédios que um corpo já desgastado pela idade, como o meu estão exigindo!?

Que tal valer-se dos amigos bichos e de sua inteligência e amizade real para garantir a segurança da sua toca/casa/paraíso possível!?

Que tal usar o precioso tempo para trabalhar nisso tudo, estudar isso e muito mais com paciência e afinco, conversar com quem sabe das coisas práticas, possíveis de serem feitas, exequíveis, e ensinar aos que estão próximos/distantes como sobreviver nesse mundinho que o Max descreve com precisão cirúrgica!?

E, muito mais que sobreviver, inverter a ordem desejada das coisas no único espaço onde cada um tem controle da situação: a sua própria vida!?

Sei que vários de vocês vão me achar simplória, talvez idiota, mas sinceramente, até agora eu não encontrei sabotagem mais gostosa, prazeirosa e rendosa para fazer. Muitos abraços.

O futuro? Preocupa…

Este comentário já mereceu a (justa) publicação no blog de Burgos também. “Justa” porque Maria deixa aqui algumas ideias bem interessantes.

Antes demais: Maria (e não sei se era esta também a intenção) acaba de descrever algo que parece ter saído da saga cinematográfica de Mad Max mas que representa um futuro bem possível. Para não dizer provável.

Eu sei, isso soa de forma esquisita agora, enquanto estamos aqui, nas nossas lindas casinhas, rodeados por telemóveis, televisões LCD, frigorífico que dispensa água fresca e gelo à vontade. Mas já pararam para pensar? Quanto tempo acham que pode durar?

Não quero vestir o hábito do monge e começar a percorrer as ruas gritando “Penitência! Penitência!”; mas sabemos que o futuro dificilmente poderá ser tão risonho: falta de recursos, um sistema económico e financeiro em crise profunda, isso sem falar das grandes decisões que já alguém tomou por nós.

Os magníficos 30 anos, os que seguiram o fim da Segunda Guerra Mundial, não voltarão, não há condições.

Há água para todos?
Há comida para todos?
Há energia para todos?
Há uma estabilidade política que possa garantir o correcto funcionamento da sociedade e das suas instituições perante algo de (in)esperado? Lembrem do que aconteceu com a queda do Império Romano.

Se o Leitor achar que a resposta for “sim”, então pode acabar já de ler este artigo e voltar a ligar a televisão.
Se a resposta for “não”, então as sugestões de Maria fazem todo outro sentido.

E mesmo que houvesse água, comida e energia para todos (e acho que há por enquanto), como podemos pensar que a miragem do eterno crescimento possa tornar-se realidade num mundo limitado qual é o nosso?

Liberdade de obedecer 

Depois há outro aspecto, mais imediato: viver segundo as nossas regras, não segundo as regras dos outros.
Parece fácil, mas não é.

Aliás, nós nunca fazemos isso.

O que compram ao visitar um supermercado? Onde adquirem a vossa energia? Como enchem o depósito do vosso carro?

Quantos canais de televisão têm? 50? 100? E quantos deles costumam ver com regularidade? Quatro? Cinco? 10 no máximo? E porquê?

Ao não estar em forma, onde vão? À farmácia? Lógico. E compram o que o farmacêutico sugere ou começam a questionar coisas do tipo: “Mas quem é que produz esta porcaria de medicamento? E que tem dentro?”

Da comida falámos num recente post, não é o caso de repetir.

E quando chegar a altura das eleições, vão votar em algo que você escolheram ou em alguém que outros escolheram por vocês? Esta é democracia? Têm a certeza?

Pagam as taxas? Mas acham isso normal? Conselho: parem um segundo para pensar no assunto. E entretanto questionem: onde acaba o meu dinheiro? É utilizado para quê? Pois estas são perguntas que não costumamos fazer, consideramos tudo isso como absolutamente normal, parte duma sociedade “normal”.

Seria possível continuar com uma infinidade de exemplos, pois ao analisar o nosso dia a dia podemos perceber uma coisa: poucas das nossas escolhas são livres. Poucas das nossas decisões são verdadeiramente decididas por nós.

E aqui chega Maria. Que sugere outro estilo.

Voltar ao básico, desligar as nossas antenas, continuamente sintonizadas para a recepção dos input externos, e começar a tratar do nosso, em primeira pessoa. Procurar a nossa água, utilizar remédios naturais, implementar um sistema de troca, desfrutar o que a Natureza tem para dar, que não é pouco.

Alguém tem algo em contrário? Espero bem que não.
Porque Maria não está a propor algo de “outro mundo”, está a propor algo que os nossos avós bem conheciam. E com eles, todas as gerações que atravessaram a História, até as últimas décadas.

É um sistema de vida mais à medida dos seres humanos, funcionou ao longo de milénios, porque não poderia funcionar agora?

…e como sempre: problemas!

Todavia há problemas.

Por exemplo: quem mora numa cidade pode achar aborrecido furar junto à praça da Câmara à procura de água para depois ficar preso.

E mesmo a questão da electricidade não é tão simples: experimentem pôr a funcionar um gerador, 24 horas por dia, num condomínio.

E depois tentar convencer os vizinhos (já histéricos por causa do barulho do gerador) que seria boa ideia investir algumas dezenas de milhares de Euro num painel fotovoltaico.

Entretanto teremos que tentar acalmar os filhos que choram porque na escola são considerados “desgraçados” por causa da roupa não de marca e até preparada por nós.

Eu não acho Maria nem “simplória” nem “idiota”, como ela escreve; só que a realidade do campo é bem diferente daquela da cidade.

Há muitos anos vi um excelente filme de Akiro Kurosawa, Derusu Uzala (no Brasil o título é o mesmo, em Portugal foi traduzido com um tristérrimo A águia das estepes: quem fez uma tradução assim deveria ter sido linchado na praça pública), o qual tratava também deste aspecto: o choque entre a vida na cidade e a vida nos campos, a incompatibilidade destas duas formas de existência.

E muitas das coisas propostas por Maria não são viáveis para quem hoje em dia mora nos grandes bairros metropolitanos.

Muitas sim, mas não todas.

…e como sempre: soluções!

Mesmo tendo um jardim pequeno, é possível cultivar algo.

Ok, o tomate assim obtido estará cheio de pesticidas e terá absorvido todos os gases dos escapes. Mas podemos sempre servi-lo para a nossa sogra.

Ok, agora a sério. Acho que cultivar a nossa própria comida é importante. É um passatempo, uma forma de produzir algo de “nosso” e, quem sabe, pode sempre tornar-se útil no futuro.

Muito útil.

Eu cultivo o manjericão! Pois quem é de Génova não vive sem manjericão…e a salsa, que Leo costuma comer quando não está bem disposto. A propósito: quem ensinou ao Leo que a salsa ajuda a tratar-se? Ninguém, é um instinto dele. Quantos dos nosso instintos foram “sufocados”?

Vamos em frente.

A troca. Ideia maravilhosa. Na internet há já uma tentativa para tornar a troca algo de prático, e funciona. Se bem lembro, a ideia foi duma mulher que começou com amigos e vizinhos; a ideia pegou e hoje existe uma comunidade que , via internet, efectua troca de produtos.
Estas são notícias que não aparecem nos media; e nem aqui, pois em verdade não lembro como se chama esta associação dos Estados Unidos, se não estou errado.

Mas a origem não interessa, é a ideia que conta. Sem necessariamente abrir sites na internet, porque não experimentar a coisa entre amigos, pessoas conhecidas, vizinhos? Afinal, qual o risco? Não vamos mudar o mundo com isso, mas nem piora-lo. E a satisfação de ter algo sem passar pelo dinheiro?

Fazer roupa e utensílios em casa? Porquê não? Se alguém tiver jeito com o bricolage, pode ser uma boa ideia. Porque o móvel adquirido tem de ser melhor daquele que podemos construir a partir da madeira?
Resposta: porque provavelmente o móvel adquirido acaba com o custar menos. Verdade.

Mas desejamos mudar algo ou não? Então porque temos de continuar a entregar dinheiro a empresas que mandam vir o móvel de cartão prensado da China, que se por acaso apanhar um pouco de chuva dissolve-se literalmente, quando podemos construir o nosso com bons materiais e sem explorar o trabalho dum fulano que ganha 1 Dólar por dia?

Limitar os gastos deveria ser um assunto supérfluo, mas não é.

Quanta água deitamos para o lixo (literalmente) ao puxar o autoclismo? Peguem numa garrafa de um litro e meio enchida com água, levantem a tampa do reservatório do autoclismo e posicionem a garrafa de pé, do lado oposto ao dos mecanismos.

Poupa-se um litro e meio de água de cada vez.
Assumindo apenas uma utilização diária do autoclismo (mas quem puxa o autoclismo uma vez só por dia?) são quase 550 litros de água poupados num ano. Acham pouco?

Não podemos mudar o mundo ao enfiar uma garrafa de água no autoclismo. Mas é um passo, pequeno mas sempre um passo. Ou é melhor nada?

Existem milhares de maneiras para poupar. Poupar no ambiente e poupar nas nossas carteiras. Além disso, água e comida são bens preciosos, deita-los no lixo é um pecado particularmente grave e uma enorme falta de respeito.

Televisão? Aqui em casa há uma guerra entre Leo e eu dum lado e Guida do outro: mas de verdade precisamos de internet 50 Mb e 100 canais de televisão? Guida acha que sim, Leo e Max acham que não, mas como estamos em democracia ganha Guida.

Quando estava em Italia tinha a minha bonita antena parabólica, com a qual captava não um mas dois satélites (nomeadamente: Sírio e HotBird 8, no Brasil haverá com certeza os correspondentes), grátis, um total de algumas centenas de canais.

Agora os satélites dão também para internet. Porque temos de pagar os vários fornecedores via cabo que aplicam tarifários sem sentido e atrás dos quais podemos encontrar as caras do costume?

Moral da história

Seria possível continuar, mas este post, que já é bem comprido, ficaria com dimensões preocupantes.

O que interessa é o seguinte: temos de desligar dum mundo que é concebido unicamente para os consumidores compulsivos (isso é: nós).

Não é uma forma de vida natural, e se o Homem conseguiu evoluir ao longo dos milénios não foi graças aos centros comercias, mas graças às ideias, que são gratuitas.

Maria apresentou algumas ideias, boas ideias.
A escolha, como sempre, é do Leitor.

O que desejamos deixar aos nossos filhos? A sabedoria de utilizar o cartão de crédito ou uma forma de ser pessoas autónomas e pensantes?

E nós? Tudo o que somos deve ser resumido num “trabalhas-consomes-morres” ou há algo mais do que isso?

Ah! E mais uma vez: obrigado Maria!

Ipse dixit.