O post Rezamos já sortiu o efeito: o número de seguidores perdeu uma unidade.
Normal.
O blogueiro inteligente driblaria o assunto, pois quando se fala de Religião são despertadas paixões que mexem no íntimo de cada um: há pessoas que conseguem lidar com isso, e encarar o discurso como a tentativa de procura, há outros que recusam até ler opiniões que possam divergir dos sagrados textos.
Mas como por aqui não há um blogueiro inteligente, continuamos com o assunto, para que fique claro que Informação Incorrecta não é um blog católico (mas nem anti-católico).
É um blog de dúvidas, as minhas e de todos os Leitores que tentam encontrar respostas.
E continuamos para fazer um pouco de limpeza (passem o termo) também: se houver Leitores que julgam as críticas aos sagrados textos uma blasfémia, então esta pode ser uma boa ocasião de migrar para outros portos. Porque neste blog não há certezas e ainda menos dogmas, de nenhum tipo.
Diz Anónimo:
Vejo que todos falam de religião.
Quem poderá descrever a criação?
Quem dentre vocês é tão sábio para conhecer as coisas do Altíssimo?
Tudo o que há nos universos, céus e terra é criação, mas Deus é Criador de tudo e é diante d’Ele que devemos dobrar os nossos joelhos em adoração e louvor. Deus é Único, não pode ser comparável, nem com árvores, nem com animais, nem com estrelas, mares, rios, nem sequer com pessoas. Tudo foi criado por Ele e para Ele (Eclesiastes 5:2).
Olá Anónimo.
Em primeiro lugar (além de agradecer por ter escrito, isso é implícito): ninguém consegue descrever a Criação.
Cada religião formulou uma história bastante simples, que fosse facilmente entendida por todos.
Na Religião cristã temos Deus que em seis dias fez tudo e no sétimo descansou (pois de facto tinha sido uma trabalheira).
Hoje sabemos que nada daquilo que os primeiros capítulos da Génesis conta pode ser verdade: até Santa Romana Igreja reconhece que as provas encontradas indicam outra versão e não há nada de mal nisso. Simplesmente, os nossos conhecimentos aumentaram e passaram a incluir dados que antes eram desconhecidos.
Mas há um aspecto preocupante: com o passar do tempo, o papel de Deus foi cada vez mais marginalizado. Isso obriga a reflectir.
Os homens primitivos viam os relâmpagos e pensavam: é a ira de Deus (ou dos Deuses).
Hoje sabemos que o relâmpago é um fenómeno natural e a dúvida, no caso, é como é que Deus não utiliza isso para incinerar os bancos. Mas este é outro discurso..
Os antigos pensavam num mundo como o centro do Universo, pois assim estava escrito. Mas assim não é.
Ainda na Idade Média era normal pensar que o Sol rodasse à volta da Terra. Mas é o contrário.
Até foi criado um sistema de esferas de puro cristal que fosse em sintonia com as Sagradas Escrituras. Isso até que Galileo apontou o telescópio, pois ficou claro que não havia esfera nenhuma.
Estes poucos exemplos demonstram uma coisa simples e ao mesmo tempo lógica: a Bíblia não é nem pode ser interpretada como um livro científico.
A Bíblia foi escrita para pastores, analfabetas, pessoas sem um mínimo de instrução. Não teria feito sentido tentar explicar a Teoria da Relatividade ou a função do DNA, ninguém teria percebido.
Infelizmente há pessoas que não entendem isso e continuam a ver a Bíblia como a única verdade, mesmo que isso seja contrário às regras básicas do senso comum, mesmo que tudo indique o oposto, mesmo que a Igreja diga que sim, de facto a Bíblia não é um livro científico e que a ideia do Big Bang pode ser aceite.
“Quem dentre vocês é tão sábio para conhecer as coisas do Altíssimo?“
Quem entre os Leitores é tão sábio para demonstrar a existência do Altíssimo? Porque, como escrevi no já citado post, uma coisa é a Fé, outra é a Razão: e o amigo Anónimo mistura Fé e Razão. Então as coisas ficam complicadas.
Se o nosso desejo for misturar, temos de estar prontos para discutir. Neste caso, eu pergunto: onde fica Deus?
A prova não está na Bíblia, pois este não é um livro científico e tudo o que temos aí são palavras ou contos escritos há séculos, que ninguém pode comprovar.
A prova não está no mundo, pois tudo o que existe pode ser:
a) explicado cientificamente
b) explicado sem recorrer a uma intervenção divina.
Então, sem excluirmos a Fé (e os relativos dogmas), não conseguimos provar a existência de Deus. Este é o maior perigo que deriva da mistura entre Fé e Razão: são dois mundos paralelos e sem pontos de contacto.
Os contactos encontrados são empíricos, inseridos à força, não naturais.
A Fé é perfeitamente capaz de descrever um mundo totalmente criado e gerido por Deus.
Mas a Razão pode fazer a mesma coisa.
Quem dentre dos Leitores é tão sábio para demonstrar o contrário?
“Tudo o que há nos universos, céus e terra é criação, mas Deus é Criador de tudo e é diante d’Ele que devemos dobrar os nossos joelhos em adoração e louvor.” diz o amigo Anónimo.
Eu costumo dobrar os joelhos só para apertar os sapatos ou se cair algo (e na altura digo más palavras, admito), mas além disso não é necessário um Criador para justificar o Mundo.
O Big Bang? Pode ter existido, pode não ter existido. Temos indícios de que sim, algo aconteceu há 14 bilhões de anos. Foi Deus? E porque deve ter sido Ele? Porque a partir do nada nada pode ser criado? Têm a certeza disso?
E se eu dissesse que há uns 20 anos foi publicado um extraordinário livro que demonstra o contrário, escrito por dois conhecidos e respeitados astrofísicos? Ah, pois, meus senhores, as informações existem, é só ter a vontade e a paciência de procurar e ler.
Mas temos também suspeitas de que o Big Bang pode nunca ter acontecido. E as dúvidas não são minhas, são de Stephen Hawking, prémio Nobel e provavelmente único génio hoje em vida (isso sem contar Max, claro).
Um Universo que se expande, contrai, volta a expandir-se, sem passar por “Grandes Explosões”; um Universo cíclico (possível também com o Big Bang, só um pouco mais “radical”), muito mais em linha com as religiões orientais de que com os contos da Bíblia.
Diz ainda o amigo Anónimo: “Deus é Único, não pode ser comparável, nem com árvores, nem com animais, nem com estrelas, mares, rios, nem sequer com pessoas“.
E neste caso não posso não concordar: se Deus existir, então deve ser algo que nós dificilmente podemos sequer imaginar, algo de muito diferente de tudo, de imensamente superior. Caso contrário não seria um Deus.
Mas o resto? Aceitar os dogmas da Fé ou apostar na pura Razão? Ou tentar uma impossível conciliação?
Cada um tem que escolher o próprio caminho, sem impor a própria visão aos outros. Ser um Soldado de Cristo pode ser uma boa ideia, mas só se for Cristo em Pessoa a fazer a investidura, caso contrário arriscamos ser apenas fanáticos sem raciocínio.
Tão profundo que não pode caber nas páginas dum livro, por sagrado que possa ser.
O Anónimo diz:
Tudo foi criado por Ele e para Ele (Eclesiastes 5:2).
Que, como prova, deixa bastante a desejar. É um pouco como entrar num restaurante e perguntar “Como é o vinho aqui?”. Resposta: “É bom, fique descansado”. Ou conhecem alguém que diga “Nesta casa servimos apenas vinho de treta”?.
Não é um assunto simples, e não há hipóteses de diálogo se cada um reconhece apenas como válido o próprio ponto de vista. É uma conversa entre surdos. Então é melhor ficarem calados ou discutir só com quem partilha as nossas opiniões.
Para todos os outros, que não têm a presunção de saber tudo, existe este blog. Pelo menos não fico sozinho…
Amen.

