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O barril

Será que temos de levar ainda mais a sério o actual cenário? Será que o que estamos a observar no Egipto pode tornar-se um efeito dominó de proporções inimagináveis?
 
Por enquanto é cedo para avançar como uma afirmação destas. É provável que uma vez resolvida a situação do Cairo, as outras condições difíceis possam não ultrapassar os confins regionais.
No entanto, não podemos esquecer que a revolta não é apenas um fenómeno interno do Egipto. 

Tunísia

Afastado Ben Ali, o primeiro-ministro Ghannouchi deve agora lidar com as reformas exigidas pela população. Que ainda manifesta, insatisfeita com um governo fruto do compromisso.

Argélia

Foi aqui que, em meados de Dezembro, alastrou a faísca na área. Muitos suicídios de protesto; o presidente Bouteflika ainda está no poder e há dois dias três pessoas desempregadas mutilaram-se.

Marrocos

O rei Mohammed VI impediu a propagação da revolta através da introdução de medidas para conter a inflação. Mas a situação está longe de ser resolvida: na Terça-feira dois desempregados morreram entre as chamas.

Líbia
Na terra de Khadafi, no poder desde 1969, Janeiro começou com centenas de Líbios que ocuparam casas contra os preços elevados. Rápida a repressão, mas o desemprego é elevado.

Jordânia
Os muitos protestos em Amã, o último dos quais na passada Sexta-feira, levaram o rei Abdullah a demitir o primeiro-ministro ,Marouf Bakhit, e nomear o novo.
 
Arábia Saudita
As manifestações chegaram até à Arábia Saudita, em Jeddah, onde encontrou refúgio o ex-ditador da Tunísia, Ben Ali. E mesmo na terra do rei Abdullah, um homem pôs-se em chamas.
 
Yêmen
35% dos habitantes têm entre 14 e 29 anos, a taxa de desemprego é muito elevada. Hoje é prevista uma demonstração para exigir a renúncia do presidente Saleh, na capital Sanaa.
 
Sudão
O Presidente al-Bashir aceitou formalmente a independência do sul, mas o País dividido, numa situação de forte instabilidade, pode ser um foco de insurreição geral.
 
Mauritânia
Também na Mauritânia houve protestos de rua e um empreiteiro escolheu morrer entre as chamas. O País tem uma taxa de desemprego de 30%. Os jovens são 31% da população.

Estamos sentados sobre um barril de pólvora? Assim parece.

A verdade é que a crise internacional, mas sobretudo a especulação no sector alimentar ao longo dos últimos meses e a consequente inflação, têm criado uma situação insustentável.

Uma dúvida que já apresentei: é uma especulação “natural”, por assim dizer, ou há algo mais? Estes são apenas os efeitos das várias manobras do género Quantitative Easing ou estamos perante uma inflação criada ad hoc?

Por enquanto não há repostas.

Mas uma coisa pode ser dita com certeza: a violência, as manifestações, os suicídios, são os frutos da tentativa de salvar o nosso mundo. Não o mundo dos Egípcios, dos Tunisinos, dos Argelinos: mas o mundo de nós Ocidentais. Sem as inconscientes medidas para resgatar o nosso sistema económico moribundo, sem as manobras para alimentar o insaciável mercado financeiro, agora não haveria desempregados em chamas nas ruas de tantos Países.

E é curioso observar o Secretário da Nações Unidas, o coreano Ban Ki-moon, apelar para que a repressão pare.
Uma pessoa séria, responsável, com um mínimo de dignidade, apelaria para bem outras coisas e não apenas para que a ligação internet seja restabelecida no Egipto.

Doutro lado, é também verdade que neste caso o bom Ban Ki-moon, seria “suicidado”…

Ipse dixit.