Último encontro com a série “Especial Nato”.
A Cimeira acabou e os media falam dos resultados em tons triunfantes: um sucesso, uma apoteose, que teria sido do mundo sem este summit? De facto, o termo mais usado é “histórico”.
Tentamos fazer um resumo um pouco mais sério e vamos ver quais os pontos fundamentais.
Era este o ponto-chave da Cimeira.
A Nato quer sair do Afeganistão, quer deixar para trás uma guerra que não consegue ganhar. Mas não quer ouvir falar em derrota. Por isso tenta desenhar uma Exit Strategy, uma estratégia de saída.
Neste ponto de vista a Cimeira falhou. E não poderia ter sido de forma diferente.
Numa guerra, as partes em causa são dois, no mínimo. No caso do Afeganistão, a situação é infinitamente mais complexa. Há a Nato, os Talibãs, o governo do Afeganistão, o Paquistão. E, nos bastidores, o Irão, a China, Israel.
Por isso não basta sentar-se à volta duma mesa em Lisboa e dizer: queremos sair.
Por isso a Exit Strategy desenhada na Cimeira não passa duma pobre ideia, nem sequer original, que nada mais é senão uma tentativa de ganhar tempo.
De facto, a ideia é de re-propor a brilhante (!!!) técnica utilizada no Iraque, formar policia e força de segurança afegãs: na realidade, tudo depende das negociações em curso com os Talibãs.
Outro “marco histórico” é ter alcançado um novo conceito estratégico para a Nato. Vamos ver o que é isso.
O secretário-geral da Aliança Atlântica reafirmou que o conceito “vai assegurar que a NATO permanece eficaz como sempre na defesa da paz, segurança e prosperidade“, reafirmando “o compromisso dos membros da NATO de se defenderem uns aos outros de eventuais ataques”, mas ao mesmo tempo “modernizando a forma como a NATO se defende“.
O novo conceito “oferece aos parceiros (da organização) no mundo mais diálogo e cooperação“, enfatizando a aproximação à Rússia, e apontou que o documento revela o compromisso da organização com “o objetivo de um mundo sem armas nucleares”, mas “confirmando que, enquanto elas existirem, a NATO tem de continuar a contar com a dissuasão nuclear“.
O secretário-geral da NATO assinalou que o conceito “mantém a porta aberta a democracias europeias”, comentando que “o alargamento (anterior da organização) ajudou a espalhar a paz, democracia e prosperidade neste continente”.
Este, em resumo, é o Novo Conceito Estratégico. Se alguém encontrar algo de realmente “novo” nestas declarações, é favor enviar-me um mail.
E como prova da modernização da Nato, eis a proposta: um sistema anti-míssil.
Sem dúvida, uma ideia nova e revolucionária.
O sistema aprovado pelos Estados membros da NATO implica a integração do sistema americano, mais móvel e flexível que a versão do anterior Presidente Bush, com o que a NATO estava a instalar, e que visava apenas a cobertura das operações militares.
O secretário-geral da NATO tem avançado que o novo sistema, que deverá cobrir todo o território e população dos 28 Estados membros, só terá um custo adicional de 200 milhões de euros, distribuídos pelos 28 e em dez anos. Todavia, este é apenas um custo adicional aos 800 milhões que já estavam previstos e assumidos segundo afirmou ontem o porta-voz da NATO, James Appathurai.
Moscovo cooperará na instalação do escudo anti-míssil. E não fecha a porta perante a possibilidade de entrar na Nato.
Talvez, um dia, quem sabe.
Mas o problema de fundo não foi resolvido: para que serve a Nato?
Ou, dito de outra forma: se não existisse a Nato, como mudaria o mundo?
Vamos ver, ponto por ponto, as várias razões que apelam à sobrevivência da Aliança Atlântica.
Ciberegurança:
Um dos problemas discutidos na Cimeira foi o da cibersegurança: é evidente que a Nato não é indispensável na guerra contra os crimes que viajam na internet.
Afeganistão:
O Afeganistão é um problema criado pela Nato (e do qual não sabe como sair decentemente).
Terrorismo:
O terrorismo não pode ser resolvido com o envio de exércitos em outros Países, isso ficou muito claro.
Guerras:
A última guerra na qual os Países ocidentais ficaram envolvidos foi a do Afeganistão que, como vimos, foi desencadeada pela mesma organização atlântica.
A anterior intervenção tinha sido no Kosovo, numa operação que deveria ter sido gerida pelas Nações Unidas e não por uma organização que afirma ser “defensiva”.
Afinal, esta estrutura “defensiva” declarou guerra já duas vezes e sem ter sido atacada.
Nuclear:
O único País que utilizou armas nucleares numa guerra (EUA), e o que mais armas nucleares detém nos próprios arsenais, faz parte da mesma organização que pretende defender o mundo da proliferação e do risco nuclear.
É uma piada? Não, é a Nato.
ONU:
A Organização das Nações Unidas foi um assunto bem esquecido ao longo da Cimeira, e não acaso. As prerrogativas da Nato pertencem à ONU e a mesma existência da Nato redimensiona o papel que deveria ser da organização liderada por Ban Ki-Moon.
Europa:
O mundo não seria um lugar pior sem a Organização do Tratado do Atlântico Norte: talvez o contrário, pois poderia existir mais espaço para o dialogo e as soluções politicas. Sem dúvida, mais espaço para a única organização que tem legitimidade e razão de existir: a ONU.
A Nato teve um papel fundamental no mundo da Guerra Fria.
Mas hoje, num mundo em plena deslocação geopolítica, a Nato é nas melhores das hipóteses uma incomoda relíquia do passado.
E, como tal, está destinada ao fracasso.

