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| Os sapatos de Cleo Pires e Taís Araújo |
Ao ler as primeiras páginas on-line dos diários parece um Verão como os outros.
No Público, que lembramos ser um dos quotidianos mais vendidos em Portugal, as primeiras notícias falam do aumento da chávena de café, da gripe sazonal que será combatida “com estratégia de ataque duplo” (depois de ter gasto milhões de Euros contra uma gripe inócua, é preciso utilizar de qualquer forma as vacinas que sobraram) e da “taxa de justiça” que não irá baixar (ah, pois é: não basta ter sofrido um prejuízo, é preciso pagar para obter justiça).
No Corriere della Sera espanto por causa dos serviços secretos do Paquistão que ajudam os talebãns.
Esquisito, não é? Num País chefiado por um presidente fantoche, “invadido” por forças militares de meio mundo, obrigado a participar numa guerra contra a religião de boa parte da própria pís Araujoopulação para defender valores que não lhe pertencem: num País assim há resistência. Quem diria?
No Globo, além das eleições, eis o Botafogo que ultrapassa o Fluminense. E não faltam as últimas novidades acerca de Fernada Souza e Cleo Pires ( “A única coisa que falei [com a revista Playboy, NDT] era que eu não queria que meu corpo parecesse um corpo que não é meu. Não queria, por exemplo, que tirassem minhas celulites”).
Haverá algo de mais importante do Botafogo, do café mais caro ou da celulite de Cleo?
Provavelmente não.
E se não acreditam, tentem responder à esta pergunta: qual das citadas notícias terá tido mais leitores? Se a vossa resposta for “a guerra no Paquistão” ou “a justiça mas cara”, então estão redondamente enganados.
Porque é verdade que os media fornecem notícias insignificantes. Mas é verdade também que os leitores (boa parte deles) querem notícias insignificantes.
Qual a causa e qual a consequência? Difícil responder: terá nascido primeiro o ovo ou a galinha?
Por isso já sabem: as notícias principais ficam nos diários, aqui tratamos de assuntos secundários que, todavia, podem ter algum interesse.
E entre os argumentos menos relevantes do dia, hoje podemos encontrar:
– a possibilidade dum ataque atómico por parte da Coreia do Norte
– o ataque (igualmente “atómico” mas com menos vitimas) da Hungria aos bancos.
Os protagonistas:
a Coreia do Norte é uma alegre ditadura onde o cidadão pode morrer de fome mas onde na mesa de Kim Jong II não falta o melhor brandy ocidental.
Uma pergunta: porque será que os regimes comunistas acabam sempre em ditaduras pessoais?
Os Estados Unidos são uma potência em declínio, gerida por multinacionais e mergulhada numa dívida sem fundo.
Uma pergunta: porque será que as democracias ocidentais acabam sempre endividadas e nas mãos de multinacionais?
A potência democrática em declínio decidiu realizar manobras militares em colaboração com um dos seus estados fantoches, neste caso a Coreia do Sul, e a ditadura comunista não gostou. Aliás, ameaça ataques nucleares.
Os endividados Estados Unidos empregarão 8.000 homens, 20 navios e 200 aviões.
A ditadura comunista ameaça represálias com misseis atómicos.
À beira duma guerra?
Difícil que assim seja. A Coreia do Norte poderia começar um ataque, verdade, mas depois? Isso seria o fim do regime de Kim Jong II. Um fim com custos particularmente elevados, verdade seja dita, pois é claro que o Norte atacaria as cidades do Sul (Seul, entre os principais objectivos, tem mais de 10 milhões de habitantes), e talvez tenha capacidades para atingir o Japão. Mas depois?
Pyongyang, ao longo das décadas, construiu um sistema militar que tem uma grande capacidade defensiva em termos de dissuasão. Mas pode ser só isso: defensivo.
Kim Jong II já não pode contar com a China comunista: ainda que aliada, Pequim escolheu outro rumo, escolheu ser um player no grande mercado global; escolheu jogar com as regras deste mercado, abandonando (de forma gradual) uma boa parte dos dogmas comunistas.
A Coreia sozinha contra o resto do mundo? Não faz sentido.
O que pode fazer Kim Jong II é levar a tensão ao rubro, com manobras secundárias e espectaculares.
Isso permitiria criar um diversivo, bem-vindo dos lados dos Estados Unidos também. Aliás, não se pode excluir que a decisão das manobras conjunta sejam mesmo uma tentativa, por parte americana, de desviar as atenções da grave situação económica interna.
Este é provavelmente o maior risco nos próximos dias.
Continuamos a observar os desenvolvimentos e esperar que tudo acabe desta forma.
E a Hungria? Ah, pois.
Em Budapest tiveram uma ideia louca: antes de aplicar as draconianas medidas de austeridade que atingiriam os cidadãos, querem introduzir uma taxa de 0,45% sobre os activos dos bancos e de 5,2% sobre as companhias de seguros.
Afirma o Primeiro Ministro Viktor Orban:
As instituições financeiras devem fazer a própria parte na distribuição mais justa da carga fiscal, pelo menos temporariamente, durante o período necessário para a retoma da economia e a estabilização da situação financeira. O imposto que incide sobre os bancos é necessário, justo e eficaz, e serve os interesses do País e das pessoas em condições particularmente difíceis
Não é loucura?
Imaginem se o resto da Europa fizesse o mesmo. Os bancos, os especuladores, as companhias de seguros, de investimento: todos a pagar uma quota da própria responsabilidade. Até seria possível suavizar as medidas de austeridade.
Que mundo seria este?
Para boa sorte existe o FMI, o Fundo Monetário Internacional, que vigia sobre a atitude dos Países. O FMI não perdeu tempo e decidiu intervir com rapidez para matar no berço estas atitudes: basta dinheiro para a Hungria.
Moody’s e Standard & Poor’s já ameaçaram o downrating da Hungria.
O BCE mostrou-se triste a temeridade com o facto das decisões sobre tecto salarial para os banqueiros têm sido tomadas sem esperar pelo seu ponderado parecer, o que era, obviamente, totalmente imparcial e livre de qualquer suspeita de cumplicidade com os seus homólogos dos NBU (o banco central da Hungria) . O chefe da Raiffeisenzentralbank Austríaco (RZB), Rothensteiner Walter, adverte com dentes cerrados que “a Hungria está a brincar com fogo”, sublinhando o seu desapontamento com um País que não tributar os bancos, em vez de tapar os buracos com o dinheiro dos seus cidadãos.
Como pode ser feita uma coisa tão feia? Porque não aproveitam os Húngaros do exemplo da Áustria, que só em 2009 deu aos seus bancos 6 biliões de Euros para fechar as crateras orçamentais e, naturalmente, não tem nenhuma intenção de parar aqui? Rothensteiner “aconselha” os bancos húngaro para recuperar o dinheiro através da imposição de imposto sobre os clientes e com o aumento dos custos operacionais e quaisquer outros encargos. Ecoou Wilibald Cernko, CEO do Bank Austria, ameaçando entre 5.000 e 10.000 demissões no sector financeiro, na Áustria.
Enfim, todos trabalham para que a pobre Hungria perceba o mau caminho iniciado e volte atrás.
Assim tem que ser. Não é possível admitir fendas, porque toda a estrutura poderia ser comprometida. Um dia começamos a aplicar alguma justiça lá, no dia seguinte um pouco de justiça aqui e em breve todo o nosso mundo ficaria em pedaços.
Seria uma catástrofe, um cancro: em breve até os diários poderiam começar a publicar notícias sérias. E onde encontrar novidades acerca da celulite de Cleo?
Ipse dixit
Fontes: Público, Il Corriere della Sera,

