Marta tinha acabado de preparar o almoço da filha: uma pizza com mozzarella azul. Infelizmente teve que abdicar do batido após ter perdido duas falanges, mas compensou com a manteiga de amendoins com salmonela.
Foi chamar a filha que estava a jogar no próprio quarto com a Barbie tóxica, depois foi secar os cabelos. Após o terceiro curto-circuito pensou que já estava na hora de ir.
Pôs o filho mais pequeno no carrinho e foi até ao carro. Ao dobrar o carrinho perdeu outras duas falanges, mas o que chateava mesmo Marta era a filha que não parava de fazer bolas de sabão com bactérias. Convenceu-a a deixar as bolas só em troca dum pedaço de chocolate avariado.
Finalmente ligou o motor e a viagem acabou no primeiro cruzamento. Pena, os travões.
Sim, verdade: este conto exagera. Mas não é caso para sorrir. Alguns destes acidentes podem acontecer na vossa casa também.
Porquê? Porque hoje todos temos pressa. O tempo nunca é suficiente, assim é sempre fazer as coisas a correr. Isso vale para nós, mas também para as empresas.
E, como reza o ditado: depressa e bem não faz ninguém.
A seguir um artigo de La Repubblica, que foi tentar descobrir o que acontece no mundo dos defeitos de origem.
Quebra-cabeças tóxicos e misturadores loucos:
o defeito de fabrico entra em casa
Os recalls custaram bilhões de Dólares para a Toyota e as empresas agora estipulam apólices de seguro. Em 2009 foram quase dois mil itens apreendidos na Europa. 60% vieram da China. Apenas 30% dos clientes costuma responder às empresas que pedem para devolver os objectos danificados e danosos.
Um exército de assassinos perigosos entrou às escondidas, nos últimos cinco anos, nas casas europeias. Mas não só europeias. Esconderam-se no quarto dos filhos, no frigorífico, na casa de banho, na garagem. Aparentemente inofensivos, mortais quando entram em acção: Barbie venenosas, carros que não travam, carrinhos para bebes estilo guilhotina, bandas anti-celulite que queimam a pele em vez de gordura.
A mais extravagante avant-garde pop do novo pesadelo domestico global: os produtos nascidos com falhas de origem. A Mozzarella Avatar (aquela que se torna azul) é apenas o caso mais recente. A lista das armadilhas de casa parece o tema dum filme de terror: misturadores tranca-dedos, binóculos que cegam, peluches assassinos, bolas de sabão cheias com bactérias Pseudomonas putida. Gralhas da era de qualidade global que multiplicam-se mais rapidamente que um vírus: desde 2004 o número de itens defeituosos re-chamados voluntariamente pelas empresas ou apreendidos pelos inspectores europeus anti-fraude, excluindo alimentos e remédios, quadruplicou. Em 2009, de acordo com o Rapex, a central continental de defesa do consumidor, foram 1.993. Cerca de 500 brinquedos, 395 roupas, 196 carros e 138 aparelhos domésticos de pequeno porte.
Em Itália, somente no mês passado, foram bloqueados e retirados do mercado um “tapete quebra-cabeças” para crianças com cetona, óculos para motocicletas tão escuros que causam acidentes e um secador de cabelo Hello Kitty culpado, por um banal problema de soldagem, de provocar curto-circuitos no sistema eléctrico da casa.
Tenta explicar Francesca Magno, que estudou o fenómeno no Departamento de Economia Empresarial da Universidade de Bergamo:
A globalização está a correr (60% dos produtos apreendidos na UE vêm da China) e os controles de qualidade já não são como uma vez. Ao produzir com ritmos forçados aumenta a taxa de erro e o defeito de fabrico é sempre um enorme risco.
O problema para os consumidores é duplo. Em primeiro lugar: ter sido aldrabados. Em segundo lugar: não saber de ter sido aldrabados. E ter em casa, trancado na despensa ou (pior) entre os brinquedos das crianças, um destes insuspeitos assassinos.
Diz Raffaele Ippolito, legal da Adiconsum:
Vamos esclarecer uma coisa. O código do consumidor é explícito: a responsabilidade pela substituição e o retiro desses objectos está nas mãos daqueles que os colocaram no mercado. São sempre eles que terão de responder por eventuais danos.
Pena que, uma vez vendido um produto danificado, a recuperação não seja assim fácil. “Nós fazemos o nosso melhor para divulgar a lista das acções da UE”, disse um porta-voz do Rapex.
A coluna infame de Bruxelas é um sítio Web da Comissão Europeia, onde semana após semana, é reportada uma lista dos processos instaurados. Mesmo o governo dos Estados Unidos tem a própria versão na Food and Drug Administration. O facto é que poucos têm tempo, vontade ou mesmo a informação justa para verificar se a sua Barbie foi corada com chumbo (o que aconteceu em 2007, com a Mattel) ou se a barra de chocolate Cadbury no frigorífico (EUA e China, 2009) é uma das enchidas com salmonelas. E assim, centenas de secadores de cabelo “eléctricos”, bolas de sabão bacteriológicas, puzzles tóxicos & C. provavelmente arriscam estar ainda em circulação.
Acrescenta Ippolito:
A única obrigação real para as empresas, uma vez descoberto o defeito de fabrico, é divulga-lo.
A caça ao adquirente é outra história. Normalmente, é feita só quando houver um risco real de pagar muito por eventuais danos às pessoas. A tarefa mais fácil, neste caso, é dos construtores de automóveis. Os carros têm o número de matricula e de chassis e um cadastro dos proprietários. E em 79% dos casos, calcula uma pesquisa da Universidade de Rutger, são encontrados e consertados. Dos 8 milhões de Toyota defeituosas, desde o inicio de 2010 já 45% foram encontradas. Vida fácil também para os 12 milhões de copos de Shrek fornecidos aos estabelecimentos do McDonald’s. Quando foi descoberto que o monstro verde tinha sido impresso com um produto tóxico, como o cádmio, foram imediatamente retirados.
O discurso é diferente para os bens de consumo.Encontrar os compradores da mozzarella Avatar, dos fornos para crianças Easy Bake Oven (que para além dos biscoitos coziam os dedos) ou das cortinas-assassinas da IKEA é uma tarefa muito mais complicada. Normalmente, diz Rutgers, a taxa de sucesso é de 30%. Publicidade e comerciais na TV não são de muita utilidade. Seis meses após a retirada do mini-forno Hasbro, cujos efeitos colaterais tinham sido realçados em todos os meios de comunicação, foram registados outros 249 incidentes.
Mesma coisa para a manteiga de amendoim Peter Pan, eleita nos Estados Unidos como uma residência por simpáticas e perigosas colónias de Salmonela. O fabricante tem batido todos os 50 Estados americanos em busca das latas, cobriu televisão e imprensa com anúncios Mas não pôde impedir outros cem internamentos hospitalares, depois de meses. Não só:segundo a Rutgers, paradoxalmente, 12% dos americanos comem a mesma comida, mesmo após descobrir que está avariada. [agora percebemos muitas coisas acerca dos Americanos…, NDT]
Existe alguma maneira de se proteger, além dos sites oficiais? A tecnologia é pioneira em novos caminhos. No IPhone (apesar da quarta versão ser vítima dum aborrecido “problemito” com a antena) existe uma aplicação dedicada, “lista recall”. O colosso dos hipermercados americanos Costco regista nos cartões de fidelização dos clientes todas as compras para que seja mais fácil o acompanhamento dos adquirentes de produtos defeituosos. E os que sofreram prejuízos, em muitos casos, têm utilizado a arma da class action para tentar obter uma indemnização.
A verdadeira dor de cabeça, porém, é para as empresas envolvidas: o recall de início de 2010 custou à Toyota 30 bilhões de Dólares em poucos dias de Bolsa, 5 bilhões em prejuízos e oito em causas. A MacLaren, há décadas sinónimo de qualidade no mundo dos carrinhos para criança, viu a própria receita cair quando, há um ano, foi obrigada a reparar ou substituir um milhão dos seus produtos, depois de 15 crianças terem as falanges amputadas, presas no mecanismo do meio.
Não é por acaso que, na realidade, dado o aumento dos casos, muitas empresas preferem agora um seguro contra o risco de defeitos de fabrico: Perrier, graças a uma cobertura específica nos Estados Unidos retirou mais de um milhão de garrafas de água após alguns traços de benzeno terem sido encontrados, e sem gastar um Dólar de próprio bolso.
Na era do capitalismo fast food, onde a poupança e a velocidade são mais importantes do que a qualidade, é mais fácil salvar a própria consciência assinando uma apólice que evitar de colocar no mercado bolinas perfumadas com hidrocarboneto aromático.
Uma observação pessoal.
A ideia do Rapex, a central continental de defesa do consumidor, é óptima. Em teoria.
Na prática é péssima.
O portal (que pode ser visitado aqui), com apresentação, instruções e link, é só em Inglês.
As notificações mensais são só em Inglês e obrigam a abertura de vários ficheiros só para ter uma ideia geral ou efectuar uma pesquisa (exemplo: para consultar os “Rapid Alert System” de 2009 temos que abrir outras 50 páginas. E ainda bem que é Rapid…).
O relatório anual é presente em Francês, Alemão.
Resumindo: posto desta forma é inútil.
Ipse dixit.
Fonte: La Repubblica
Tradução: Informação Incorrecta

