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Geopolitica: o declínio do Leviathan americano – Parte I

Começa uma serie de publicações dedicada à geopolítica.

O primeiro tema será o Declinio dos Estados Unidos, base para perceber os futuros desenvolvimentos mundiais.

O artigo, verdade seja dita, é bastante “pesado”, e não só pelo facto de ser comprido: o estilo também não ajuda.

Mas não deixa de ser um artigo profundo que bem ilustra as raízes do presente e o que podemos esperar no futuro.

Eis a primeira parte, boa leitura:

Premissas acerca do expansionismo dos Estados Unidos

No livro Terra e Mar (1), o grande jurista e teórico do Estado Carl Schmitt interpreta a história do mundo à luz da centralidade do confronto geoestratégico entre o elemento telúrico e o elemento marinho, a partir dos quais descendem duas concepções diferentes da política, do direito e da civilização. O confronto entre os dois elementos começa com a história do homem, basta pensar na rivalidade entre Roma e Cartago, mas é só com o advento da modernidade que o elemento marinho, até então submetidos ao telúrico, parece ser capaz de enfrenta-lo e também ganha-lo.

A Inglaterra, conquistando terras alem do oceano e exercitando a supremacia sobre os mares, emergiu como uma potência marítima mundial: é o Leviathan, que opõe-se ao poder terrestre (Behemoth), representado pelos estados continentais, com base na identidade colectiva da nação e da defesa da pátria e integridade territorial.

Com o declínio do poder britânico são os Estados Unidos que tomam o lugar, alegando não só a hegemonia sobra as Américas com a “Doutrina Monroe”, mas também a supremacia nos oceanos, por meio da força naval, e por isso o domínio global . Na aplicação desta hegemonia marítima global escondem-se, de acordo com Schmitt, as sementes de ruína, pois leva à transformação do direito entre os Estados em direito internacional privado, ou seja direito comercial, e introduz uma forma de moralismo universalista   politicamente perigoso, porque apela ao conceito discriminatório de guerra justa. Portanto, as fortes raízes telúricas do Velho Mundo (África e Eurásia) se confrontam com o Novo Mundo, o lugar do universalismo vago e deslocado, repositório de projectos messiânicos e globalista.

Aqui uma visão imperial telúrica, ali uma talassocracia que procura a hegemonia mundial; aqui o nomos da terra, ali a “tirania dos valores”, o relativismo e o niilismo absoluto que derivam da erradicação e do primado absoluto da economia. Estas são, portanto, duas concepções geopolíticas, jurídicas e espirituais radicalmente opostas. Essa percepção de um conflito inevitável entre duas visões opostas do mundo justifica-se também pelo contingente vivido e as posições tomadas por Schmitt, é suficiente pensar que no final dos anos trinta ele aplaudiu o Pacto Ribbentrop-Molotov e ao mesmo tempo reconheceu no Ocidente, Grã-Bretanha e os Estados Unidos, o inimigo irreconciliável da Europa.

Os Estados Unidos,de facto, desde a fundação, foram baseados numa construção ideológica que declara a própria singularidade como lugar da justiça e da paz (Ocidente), em oposição à Europa (Velho Mundo), lugar do obscurantismo e da tirania. Esta forma de ideologia com nuances messiânicas encontra a própria base no Calvinismo professado pelos Pais Peregrinos fugidos do Velho Mundo para chegar à costa americana com a intenção de construir a “Nova Jerusalém”. Resumindo os Estados Unidos podem ser definidos, para citar Damiano:

una nação ideocratica, ajudada, na sua ‘trajectória expansionista, por uma constelação inicial favorável de circunstâncias geo-históricas, quais o vasto espaço disponível, o isolamento geográfico, a ausência de vizinhos poderosos, uma forte migração da população, a conflitualidade europeia (especialmente nas primeiras décadas após a independência), o domínio dos Ingleses no mar. Temos depois que somar a circunstância histórica provavelmente mais importante, a saber, o rumo suicida da Europa, a partir da Primeira Guerra Mundial.

Acaba aqui a primeira parte.
Em breve a segunda: Sinais inequívocos de declínio 

Fonte: Eurasia