China: Mao e a proibição das criptomoedas

Nota previa: lamento pois neste período não consigo responder aos comentários e nem consultar o correio electrónico. São dias particularmente cheios (e ainda bem que as eleições terão lugar já hoje porque o cansaço começa a fazer-se sentir) e decidi dedicar o pouco tempo livre aos artigos do blog descuidando o resto. Peço desculpa a todos.

 

Mao morreu (e não faz falta)

Já falámos do caso Evergrande. Hoje estava a espreitar a internet alternativa italiana e encontrei um artigo curioso no L’ Antidiplomatico. Título: Caso Evergrande: la disinformazione del Corriere e quello che sta accadendo veramente in Cina (“Caso Evergrande: a desinformação do Corriere e o que está verdadeiramente a acontecer na China”), autoria de Carlo Formenti, jornalista, professor e pesquisador.

Amplo excerto, lembrando que “o Corriere” é Il Corriere della Sera, o principal diário italiano:

O ciclone das dívidas da Evergrande faz tremer o modelo chinês, diz o Corriere hoje.

Mas já está claro no texto do artigo que o título é para fazer efeito (funcional à linha pró guerra fria do jornal da burguesia) e reflecte apenas em parte o conteúdo da peça, da qual, aqueles que têm um mínimo de conhecimento sobre a evolução do socialismo de estilo chinês, podem facilmente deduzir que em risco fica antes o modelo que os meios de comunicação social ocidentais construíram nas últimas décadas, nomeadamente o de uma China a caminho da plena restauração do capitalismo.

O colosso imobiliário Evergrande, tal como as recentes desventuras do magnata Alibaba Jack Ma e outros eventos semelhantes, testemunham antes o ponto de viragem de Xi Jinping no sentido de uma recuperação do controlo pelo partido estatal sobre as grandes empresas privadas […] Agora chegou o momento de cortar as garras dos especuladores e aproveitar os seus lucros para reduzir a desigualdade.

A sombra de Mao está cada vez mais claramente atrás do perfil de Xi Jinping e isto preocupa muito mais o Ocidente do que a concorrência das mega-empresas chinesas com as nossas próprias.

É isso que acontece quando a nossa capacidade de raciocinar é moldada pela fé ideológica: nascem coisas estúpidas, sem sentido. Nesta versão transmitida pelo jornalista, Xi Jinping pensou algo como:

“Vamos punir este novos capitalistas que nós próprios criámos (porque somos obtusos e nem conseguimos um mínimo de programação): deixamos a Evergrande falir. O Yuan irá perder credibilidade como moeda internacional; o mesmo acontecerá com o nosso comparto industrial pois todos perceberão que investir na China é arriscado; o fluxo de capitais estrangeiros sofrerá uma grande queda; milhões de chineses ficarão sem casas e sem poupanças; outros sem empregos; possivelmente haverá protestos; mas importa? Não porque, como diz o Grande Mao, os capitalistas têm que sofrer!”.

Este o genial plano arquitectado pelo esperto Xi. Música e letras dum saudoso maoista. O qual nem repara que o seu escrito contém a descrição de como opera o regime de Xi para controlar “os capitalistas”: é o caso de “Alibaba Jack Ma”. Porque o regime de Pequim não precisa de arruinar milhões de chineses e enfraquecer a moeda nacional tal como o comparto produtivo nacional para controlar “os capitalistas”: os meios que costuma utilizar são outros, muito mais discretos, tipicamente chineses.

Doutro lado, o que esperar de alguém que ainda insiste em definir o Corriere como “o jornal da burguesia”? Qual burguesia? O Corriere é (não desde hoje) o jornal dos partidos da governação, os quais são a clara expressão dos interesses da União Europeia filha do World Economic Forum. Tanto para utilizar as definições arcaicas, a “burguesia” é uma espécie em via de extinção, cujos limites são cada vez mais reduzidos: a “burguesia” está a precipitar na ampla classe do “proletariado” porque este é o plano da nova “aristocracia” (a elite).

Para entender o mundo de hoje a primeira regra tem quer ser aquela de pôr de lado as ideologias, incluída aquela marxista-leninista. Realmente achamos que Xi Jinping durma com o Livro Vermelho por cima da mesa de cabeceira? Pode custar admiti-los mas a China de hoje abriu ao “livre” mercado. Claro, o partido mantém um forte controle sobre a economia, concentrando-se nos pontos nevrálgicos do sistema: mas houve o aparecimento duma classe social antes desconhecida e hoje em franca expansão, aquela classe média (a “burguesia”) que sempre constituiu o arqui-inimigo do marxismo-leninismo. Quem está a comprar as Ferrari, os Porsche, as Mercedes, as BMW na China? Os trabalhadores das fábricas? Os camponeses?

Dos vários Mao ou Marx na China sobrou bem pouco: Pequim está a tentar uma “terceira via”, juntando à especificidade chinesa algumas características do Liberalismo e da experiência soviética. Ao dirigismo do partido, à falta de democracia e ao controle das massas, a classe política chinesa somou a abertura ao “livre” mercado. Problema: quando abres ao Capitalismo tens que ficar com o pacote todo, crise incluídas. O caso da Evergrande é um exemplo disso.

Pequim contra as criptomoedas

A mesma atitude do maoista (justificar todos os acontecimentos utilizando apenas um único ponto de vista) pode ser encontrado ao analisar os comentários relativos a outra decisão de Pequim: a proibição das criptomoedas.

Resumindo: a China, através do seu banco central, declarou na Sexta-feira que todas as actividades relacionadas com as moedas digitais são “ilegais” e devem ser proibidas. Após este aviso, o Bitcoin caiu 8%.

Na sua declaração, o Banco Popular da China disse que a intenção é prevenir ainda mais os riscos implícitos no comércio de moeda criptográfica, manter a segurança nacional e a estabilidade social.

Segundo o Banco Central chinês, as moedas criptográficas são emitidas por autoridades não monetárias, utilizam tecnologias criptográficas e já não devem ser utilizadas no mercado como moedas: um alerta que visou . especificamente as trocas de moedas criptográficas estrangeiras, declarada ilegais.

Já em Maio deste ano, o poderoso super-regulador chinês comprometeu-se a reprimir o comércio de Bitcoin e a exploração “mineira” intensiva, o que ajudou a baixar o valor das moedas virtuais. Em Junho, os reguladores financeiros também tornaram uma posição mais dura perante os bancos, ordenando que assumissem um papel mais activo na questão das moedas criptográficas.

O mundo da informação alternativa viu nisso um claro sinal: dado que a mesma atitude foi assumida pelo Fundo Monetário Internacional e por outros Países ocidentais, a explicação fornecida é aquela segundo a qual estamos perante um ataque globalista contra a liberdade oferecida pelas pseudo-moedas “privadas” e descentralizadas. Um ataque concertado pela elite planetária, conduzido pelo FMI e no meio do qual Pequim lança agora um forte sinal, porque não podemos esquecer que a China tem sido um dos principais mercados mundiais das criptomoedas. O partido comunista chinês estaria directamente envolvido nesta guerra mundial contra a liberdade para favorecer a criação de moedas digitais dos bancos centrais dos vários Países.

Provas desta guerra global? Temos a audiência da Secretária do Tesouro da Federal Reserves, Janet Yellen, que no passado 22 de Janeiro levantou preocupações sobre a utilização de moedas criptográficas:

Estas moedas são um problema particular. Penso que muitas delas são – pelo menos no sentido transaccional – utilizadas principalmente para financiamento ilícito. Ao mesmo tempo, penso que é importante considerar os benefícios das moedas criptográficas e outros activos digitais e o potencial que estes têm para melhorar a eficiência do sistema financeiro.

Temos a Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido (FCA) segundo a qual (Setembro de 2021) os consumidores britânicos devem ser protegidos de investimentos duvidosos em moeda criptográfica porque correm o risco de pôr em risco o seu futuro financeiro. Charles Randell, presidente da FCA, disse que era necessária uma acção urgente para evitar que os investimentos de risco ou até fraudolentos em moeda criptográfica atraiam investidores, inclusive através de influenciadores (os influencers) das redes sociais:

Os influencers dos meios de comunicação social são regularmente pagos por burlões para os ajudar a bombear e a eliminar novos tokens, na senda da pura especulação. Alguns influencers anunciam moedas que simplesmente não existem.

E seria possível continuar com outras declarações e/ou decisões (Christine Lagarde do Banco Central Europeu, Vladimir Putin, o Irão, a Turquia, outros Países da o Organização para Cooperação de Xangai…).

Tudo isso é uma prova da guerra globalista contra as criptomoedas? Não.

Dum lado as moedas virtuais apresentam problemas reais e não simplesmente frutos duma “conspiração”. Exemplo prático: é suficiente que numa pequena realidade qual é El Salvador a introdução do Bitcoin não corra como esperado para que as criptomoedas percam 8% do valor, queimando potencialmente biliões de poupanças. É suficiente que a China fale mal do Bitcoin para que este perca outra vez 8%. Pelo que: há um problema de estabilidade que não pode ser negado, um problema que atinge as moedas nacionais (o dinheiro “verdadeiro”) sem este “abanões”.

Mas a questão de fundo é outra: o dinheiro sempre foi uma das formas de eleição para exercer o poder. Não é um problema de “globalização”: esperar que um País, um qualquer País, possa abdicar da sua soberania monetária sem oferecer resistência significa não entender para que serve o dinheiro.

Mantendo a questão simples: uma excessiva presença de criptomoedas num Estado qualquer arrisca provocar uma crise no sistema fiscal. Como pode o cidadão pagar taxas e impostos se não tiver uma adequada reserva de moeda nacional, substituída pela criptomoeda?

Doutro lado, não podemos esperar que um Estado abdique de taxas e impostos ou que aceite sem problema como forma de pagamento as criptomoedas (que, como vimos, têm sérios problemas de estabilidade). A questão das moedas virtuais é uma questão de poder que vai muito além dos globalistas e que abrange as fundamentas de todos os Estados.

Portanto, o facto que a China tente afastar-se das criptomoedas não é uma prova do sue desejo “globalizador” (que deve ser procurado em outras escolhas) mas é algo perfeitamente em linha com a atitude hiper-controladora que Pequim exerce em relação a toda a economia nacional.

Da mesma forma, a “guerra” dos Estados nacionais (ou de grupo de Estados, como a União Neuropeia) contra as criptomoedas não é uma questão de “globalização” mas de mera sobrevivência: neste aspecto é também preciso realçar como as criptomoedas não ofereçam uma alternativa política aos actuais Estados, além do vago slogan “liberdade!”. Se é lícito pensar em algo que ultrapasse o actual monopólio das moedas por parte dos Estados, também é preciso oferecer pelo menos uma ideia do que pode vir a seguir. E nisso as criptomoedas falham.

 

Ipse dixit.

Imagem: Getty via Express

4 Replies to “China: Mao e a proibição das criptomoedas”

  1. O que pretende a China ao penalizar as criptomoedas?
    Assegurar o sucesso e monopólio do Yuan digital… os restantes também, cada qual no seu nicho.
    O que oferecem as moedas digitais nestes meandros?
    Não um “safe-heaven” (paraíso fiscal seguro), mas um refúgio fiscal mesmo assim.
    Uma forma de mover recursos para fora do controlo dos bancos centrais, na expectativa do que aí virá.
    É arriscado? Claro e muito, mas…
    Qual é a análise de risco inerente, face à esperada implosão dos mercados a nível global?

  2. Bom dia Max e todos: Creio que um “capitalismo a moda chinesa” levou à existência de bilionários. Mas bilionários deveria ser entendido como um câncer no corpo de uma China que se pretende viver um socialismo a moda chinesa.
    Aconteceu e foi um erro terrível não ter barrado em tempo esses monstros com tentáculos muito compridos. A solução agora é deixar a falência acontecer, provando aos chineses e ao mundo que a China não é o ocidente.
    Mas há uma consequência que não poderia permanecer em uma espécie de socialismo: a perda das poupanças de mais de um milhão de pessoas.
    Seria relativamente fácil verificar entre as famílias prejudicadas, quais as que tentaram comprar a segunda residência ou mais, na intenção de vende-las mais tarde e acumular dinheiro suficiente para pagar estudos internacionais dos filhos, fazer uma grande viagem etc. As demais famílias, que tentaram adquirir uma casa própria para não terem de pagar aluguel, estas jamais deveriam ser penalizadas. Para que serve um Estado forte e regulamentado como a China se não é para garantir a sobrevivência digna da sua população? Onde fica a China com características socialistas, se não houver garantias para aqueles que querem adquirir uma moradia?
    Veremos o que vai acontecer.

    1. Seria de toda a justiça que os que tentaram comprar a segunda residência ou mais, na intenção de vende-las mais tarde e acumular dinheiro suficiente para pagar estudos internacionais dos filhos, fazer uma grande viagem etc, sejam penalizados, é assim a igualdade para algumas ideologias , todos ao mesmo nível …num baixo nível .

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