Programa ID2020 e Myanmar: entre biometria e suspeitas de abusos sexuais

Quando vejo um artigo do jornalista Whitney Webb sinto-me mal porque sei que é interessante, sei que está bem fundamentado, sei que devia traduzi-lo… mas também sei que é muito, muito, muito comprido. Particularmente atenta em recolher as provas, Whitney há muito segue com particular atenção o problema da pedofilia. E, desta vez, o foco está num ente “benéfico” que coordena o programa ID2020 para os refugiados recém nascidos.

Vamos tentar resumir a pesquisa de Whitney que verte num programa de identificação biométrica apoiado pela aliança ID2020, um sistema de “identificação digital” em estreita coordenação com uma instituição de caridade ligada a Wall Street, políticos ocidentais e acusações de exploração sexual.

O programa

iRespond, uma organização internacional sem fins lucrativos “dedicada à utilização da biometria para melhorar vidas através da identidade digital”, começou a implementar um novo programa biométrico para bebés entre a população predominantemente refugiada dos Karen ao longo da fronteira entre Myanmar e Tailândia. Um programa-piloto que depois deveria ser, nas intenções, “implantado rapidamente” numa escala maior, sendo disponibilizado à toda a população global.

O programa está a ser conduzido como parte da controversa aliança ID2020, apoiada pela Microsoft, a aliança de vacinas GAVI, a Fundação Rockefeller, o International Rescue Committee (IRC, uma organização sem fins lucrativos profundamente ligada à elite política ocidental) e Wall Street.

O novo programa “criará um registo de nascimento, atestado por uma clínica de confiança, com o objectivo de mudar a trajectória de vida dos participantes”. Através do programa, “uma relação de tutela entre o recém-nascido e a mãe é estabelecida e ligada a documentos de identidade física digitais de alta segurança”. Já pôr na mesma frase os termos “digital” e “alta segurança” é de mau gosto, mas vamos em frente.

Afirma o CEO da iRespond, Scott Reid, que estas credenciais “não têm o mesmo peso que uma certidão de nascimento real”, mas que o programa de “certidão de nascimento” biométrica da organização “poderia saltar barreiras tradicionais para o estabelecimento da identidade”. Reid afirma que “uma vez concluído o programa piloto, iRespond está pronto para implementar rapidamente a solução à escala” para uso em massa em todo o mundo. Portanto: um teste.

O programa piloto está a ser conduzido na clínica Mae Tao, que é largamente financiada por CIA e USAID, bem como pelos governos da Alemanha e Taiwan, as Fundações Open Society e o Comité Internacional de Salvamento (IRC).

O objectivo, como afirmado, é fornecer identidades biométricas aos cerca de 35.000 indivíduos que vivem na área: o programa irá oferecer identificação digital baseada em blockchain ligada a utilizadores individuais através do reconhecimento da íris. Ter uma “identidade digital” permitiria aos refugiados “aceder a melhores e consistentes cuidados de saúde dentro do campo” com planos para o mesmo sistema documentar electronicamente tanto os resultados educativos como as competências profissionais para ajudar nas oportunidades de emprego”. “Carteiras digitais” seguras e portáteis que conterão não apenas os registos médicos, mas também credenciais educacionais e profissionais, histórias de trabalho no campo e uma série de outros documentos”, incluindo a actividade financeira, o que explica a parceria com Mastercard. Além disso: “desenvolvimento de microempresas e associações de poupança e empréstimo de aldeia”, tais como os serviços oferecidos pelo parceiro Kiva, que ligam a identidade biométrica ao recibo do empréstimo.

O sistema iRespond, também se destina a servir de registo de vacinas. Obviamente, as vacinas. Nenhum programa hoje seria completo sem as vacinas. Larry Dohr, chefe de operações da iRespond no Sudeste Asiático, disse à Reuters em Abril que “um sistema de identificação biométrica pode manter um registo destas pessoas [que anteriormente testaram positivo para o Covid-19] e daqueles que recebem a vacina”. Dohr acrescentou que “podemos identificar biometricamente o indivíduo e ligá-lo aos resultados dos testes, bem como a um documento de alta segurança. A pessoa tem então uma prova não-refutável de que tem imunidade devido aos anticorpos no seu sistema”. Dohr refere-se então a essa “prova” como uma “credencial muito valiosa”.

Os executivos do iRespond enfatizam como o seu sistema de identidade biométrica, baseado na digitalização da íris e alimentado pela Microsoft, irá “proteger a privacidade” e permitir “o controlo e a propriedade dos dados de identidade”. No entanto, o projecto Mae La não oferece este grau de controlo e propriedade, como notou Newsweek: tal controlo sobre as suas informações pessoais ainda não foi disponibilizado aos refugiados, apesar da representação pública de que esta funcionalidade é uma componente central do sistema iRespond.

O que é particularmente notável nos esforços de identidade digital do iRespond e do IRC é que, apesar de ser um programa “voluntário”, os refugiados indigentes que desejam aceder a cuidados de saúde e outros serviços que o IRC fornece na área, incluindo o acesso a água limpa, devem ter a sua íris digitalizada a fim de obterem estes benefícios. Não és voluntário? Não há crise, eis a tua água: está um pouco mais suja, mas não se pode ter tudo de graça, não é?

É o que acontece com outro programa, a iniciativa Building Blocks recentemente implementada pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), que é financiado pelos governos dos EUA, Alemanha, Holanda e Luxemburgo. Building Blocks utiliza um sistema de identidade biométrica baseado em blockchain “para expandir as escolhas dos refugiados sobre como aceder e gastar a sua assistência em dinheiro” nos campos de refugiados sírios na Jordânia. Mais de 100.000 pessoas que vivem nos acampamentos podem comprar mercearias fazendo o scanning do íris na caixa. Aqueles que não participam não têm acesso aos “benefícios pecuniários” do PAM, pois estes estão disponíveis exclusivamente através do sistema biométrico, deixando aos refugiados a escolha entre a entrega da sua biometria e a alimentação.

Newsweek observa que “muitos dos financiadores [do Projecto Mae La’s], parte do que é conhecido como a aliança ID2020 e que inclui Accenture, Microsoft e Fundação Rockefeller, esperam que o Projecto Mae La possa eventualmente servir de modelo para os milhões de apátridas do mundo, bem como cidadãos de nações desenvolvidas e todos os outros”.

O chefe

Eric Rasmussen, presidente do conselho de administração da iRespond, é um personagem particularmente interessante que tem sido bastante franco sobre a lógica por detrás da criação da iRespond: “Quando se compreende quem é uma pessoa, compreende-se a que tem direito, seja a cidadania nacional, o apoio internacional aos refugiados ou apenas a distribuição de alimentos” disse Rasmussen à Microsoft no ano passado.

Além do seu papel fundamental no iRespond, Rasmussen é professor na Singularity University apoiada pela Google, bem como presidente do conselho de administração do InSTEDD, uma “ONG global especializada em computação humanitária, particularmente em volta da saúde nas economias pobres em recursos”, parceira da Fundação Bill e Melinda Gates, da Fundação Rockefeller, do CDC, da Google e da UNICEF.

Além disso, Rasmussen é também o CEO de uma empresa “com fins lucrativos” chamada Infinitum Humanitarian Systems (IHS). O IHS trabalha em estreita colaboração com a USAID e o Departamento de Estado, bem como com as agências de inteligência militar dos EUA e o empreiteiro de inteligência/defesa Booz Allen Hamilton. Antes das suas funções no iRespond, IHS, e InSTEDD, Rasmussen foi o principal investigador em informática humanitária da Agência de Projectos de Investigação Avançada de Defesa do Pentágono (DARPA) e fez múltiplos destacamentos de guerra na Bósnia, Iraque, e Afeganistão.

O “sócios”

Mas ainda mais preocupantes do que os antecedentes e associações do iRespond são os do seu parceiro na iniciativa de identificação biométrica, o International Rescue Committee (IRC). O IRC descreve-se a si próprio como respondendo “às piores crises humanitárias do mundo e ajudando as pessoas cujas vidas e meios de subsistência são destruídos por conflitos e catástrofes a sobreviver, recuperar e ganhar o controlo do seu futuro”.

Embora o IRC se auto-defina uma empresa “humanitária”, na sua direcção podemos encontrar: Timothy Geithner, antigo Secretário do Tesouro durante os salvamentos da crise financeira de 2008 e actual presidente do gigante de Wall Street Warburg-Pincus; Susan Susman, vice-presidente executiva da Pfizer. Entre os quadros: Henry Kissinger, Madeleine Albright, Condoleezza Rice e Colin Powell. Também estão presentes os actuais e antigos líderes e executivos de McKinsey, Morgan Stanley, Goldman Sachs, Kroll Associates (“a CIA de Wall Street“), PepsiCo, Bank of America, Lehman Brothers, Citigroup e Banco Mundial. Outro conselheiro é o ex-presidente e CEO da AIG, Maurice “Hank” Greenberg, um nome que provavelmente será familiar para aqueles que pesquisaram os ataques de 11 de Setembro e os crimes financeiros de Wall Street em geral.

Desde 2013, o IRC tem sido dirigido por David Miliband, o “protegido” de Tony Blair a quem Bill Clinton uma vez chamou “um dos mais capazes e criativos funcionários públicos do nosso tempo” e que trabalhou de perto com a então Secretária de Estado Hillary Clinton enquanto desempenhava o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido. Miliband estava tão próximo dos Clintons que foi considerado para um “emprego de alto nível no governo dos EUA” se Hillary Clinton tivesse ganho as eleições de 2016. Nos anos que se seguiram à sua entrada no IRC, o salário de Miliband como presidente do grupo subiu para quase 1 milhão de Dólares por ano (era de 240.000 Dólares quando chegou à organização em 2013).

Além disso, o grupo tem estado atolado em escândalo desde que Miliband se tornou o seu presidente. Por exemplo, foi revelado em 2018 que o IRC era uma das várias instituições de caridade com sede no Reino Unido onde “trabalhadores [estavam] alegadamente em relações de exploração sexual com crianças refugiadas”, incluindo “escândalos de sexo por comida” onde “o abuso sexual era tão endémico que a única forma de muitas famílias refugiadas poderem sobreviver era permitir a exploração de uma adolescente”. Os relatórios também alegam que o IRC e outras instituições de caridade citadas no relatório, incluindo Save the Children, tinham tido conhecimento dos graves abusos durante anos antes de as alegações serem tornadas públicas e optaram por não agir.

Nesse ano, descobriu-se também que o IRC tinha “silenciado 37 alegações de abuso sexual, fraude e corrupção”, o que levou o governo britânico, que anteriormente tinha canalizado milhões para a organização, a cortar totalmente o seu financiamento. Apesar das revelações preocupantes, nenhum trabalhador do IRC acusado de irregularidades foi alguma vez processado.

O programa de identidade biométrica iRespond-IRC é descrito também como forma de prevenir a exploração dos mais vulneráveis do mundo, particularmente o trabalho forçado e o tráfico sexual. No entanto, se esse for realmente o caso, porque é que este programa está a ser gerido pelo iRespond, cujo presidente tem estreitos laços com as comunidades militares, de inteligência dos EUA enquanto o IRC é apoiado por uma legião de criminosos de guerra e predadores financeiros?

O exército americano, parceiro próximo de Eric Rasmussen da iRespond, é conhecido pelo seu papel no tráfico de pessoas para trabalhos forçados e tem entre os seus principais contratantes a DynCorp, que tem sido alvo de numerosos escândalos envolventes o abuso sexual ou o tráfico sexual de populações devastadas pela guerra ou de outras formas vulneráveis. E a DynCorp não é um caos isolado. Por outro lado, nem podemos esquecer que entre os apoiantes do IRC há Madeleine Albright, pela qual o assassinato de meio milhão de crianças iraquianas devido às sanções “valeu a pena“, e Henry Kissinger, conhecido pelas suas palavras sobre a utilização de alimentos como arma para forçar as populações do Terceiro Mundo a submeterem-se e a reduzirem-se. O oposto do quanto declarado publicamente para o programa de identificação biométrica iRespond-IRC.

Conclui Whitney:

Ao contrário do escândalo “sexo por comida” em que o IRC esteve outrora envolvido, esta nova iniciativa está a colocar os refugiados na posição de participar numa experiência tecnocrática massiva se quiserem comer ou aceder a outros serviços básicos. Embora certamente não tão grave como um crime sexual, é ainda outro meio de explorar as populações mais vulneráveis do mundo sob o pretexto de “ajudá-las”, quando aqueles que estão realmente a ser ajudados são as elites tecnocráticas que pretendem levar este programa de identificação biométrica a nível mundial em breve tempo.

 

Ipse dixit.

Fotografia: UNHCR

5 Replies to “Programa ID2020 e Myanmar: entre biometria e suspeitas de abusos sexuais”

  1. Onde estes criminosos põem o dedo, já se sabe o que acontece. O problema é que estes criminosos fazem o que querem, e estão fora de qualquer julgamento ou perseguição. São os executivos dos donos do mundo, e como tal criam e gerem instituições destinadas à desgraça dos de baixo.
    E convenhamos que os milhões de refugiados são os muito mais de baixo.
    Mas a questão “sexo por comida” é muito antiga, presente em todos os lugares de exploração dos pobres. O Brazil, por exemplo, nem precisa de instituições para realizar o “negócio”. Naturalmente os pais miseráveis estão dispostos a trocar comida por sexo grátis de seus filhos.
    Sei que a China nos tempos de miséria foi outro exemplo para escapar da morte por fome.
    Em todos os lugares onde a miséria corroer o estômago e a vida, adolescentes jovens e virgens serão moeda de troca. É fácil, é simples, é eficaz.
    Os bem intencionados vivem a denunciar as consequências da miséria, na tentativa de denunciar os executivos da barbárie de sempre, de tentar erradicar seus crimes. Mas o problema é miséria e ignorância por um lado. E por outro a não erradicação destes tumores letais da sociedade, os nomes de sempre.
    Sabemos, mas ir às fontes parece que está fora de cogitação. Significa que, na verdade, aceitamos, e como tal, somos cúmplices menores.

  2. Este é daqueles artigos que, ainda antes de ler alguma coisa, já sabia que me ia deixar muito mal disposto. E as suspeitas lá se confirmaram.
    O gang do costume a atacar ‘forte e feio’ nas zonas pobres, sem qualquer escrúpulo, como é seu apanágio.
    Sobre o ID2020, creio que a sua implementação dependerá de eles vencerem a barreira da vacinação geral. Com o fim dos últimos focos de resistência contra as vacinas, o resto virá como um complemento das mesmas e não tenho dúvida que será bem aceite.
    A armadilha está montada , e bem montada, resta saber se dentro da sociedade civil existe resistência suficiente. Penso que não.

      1. O establishment americano deu indicações à Ucrania para a tomada à força da Crimeia. Esta acção parece estar programada para meados deste mês de Abril.
        A Rússia está a levar a ameaça muito a sério, daí a movimentação de tropas para a zona da Crimeia e outras zonas de fronteira, como o Donbass. A Rússia também posicionou uma frota de submarinos nucleares no Ártico em resposta às movimentações militares da NATO.
        A nova diplomacia americana fez, como se diz no futebol, ‘uma entrada a pés juntos’, com a Rússia e com a China, em simultâneo, naquilo que parece ser ou uma imprudência ou então uma acção de desespero.

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