A Covid e a ideia da morte

…e podemos acabar a semana sem um pensamento dedicado à Covid-19? Claro que não.

O pensamento é dum dos decanos do jornalismo italiano, Massimo Fini, que já encontrámos ao longo dos anos. Hoje idoso e doente (é praticamente cego), continua a actividade do jornalista provocatório, raramente em linha com o politicamente correcto no caminho do anarco-individualismo e de alguns libertários isolacionistas (como por exemplo Ron Paul). Nem sempre partilho a visão dele, mas tem o nome típico duma pessoa particularmente inteligente e é uma “cabeça que pensa”, coisa cada vez mais rara. Entre os defeito: é adepto da equipa do Torino. Mau.

A Covid e a ideia da morte

Quanto mais esta história da Covid continua, menos me convence. Num ano, ou melhor, um pouco mais desde o início da pandemia, as mortes de Covid em Itália são cerca de 97.000, 0.16% da população. Sempre em Itália as mortes por tumor por ano são em média mais de 190 mil. O tumor, porém e felizmente, não é contagioso, enquanto que a epidemia é e o seu risco reside no facto de que os números podem tornar-se exponenciais. A questão é portanto a seguinte: quantas pessoas teriam morrido de Covid se não tivessem sido tomadas medidas, desde o lockdowns às máscaras? Nos Estados Unidos, as mortes de Covid são de meio milhão. Algo enorme. À primeira vista. Meio milhão em 330 milhões de habitantes dá, em percentagem, um número mais ou menos igual ao nosso, 0.15%. Mas nos Estados Unidos, durante todo o período Trump, ou seja, até há pouco mais de um mês, a gestão dos lockdowns foi entregue aos estados confederados individuais, que estavam quase igualmente divididos, uns aplicando a “ordem de permanência em casa”, outros não, tal como estavam divididos mesmo sobre a menos irritante das precauções anti-Covid, a máscara, de modo que aqueles que a usavam eram democratas, enquanto os outros eram Trumpianos. Além disso, pelo menos a partir das imagens de televisão, ficou claro que muito poucas pessoas nos Estados Unidos usavam máscaras. Em todo o caso, uma gestão muito mais permissiva dos lockdowns resultou no mesmo número de mortes em Itália (e na Europa) e nos Estados Unidos. Assim, se a pandemia tivesse sido “libertada”, que foi a primeira ideia de Boris Johnson, não por acaso porque os britânicos são extremamente intolerantes a qualquer limitação da liberdade pessoal, o número de mortes poderia ter duplicado ou, sejamos generosos, no máximo triplicado, ou seja, atingido 0.48% da população. No mundo, as mortes devidas à Covid são cerca de 2.5 milhões, ou seja, 0.031% da população mundial. Certamente que os valores mundiais devem ser tomados com particular atenção, porque não creio que aqueles que lutam na Síria, Líbia ou Afeganistão estejam particularmente atentos à Covid e às suas consequências, nem podem existir estatísticas fiáveis nessas áreas. Durante a Segunda Guerra Mundial os mortos, mais civis que militares, foram de 60 a 68 milhões, ou seja, cerca de 11 milhões por ano, mas numa área muito mais pequena do que o mundo global de hoje, porque dizia respeito apenas à Europa e ao Japão. As mortes causadas directa ou indirectamente pelos lockdowns devem ser acrescentadas aos números que fornecemos até agora, mas na realidade devem ser subtraídas deles, porque contas mais ou menos exactas, como disse Lena Hallengren, Ministra da Saúde da Suécia, que na prática não fez nenhum lockdowns, “serão feitas dentro de dois ou três anos”.

Valeu a pena devastar as estruturas sociais, nervosas e económicas de populações inteiras por uma doença que envolve uma percentagem de mortes estatisticamente quase irrelevante? E que diz respeito sobretudo aos idosos com duas ou três patologias pré-existente que, é difícil de dizer mas é preciso dizer, teriam morrido em breve de qualquer forma? Santo Agostinho é ainda mais bruto: “Que mal há se morrem na guerra homens que estavam destinados a morrer de qualquer maneira?”. Mas aqui reside o âmago de todo este caso Covid. O próprio conceito de morte desapareceu do horizonte contemporâneo, simplesmente não é aceite (nem sequer linguisticamente: falamos de “óbitos”) e isto é verdade, surpreendentemente, tanto para as culturas ocidentais como as orientais. No Ocidente, a religião fez a sua fortuna precisamente jogando com o terror da morte, tentando vencê-la com o conceito de “uma vida para além da vida” e, por conseguinte, negando-a de facto. No Oriente, as coisas têm sido diferentes. Todas as religiões, ou melhor, as filosofias orientais desde o budismo ao hinduísmo, têm (ou melhor, tinham) uma abordagem muito diferente da vida e da morte. Para Lao-Tse (O Livro do Padrão) que influenciou todo o pensamento oriental, o conceito é o de “in-acção”, ou seja, não-acção, que é um estado que se afasta tanto quanto possível das dores da vida e, portanto, da própria vida e do pensamento da morte (para simplificar, o nirvana do budismo). Para grande parte do islamismo, pelo menos para o islamismo radical, a morte é uma feliz libertação da vida.

Nem toda a Covid veio para prejudicar, aqui na Europa, se isso nos tiver feito recordar um conceito simples muito presente na Idade Média rural, segundo o qual a morte não é apenas a conclusão inevitável de cada vida, mas é a condição prévia da vida. Por conseguinte, deve ser combatida na medida do possível mas, no final, também aceite sem viver sob um manto constante de terror e medo. O velho e sábio Epicuro diz: “Morre mil vezes quem tem medo da morte”.

 

Ipse dixit.

Imagem: Fondazione Pietro Nenni

3 Replies to “A Covid e a ideia da morte”

  1. Vi outro dia um vídeo onde um ex combatente da 2° guerra resmungava ” Mas vale viver um dia como Leão do que uma vida de ovelha” , falou tudo.

  2. Uma entrevista (a Lord Sumption) que vale a pena ouvir, escutar e sobre a qual reflectir…
    *ttps://youtu.be/5lXAA7ZOROc

  3. Sim, o medo da morte, mata. Infligir o medo é uma arma poderosa para controlar e manter as pessoas ignorantes. A tal “pandemia” confirmou isso. A Covid progride pelo medo da morte.
    Fico pasma diante da reação das pessoas frente ao desconhecido. Mesmo as mais aptas e supostamente preparadas no estudo sobre Ovnis, por exemplo, correm assustadas diante de luzes estranhas no céu que se aproximem de onde elas estejam. Então que preparo é este? A insegurança por não ter condição de atacar domina o ser humano que vê no desconhecido um inimigo.
    Toda vida nos prepararam para temer pela nossa morte, diante do desconhecido, e tentar destruir o outro só por precaução.
    Como se o sistema e toda organização econômica, política e social, bem conhecida, não nos estivesse matando a cada instante.
    Os humanos somos mesmo muito atrapalhados

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