Mediocracia

Uma das vítimas mais ilustres da Covid tem um nome antigo: “política”. A politica tem sido completamente atropelada pela “pandemia”, mas a verdade é que já antes encontrava-se em coma profundo.

Como explica Wikipédia, que tudo sabe desde que seja politicamente correcto:

Política (do Grego: πολιτικός / politikos, significa “algo relacionado com grupos sociais que integram a Pólis“), algo que tem a ver com a organização, direcção e administração de nações ou Estados. É o Direito, enquanto ciência aplicada não só aos assuntos internos da nação (política interna), mas também aos assuntos externos (política externa). Nos regimes democráticos, a ciência política é a actividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.

Pelo que, a política em si não é coisa má. Pelo contrário: é algo nobre pois subentende o trabalho dum cidadão que dedica parte do seu tempo à gestão do interesse de todos. Assinalável. Mas se olharmos para trás, digamos para as últimas décadas, podemos ver como a “organização, direcção e administração de nações ou Estados” têm sido interpretados de forma muito limitada: aqui na Europa, por exemplo, a política tem sido reduzida cada vez mais a gestão do orçamento estadual em funçõa dos acordos económicos e financeiros internacionais.

O que aconteceu?

Uma das muitas razões (pois não há só uma) pode ser encontrada no livro do canadiano Alain Deneault, professor de Ciências Políticas na Universidade de Montreal. No seu La médiocratie (“A mediocracia”, de 2015), Deneault fala da “revolução anestesiante” que teve lugar, silenciosamente, perante os nossos olhos: a mediocracia esmagou-nos pois os medíocres entraram na sala de controlo e estão a pressionar-nos para sermos como eles.

Deneault tem o mérito de dizer as coisas de forma clara e é por isso também que na altura da publicação, o livro desencadeou um debate no País de origem:

Não houve nenhuma Tomada da Bastilha, nada comparável à queima do Reichstag e o cruzador Aurora ainda não disparou nenhum tiro de canhão. Contudo, o assalto já foi lançado e coroado de êxito: os medíocres tomaram o poder.

Mas porque é que os medíocres tomaram o poder? Como é que conseguiram? Em suma, como chegámos a este ponto?

O que Deneault chama de “revolução anestesiante” é a atitude que nos leva a posicionar-nos sempre no centro, ou melhor, no “centro extremo”. Nunca perturbar e acima de tudo nunca fazer algo que possa desafiar a ordem económica e social. Tudo deve ser estandardizado. A “média” tornou-se a norma, a “mediocridade” foi eleita como modelo.

Uma ideia não nova. Hegel, Carta a Niethammer, 29 de Abril de 1814:

Toda a massa dos medíocres, com uma absoluta e pesada força de gravidade, pressiona incessantemente e implacavelmente até ter reduzido ao seu próprio nível ou a um nível inferior o que é superior.

Quem são os medíocres? Ser medíocre, explica Deneault, não é ser incompetente. De facto, o contrário é que é verdade. O sistema encoraja a ascensão de indivíduos medíocres competentes à custa dos muito competentes e dos incompetentes: estes últimos por razões óbvias (são ineficientes), os primeiros porque arriscam a desafiar o sistema e as suas convenções.

Mesmo assim, o medíocre deve ser um especialista: deve possuir uma perícia que seja útil e que ao mesmo tempo não ponha em causa os fundamentos ideológicos do sistema. O espírito crítico deve ser limitado e restrito dentro de limites específicos, porque se não o for, pode constituir um perigo. O medíocre, em resumo, não é alguém desprovido de preparação ou de dotes, não é um incapaz: e, acima de tudo, deve saber como “jogar o jogo”.

“Jogar o jogo” significa aceitar comportamentos informais, pequenos compromissos que servem para atingir objectivos a curto prazo, significa submeter-se a regras não ditas, muitas vezes fazendo vista grossa. Jogar o jogo, diz Deneault, significa concordar em não mencionar um nome específico num relatório, ser genérico sobre um aspecto específico. Em última análise, é uma questão de implementar comportamentos que não são obrigatórios mas que marcam uma relação de lealdade com alguém ou com uma rede ou um grupo específico.

É desta forma que as relações informais são soldadas, que se prova ser “fiável”: é assim que se torna possível colocar-se sempre naquela linha mediana que não gera riscos desestabilizadores. “Dobrar-se obsequiosamente às regras estabelecidas com o único objectivo de posicionar-se no tabuleiro do xadrez social” é o objectivo do medíocre.

Poder-se-ia dizer que a principal característica da mediocridade é o conformismo, termo que na nossa época tem sido substituído com o mais elegante “politicamente correcto” e que reúne comportamentos que servem para enfatizar o facto de pertencer a um contexto que deixa ao mais forte o poder de decisão. No fim de contas, estas são as atitudes que tendem a gerar instituições corruptas: e a corrupção atinge o seu auge quando os indivíduos que a praticam já não estão conscientes de que são corruptos.

É neste ponto que cruzamos o discurso da política. Na origem da mediocridade está, de acordo com Deneault, a própria morte da política, substituída pela “governação”. Um sucesso construído por Margaret Thatcher na década de 1980 e desenvolvido gradualmente nos anos seguintes até os dias de hoje. Num sistema caracterizado pela governação, a acção política é reduzida à gestão, ao que os manuais chamam de “resolução dos problemas”.

Por outras palavras, procurar uma solução imediata para um problema imediato, o que exclui qualquer pensamento de longo prazo baseado em princípios e numa visão política que seja publicamente discutida e partilhada. Num regime de governação estamos reduzidos a pequenos observadores obedientes, acorrentados a uma visão de mundo idêntica para todos, com uma única perspectiva: a do Liberalismo.

A governação é em última análise uma forma de gestão neoliberal do Estado, caracterizada pela desregulamentação, privatização dos serviços públicos e adaptação das instituições às necessidades das empresas. Da política escorregámos para um sistema (aquele da governação) que tendemos a confundir com a democracia.

Querem encontrar “políticos”? Não olhem para o governo do vosso País, aí só há gestores; não olhem para os partidos, só poderão ver escolas de gestores. Em vez disso, olhem para o World Economic Forum, um dos poucos lugares hoje onde existe uma visão de médio e longo prazo. Uma visão negativa aos nossos olhos, sem dúvida, mas sempre uma visão não limitada ao imediato.

Até a terminologia está a mudar: os pacientes num hospital, os leitores numa biblioteca, os utentes dum serviço público hoje são “consumidores”. E por isso não é surpreendente que o centro domine o pensamento político: as diferenças entre os candidatos a cargos eleitos tendem a desaparecer, mesmo que haja uma aparente tentativa de os diferenciar.

A semântica está também inclinada para a mediocridade: “medidas equilibradas”, “medidas justas”, “compromisso”. É o que Denault define como “o centro extremo”, uma óptima definição porque bem descreve a força destrutiva que arrasa por completo qualquer pulsão vital. O “centro” não é sempre sinónimo de equilíbrio: em política pode também ser a morte cerebral.

O que fazer?

A mediocridade cria medíocres, explica a Denault. Mais uma razão para quebrar este ciclo perverso. E não é fácil, admite o canadiano. Cita Robert Musil, autor de “O Homem Sem Qualidades”:

Se do interior a estupidez não se assemelhasse tanto a um talento que pudesse ser confundido com ele, se do fora não pudesse aparecer como progresso, génio, esperança ou melhoria, ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria.

Sem perturbar Musil, podemos descrever a nossa mais recente evolução com o termo de Homo abnegus, o indivíduo estandardizado que está a substituir o Homo sapiens. É contra esta involução que temos de lutar. Deneault aponta para um caminho que começa com pequenos passos diários: resistir às pequenas tentações e dizer “não”. Não ocuparei essa posição, não aceitarei essa “regalia” para não ser lentamente envenenado.

Permito-me acrescentar algo: não ter medo das nossas ideias e de exprimi-las, não deixar que o “politicamente correcto” possa condicionar a nossa liberdade. Não tenham medo de ser definidos “comunista”, “fascista”, “anarquista”, “racista” ou de outra coisa que acabe em “-ista” e que realce uma posição extrema. Pelo contrário: isso não apenas não deve perturbar ou ofender, mas deve ser encarado como um mérito porque, no mar da mediocridade, quem ainda consegue olhar para posições de roptura torna-se virtuoso. Não temos que ter medo das palavras, não podemos ser dominados por elas porque o controle das nossas expressões é um óptimo treino para chegar ao controle do nosso pensamento também.

Obviamente, é inútil procurar uma versão portuguesa de La médiocratie: não há.

 

Ipse dixit.

5 Replies to “Mediocracia”

  1. Ariano Suassuna dizia: Pior que o mau gosto é o gosto médio.
    Deneault trabalha o tema da mediania numa perspectiva semelhante. O medíocre, em minha opinião, não tem como principal característica o conformismo mas antes a procura permanente do ganho pessoal. Para um medíocre o mundo gira em torno da vantagem, e este aspecto foi levado a um extremo tal, que na política as clássicas extremas esquerdas e direitas são demasiado brandas para aquilo que Deneault chama de extremo centro. É aí que actualmente às posições são mais extremadas. Uma expressão muito interessante.

  2. O próprio conceito de democracia foi manipulado por seus inventores, que por interesses de minorias (ditos cidadãos) na polis fizeram sucumbir qualquer possibilidade da grande maioria de camponeses exercer um papel politico e assim marginalizados no processo social. Isso séculos aC. Esta é a origem da hierarquização elitista da civilização. Tantas mazelas surgidas desde então foram desdobramentos deste vício de origem, e que alguns destes se tornaram mais ou menos visíveis .

  3. Às vezes a gente sente repulsa por alguma coisa, por algumas pessoas, pelo que dizem , pelo que se adivinha nas entre linhas do seu dizer. Uma necessidade de distanciar-se sem conseguir expressar esse sentimento, sem perceber a racionalidade que o informa. Isto acontece comigo, não raras vezes.
    Esse autor da Mediocracia dá voz e palavra a essa sensação que não alcança expressão falada ou escrita em mim. Eu só consigo dizer: não gosto, e atribuir à minha intuição.
    Pronto, acaba de resolver um dos meus problemas existenciais. Entender a ponto de explicar porque mesmo eu não gosto.

  4. Segundo o autor, quem nunca foi medíocre um dia? E só lembrar das relações nos nossos ambientes de trabalho , onde somos obrigados a sacrificar nossas opiniões, em benefício da manutenção do emprego.
    Mas , o autor amplia o conceito e penso que a mediocridade é só enxergar aquilo que queremos ver.

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