A diminuição dos espermatozóides humanos (e não só)

O número dos espermatozóides diminuiu; as crianças estão a desenvolver mais anomalias genitais; mais raparigas estão a sofrer de puberdade precoce; e as mulheres adultas parecem estar a sofrer do declínio na qualidade dos óvulos e têm mais abortos.

Esta a síntese dum artigo publicado no New York Times, um texto acompanhado por uma série de estudos. Há quatro anos, por exemplo, uma proeminente pesquisadora da saúde reprodutiva, Shanna H. Swan, calculou que, de 1973 a 2011, o número médio de espermatozóides dos homens nos Países ocidentais diminuiu 59%.

Para sermos mais precisos, uma equipa internacional de investigadores acabou por analisar amostras de sémen de 42.935 homens de 50 Países entre 1973 e 2011. Verificaram que a concentração de esperma (o número de espermatozóides por mililitro de sémen) tinha diminuído todos os anos, ascendendo a um declínio total de 52.4%, em homens da América do Norte, Europa, Austrália e Nova Zelândia.

A contagem total de espermatozóides entre o mesmo grupo também continuou a cair todos os anos até 59.3% durante o período de quase 40 anos.

Não apenas humanos

E não se trata apenas de humanos. Os cientistas relatam anomalias genitais numa série de espécies, incluindo pénis invulgarmente pequenos em jacarés, lontras e martas. Em algumas áreas, um número significativo de peixes, sapos e tartarugas exibiram órgãos tanto masculinos como femininos ao mesmo tempo.

Inevitavelmente, houve manchetes sobre o Spermageddon e o risco do Homem desaparecer, mas depois a notícia desapareceu como sempre.

Agora a Swan, um epidemiologista do Mount Sinai Medical Center em New York, escreveu um livro sobre o assunto, Count Down, e toca o alarme. Sim os espermatozóides estão a diminuir e até há um culpado. Aliás: um inteiro grupo deles.

O grupo “assassino” é, segundo os pesquisadores, uma classe de químicos chamados disruptores endócrinos, que imitam as próprias hormonas do corpo e enganam as nossas células. Este é um problema particular para os fetos no começo da gravidez, quando ocorre a diferenciação sexual: os disrptores endócrinos podem provocar o caos reprodutivo.

Explica a Swan:

De certa forma, o declínio no número de espermatozóides é semelhante ao que se verificava há 40 anos atrás. A crise climática tem sido aceite, pelo menos pela maioria das pessoas, como uma ameaça real. A minha esperança é que o mesmo aconteça com o caos reprodutivo que está a acontecer.

As empresas químicas são tão imprudentes como as empresas de tabaco eram há uma geração atrás ou como os fabricantes de opiáceos eram há uma década atrás. Até fazem lobby contra os testes de segurança dos desreguladores endócrinos, para que não tenhamos ideia se os produtos que usamos todos os dias estão a prejudicar o nosso corpo ou os nossos filhos. Somos todos cobaias.

Para além do declínio na contagem dos espermatozóides, um número crescente destes parece defeituoso (por exemplo: há um boom de espermatozóides de cabeça dupla) enquanto outros movem-se sem rumo, por vezes em círculos, em vez de nadarem furiosamente em busca de um óvulo. E as crianças que tiveram maior exposição a um tipo de desregulador endócrino chamado ftalatos têm pénis mais pequenos.

Um estudo chinês sugere que a qualidade do sémen está em declínio a nível mundial, no entanto, o debate permanece aberto devido aos possíveis efeitos das diferenças étnicas e geográficas. Numa pesquisa efectuada na província de Henan, na China, entre 2009 e 2019 com 23.936 amostras (todas fornecidas pelo Henan Human Sperm Bank of China), a concentração de esperma tinha diminuído de 62.0 milhões/mL em 2009 para 32.0 milhões/mL em 2019, com uma taxa média anual de 3.9%. A contagem total de espermatozóides diminuiu de 160.0 milhões em 2009 para 80.0 milhões em 2019, com uma taxa média anual de 4.2%. Os resultados indicam que a qualidade do sémen entre as amostras tinha efectivamente diminuído durante o período de estudo.

A incerteza permanece, a investigação por vezes entra em conflito e os percursos biológicos nem sempre são claros. Existem teorias contraditórias sobre se o declínio é real e acerca da causa, e porque é que as raparigas parecem chegar à puberdade mais cedo; por vezes não é claro se um aumento nas anomalias genitais masculinas reflecte um aumento real dos números ou apenas uma melhor notificação.

Ainda assim, a Endocrine Society, a Pediatric Endocrine Society, o President’s Cancer Panel, e a Organização Mundial de Saúde alertaram todos para os desreguladores endócrinos: a Europa e o Canadá moveram-se para os regulamentar. Mas nos Estados Unidos, o Congresso parece estar a ouvir mais os lobistas da indústria do que os cientistas (neste caso).

Patricia Ann Hunt, geneticista reprodutiva da Universidade do Estado de Washington, realizou experiências em ratos mostrando que o impacto dos desreguladores endócrinos é cumulativo, geração após geração. Quando os ratos recém-nascidos forem expostos a produtos químicos desreguladores do sistema endócrino durante alguns dias, os seus testículos adultos produzem menos esperma e esta incapacidade é transmitida à descendência. Embora os resultados dos estudos com animais não possam necessariamente ser estendidos aos seres humanos, após três gerações destas exposições um quinto dos ratos machos eram inférteis.

Patricia Ann Hunt:

Acho isto particularmente preocupante. Do ponto de vista das exposições humanas, pode-se argumentar que estamos a chegar à terceira geração neste momento.

O que é que isto significa para o futuro da humanidade? Andrea Gore, professora de neuroendocrinologia na Universidade do Texas, em Austin:

Não vejo os humanos a extinguir-se, mas vejo linhas familiares a acabar por causa dum subconjunto de pessoas inférteis. As pessoas com espermatozóides ou óvulos de qualidade comprometida não podem exercer o seu direito de escolher ter um filho. Isto pode não devastar a nossa espécie, mas é certamente devastador para estes casais inférteis.

É necessária mais investigação, mas a Swan oferece sugestões práticas para a vida quotidiana:

  • armazenar os alimentos em recipientes de vidro, e não em plástico
  • não colocar os alimentos no microondas em plástico ou com película de plástico por cima
  • evitar os pesticidas
  • comprar produtos orgânicos, se possível
  • evitar o tabaco
  • usar cortinas para o duche de algodão ou de linho, não uma feita de vinil
  • não usar ambientadores
  • prevenir a acumulação de poeira.

Os ftalatos

A razão destas medidas? Sempre eles, os ftalatos, o grupo de disruptores endócrinos. São um grupo de compostos químicos derivados do ácido ftálico, utilizados como aditivo para deixar o plástico mais maleável e que podem ser encontrados numa grande variedade de produtos: revestimentos de comprimidos farmacêuticos, suplementos nutricionais, agentes de controlo de viscosidade, agentes gelificantes, estabilizadores, lubrificantes, ligantes, agentes emulsionantes e agentes de suspensão.

Dito de outra forma: adesivos, colas, adjuvantes agrícolas, materiais de construção, produtos de higiene pessoal, dispositivos médicos, detergentes, embalagens, brinquedos para crianças, argila para modelar, ceras, tintas, tintas de impressão e revestimentos, produtos farmacêuticos, produtos alimentares e têxteis, iscas de pesca de plástico macio, calafetagem, pigmentos de tinta, brinquedos sexuais feitos da chamada “borracha gelatinosa”, cortinas de chuveiro, estofos de vinil, colas, ladrilhos de chão, película de embrulho alimentar, materiais de limpeza, perfume, hidratante, verniz para unhas, sabonete líquido, spray para cabelo.

Um grupo químico polivalente, sem dúvida, mas com uma levíssima contra-indicação: é cancerígeno, podendo causar danos ao fígado, rins e pulmão, além de anormalidade no sistema reprodutivo. Nos EUA ainda não há uma legislação de restrição ao uso de ftalatos; no Brasil, não existem leis que regulamentem a utilização dos ftalatos no meio ambiente, apenas restrições ao uso em alguns sectores como é o caso dos brinquedos infantis;. a Comunidade Europeia, como medida preventiva, determinou a retirada desse componente (estou mesmo a ver as alfandegas que controlam todos os artigos da China vendidos pro aqui…).

Moral: preocupados com o trânsito? Esperem um par de gerações e será mais fácil encontrar estacionamento.

 

Ipse dixit.

Imagem: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

2 Replies to “A diminuição dos espermatozóides humanos (e não só)”

  1. Bancos de espermas passarão a ser um negócio bilionário.

    Devido a escassez, surgirá o novo ouro branco.

    A sorte da humanidade é que só basta um safado completar a viagem para fazer o serviço.

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