O Time a conspiração do Bem

Já não há vergonha nem medo. Já não são precisos. O Time, a revista neoliberal, fala das eleições de Dezembro como duma “conspiração”. Para o bem dos cidadãos, claro, é sempre para o bem dos cidadãos. O objectivo era afastar Trump, o Mal, e substituí-lo com o Bem.

A jornalista Molly Ball no artigo The Secret History of the Shadow Campaign That Saved the 2020 Election (“A História Secreta da Campanha das Sombras que Salvou as Eleições de 2020”):

Houve uma conspiração em curso nos bastidores que tanto limitou os protestos como coordenou a resistência dos CEOs. Ambas as surpresas foram o resultado de uma aliança informal entre activistas de esquerda e titãs empresariais. O pacto foi formalizado numa declaração conjunta, pouco notória, da Câmara de Comércio dos EUA e da AFL-CIO [American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations, a maior central operária dos Estados Unidos e Canadá, ndt],  divulgada no dia das eleições. Ambos os lados viriam a vê-lo como uma espécie de pacto implícito – inspirado pelos protestos maciços, por vezes destrutivos, da justiça racial do Verão – em que as forças do trabalho se uniram às forças do capital para manter a paz e opor-se ao ataque de Trump à democracia .

O aperto de mão corporativo-laboral foi apenas uma componente de uma vasta campanha interpartidária para proteger as eleições: um extraordinário esforço-sombra dedicado não a ganhar o voto, mas a assegurar que este fosse livre e justo, credível e incorruptível. Durante mais de um ano, uma coligação de agentes vagamente organizada apressou-se a apoiar as instituições americanas, pois estas foram simultaneamente atacadas por uma pandemia impiedosa e por um presidente propenso à autocracia. Embora grande parte desta actividade tenha tido lugar à esquerda, foi separada da campanha Biden e atravessou as linhas ideológicas, com contribuições cruciais de actores não partidários e conservadores.

Agora reparem no que é dito a seguir nas próximas linhas:

O trabalho tem tocado todos os aspectos das eleições. Convenceram os Estados a mudar os sistemas e leis de votação e ajudaram a assegurar centenas de milhões em financiamento público e privado. Rejeitaram os processos de supressão de votos, recrutaram exércitos de trabalhadores eleitorais, e convenceram milhões de pessoas a votar por correio pela primeira vez. Empurraram com sucesso as empresas de comunicação social a adoptar uma linha mais dura contra a desinformação e utilizaram estratégias orientadas por dados para combater as manchas virais.

Para derrotar Trump foram mudados os sistemas de votos, foram mudadas as leis dos vários Estados, houve uma chuva de milhões ,sob forma de financiamento público e privado. Um esforço que nem poupou os órgãos de informação para que tomassem uma “linha mais dura contra a desinformação”. E não é difícil imaginar o que era considerada como “desinformação”. Este é o conceito de “Democracia” nos Estados Unidos: um gigantesco esforço para convencer os eleitores não com a força dos programas mas com intervenções legislativas para dificultar o adversários, dinheiro “olear” para público e privados, condicionar os media. Este é o também conceito o conceito de “Democracia” dos democratas e de parte dos Republicanos.

Conclui o Time:

A democracia ganhou no final. A vontade do povo prevaleceu. Mas é uma loucura, em retrospectiva, que isto tenha sido o que foi preciso para se realizar uma eleição nos Estados Unidos da América.

Claro: como na melhor tradição de Hollywood, o Bem triunfa no fim. E o Bem é o povo. Uma retórica que nem repara na sua própria contradição: porque foi preciso tudo isso “para se realizar uma eleição nos Estados Unidos da América”? Porque a vontade popular era outra. Porque sem esta conspiração (e a outra que o Time nem cita, aquela relativa à contagem dos votos), o povo teria escolhido Trump.

No melhor estilo orwelliano, o progressista liberal-democrata atribui as suas motivações ao adversário, o inimigo absoluto. Foi o malvado Trump que se apropriou da imaculada democracia dos Estados Unidos, foi ele com os seus companheiros que estabeleceram a ditadura. Quem tinha eleito Trump? Sempre o povo, mas este é um pormenor que pode ser ignorado. A operação que o Time revela em detalhe foi, portanto, a necessária reacção aos objectivos autocráticos de Trump.

A conspiração foi criada para o dos EUA e do mundo todo: tomou a forma de uma aliança entre activistas de extrema esquerda (Black Lives Matter, por exemplo) e os escalões superiores do sistema empresarial e económico americano, Wall Street. A extrema direita económica e a extrema esquerda unidas contra o Mal, à sombra do Deep State e dos gigantes da Finança e da Tecnologia que nunca pararam de lutar contra Trump desde 2016. Pas d’ennemi à gauche, “Não há inimigos à esquerda” para o capitalismo terminal, como o francês René Renoult teorizou na década de 1930.

Alguém se lembra da violenta campanha destinada a provar a interferência russa nas eleições de 2016, dos ataques judiciais, do envio de todas as armas disponíveis (económicas, financeiras, “classificadas”) para apagar a anomalia Trump? A montanha tinha parido o clássico rato, aliás, menos do que isso: o nada. Mas os Democratas aprenderam a lição, desta vez mexeram-se atingindo os pontos nevrálgicos do sistema com a força do dinheiro.

A realidade é que os EUA são hoje um regime de partido único. Nada de realmente novo, uma vez que os dois partidos, Democrata e Republicano, representam essencialmente os mesmos interesses, mas a máscara caiu. Exemplar é o resultado eleitoral em Washington D.C., a capital onde residem lobistas e altos funcionários federais: 94.5% deles votaram democratas, o partido único da liberdade, do progresso e do sistema. Um resultado ao estilo da União Soviética.

O próprio ZomBiden, o opaco expoente escolhido como rosto da restauração, no seu primeiro discurso como Presidente usou tons muito duros contra um suposto “terrorismo doméstico”, utilizando uma linguagem até ontem reservada às guerras contra inimigos externos. A América está desesperadamente dividida e quem não estiver do “lado certo”, do lado do destino manifesto, de Capitol Hill, ou seja, quem não estiver do lado dos senhores dominantes, é transformado numa pessoa dissidente, um estrangeiro na pátria, um deplorável a ser combatido com todas as armas. Foi criado um maniqueísmo radical na elite liberal que apresenta o adversário como o mal absoluto. A missão é sempre a mesma: uma cruzada “moral” do Bem contra o Mal.

O que há de novo é que desta vez o inimigo é interno. A mentira “nobre”, a máscara que disfarça a convenção cínica que sustenta os democratas americanos, caiu. Os vencedores são tão fortes que podem gabar-se do que fizeram, para memória futura e como um aviso preventivo para aqueles que se atrevem a desafiar o monopólio. Já nas últimas semanas, dúvidas tinham sido levantadas pelo observatório socialista de Bernie Sanders. Um cientista informático de esquerda, Matt Luceen, disse ao Washington Post que não acredita na sinceridade de Trump, mas que os seus eleitores foram privados dos seus direitos de voto.

Os Democratas, cujo nome parece cada vez mais uma feroz ironia, introduziram um projecto de lei que visa derrogar o Artigo 1 da Constituição dos Estados Unidos da América. O Congresso terá o poder de supervisionar as eleições federais, ou seja, determinará as regras de votação, a partir da oficialização e extensão dos sistemas de votação electrónica e postal, os mesmos que trouxeram os democratas de volta ao poder. De facto, deixará de ser obrigatória a apresentação de documentos. Isso significa que os vários Estados deixarão de exigir os papeis para obter uma declaração de ausência para conceder o voto por correspondência. O resto será feito pelo sistema, ou seja, aqueles que controlam o software da votação electrónica. Uma das partes envolvidas na eleições, o Parlamento, torna-se o decisor e regulador supremo dos procedimentos e dos mecanismos de votação. Se a Democracia já antes estava morta, agora foi definitivamente enterrada.

 

Ipse dixit.

4 Replies to “O Time a conspiração do Bem”

  1. Pra se falar em democracia, 100% dos cidadãos deveriam antes de tudo ter uma moradia, estar bem alimentados e acima de tudo bem informados. Democracia é utopia como qualquer modelo apresentado até hoje. Precisamos urgentemente de um sistema onde o ser humano é o centro de tudo. Até lá viveremos neste ciclo eterno…

    1. E como seria esse sistema ? Esses 100% estou 100% de acordo que incluía desempregados , doentes , deficientes, reformados … justíssimo .
      Mas se os 100% inclui : corruptos , assassinos , violadores , pedofilos ou simples ociosos … não sei … fico com dúvidas . Se calhar sou má pessoa ou então não estou a perceber …

      1. Talvez as malezas que tu aponta sejam, em grande parte, frutos do fracasso do sistema. Mas, para isso haveria um sistema de justiça.

  2. Grande feito de Trump: expor a sujeira toda da “democracia” norte americana.
    Ele não tem o perfil de quem se dá por vencido e…esta situação ainda vai rodar muito sob o signo do terrorismo doméstico.
    Enquanto isso o governo ilegal de turno se prepara para os tempos de Obama. E quem diz não ser ele o atual comandante do barco, navegando nas sombras? Guerra externa, além da nova guerra interna.

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