O Satanismo – Parte I

Um dos temas mais subvalorizados da nossa sociedade é o Satanismo. Verdade, não é simples tratar do assunto: mas é preciso pois os adeptos não são tão poucos assim e alguns pertencem à elite mundial.

Não é simples falar do Satanismo porque é preciso fazer múltiplas distinções. No geral podemos individuar o Satanismo mais reles, aquele onde grupos de coitados reúnem-se nos cemitérios para degolar galinhas; depois há o Satanismo “racional”, fundamentado em abstracções histórico-teológicas; e finalmente há o Satanismo da elite, que em parte foi já enfrentando nestas páginas. Depois seria preciso aprofundar ainda mais, com o Satanismo ligado à Magia ou com aquele que recusa o ocultismo. E haveria ainda mais porque neste aspecto o Satanismo espelha a religião cristã: não há um único Satanismo mas múltiplas declinações dele.

Aqui, como é óbvio, não vamos tratar nem dos coitados dos cemitérios nem das respectivas galinhas: estes costumam ser assuntos úteis para encher as páginas sensacionalistas dos diários, mas inúteis e enganosos quando a intenção for entender a realidade Satanista. Aqui o foco será centrado no Satanismo nas suas vertentes “gerais” e naquelas ligadas ao Poder.

Vamos e que o Senhor nós acompanhe nesta descida para o Abismo.

Satanás: as origens

O termo Satanás remonta ao hebraico שָׂטָן (Satàn) que significa literalmente “oponente no julgamento” e que também pode indicar “adversário” ou “obstáculo”. A raiz hebraica ש – ט – ן implica precisamente o sentido de “oposição” e “obstáculo”. Portanto não é um termo inerente ao sentido e ao conceito de “mal”, nem físico nem metafísico.

A origem de Satanás é o resultado de uma elaborada intersecção de tradições que dura há milénios: a figura do “diabo” remonta a vários séculos antes da cultura judaico-cristã e as suas raízes podem ser encontradas no Médio Oriente, particularmente na área Mesopotâmica, Egípcia, Zoroastriana, Caldeia e Cananeia, caracterizadas por um panteão de vários deuses, alguns bons, alguns maus, outros neutros.

Foi principalmente devido à influência da religião do Zoroastrismo (fundada por Zarathuštr, provavelmente vivido no século XVIII a.C.) sobre a elite judaica em Jerusalém, que ocorreu durante o exílio babilónico, que o judaísmo começou a desenvolver uma teologia moral sobre o dualismo da luta eterna entre o bem e o mal. A influência do Zoroastrismo, contudo, foi muito importante também para a passagem desde o conceito de Sheol (o Reino dos Mortos) para aquele de Inferno, do julgamento divino, da punição dos pecadores e, finalmente, com o nascimento da demonologia no judaísmo rabínico.

A figura do Zoroastrismo conhecida como Angra Mainyu é equivalente à figura de Satanás, enquanto aquela dos Daēva é idêntica aos Demónios: na antiga religião de Zoroastro, de facto, Angra Mainyu era o anjo caído que escolheu livremente a sua natureza e vocação maligna, tornando-se uma entidade malvada e destrutiva, líder de uma hoste de anjos maus (os Daeva) que arrastou consigo e oposta ao Deus Único (chamado Mazda); exactamente da mesma forma como na posterior religião judaica-cristã Satanás é o anjo caído que tornou-se uma entidade má, líder de uma hoste de anjos maus (chamados Demónios) e opostos ao Deus Único (chamado Yhwh).

Contudo, a situação não é tão linear como poderia parecer pois a presença de Satanás no Antigo Testamento é escassa e a primeira citação é, no mínimo, capaz de confundir:

A partida de Balaam causou a indignação de Deus. Balaam montou o seu burro, acompanhado por dois criados. O anjo do Senhor foi e pôs-se no caminho para bloquear a sua passagem. (Números, 22:22)

O termo utilizado para indicar o anjo é śaṭan, um anjo (mal’akh) de Deus, cujo objectivo é permanecer no caminho de Balaam com uma espada na mão, evitando assim que este escolha um caminho tortuoso e que caia num erro irreparável. Pelo que: śaṭan é aqui uma figura positiva, ao serviço de Deus.

No conjunto hebraico de anjos há também a figura de Satan-el, um anjo a quem Deus confia a tarefa de verificar o nível das piedade do Homem (Livro de Job), do seu amor e dedicação para com o próprio Deus. Este anjo, também chamado Samael, é um anjo destruidor: executa a vontade divina participando na morte dos homens. Portanto, anjo e ao mesmo tempo demónio, um dos muitos da tradição judaica: Astarte, Belfagor, Beelzebub, Belial, Lilith, Asmodeus, Azazél, Baal, Dagon, Moloch, Mammon, Mefistófeles, Samael e muitos outros que derivam das divindades adoradas pelos povos da Palestina (como moabitas, cananeus, edomitas, sodomitas, jebusitas, filisteus, amoritas, arameanos, fenícios), incluindo os próprios judeus, que na altura opunham-se à adoração de Yahweh ou El. Mas, mais uma vez, Satan-el actua segundo as directivas de Deus.

Não são duas excepções: no Tanakh, a Bíblia hebraica, Satanás desempenha sempre o papel de anjo subordinado a Deus e executa as ordens deste último, sem nunca se rebelar. A interpretação teológica que vê Satanás como a serpente do Génesis é na realidade muito tardia e não foi formulada pelos judeus mas sim pelos cristãos, que ainda hoje usam esta forma de considerar o referido animal a representação do Mal. No entanto, é um facto que na cultura judaica a serpente não tem um significado especial: em particular, a partir da Segunda Destruição do Tempo de Salomão (em 70 d.C.), os judeus voltaram a considerar a existência dum único Deus benevolente e a impossibilidade de rebelião por parte dos anjos, uma vez que foram criados sem pecado ou, como mais tarde explica Maimonides (rabino, filósofo e teólogo da Andaluzia do séc. XIII d.C., um dos mais importantes pensadores do hebraísmo), não sendo seres sencientes mas “actos divinos no mundo”.

Ainda hoje, no judaísmo o diabo continua a ser uma alegoria das inclinações ou comportamentos negativos que fazem parte da natureza humana, não sendo uma figura real.

 Cristianismo: a paranóia de Satanás

O “momento de glória” de Satanás chega só com os Cristãos. No contexto do Novo Testamento, Satanás é iconograficamente designado como o Arcanjo do Mal, a figura em clara oposição a Deus. A história na Bíblia cristã e nos escritos dos Padres da Igreja parece por vezes identificá-lo com Lúcifer (e com Vénus, a “Estrela da Manhã”: um erro de tradução de São Jerónimo) ou seja, o serafim mais belo, mais resplandecente e mais próximo de Deus, e por isso chamado Lúcifer (“portador da luz”), que, no entanto, e precisamente devido a esta proximidade, acreditava ser não só como Deus mas até mais poderoso do que Ele. Um pecado de orgulho blasfemo e que será causa da revolta contra a vontade de Deus.

O Novo Testamento apresenta Satanás, ou o diabo, muito mais frequentemente do que o Antigo Testamento e de uma forma inteiramente nova e completamente negativa. Adquire um papel muito importante nas narrativas sobre Jesus como tentador ou acusador em comparação com este último. Está também associado a numerosos demónios estrangeiros do Antigo Testamento, como Baal ou Belzebu, e a figuras monstruosas da mitologia judaica como o Leviatã, especialmente na Apocalipse de João.

O Novo Testamento contém uma surpreendente agitação de forças demoníacas. No Cristianismo, Satanás assume definitivamente o mesmo papel que Angra Mainyu desempenhava no Zoroastrismo, nomeadamente como um espírito mau e portador de trevas oposto ao bom Deus da Luz (Ahura Mazdā segundo Zarathuštr). Os Evangelhos contribuíram grandemente para a construção de uma verdadeira identidade maligna de Satanás, atribuindo-lhe a totalidade do mal; o primeiro escritor cristão a identificar a serpente do Génesis com Satanás foi provavelmente Justino, nos capítulos 45 e 79 do seu Diálogo com Trifão. Outros Pais da Igreja que mencionaram esta visão foram Tertuliano e Teófilo.

A concepção dualista do Bem e do Mal no Cristianismo primitivo foi também influenciada pelo contraste entre matéria e espírito do platonismo. Já por volta do 100 d.C., os cristãos mediterrânicos conceberam Satanás como um antagonista cujo objectivo é levar a Cristandade à condenação. Inácio de Antioquia afirmou nas suas cartas que Satanás tem reinado sobre o mundo desde que este nasceu e que, graças à encarnação de Jesus e ao iminente regresso Dele, o fim do seu domínio viria muito em breve. O passo seguinte foi curto: o aparecimento de cismáticos e hereges foi marcado como obra de Satanás e, após o primeiro século d.C., tornou-se uma medida padrão por parte da Igreja acusar hereges ou heterodoxos de estarem à mercê do diabo.

Pelo que, a actual figura de Satanás é uma produção inteiramente cristã (e, mais tarde, adoptada pelo Islamismo também), que encontra as origens no Zoroatrismo apenas de forma indirecta, sendo até recusada pelo alegado meio de transmissão (o hebraísmo). O resultado é que o Satanismo é uma concepção recente e ainda mais jovem é o culto de Satanas.

Satanás hoje

As origens dos actuais movimentos culturais e filosóficos centrados no culto de Satanás não podem ser encontradas antes do século XIX: em particular, o nascimento do Satanismo entendido como um fenómeno religioso pode ser reconduzido à figura de Aleister Crowley (1875-1947) e aos seus escritos.

Já antes tinham existidos crenças entre os cristãos de fenómenos de devoção a Satanás, que foram fortemente condenados em obras de feitiçaria como o Malleus maleficarum (de 1486) e o Compendium maleficarum (1620). Mas nada de realmente orgânico, nem no sucessivo “renascimento” durante os tempos de Luís XIV de França, em cuja corte se celebravam as primeiras missas negras para obter favores e vantagens materiais.

De facto, temos que esperar até o final de ‘800 para ter o primeiro pensador satanista (o já citado Aleister Crowley) e a metade do século XX para encontrar as figuras importantes do Satanismo moderno: Kenneth Angaer e o seu amigo Anton Szandor LaVey, fundadores do Magic Circle em 1961 e da Igreja de Satanás em 1966.

Em 1975 é a vez de Michael Aquino, que fundou o movimento satanista alternativo, o Templo de Set. O fim do fenómeno da contracultura reduziu gradualmente a proselitismo das Igrejas Satânicas, mas não desapareceu o interesse pelo Satanismo, activo também hoje. Mas esta é outra história.

 

Ipse dixit.

2 Replies to “O Satanismo – Parte I”

  1. Tema muito interessante este do Satanismo. Estava a ler e a lembrar-me dos posts sobre o Pai Natal. Existem muitos equívocos na história e este será mais um. Vou esperar pela parte seguinte para colocar, ou não, uma questão que me anda a moer há algum tempo.

  2. Olá Max e Krowler

    Certamente tema interessante, deixando no ar a expectativa para o que virá na segunda parte.

    Max escreveu:
    “… não vamos tratar nem dos coitados dos cemitérios nem das respectivas galinhas: estes costumam ser assuntos úteis para encher as páginas sensacionalistas dos diários, mas inúteis e enganosos quando a intenção for entender a realidade Satanista.”

    Existem muitas forças na natureza que desconhecemos. Pela dificuldade em se estabelecer um estudo mais completo e apoiado na própria ignorância, certas pessoas pensam que estas forças estão por aí, para serem usadas ao seu bel-prazer,
    mas não é bem assim.

    A figura de Satanás pode ter vários significados:

    Para os evangélicos neo-pentecostais é a desculpa para seus próprios erros.
    Para os lideres destas igrejas, o parceirão de negócios, pois se não houver o diabo para atentar, quem irá procurar as igrejas?
    Para Giorgio Tsoukalos e a turminha do “Alienígenas do Passado” não passa de um extraterrestre malvado.

    Aleister Crowley teve fãs ilustres no brasil: o nosso querido e idolatrado maluco beleza, Raul Seixas e o escritor ( parceiro de composição de Raul ) Paulo Coelho, sim , aquele famoso mesmo.

    Rock do Diabo.
    “O diabo é o pai do rock
    Enquanto Freud explica
    O diabo dá os toque”

    Ambos fizeram parte da chamada Sociedade Alternativa:

    Sociedade Alternativa
    “Viva a sociedade alternativa! (Viva! Viva!)
    Se eu quero e voçê quer
    Tomar banho de chapeu
    Ou esperar Papai Noel
    Ou discutir Carlos Gardel
    Então vá
    Faça o que tu queres pois é tudo da lei
    (…)
    Viiva a sociedade alternativa! (Numero 666 chama se, Alestair Crowley)
    Viva! Viva!
    Viva a sociedade alternativa! (Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei)
    Viva! Viva!
    Viva a sociedade alternativa! (A lei do forte, essa é a nossa lei, e a alegria do mundo)
    Viva! Viva!
    Viva a sociedade alternativa! (Viva! Viva! Viva!)
    Viva! Viva! (Viva o novo eon)

    Muitos anos depois , já famoso e milionário, Paulo Coelho afirmou que era mais uma zoação e que a tal sociedade era composta por 4 pessoas: Ele, Raul e as respectivas esposas.

    Particularmente gosto muito dessa música e toda vez que alguém me pergunta se deve fazer tal coisa, eu respondo: “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”

    Abraço.

    PS: “Vamos e que o Senhor nos acompanhe nesta descida para o Abismo.”
    Sensacional !!
    Amém.

Obrigado por participar na discussão!

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