Para onde foi o meu Mundo

O artigo que se segue é da autoria de Paul Craig Roberts, economista Norte-Americano, formado no Instituto de Tecnologia da Geórgia, Universidade da Califórnia em Berkeley e Universidade de Oxford.

A crónica que o autor redigiu é um convite à reflexão, algo que nos tempos que correm é de extraordinária importância para que possamos entender o porquê de termos esta actual situação que vivemos, onde o Mundo e a Sociedade em que nascemos construídos e mantidos sobre os valores da liberdade, da igualdade de oportunidades, da fraternidade, da razão, independência, e trabalho, poderá estar prestes a ser destruído e substituído por algo completamente contrário a esses valores.

Se o sr. Paul Roberts por ventura der de caras com este seu artigo traduzido para o Português e publicado no blogue Informação Incorrecta, permita-me dedicá-lo a todos leitores(as) Portugueses e das nações pertencentes à Comunidades de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Permita-me também dedicar este artigo aos homens e mulheres que nasceram no Século XX (principalmente aqueles que nasceram até à Década de 1980), pois tiveram oportunidade de vivenciar de forma mais consciente tudo ou praticamente tudo aquilo que relata, cada um(a) de acordo com a realidade do país onde nasceu e cresceu.

Aos homens e mulheres do Século XX (que parecem ter perdido a noção do tempo e dos valores com os quais foram criados), talvez seja esse desleixo e esquecimento do passado que vivemos e formou o nosso carácter, que nos levou para diante de um beco aparentemente sem saída neste momento da História que será decisivo para o nosso presente e talvez para o futuro das novas gerações.

É o momento de voltar atrás na nossa memória e encarar (sem medo ou condicionantes) o nosso passado, onde o progresso e desenvolvimento foram uma constante para as nossas gerações que atravessaram e moldaram o Século XX, e comparar com a estagnação, retrocesso, conivência, tirania, e flagelo, que nos pretendem impor no Século XXI como um novo «normal». 

Mudança nem sempre é progresso

Lembro-me de quando não havia embalagens não violáveis e à prova de crianças. Isso foi antes do multiculturalismo e da Política de Identidade, quando ainda podíamos confiar uns nos outros e os pais aceitavam a responsabilidade pelos seus filhos ao invés de os entregar a uma empresa.

Lembro-me também de quando não havia impostos estatais sobre o rendimento e vendas. Os Estados eram capazes de cumprir as suas responsabilidades sem eles.

Um selo postal custou um centavo. Uma casa de classe média $11.000 (10,000 € aprox., ndt.) e uma casa de classe média alta $20.000 (18,000 € aprox., ndt.). Um milhão de dólares era uma grande fortuna. Não havia bilionários.

O museu aéreo na base naval de Pensacola, Flórida, tem uma rua reconstruída a partir da Década de 1940. O menu do restaurante oferece uma refeição noturna completa por 69 centavos (0,60 € aprox., ndt.).

Eu estava a pensar nisso quando conferi uma factura recente do supermercado Publix: pão de forma $3.89 (3,55 € aprox., ndt.), uma dúzia de ovos do campo $4.95 (4,50 € aprox., ndt.), um pacote de 6 cachorros-quentes $5.49 (5,00 € aprox., ndt.), 8 tomates pequenos $5.19 (4,70 € aprox., ndt.), um pacote de espinafres $4.19 (3,80 € aprox., ndt.), 2 Litros de leite $4.59 (4,18 € aprox., ndt.), um pacote de dois rolos de papel de cozinha $5.99 (5,45 € aprox., ndt.). Quando eu tinha 5 ou 6 anos, a minha mãe mandava-me à padaria com um centavo para o pão ou ao mercado com 11 centavos para um litro de leite.

O filme de Sábado à tarde em sessão dupla no cinema era 10 centavos. Uma grade de Coca-Colas (24 garrafas) era um dólar (0,90 € aprox., ndt.). Dez centavos davam-te para uma Pepsi Cola e uma Moon Pie, o almoço para os trabalhadores da construção civil. As crianças procuravam por garrafas de Pepsi Cola deixadas nos canteiros das obras. Naquela época havia um depósito de dois centavos pelas garrafas de refrigerante. Uma garrafa valia 4 pedaços de chiclete duplo. Cinco garrafas pagavam pela sessão dupla de cinema ao Sábado à tarde.

Moedas, de um quarto de Dólares (0,22 € aprox., ndt.), e meios Dólares eram de prata, e havia Dólares em prata. O nickle (moeda de cinco centavos) eram de nickle, e o centavo era de cobre. FDR (Franklin D. Roosevelt) retirou o ouro em 1933. As moedas de prata desapareceram em 1965. A nossa última moeda-mercadoria, o centavo de cobre, conheceu a sua morte em 1983. Agora eles falam em livrar-se completamente do centavo.

Muitos de nós crescemos a entregar jornais para ganhar dinheiro e depois gastá-lo. Além da entrega de jornais, o meu primeiro emprego foi no Verão durante o ensino secundário, quando trabalhei no primeiro turno de uma fábrica de algodão a $1 (0,90 € aprox., ndt.) por hora. E era mesmo trabalho. Depois do imposto de retenção, o meu pagamento (ou salário, ndt.) de 40 horas por semana foi de $33 (30,00 € aprox., ndt.).

Quando eu tinha cinco anos, podia percorrer em segurança 1,50 Km para a escola e para casa sozinho sem que os meus pais fossem presos pelo Serviço de Proteção à Criança (Child Protective Services pela sua sigla em inglês, ndt.) por negligência infantil e perigosidade.

Na escola, podíamos desenhar aviões de combate, navios de guerra e armas sem ser considerado perigoso para os nossos colegas ou enviados para avaliação psiquiátrica. As lutas eram apenas uma parte do crescimento. A polícia não era chamada, e não éramos algemados e levados para a cadeia. Hoje as crianças que brincam aos polícias e ladrões ou aos cowboys e aos índios e apontam os dedos uns para os outros como armas de brincar acabam sob custódia da polícia. Uma briga significa uma acusação de agressão e possivelmente um registo criminal.

O tipo de liberdade que eu tinha quando era criança já não existe, excepto em áreas rurais remotas. Quando penso nisso, pergunto-me se as crianças de hoje têm essa noção. Vivem no mundo virtual do ecrã e não conhecem o mundo real. Apanhar lagostins no riacho enquanto se observava as Cobras Boca de Algodão (Agkistrodon Piscivorus, ndt.), jogar à conquista da bandeira pelos extensos héctares sem apanhar com grande casos de hera venenosa (Poison Ivy pela sua sigla em inglês, ndt.), organizar um jogo de bola entre vizinhos, fazer um dique no riacho e criar um espaço para nadar. Hoje isto são prazeres desconhecidos.

Quando chovia, líamos livros. Lembro-me de ler “Os Manipuladores” (The Puppet Masters pela sua sigla em inglês, ndt.) de Robert Heinlein quando tinha 12 anos. Hoje, crianças de 12 anos lêem livros? Pode a ficção científica competir com os jogos de vídeo?

Lembro-me quando um acordo se estendia com um aperto de mão. Hoje os advogados dizem-me que até os contratos são inaplicáveis.

Fomos ensinados a comportar-nos adequadamente para que «possas olhar-te no espelho». Hoje você não pode olhar-se no espelho a menos que tenha ofuscado ou roubado alguém. Carácter é coisa do passado, assim como hábitos que hoje são considerados inapropriados. Uma pessoa mais velha esperando obter uma informação através de outra mais jovem colocaria a mão no braço ou coxa dessa pessoa mais nova para chamar a sua atenção. Faça isso hoje e terá uma acusação sexual. As minhas duas avós provavelmente seriam presas como agressoras sexuais.

Ser um bufo era uma característica indesejável e desencorajada. Hoje somos encorajados a ser bufos. Você ouvirá esse encorajamento dezenas de vezes enquanto aguarda pelo anúnico do seu voo. Os vizinhos em becos silenciosos ligarão para o Serviço de Protecção à Criança (Child Protective Services pela sua sigla em inglês, ndt.) para denunciar as crianças que brincam sem supervisão.

Lembro-me de quando os Afro-Americanos disseram que só queriam ser tratados como toda a gente. Isso foi antes de se estabelecerem em contratos com o governo federal onde só empresas detidas por Afro-Americanos podem licitar. A partir do momento em que você tem privilégios especiais, você deixa de querer ser como todos os outros. Os negros dizem que ser branco é um privilégio. Se assim for, não foi privilégio suficiente para a Ultima, firma de Celeste Bennett. O seu privilégio branco e o seu privilégio de género foram superados pelo privilégio reservado aos negros.

Se os meus pais e avós fossem ressuscitados, precisariam de um ano de treino antes que fosse seguro para eles continuarem a sair sem ser presos. Eles teriam que ser educados fora dos seus padrões de comportamento habituais e ensinar-lhes as palavras e frases que hoje são inadmissíveis. Teriam dificuldade em compreender que há zonas nas cidades onde não podem ir. Lendo o livro magistral de Diana Johnstone, Circle in the Darkness (pela sua sigla em inglês, ndt.), lembrei-me da segurança dos meus anos de juventude ao ler que quando ela tinha 12 anos podia andar sozinha pelos cais do sudoeste em Washington, D.C., na década de 1940 sem ser molestada.

Ontem recebi como proprietário a minha nova apólice. Chegou com 89 páginas de avisos, definições e explicações de responsabilidade. Não se consegue dizer se alguém tem seguro ou não.

Tenho um Jaguar com 54 anos que se encontra nas minhas mãos há 47 anos. O manual do proprietário diz como operar e consertar o carro. Um amigo mostrou-me o manual do proprietário do seu Porsche de 21 anos. Tem mais páginas com avisos para proteger o fabricante das reclamações de responsabilidade do que o manual do Jaguar tem em páginas de instrução. Hoje qualquer ferramenta ou gadget (pela sua sigla em inglês, ndt.) que você comprar tem mais páginas de avisos do que instruções.

A minha apólice de suplementos de seguro AARP Medicare (pela sua sigla em inglês, ndt.) chegou explicando a minha cobertura escassa e cara. Veio com um aviso informando que a política de serviços de assistência linguística estão disponíveis em Espanhol, Vietnamita, Tagalog, Russo, Árabe, Crioulo Haitiano, Francês, Polonês, Português, Italiano, Alemão, Japonês, Hmong, Llocano, Somali, Grego, Gujarati, e que não há discriminação por causa do sexo, idade, raça, cor, deficiência ou nacionalidade. O edital dá acesso a um Coordenador de Direitos Civis (Civil Rights Coordinator pela sua sigla em inglês, ndt.) no caso de me sentir discriminado. A AARP (pela sua sigla em inglês, ndt.) ainda fornece um número para pedir ajuda e apresentar uma queixa por discriminação.

Eu sinto-me discriminado. Mas não é uma discriminação abrangente. Sinto que o meu país foi roubado ou que fui sequestrado e colocado em algum lugar desconhecido no estrangeiro e que não reconheço como lar.

Sinto o mesmo quando recebo apelos para angariação de fundos da Georgia Tech e da Universidade de Oxford. Georgia Tech era uma escola totalmente masculina composta principalmente por miúdos da Geórgia. As faculdades de Oxford foram segregadas de acordo com o género — masculino e feminino — e a grande maioria dos seus membros eram Britânicos. Hoje todas as faculdades, excepto as das mulheres, são integradas no género. Homens brancos raramente aparecem nas fotos da angariação de fundos para materiais que chegam de Oxford e Georgia Tech. Vejo muitas mulheres e diversidade racial e pergunto-me que universidade é essa. Uma melhoria ou não, não são as escolas das quais tenho memórias. As escolas que eu conhecia foram simplesmente substituídas. Agora há outra coisa no seu lugar.

Talvez sempre tenha sido verdade, mas hoje, se você viver muito tempo, sobrevive para além do seu mundo. À medida que seus amigos morrem, ninguém se lembra correctamente, mas você vê o seu mundo desaparecer em deturpações para servir as actuais agendas.

Nota: O artigo é composto por construções de frases e termos típicos ou comuns na variante Norte-Americana da Língua Inglesa; tentou-se na tradução encontrar o melhor equivalente para a Língua Portuguesa, de maneira a que o sentido das frases ou do texto não fosse perdido ou deturpado.

Fonte: Where Did My World Go? – Paul Craig Roberts

7 Replies to “Para onde foi o meu Mundo”

  1. Eu so tenho 43 anos, mas sinceramente não estou preparado para viver no mundo que nos espera pos pseudo pandemia. “Viver” rodeado de regras estupidas, de pessoas sem sentido critico, de miseria e sem liberdade para fazer o que mais gostamos nas nossas vidas. Tal como o autor do texto, tambem eu sinto que o meu tempo passou, e tudo o que vier agora sera sempre pior.

  2. Paul Craig Roberts (doravante denominado de PCR) tem uma veia de romancista , não sei se é esse o objetivo dele neste texto, mas não me parece que vá além disso, e sendo que PCR é um homem conotado com a informação alternativa, assalta-me de novo a velha sensação de que PCR não acrescenta nada de novo ao que já sabemos, apela ao sentimento e á memoria dos bons velhos tempos, embala-nos no berço e empurra-nos para o conformismo.
    Quietinho…caladinho.. nos velhos tempos em que era bom .. conforma-te …rende-te … é inútil resistir…
    Estamos numa encruzilha difícil ? Sempre estivemos! Todos sabemos! E qual a ajuda de PCR para compreender o problema ou sair dele ? (-1) , não só não acrescenta nada de novo como ainda incentiva á depressão .
    Aborrece-me essa lamechices …
    Dá-me a mesma sensação quando se fala de Mikhail Gorbatchov…e nunca consigo perceber se ele era um comunista ou um anticomunista. No caso de PCR começa-me a parecer que está mais contra nós do que por nós, apenas ainda não percebi se consciente ou inconscientemente.
    Recomendo a PCR que beba uns copos conviva com amigos e deixe de ouvir musicas do Jorge Ferreira… isso passa …

  3. Ele esqueceu de citar o “Forte Apache”, uma miniatura do que eram os fortes apaches na conquista do oeste americano, um brinquedo muito concorrido nos anos 60/70, onde as crianças “aprendiam” que os soldadinhos fardados e brancos eram os mocinhos, e os peles vermelhas indígenas, os vilões. E assim, o objetivo do “brinquedo” era o de matar o maior nº de índios possível…

    1. É, brinquedinho doutrinador, mas fico com a resposta do grande cacique: O homem não tece a teia da vida, é antes um de seus fios, o que quer que faça a essa teia faz a si mesmo, tamo ferrado, amigo …

  4. Pois é, estou no mesmo barco que o Ricardo, mas lá nos anos 80, a população era muito menor então eu morava numa cidade em que haviam 30 a 40 mil habitantes, hoje a população fixa passa dos 300 mil, fora os que circulam devido a exploração do petróleo, daí a Igreja Romana pregava já naquela época, “crescei-vos e multiplicai-vos” e são até hoje contra o aborto ou métodos anticoncepcionais, ridículos. A merda é que humanos proliferam e destroem como vírus, até aí nenhuma surpresa, mas acho que todo esse crescimento populacional foi proposital já contando com algum evento da mãe natureza, tipo uma nova era do gelo ou algo mais devastador em que sobrará bem pouca gente viva para reiniciar a civilização.
    Falo sempre em Yellowstone, que por sinal tem havido bastante atividade sísmica próxima, quem sabe.

  5. Acho que sou a mais velha aqui: tenho 70 anos. E para mim as reminiscências depende sempre da classe social. Desde a escola que frequentastes, os empregados que tivestes em tua casa ou não, a baixela que ornamentava a tua mesa ou não, os valores dependentes da origem étnica também, onde ias passear, o que comias ou não, as músicas, as danças, outras artes ou não…E depois, os livros, as conferências, as reuniões. É fácil ser revolucionária quando se pertence à classe média. Pelo menos meus colegas revolucionários eram quase todos burgueses, pobres muito poucos e aceites com carinho. Os muito pobres só têm tempo de sobreviver, nada mais. Os ricos nem pensar, são conservadores e ultra reacionários.
    Hoje reconheço que não se faz classe média como antigamente, aquela a qual eu pertencia. Desvalorizou-se, domesticou-se, tornou-se pobre…e os pobres miseráveis ficaram. Eu fui privilegiada, nasci na época de Getúlio presidente, e logo após suicidado, Juscelino, desenvolvimentista, e vindo a seguir Brizola pondo João Goulart no poder. Mas tinha 14 anos quando tudo mudou. E daí em diante nem prefiro falar que vou cansar demais o Lopes.
    Mas eu acho que pensar no passado nos ajuda a entender o presente, não faz mal a ninguém.

  6. Há o passado temporal (o que tudo é) e a linha limítrofe entre passado e presente, estabelecida pelas relações civilizatórias, em conformidade com suas conveniências e circunstâncias…

Obrigado por participar na discussão!

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