Coronavirus e vacinas: o que NÃO sabemos

O jornalista Paolo Barnard entrevistou David R. Walt da Harvard University Medical School, docente de Patologia Médica, Neurociência, Hanjorg Wiss Professor de Engenharia Molecular, Geneticista inventor dos Microwell Arrays for Single Molecule Detection.

É membro da Academia Nacional de Engenharia, da Academia Nacional de Medicina, da Academia Americana de Artes e Ciências, do Instituto Americano de Engenharia Médica e Biológica e membro da Academia Nacional de Inventores.

Recebeu inúmeros prémios e distinções, incluindo o American Chemical Society Kathryn C. Hach Award for Entrepreneurial Success (2017), o Ralph Adams Award in Bioanalytical Chemistry (2016), American Chemical Society Gustavus John Esselen Award (2014), o Analytical Chemistry Spectrochemical Analysis Award (2013), o Pittsburgh Analytical Chemistry Award (2013) e o ACS National Award for Creative Invention (2010).

Chega? Acho que sim. Boa leitura.

As incógnitas de CoV-2, imunidade e vacina

Professor, hoje as pessoas estão a cada vez mais desconfiadas em relação à ciência e à super tecnologia, e nem sempre sem razões para tal. Vamos eliminar qualquer suspeitas de conflito de interesses entre o seu trabalho académico e a sua participação empresarial: perdoe a seguinte pergunta mas porquê deveríamos confiar em si?

Essa é uma excelente questão. Eu diria que a minha opinião pessoal sobre as coisas é que eu tenho de revelar os conflitos de interesses, todos nós temos conflitos de interesses e eu tenho significativos negócios como consequência do meu espírito empresarial, mas mantenho este separado da minha ciência. A razão é que penso que os académicos têm uma reputação e apenas uma hipótese de destrui-la. Portanto, se você for desonesto e as pessoas descobrirem isso, perdeu a sua credibilidade, estás acabado.

Muito bem, esta entrevista será baseada sobre aquilo que ciência não conhece acerca de CoV-2, imunidade e vacinação. Vamos começar do genoma: cito o Professor Wayne Marasco um seu colega em Harvard. Ele disse-me: “Dado que o genoma do CoV-2 é tão grande, 30 Kilobases, é difícil saber se outros genes da COVID-19 cobertos estão em mutação e levando a doenças mais severas”. Pergunta: quais são as mais graves lacunas na compreensão do código do genoma do CoV-2 hoje?

O Professor Marasco é o verdadeiro perito nesta matéria, e eu confiaria na opinião dele nesta área. Mas o que eu diria acerca das deficiências no conhecimento é simplesmente que ainda não temos suficientemente sequenciado um número suficiente de vírus dum número suficiente de pacientes. Esta é a coisa mais desconhecida do ponto de vista do genoma viral, de como muda e de como estas mutações poderiam apresenta-lo da próxima vez, como acontece com a gripe. Há claramente uma componente genética porque estamos a ver a patogenicidade da doença, quando esta se tornar grave, replica-se em grupos familiares. Algumas famílias são atingidas de forma dramática, outras muito menos. Poderia haverá diferenças regionais no make up [composição genética, ndt] da população também.

Vamos concentrar-nos um pouco mais especificamente sobre os testes imunitários serológicos. O Dr. Lee Gehrke, virologista e pesquisador em Harvard e no MIT,assim comenta os testes serológicos: “Ainda não sabemos se os anticorpos que estes testes rastreiam actuem efectivamente contra o vírus” e ainda pior o Dr. Alan Wells, da Universidade de Pittsburgh Medical Center: “Eu tremeria ao certificar a imunidade de alguém com os testes serológico IgM e IgG. Estes testes ainda não estão naquele nível”. Por isso a minha pergunta é a seguinte, dado que estes testes estão a ser utilizados em todos os lados: o que falta para tornar estes testes verdadeiramente fiáveis?

Óptima pergunta e está é precisamente a questão objecto da investigação que está a ser realizada no nosso laboratório na Faculdade de Medicina de Harvard. O que falta é a especificidade da resposta imunitária. Para as pessoas que estão a ouvir: os anticorpos que são produzido por que estiver infectado pelo CoV-2 respondem a quatro diferentes proteínas produzidas pelo vírus, e, portanto, os anticorpos podem ser produzido contra qualquer uma dessas quatro; mas é ainda mais complexo porque existe uma gama de anticorpos, as imunoglobulinas, que são produzidas como defesas, as IgA IgG IgM e há alguns de menor importância como a IgD e as IgE. Mas nesta doença específica, que é uma doença das mucosas, que afecta o revestimento mucoso, Iga, IgM e IgG acabam por ser importantes; por cada uma dessas diferentes classes existem respostas muito diferentes contra cada uma das quatro proteínas virais.

Por isso, ainda ninguém sabe qual dessas respostas imunitárias e quais dessas proteínas produzem uma interacção que resulta na neutralização do vírus, isso é, não apenas que consigam ligar-se ao vírus mas que consigam ligar-se de uma forma que active o sistema imunitário para eliminar o vírus do corpo. Portanto este é o elo em falta hoje. Se você mede o montante total de anticorpos IgG e IgM, tal como acontece nestes testes que estão em qualquer lado, não obtém qualquer informação sobre se esses anticorpos são neutralizantes ou não, se de verdade eliminam o vírus. Só quando a investigação terá conseguido identificar os indivíduos que tenham efectivamente destruído o vírus e precisamente qual série de anticorpos existe na corrente sanguínea deles, então começaremos a ter alguma compreensão acerca de como podemos realmente atacar este vírus e talvez formular uma vacinas específicas.

O que acabou de dizer tem enormes implicações para as situações sociais e de trabalho nos Países. Portanto, se entendi bem, a tecnologia ainda tem avançar bastante antes de produzir um teste que diga a uma pessoa “Sim, tu estás imunes” ou não. Então falamos das vacinas: posso perguntar-lhe se tiver uma esposa, filhos e netos?

Tenho duas filhas e quatro netos.

Você lembrar-se-á em 2017 o insucesso da vacina da Sanofi contra o vírus Zika, milhões de Dólares gastos para essa vacina, mas depois a epidemia desapareceu por si só. O Dr. David Morens do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas disse na altura: “As vacinas são certamente úteis para as epidemias, mas os vírus tendem a desaparecer, depois voltam a aparecer”. Então estamos aqui, a correr para a vacina contra um vírus que ainda está cheio de mistérios, do qual não se entende completamente a resposta imunitária humana e que amanhã pode manifestar-se como perigosamente mudado. Então você, antes de dar uma vacina contra o CoV-2 aos seus netos, durante quanto tempo quereria que fosse seriamente testada? 10 meses? 24 meses? Quanto para ficar seguro?

Bem… há casos em que as vacinas são completamente inúteis. Sabemos que o Dr. Fauci que tem tem vindo a assumir a liderança nos EUA na resposta contra esta pandemia, tem trabalhado na tentativa de desenvolver uma vacina contra o VIH durante quase três décadas, mas o sucesso destas vacinas tem sido elusiva e por isso a primeira coisa, a mais importante, demonstrar que a vacina é realmente eficaz na geração de uma resposta neutralizante. E depois deve ser testada numa fatia da população suficientemente grande para poder demonstrar que não provoca quaisquer efeitos secundários indesejáveis.

Algumas vacinas causam uma super-resposta imunitária que pode realmente pôr em risco a vida e ser fatal em alguns casos. Por isso eu diria especificamente que algo como 18 meses são um tempo razoável para começar a vacinar os membros mais vulneráveis da população que não tenham sido contagiados anteriormente, mas isso deve acontecer só depois de experimentação em relativamente grandes extensões da população, milhares de pessoas, para ver se houver má surpresas mesmo que raras.

Professor, é muito importante que forneça estes parâmetros porque você sabe como Big Pharma faz, talvez daqui a dez meses alguém aparece a dizer “Eis a vacina” e Donald Trump dirá “Oh, fantástico!” e assim as pessoas terão que acreditar que é uma boa vacina mas, como você disse, em dez meses vai ser muito improvável que apareça uma boa vacina.

Queria especificar que há indicações acerca da eficácia duma vacina e que se não houve efeitos secundários graves, dez meses poderiam ser a altura em que tenhamos mesmo que vacinar algumas das mais pessoas vulneráveis, por exemplo quem tiver mais de 90 anos porque sabemos que se contraírem a doença seria pouco provável que recuperassem. Por isso o risco da vacina, posto na balança, poderia ser o menor dos riscos naquele nível. Mas repito que nas situações mais comuns não queremos apressar este tipo de vacinas antes de pelo menos 18 meses.

Sim, porque vai ser muito provável que os legisladores obriguem todos a vacinar-se serem vacinados. Para concluir, qual é o factor desconhecido deste vírus que o mantém acordado durante a noite?

Eu diria o que já discutimos, que é a relação entre a produção de anticorpos por indivíduos que são infectados ou que tenham sido infectados e a protecção que esses anticorpos fornecem. Estou assustado com a proposta de fazer basear o passaporte de imunidade em algo que nesta altura não tem verdadeiras provas científicas que o apoiem.

 

Vídeo original da entrevista

 

Ipse dixit.

8 Replies to “Coronavirus e vacinas: o que NÃO sabemos”

  1. Isto sim é preocupante… “Estou assustado com a proposta de fazer basear o passaporte de imunidade em algo que nesta altura não tem verdadeiras provas científicas que o apoiem.”

  2. A entrevista poderia acabar na 1ª resposta. Traduzindo as duas pérolas: 1) no maravilhoso mundo dos conflitos de interesses, o que interessa é parecer honesto… ; 2) Me divido em duas pessoas, o empresário e o cientista…

  3. Recomendo este documentário:

    – Vaxxed: From Cover-Up to Catastrophe (2016)

    Encontra-se disponível no «docspt».

    Max, outro ponto que ultimamente tenho reparado que desperta violentas discussões é aquele que confronta as seguintes definições: falsa pandemia covid-19 vs pandemia covid-19.

    Quando se coloca a questão do porquê da Organização Mundial de Saúde (OMS) não decretar a pandemia no caso de outras doenças que matam muito mais do que a doença do coronavírus covid-19, os defensores da versão da OMS ficam enraivecidos ou então evitam responder directamente à pergunta.

  4. “Quando se coloca a questão do porquê da Organização Mundial de Saúde… os defensores da versão da OMS ficam enraivecidos ou então evitam responder directamente à pergunta.”

    Pois, porque não há resposta possível…

    1. Olá Pablo!

      Fui espreitar não menos de que 30 páginas que relatam a mesma notícia e a fonte é só e sempre uma: o SITE de Rita Katz.

      O SITE é o órgão de desinformação especializado na criação de notícias falsas, dirigido pela israelita Rita Katz, que afirma ter infiltrados que trabalham em obscuros fóruns populados por extremistas islâmicos. Dado que nos últimos tempos o ISIS tem parado com os ataques, no SITE devem ter o problema de como passar os dias. E eis que aparecem os Neo-Nazis que publicam a lista com os endereços.

      Obviamente nem o NIH, nem a OMS, nem a Fundação Gates nem os outros directos interessados se queixam: só i SITE de Rita Katz é capaz de descobrir a maquiavélica manobra neonazi.

    1. Olá João!

      Concordo consigo: a forma é mais importante do que a substância. Folgo em receber a sua tradução para poder corrigir imediatamente os meus alegados erros.

      Obrigado desde já pela colaboração.

Obrigado por participar na discussão!

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