Palavras: Henry Kissinger

Este é o primeiro de dois artigos que sintetizam as intervenções de Henry Kissinger e Bill Gates ao longo dos últimos dias. E mais: juntamos também um editorial do Financial TImes. Muito interessantes, sem dúvida.

Comecemos com a síntese da intervenção dum homem que teima em ficar nos mundo dos vivos, para a infelicidade destes últimos: Henry Kissinger. Das páginas do Wall Street Journal:

As nações coexistem e prosperam na convicção de que as suas instituições podem prever as catástrofes, travar o seu impacto e restaurar a estabilidade. Quando a pandemia de Covid-19 terminar, as instituições de muitos Países serão vistas como um fracasso. Se este julgamento for objectivamente correcto é irrelevante. A realidade é que o mundo nunca mais será o mesmo depois do Coronavírus. Discutir agora o passado apenas torna mais difícil fazer o que tem de ser feito. […]

A Administração dos EUA tem feito um sólido trabalho para evitar uma catástrofe imediata. O teste final será se a propagação do vírus pode ser travada e depois invertida de uma forma e numa escala que mantenha a confiança do público na capacidade dos americanos […]. O esforço de crise, por muito vasto e necessário que seja, não deve impedir a tarefa urgente de lançar uma empresa paralela para a transição para a ordem pós-coronavírus.

Os líderes enfrentam a crise numa base predominantemente nacional, mas os efeitos sociais do vírus não conhecem fronteiras. Embora o ataque à saúde humana seja, assim o esperamos, temporário, a convulsão política e económica que desencadeou poderá durar gerações. Nenhum País, nem mesmo os Estados Unidos, pode, num esforço puramente nacional, vencer o vírus. Enfrentar as necessidades do momento deve, em última análise, ser combinado com uma visão e um programa de colaboração global. Se não conseguirmos fazer as duas coisas em conjunto, enfrentaremos o pior um do outro.

Tirando lições do desenvolvimento do Plano Marshall e do Projecto Manhattan, os Estados Unidos são obrigados a fazer um grande esforço em três áreas. Em primeiro lugar, para apoiar a resistência global às doenças infecciosas. Os triunfos da ciência médica, como a vacina contra a poliomielite e a erradicação da varíola, ou a emergente maravilha técnico-estatística do diagnóstico médico através da inteligência artificial, levaram-nos a uma perigosa complacência. Temos de desenvolver novas técnicas e tecnologias para o controlo das infecções e vacinas adequadas para grandes populações. Cidades, Estados e regiões devem preparar-se constantemente para proteger as suas populações de pandemias através do armazenamento, planeamento cooperativo e exploração nas fronteiras da ciência.

Em segundo lugar, o esforço para tratar as feridas da economia mundial. Os líderes mundiais aprenderam importantes lições com a crise financeira de 2008. A actual crise económica é mais complexa: a contracção desencadeada pelo Coronavírus é, na sua velocidade e escala global, diferente de tudo o que alguma vez foi conhecido na história. E as necessárias medidas de saúde pública, como a exclusão social e o encerramento de escolas e empresas, estão a contribuir para o sofrimento económico. Os programas devem também procurar melhorar os efeitos do caos que se aproxima às populações mais vulneráveis do mundo.

Em terceiro lugar, salvaguardar os princípios da ordem mundial liberal. A lenda que está na base do moderno governo é aquela duma cidade murada, protegida por governantes poderosos, por vezes despóticos, por vezes benevolentes, mas sempre suficientemente fortes para proteger o povo de um inimigo externo. Os pensadores do Iluminismo reformularam este conceito, argumentando que o objectivo dum legítimo Estado é prover às necessidades básicas das pessoas: segurança, ordem, bem-estar económico e justiça. Os indivíduos não podem garantir estas coisas por si sós. A pandemia provocou um anacronismo, um renascimento da cidade murada, numa altura em que a prosperidade depende do comércio global e da circulação de pessoas.

As democracias do mundo devem defender e apoiar os valores do Iluminismo. Uma retirada global do equilíbrio entre poder e legitimidade provocará a desintegração do contrato social, tanto a nível nacional como internacional. Contudo, esta velha questão da legitimidade e do poder não pode ser resolvida em simultâneo com o esforço para ultrapassar a praga do Covid-19. É necessário um travão de todos os lados, tanto na política interna como na diplomacia internacional. As prioridades devem ser estabelecidas.

Estes poucas linhas são uma autêntica mina de reflexões: seria possível passar horas a aprofundar todos os assuntos tratados no texto. Mas vamos só ao que interessa nesta altura, pois o simpático Kissinger dita as regras para o futuro:

  1. uma visão e um programa de colaboração global (económico, diplomático, etc.)
  2. cega fé na Ciência (vacinas, Inteligência Artificial)
  3. defesa da ordem mundial liberal (baseada nos valores Iluministas)

Este é a extrema síntese, os alicerces duma “nova” sociedade. Uma “nova” sociedade com uma ordem bem definida: pelo que não é complicado intuir qual o destino final.

Por enquanto paramos aqui com o simpático Kissinger. No próximo artigo as palavras dum seu conhecido.

 

Ipse dixit.

Imagem: Piston via The Atlantic

3 Replies to “Palavras: Henry Kissinger”

  1. Olá Max: em primeiro, se o Kissinger está vivo, e outros semelhantes a ele em ideias e longevidade, temos a prova concreta que, “bem cuidados” podemos dobrar a linha de um século facilmente. Quem se interessa em viver mais tempo deveria pesquisar a fundo a vida destes famosos longevos, quantas vezes ao ano eles fazem tratamentos especiais em uma certa clínica de internamento nos Alpes, o que inclui ( e isso sou eu que digo, tentando fechar alguns pontinhos também) troca de órgãos vitais por unidades mais novas e saudáveis, a última invenção em tecnologia farmacêutica, as constantes operações plásticas, etc. E depois tratem de ter o dinheiro necessário. Caso contrário, como dizem os “bandidos” aqui no Brazil, quando fazem assaltos a transeuntes, nas ruas: “perdeu playboy!!!!”.
    Naturalmente as ideias vinculadas por este sujeito revelam a luta da facção globalizante entre os poderosos. Se os problemas são globalizadas, então as soluções também devem ser.
    Eu não sei até que ponto este experimento de engenharia social global, não tem uma dupla face, que significa uma preocupação a mais para os poderosos. Tudo bem, deu certo no que diz respeito à aceitação de que democracias funcionam junto com total perda de liberdade, privacidade e controles de população, os mais profundos. A esmagadora maioria virou zumbi hipnotizado, perseguindo uma ameaça inexistente, trocando a mãe por mais “segurança institucional”. Mas bagunçou a economia também dos países centrais. Pelo que sei as curvas estatísticas oficiais na Europa, dão conta do declínio da doença, e consequente flexibilização da vida econômica. Às populações obedientes, todos batem palmas e as mostram como exemplo de respeito a si e ao semelhante. Isso me soa que os poderosos reconhecem que forçaram a barra, e pode haver alguma coisa prejudicial às “castas” poderosas. Seria conveniente baixar um pouco a pressão desta panela no fogo, que é o planeta, mas deixar no ar a possibilidade de uma nova leva de doença, principalmente se os zumbis não se comportarem.

Obrigado por participar na discussão!

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