Pedofilia e Poder: das origens aos nossos dias – Parte IV

Quarta e última parte da série dedicada ao escândalo de Jeffrey Epstein, das suas actividades de exploração da pedofilia, das suas conexões com o poder. Uma série muito comprida, sem dúvida: doutro lado, um simples resumo não teria apresentado dignamente a extrema complexidade das ligações que atravessam décadas de história no seio do poder norte-americano e não só.

Última nota: causa uma pequena intervenção cirúrgica, a actividade do blog poderá sofrer uma pausa ao longo dos próximos dias. Não é nada de grave, não comecem já a festejar.

 

De “Spook Air” ao “Lolita Express”: a génese e a evolução do relacionamento entre Jeffrey Epstein e Bill Clinton

Em 10 de Agosto de 2019, e durante vários a seguir, a especulação dominou depois que foi anunciado que Jeffrey Epstein tinha sido encontrado morto na sua cela. A causa da morte foi oficialmente declarada como suicídio por enforcamento.

Epstein, o bilionário pedófilo e traficante de sexo com uma infinidade de conexões com ricos e poderosos nos Estados Unidos e em vários outros Países, tinha dito a pessoas próximas que temia pela sua vida, pouco antes do repentino “suicídio”, como relatou o Washington Post, enquanto os seus advogados alegavam que planeava cooperar com as autoridades federais.

Após a controversa conclusão do médico de New York segundo o qual a morte de Epstein foi um suicídio (uma conclusão contestada pelos advogados de Epstein e por patologistas forenses independentes, dada a aparente evidência que aponta para o estrangulamento), a cobertura dos media corporativos acerca do caso Epstein diminuiu significativamente, excepto no caso das histórias sensacionalistas sobre o suposto co-conspirador Ghislaine Maxwell e os novos obscenos detalhes do seu passado. Longe dos media corporativos, existem indícios dum escândalo maior em volta da admissão de que Epstein “pertencia à inteligência”.

Como a Parte II desta série revelou, as operações de chantagem sexual proliferaram durante o caso Irão-Contra, que envolveu a aliança sombria entre a intelligence dos EUA, Israel e o crime organizado. Embora esta série até agora se tenha concentrado amplamente nos laços das autoridades republicanas com essas operações e com os crimes associados, nesta parte final estará focada nos políticos democratas, em particular na família Clinton e nas suas ligações com essa mesma rede, assim como com Jeffrey Epstein .

O envolvimento dos próprios Clintons no Irão-Contra girou em torno das actividades secretas no aeroporto de Mena, no Arkansas, que envolveram a Southern Air Transport, empresa de fachada da CIA, e que ocorreram enquanto Bill Clinton era Governador. Apenas alguns anos depois da Administração presidencial de Clinton, Leslie Wexner e Jeffrey Epstein desempenhariam um papel importante na mudança da Southern Air Transport para Columbus, no Ohio, levando a preocupações entre as principais autoridades do Ohio de que os dois homens não estivessem apenas a trabalhar com a CIA, mas que a empresa de Wexner, The Limited, tentasse usar a companhia aérea ligada à CIA para operações de contrabando.

Durante esse mesmo período, Epstein já tinha estabelecido estreitas ligações com importantes figuras na Casa Branca de Clinton e com importantes doadores do Presidente, como Lynn Forester de Rothschild, e fez várias visitas pessoais à residência presidencial.

Alguns dessas ligações parecem relacionados às sombrias actividades financeiras de Epstein, particularmente aquelas que envolviam mercados financeiros e paraísos fiscais no exterior, actividades que ele tinha começado a aperfeiçoar enquanto trabalhava para figuras proeminentes do Irão-Contra no início dos anos ’80, muitas das quais estavam vinculadas ao banco ligado à CIA, o Bank of Credit and Commerce International (BCCI) e que tinham relações com a intelligence israelita do Mossad. A natureza do trabalho de Epstein para esses indivíduos e outras evidências sugerem fortemente que o próprio Epstein teve um relacionamento com o BCCI depois de deixar o banco Bear Stearns e antes do colapso do banco em 1991.

De particular importância são os relacionamentos de Epstein com a Fundação Clinton e o suposto papel do seu fundo hedge baseado nas Ilhas Virgens e também da Fundação Clinton na actividade de branqueamento de capitais.

É esse conto de intrigas que revela completamente até que ponto essa aliança de décadas entre o crime organizado, a CIA e a intelligence israelita corrompeu e influenciou os políticos de ambos os partidos, tanto pelo uso da chantagem sexual quanto por outros meios de coerção.

Longe de ser o trabalho de uma única agência de espionagem ou de um único País, a estrutura de poder revelada por essa rede conectada a Epstein nada mais é do que um empreendimento criminoso que transcende a nacionalidade e está disposto a usar e abusar de crianças para obter cada vez mais poder, riqueza e controle. Existindo há décadas e disposta a usar todos os meios necessários para cobrir os seus rastros, essa rede criminosa tornou-se tão integrada às alavancas do poder, nos Estados Unidos e além, que é realmente grande demais para falir.

 

Irão-Contra, Mena Airport e Clintons

Quando se pensa no agora famoso escândalo Irão-Contra, nomes como Ronald Reagan, Oliver North e Barry Seal vêm à mente, mas o ex-Presidente Bill Clinton também desempenhou um papel enorme no escândalo, usando o seu Estado natal, o Arkansas onde ele estava a servir como Governador, como uma espécie de ponto de encontro para as operações da CIA na América Central.

De facto, durante o reinado de Clinton como Governador, uma pequena cidade chamada Mena, aninhada nas montanhas Ozark, a oeste da capital do Arkansas, Little Rock, seria lançada no centro das atenções nacionais como um centro para o contrabando de drogas, armas e o treino das milícias da Direita apoiadas pela CIA.

Sob a vigilância atenta da CIA, então liderada por William Casey, o Aeroporto Regional Intermountain de Mena era usado para armazenar e entregar armas e munições aos Contras da Nicarágua. Às vezes, as armas eram trocadas por cocaína de cartéis sul-americanos, enviada para Mena e usada ​​para financiar a operação secreta da CIA.

Embora tenham sido feitos esforços para ocultar o papel de Clinton no escândalo, a sua intervenção directa nas tentativas dos Contras de derrubar o governo sandinista da Nicarágua sugere que Clinton tivesse algum tipo de interesse pessoal na actividade e era improvável que ignorasse a grande operação de contrabando que estava a ocorrer no seu Estado enquanto ele era Governador. De facto, enquanto ocupava tal cargo, Clinton distinguiu-se separou de muitos outros governos estaduais ao enviar um contingente da Guarda Nacional do Arkansas até o Honduras para treinar os Contras da Nicarágua acerca de como derrubar o governo sandinista. Clinton também discutiu o seu conhecimento em primeira mão da operação com o actual Procurador Geral da Administração Trump, William Barr.

Grande parte dessa canalização de armas e drogas foi realizada pelo conhecido contrabandista e alegado agente da CIA e DEA Barry Seal. De acordo com o livro Whiteout: CIA, Drugs and the Press, de Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair:

Uma investigação federal auxiliada pela Polícia do Estado de Arkansas estabeleceu que Barry Seal, um traficante de drogas que trabalha para o cartel de Medellín e também com o CIA e a D.E.A., teve os seus aviões adaptados em Mena para transporte de drogas, treinou lá os pilotos e lavou parcialmente os seus lucros através de instituições financeiras no Arkansas. Seal, neste momento estava em contacto próximo com [Oliver] North, que reconheceu o relacionamento nas suas memórias. Esses foram os anos em que North estava a construir as suas linhas de suprimentos secretas para os Contras.

Seal era conhecido por usar aeronaves que pertenciam à empresa Southern Air Transport e também empregava equipas de voo que trabalhavam para a mesma empresa. A Southern Air Transport, anteriormente Air America, já de propriedade directa da CIA, é hoje lembrada por ser uma frente daquela agência durante o Irão-Contra. Menos conhecida é a relação entre a companhia aérea, Leslie Wexner e o seu então associado Jeffrey Epstein, algo que será discutido em detalhes mais adiante neste relatório.

Seal parecia sempre operar com muito menos de seis graus de separação de Clinton, enquanto o último servia como Governador. Na sua exposição de 1999, Cross-fire: Witness in the Clinton Investigation, o ex-policial do Arkansas tornado-se motorista pessoal e guarda de segurança de Bill Clinton, L.D. Brown, relata como Clinton o encorajou a procurar um posto na CIA. Clinton teria ido ao ponto de editar o documento que Brown escreveu para o pedido de emprego. O tópico do documento era o contrabando de drogas na América Central. Ao receber o pedido, a CIA colocou Brown em contacto com ninguém menos que Barry Seal. Mais tarde, Seal seria morto a tiros em 1986, enquanto cumpria uma pena de seis meses por acusações de contrabando de drogas.

Seal não era o único afiliado da Oliver North que executava uma operação conectada com os Contra no Arkansas. Terry Reed, que trabalhava com North desde 1983, alegou ter sido colocado em contacto com a Seal por North e estabeleceu uma base a apenas 16 quilómetros ao norte de Mena, em Nella (Arkansas), onde foram treinados os “Contras da Nicarágua e outros recrutas da América Latina. em missões de reabastecimento, aterragens nocturnas, voos de precisão e manobras semelhantes” segundo os jornalistas Cockburn e St. Clair. Terry Reed afirmou ainda que o dinheiro da droga estava a ser “lavado” pelas instituições financeiras do Arkansas.

Depois que o meio-irmão de Clinton, Roger, foi preso por contrabando de cocaína (Clinton o perdoaria mais tarde enquanto Presidente), a CIA tentou retirar as operações dos Contras do Arkansas, na esperança de impedir que a coisa ficasse cada vez mais notória. De acordo com Terry Reed, no seu livro Compromised: Clinton, Bush e a CIA co-escrito com John Cummings, uma reunião silenciosa foi realizada num bunker em Camp Robinson, em North Little Rock (Arkansas). Durante a reunião, William Barr, que actuava como o emissário do então director da CIA Bill Casey, disse a Clinton:

O acordo que fizemos foi lavar o nosso dinheiro através do seu negócio de títulos, mas o que não planeávamos era que você e o seu filho da p..ta aqui começassem a levar-se a sério encolhendo de propósito as nossas roupas.

Barr repreendeu Clinton pelos seu manuseio desleixado da delicada operação e pela queda pública do meio-irmão. Mais tarde, contaria a Clinton, de acordo com Reed:

Bill, você é o favorito do Sr. Casey… Você e o seu Estado têm sido o nosso maior património. O sr. Casey queria que eu passasse aqui antes que você estrague tudo ou faça algo estúpido, você é o número 1 na curta lista para uma chance no trabalho que você sempre quis. Vocês e gente como vocês são os pais do novo governo. Nós somos a nova aliança.

Tentativas de investigar o papel de Clinton nas operações de Mena e, de forma mais ampla, no caso Irão-Contra foram supostamente interrompidas pelos próprios confidentes de Clinton, que negavam consistentemente que ele tivesse participado no escândalo. De acordo com o Wall Street Journal, o ex-investigador do IRS (o Internal Revenue Service é uma agência que faz parte do Departamento do Tesouro), William Duncan, uniu-se ao investigador da polícia estadual do Arkansas, Russell Welch, naquela que se tornou uma batalha de uma década para trazer o assunto à tona. De facto, das nove investigações estaduais e federais do caso, todas falharam.

Duncan diria mais tarde sobre as investigações: “[Eles] foram interferidos e encobertos, e o sistema de justiça foi subvertido”; e num memorando de 1992 de Duncan para membros de alto escalão da equipa do Procurador Geral observou-se que Duncan tinha sido instruído a “remover todos os arquivos referentes à investigação de Mena do escritório do Procurador Geral”. O Procurador Geral, que actuava sob George H.W. Bush, na época era William Barr, actualmente Procurador Geral sob Trump.

 

O Banco Internacional de Bandidos e Criminosos

Outra conexão de Clinton com a CIA e o caso Irão-Contra ocorre através da ligação com o financiador do Arkansas, Jackson Stephens, e com o Banco de Crédito e Comércio Internacional (BCCI), vinculado à CIA, que os críticos apelidaram de “Bank of Crooks and Criminals International”. Stephens estava entre as pessoas mais ricas do Arkansas e também foi um dos principais doadores e apoiantes de Ronald Reagan, George H.W. Bush e Bill Clinton. Também desempenhou um papel fundamental na ascensão da empresa Walmart.

Jackson Stephens e outros membros da família Stephens financiaram a ascensão de Bill Clinton à proeminência política, contribuindo com grandes somas de dinheiro para as campanhas governamentais e posteriores de Clinton. Além disso, o Worthen Bank, de propriedade maioritária de Stephens, forneceu à primeira campanha presidencial de Clinton uma linha de crédito de 3.5 milhões de Dólares. Além disso, muitas empresas de Stephens eram frequentemente representadas pela Rose Law Firm, onde Hillary Clinton era parceira.

Um relatório redigido pelo FBI de 1998 descreve Stephens como tendo “vínculos longos e contínuos com o governo Clinton e associados” e também discute as alegações segundo as quais Stephens esteve envolvido no “tratamento ilegal de contribuições na campanha do Partido Democrata”.

O BCCI foi originalmente fundado por um grupo de banqueiros do Paquistão, embora Newsweek tenha relatado mais tarde que os funcionários da CIA pareciam estar envolvidos na fundação também e que a fundadora do BCCI Agha Hasan Abedi tinha sido incentivada pela CIA a fundar a instituição depois de “a agência perceber que um banco internacional poderia fornecer uma cobertura valiosa para operações de intelligence”. Os documentos da CIA, que mais tarde surgiram durante as audiências do Congresso sobre as actividades do banco e os escândalos relacionados, afirmam que o BCCI estava directamente envolvido em “lavagem de dinheiro, narcofinanciamento, tráfico de armas e detenção de grandes quantias de dinheiro para grupos terroristas”.

Evidências no caso contra a BCCI mostram cocaína apreendida num armazém e malas cheias de dinheiro. Foto: Tribunal Distrital da FLMD

Embora o BCCI fosse conhecido pelos seus vínculos com a CIA, Catherine Austin Fitts (ex-Secretária Assistente da Federal Housing Administration durante o governo de George H.W. Bush e banqueira de investimentos das empresas Hamilton Securities Group e Dillon, Read & Co.) acredita que essas ligações foram muito além da CIA. A Fitts, que foi colocada no conselho de administração da subsidiária do BCCI First American Bank após o colapso do banco, disse que, depois de ler vários documentos sobre as actividades do banco antes da sua implosão, ficou claro para ela que “não havia maneira” das actividades clandestinas serem realizadas sem o pleno conhecimento da Federal Reserve, especificamente da Federal Reserve Bank de New York e da Casa Branca.

O BCCI também desempenhou um papel fundamental no caso Irão-Contra e as contas do banco foram usadas para enviar pagamentos a indivíduos vinculados ao esquema. Adnan Khashoggi, uma figura-chave e intermediária do escândalo, usou uma conta da BCCI para movimentar mais de 20 milhões de Dólares relacionados à venda ilegal de armas; e a BCCI criou documentação falsa, incluindo cheques assinados por Oliver North, permitindo que a venda prosseguisse. Mais tarde, o banco, quando as suas actividades foram posteriormente submetidas a escrutínio no Congresso, alegou que não possuía registros dessas transacções.

Além disso, o BCCI parece estar envolvido no tráfico sexual de meninas menores de idade, incluindo meninas que ainda não tinham atingido a puberdade. De acordo com o relatório intitulado The BCCI Affair, dos Senadores John Kerry e Hank Brown, funcionários do BCCI foram acusados ​​de terem conseguido influenciar indivíduos poderosos, incluindo membros proeminentes das famílias dominantes dos Emirados Árabes Unidos, fornecendo-lhes jovens virgens.

O relatório (página 70) afirma especificamente:

De acordo com um investigador norte-americano com conhecimento substancial das actividades da BCCI, as autoridades da BCCI reconheceram que algumas das mulheres fornecidas a alguns membros da família Al-Nahyan [uma das famílias no governo dos Emirados Árabes Unidos] eram meninas que ainda não tinham atingido a puberdade e, em certos casos, foram fisicamente feridas pela experiência. O funcionário disse que ex-funcionários do BCCI haviam-lhe dito que o BCCI também fornecia homens a VIPs homossexuais.

O BCCI foi amplamente inserido na comunidade empresarial dos Estados Unidos através dos esforços de Jackson Stephens e Bert Lance, ex-Director do Escritório da Administração e Orçamento de Jimmy Carter, que ajudou na aquisição do First American Bank pela BCCI. O escritório de advocacia envolvido nesse esforço foi o Rose do Arkansas e incluiu vários advogados entre os quais Hillary Clinton, Webster Hubbell (em 1984 nomeado por Bill Clinton como Presidente do Supremo Tribunal do Arkansas) e C.J. Giroir. Também participaram do esforço Clark Clifford, ex-Secretário da Defesa de Lyndon B. Johnson, e Kamal Adham, ex-director geral da intelligence saudita.

Um dos integrantes do conselho da BCCI após a aquisição da First American Bank foi Robert Keith Gray, quem Newsweek descreveu como “tendo-se gabado do seu relacionamento próximo com William Casey da CIA; Gray costumava dizer que antes de contratar um cliente estrangeiro, ele esclareceria a coisa com Casey”. Como discutido na Parte II desta série, Gray também era especialista em operações de chantagem homossexual por conta da CIA e teria colaborado com Roy Cohn nessas actividades. Alguns dos clientes de Gray na poderosa empresa de relações públicas que liderou, a Hill & Knowlton, incluíam clientes do BCCI e pessoas ligadas ao Mossad, como Adnan Khashoggi e Marc Rich.

Enquanto o escritório de advocacia Rose ajudava a entrada da BCCI no sistema financeiro americano, também representava a empresa de serviços financeiros dos Stephens, a Stephens Inc., bem como a empresa de processamento de dados Systematics Inc., adquirida pela Stephens no final dos anos ’60. De acordo com James Norman no seu livro The Oil Card: Global Economic Warfare in the 21st Century, a Systematics era:

uma empresa de fachada da Agência de Segurança Nacional na década de 1980 e no início da década de ’90 para comercializar e implantar softwares alterado no maiores bancos centrais e câmaras de compensação do mundo como parte do esforço de Reagan / Bush em “seguir o dinheiro” para quebrar os soviéticos.

O falecido jornalista Michael Ruppert afirmou que esse “software alterado” não era outro senão o software Promis, que tanto a intelligence dos EUA quanto aquela de Israel tinham “corrigido” para espiar e que foi comercializados em parte por Robert Maxwell, pai da senhora de Jeffrey Epstein, Ghislaine Maxwell. Ruppert citou a Systematics como “um desenvolvedor primário da Promis para utilização de espionagem financeira”. Promis tinha sido originalmente alugado pela Inslaw Inc., uma pequena empresa de software, por Bill Hamilton ao Departamento de Justiça; Departamento que mais tarde roubou-o da Inslaw, forçando a empresa a declarar falência.

De acordo com um documento de 1995 enviado em nome dos fundadores da Inslaw ao então consultor independente Ken Starr, ao qual pediram uma revisão do caso da Inslaw, a Systematics “implantou secretamente [o software] nos computadores dos seus clientes bancários” o que permitiu “que agências de intelligence aliadas rastreassem e monitorizassem o fluxo de dinheiro através do sistema bancário a pedido da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) e do seu parceiro de intelligence israelita”. A Inslaw também afirmou que o software era usado por essas mesmas agências de espionagem na “lavagem de dinheiro, especialmente lucros de drogas”.

A Systematics também tinha uma subsidiária em Israel que, segundo um ex-oficial dos serviços secretos de Tel Avive, era operada por empresas contratadas pelo Mossad e vendia software para bancos e empresas de telecomunicações. De acordo com a carta de Richardson, essa subsidiária também tinha uma empresa de fachada sediada no Massachusetts (EUA), que era parcialmente de propriedade de um ex-oficial da espionagem americana.

Dois parceiros do escritório de advocacia Rose, que mais tarde actuariam no governo Clinton, Vince Foster e Webster Hubbell, adquiriram interesses financeiros significativos na Systematics através da propriedade da empresa Alltel, que comprou a Systematics no início dos anos ’90. Há evidências consideráveis ​​de que o sofrimento de Foster antes da sua morte em 1993 [em Julho daquele ano Foster foi encontrado morto a tiros num parque da Virgínia naquele que foi considerado um suicídio] parece ter sido relacionado com preocupações derivante de litígios que envolviam a Systematics e o roubo do Promis.

A própria BCCI era conhecida por empregar o software Promis após o seu roubo pelo Departamento de Justiça; e uma de suas subsidiárias, a First American Bank, também “filtrou o dinheiro do Promis”, ou seja, lavou o dinheiro gerado com a venda do software Promis de acordo com o falecido jornalista Danny Casolaro.

Casolaro estava a investigar o sindicato internacional do crime que ele denominou “o polvo” na época da sua morte, em 1991. Casolaro acreditava que esse “polvo” envolvia indivíduos poderosos nos sectores público e privado, bem como no submundo do crime, e que eles eram colectivamente responsáveis por alguns dos maiores escândalos da década de 1980, incluindo Irão-Contra, BCCI e roubo do software Promis.

Casolaro tinha dito a amigos e familiares que estava perto de concluir a investigação e várias pessoas próximas viram documentos que envolviam transferências de dinheiro com os nomes do BCCI, do Banco Mundial e dos protagonistas destes escândalos, como Earl Brian e Adnan Khashoggi. Casolaro foi a Martinsburg, Virgínia, para reunir-se com algumas fontes para obter a peça final do quebra-cabeça e “trazer de volta a cabeça do polvo”. Dois dias depois de chegar a Martinsburg, Casolaro foi encontrado morto no seu quarto de hotel e a pasta cheia de anotações e evidências de pesquisa estava desaparecida. A morte de Casolaro foi considerada suicídio.

Muitos, incluindo os familiares, não acreditam que Casolaro tenha cometido suicídio. Uma semana antes da sua morte, Casolaro disse ao seu irmão que estava a receber ameaças de morte e a maneira como ele morreu, com golpes profundos nos braços, não era consistente com o bem conhecido melindre de Casolaro perante as mais pequenas quantidades de sangue. As especulações só cresceram após a investigação da FBI, dado que a FBI mentiu ao Congresso, pressionou os seus próprios agentes a não questionar e “perdeu” 90% dos seus arquivos relacionados à morte de Casolaro, entre outras inconsistências flagrantes.

Numa carta de 1994 fornecida à MintPress pela Inslaw Inc., o advogado da empresa Charles Work disse ao então Assistente do Procurador Geral, John Dwyer, que uma das fontes confidenciais da Inslaw no governo tinha declarado que Casolaro foi injectado com uma substância que amortecia os nervos do pescoço para baixo, explicando a aparente falta de luta, e que a substância usada veio do inventário do Exército dos EUA. A pessoa que organizou a reunião final de Casolaro antes da sua morte era um oficial de intelligence militar dos EUA chamado Joseph Cuellar.

No mesmo ano em que Casolaro morreu, houve várias outras mortes suspeitas que envolveram pessoas directamente ligadas ao escândalo do Promis ou envolvidas na investigação de Casolaro sobre “o polvo”, incluindo Alan Standorf [funcionário da NSA, ndt], uma das fontes de Casolaro; Robert Maxwell, pai de Ghislaine Maxwell, agente do Mossad e vendedor do software Promis; e John Tower, o ex-Senador do Texas que ajudou Maxwell a vender o software Promis para os laboratórios de Los Alamos.

 

Jeffrey Epstein e “O Banco Mais Sujo de Todos”

Enquanto o papel que o Arkansas desempenhou no Irão-Contra é um aspecto do escândalo que muitas vezes é esquecido, o mesmo ocorre com o papel-chave dos traficantes e contrabandistas de armas ligados à intelligence israelita que mais tarde seriam conectados a indivíduos poderosos no Mega Group e Jeffrey Epstein, quais Marc Rich e Adnan Khashoggi.

Um dos principais actores do caso Irão-Contra foi o traficante de armas saudita Adnan Khashoggi, tio do colunista do Washington Post Jamal Khashoggi [assassinado no Consulado árabe de Istambul em 2018, ndt]. Um facto menos conhecido sobre Adnan Khashoggi é que, na época das suas negociações no Irão-Contra, estava a trabalhar por conta do Mossad, de acordo com o ex-agente secreto Victor Ostrovsky.

Ostrovsky, no seu best-seller número 1 do New York Times By Way of Deception, observa que Khashoggi tinha sido recrutado pelo Mossad anos antes e que o seu jacto particular havia sido preparado em Israel. Em relação ao Irão-Contra, Ostrovsky afirma que foi um empréstimo-ponte de 5 milhões de Dólares que Khashoggi forneceu e que ajudou a superar a falta de confiança entre Israel e o Irão durante os acordos iniciais sobre as armas, no início dos anos ’80 e, portanto, a sua participação foi fundamental para o sucesso do esquema.

Segundo a jornalista Vicky Ward [The Independent, New York Post, CNN, ndt], Adnan Khashoggi era cliente de Jeffrey Epstein no início dos anos ’80, pouco depois da saída deste do banco Bear Stearns em 1981. O motivo pelo qual Epstein deixou o banco permanece obscuro. Embora alguns ex-funcionários do Bear Stearns afirmem que ele tivesse sido despedido, outros (incluindo o próprio Epstein) alegaram que demitiu-se por vontade própria.

O traficante de armas saudita Adnan Khashoggi chega ao Tribunal Federal de Manhattan, New York, 4 de Abril de 1990. Foto: AP

Ward sugere que Epstein pode ter deixado o banco devido a uma investigação da Securities and Exchange Commission (SEC) sobre informações privilegiadas num caso que envolvia uma oferta de compra feita pela empresa Seagrams pela St. Joe Minerals Corp; o dono da Seagrams, Edgar Bronfman (filho do sócio de Meyer Lansky, Samuel Bronfman, e membro do Mega Group) havia informado vários investidores e banqueiros da oferta da futura compra. Epstein demitiu-se do Bear Stearns no dia seguinte à abertura da caso pela SEC e mais tarde afirmou que tinha deixado a empresa como resultado de uma violação relativamente pequena do Reg D (o Regulament D da SEC) e rumores de que ele tinha um “caso ilícito com uma secretária”.

No entanto, como Ward observou:

A SEC nunca apresentou qualquer acusação contra ninguém no Bear Stearns por abuso de informação privilegiada no caso St. Joe, mas o seu questionamento parece indicar que era céptica em relação às respostas de Epstein. Algumas fontes perguntam-se por que, se ele era um grande activo do Bear Stearns, teria desistido por receber apenas uma multa de 2.500 Dólares.

Independentemente do motivo exacto da saída repentina de Epstein, foi imediatamente depois dele ter saído do banco que “os detalhes [da história do trabalho de Epstein] voltaram para a sombra. Alguns dos poucos amigos actuais que conheciam Epstein desde o início dos anos ’80 lembram que ele costumava dizer ser um “caçador de recompensas”, recuperando dinheiro perdido ou roubado para o governo ou para pessoas muito ricas. Ele tinha licença para portar uma arma de fogo.

Ao escrever nas páginas do website Salon, um ex-amigo de Epstein, Jesse Kornbluth, também afirmou que Epstein alegou ser um “caçador de recompensas” para ricos e poderosos:

Quando nos conhecemos em 1986, a dupla identidade de Epstein intrigou-me. Ele disse que não apenas administrava dinheiro para clientes com grandes fortunas, mas também que era um caçador de recompensas de alto nível. Às vezes, ele disse, trabalhava para que os governos recuperassem o dinheiro saqueado pelos ditadores africanos. Outras vezes, esses ditadores o contrataram para ajudá-los a esconder o dinheiro roubado.

Um dos clientes de Epstein depois de ter saído do Bear Stearns, segundo as fontes de Ward, foi Khashoggi vinculado à CIA / Mossad no momento em que estava envolvido no caso Irão-Contra, uma operação que envolveu intelligence dos EUA e de Israel. O jornalista britânico Nigel Rosser relatou em Janeiro de 2001 no Evening Standard que Epstein alegava também estar a trabalhar para a CIA durante o mesmo período.

Desde a prisão de Epstein, os artigos de Rosser foram retirados dos arquivos dos jornais britânicos, incluindo o próprio Evening Standard. No entanto, o MintPress confirmou de forma independente com Bob Fitrakis, que Rosser tinha entrevistado para o artigo em questão, que o artigo alegava que Epstein costumava afirmar estar a trabalhar por conta da CIA. Além disso, outros relatórios do período citavam trechos do artigo de Rosser, incluindo a referência às alegações anteriores de Epstein acerca do envolvimento com a CIA.

Especificamente, o artigo de Rosser incluiu a seguinte passagem:

Ele [Epstein] tem uma licença para portar uma arma oculta, já afirmou ter trabalhado para a CIA, embora agora o negue, e possui propriedades em toda a América. Certa vez, ele chegou à casa de um traficante de armas britânico em Londres e trazia um presente: uma pistola de choque da policia de New York. “Deus sabe como conseguiu introduzir isso no País”, disse um amigo.

Embora Epstein negasse passadas conexões com a CIA na época em que o artigo de Rosser foi publicado, vale ressaltar que Robert Maxwell, pai de Ghislaine Maxwell e antigo funcionário do Mossad, negou veementemente os seus vínculos agora bem documentados com a intelligence israelita até a sua morte. Além disso, como será mostrado mais adiante neste artigo, Epstein e o seu único “cliente” bilionário conhecido, Leslie Wexner, mais tarde formariam um relacionamento comercial com a Southern Air Transport, empresa de fachada da CIA, e desempenhariam um papel importante na mudança da companhia aérea para Columbus, Ohio, em meados dos anos ’90. Durante esse período, duas importantes oficiais do Ohio acreditavam que Epstein e Wexner estavam a trabalhar com a CIA, de acordo com o jornalista Bob Fitrakis.

Reivindicações passadas e evidências do envolvimento de Epstein com a CIA, juntamente com o período em que era agente financeiro “nas sombras” de Khashoggi, sugerem fortemente que, o que quer que Epstein estivesse a fazer por conta de Khashoggi durante aquele período, provavelmente envolvia o BCCI. Segundo o relatório The BCCI Affair, Khashoggi “actuou como intermediário em cinco acordos iranianos de armas para os Estados Unidos, financiando vários deles através do BCCI” e “serviu como banqueiro para remessas de armas à medida que o esquema secreto se desenvolvia”. O relatório continua:

Khashoggi e Ghorbanifer [outro traficante de armas no caso Irão-Contra] desempenharam um papel central para o governo dos EUA em conexão com o caso Irão-Contra em operações que envolveram a participação directa do pessoal da CIA [e de Khashoggi e Ghorbanifer] nos escritórios do BCCI em Monte Carlo e, para ambos, os serviços do BCCI foram essenciais como forma de fornecer crédito de curto prazo para as vendas dos EUA, de Israel ao Irão. ”

Essa conexão é ainda mais provável, já que o Bear Stearns (o anterior empregador de Epstein até ele tornar-se um agente financeiro para Khashoggi e outras pessoas poderosas) também trabalhou directamente com o BCCI durante esse período. De facto, o Bear Stearns serviu como corrector do BCCI, coisa que permaneceu oculta até uma longa batalha judicial no Reino Unido, concluída em 2011, ter forçado a publicação do Sandstorm Report (“Relatório Tempestade na Areia”) do governo sobre as actividades do BCCI a não incluir os nomes do Bear Stearns e de outras instituições, indivíduos e Países que fizeram negócios com o banco vinculado à CIA.

Além disso, existe o facto adicional de que o BCCI traficou meninas menores de idade para fazer sexo como meio para obter favores e vantagens sobre indivíduos poderosos, algo em que Epstein mais tarde se envolveu profundamente. Como foi mostrado na Parte II desta série, vários indivíduos que realizavam operações de chantagem sexual envolvendo menores ou operações de tráfico de crianças estavam conectados a empresas da CIA como o BCCI, outras organizações ligadas ao escândalo Irão-Contra e vários indivíduos próximos da Casa Branca de Reagan.

O Director da CIA na época, Bill Casey, era amigo íntimo de Roy Cohn, que também dirigia a operação de chantagem sexual envolvente meninos menores de idade fora do Plaza Hotel de Manhattan, descrito na Parte I desta série. Segundo a secretária de longa data de Cohn, Christine Seymour, Casey era uma das ligações mais frequentes de Cohn.

Outro facto que sugere ainda que Epstein tivesse conexões com o BCCI é que sabia-se que Epstein estava próximo de outros traficantes de armas da altura e que o BCCI era frequentemente usado para acordos secretos sobre armas. Após o colapso do banco em 1991, um artigo da revista Time intitulado “BCCI: O Banco Mais Sujo de Todos” observou o seguinte:

A CIA pode ter usado o BCCI como mais do que um banco disfarçado: agentes dos EUA colaboraram com a rede negra em várias operações, de acordo com um “oficial” da rede do BCCI que agora é uma testemunha secreta do governo dos EUA. Fontes disseram aos investigadores que o BCCI trabalhou em estreita colaboração com as agências de espionagem de Israel e outros grupos de intelligence ocidentais, especialmente em acordos de armas.

Um dos traficantes de armas que Epstein aparentemente conhecia muito bem era o britânico Sir Douglas Leese. Leese esteve envolvido na intermediação do primeiro de uma série de polêmicos acordos de armas britânicos que incluiram Khashoggi, conhecido como Al Yamamah Deal, e que supostamente envolveu subornos de membros da família real saudita e de altos oficiais sauditas. Além de Khashoggi, vários desses funcionários e membros da família real tinham laços profundos com a BCCI.

As iterações posteriores desse acordo de armas foram supostamente intermediadas com o envolvimento do príncipe Charles da família real britânica; e as investigações de corrupção no seio do acordo Al Yamamah foram posteriormente interrompidas pelos esforços de Tony Blair e do príncipe Andrew. Diz-se que Leese falou do “gênio” e da falta de moral de Epstein quando o apresentou a Steve Hoffenberg, da Tower Financial Corporation, e logo após essa introdução, Hoffenberg contratou Epstein.

Dois anos após o colapso da BCCI, em 1993 a Tower Financial implodiu no que ainda é considerado um dos maiores esquemas de Ponzi da história americana. Hoffenberg mais tarde afirmou em tribunal que Epstein estivera intimamente envolvido nas práticas financeiras obscuras da Tower Financial e chamou Epstein de “arquiteto do golpe”. No entanto, quando a Tower Financial entrou em colapso, Epstein não estava mais a trabalhar para a empresa. Apesar do testemunho de Hoffenberg e das abundantes evidências sobre o papel de Epstein no esquema, o nome de Epstein foi misteriosamente retirado do caso.

A participação de Epstein nos jogos da intelligence podme explicar a razão da capacidade de evitar problemas em relação ao esquema Ponzi da Tower Financial.

Embora Hoffenberg afirme que conheceu Epstein através de Leese, o próprio Epstein alegou ter encontrado o fraudador através de John Mitchell, ex-procurador-geral de Richard Nixon. Como foi observado na Parte II desta série, Mitchell era um amigo dol lobista de Washington Craig Spence, segundo as afirmações de Spence antes da sua queda. Spence, durante grande parte da década de 1980, realizou uma operação de chantagem sexual em Washington, envolvendo rapazes menores de idade e levou alguns deles em passeios à meia-noite na Casa Branca; “passeios” que, segundo ele, foram organizados pelo então conselheiro de Segurança Nacional Donald Gregg. Spence, depois do tráfico de menores ter sido exposto, morreu em circunstâncias misteriosas. A sua morte foi rapidamente rotulada como suicídio, não muito diferentemente daquela de Jeffrey Epstein.

[Em 10 de Novembro de 1989, Spence foi encontrado morto no quarto 429 do Boston Ritz Carlton, o hotel mais caro da cidade. Estava de smoking preto com camisa branca, gravata borboleta, suspensórios brancos, meias e sapatos pretos, um telefone na sua mão e os auscultadores dum walkman postos nos ouvidos. Escondidos num tecto falso no banheiro, havia sete pequenos frascos de Xanax, um medicamento anti-ansiedade, com apenas um comprimido removido. No espelho estava esrito com uma caneta de feltro preta:

Chefe, considere isso como a minha demissão, efectiva imediatamente. Como você sempre disse, não se pode pedir aos outros que façam um sacrifício se não estivermos pronto para fazer o mesmo. A vida é dever. Deus abençoe a America.

Durante uma longa entrevista num apartamento em Manhattan, alguns meses antes da sua morte, Spence aludiu a envolvimentos mais complexos:

Todas essas coisas que você descobriu (envolventes menores, subornos e visitas à Casa Branca), para ser honesto com você, são insignificantes em comparação com outras coisas que já fiz. Mas não vou lhe contar essas coisas, e de alguma forma o mundo continuará.

nota do tradutor]

 

Com a ajuda de Epstein e Wexner, “Spook Air” encontra um novo lar

Enquanto o Estado do Arkansas se tornou um centro para a actividade da CIA durante os anos de Reagan e do escândalo Irão-Contra, outro Estado pareceu ocupar o seu lugar nos anos ’90, o Ohio. Assim como o oligarca do Arkansas Jackson Stephens ajudou a atrair a CIA para o seu Estado de origem durante o Irão-Contra, também foi um oligarca do Ohio e o seu associado próximo que ajudaram a atrair a CIA para o novo Estado. Aqueles homens eram Leslie Wexner e Jeffrey Epstein, respectivamente.

Na parte III desta série, foram detalhados os supostos vínculos de Wexner com o crime organizado e as suas ligações com o homicídio ainda não resolvido do advogado de Columbus (Ohio), Arthur Shapiro. Shapiro, que estava a representar a empresa de Wexner “The Limited” no momento da sua morte, deveria testemunhar perante um grande júri sobre a sonegação de impostos e o seu envolvimento com “abrigos de impostos questionáveis”. A polícia de Columbus descreveu o assassinato de Shapiro como “um golpe da máfia” e um relatório policial suprimido implicava que Wexner e os seus parceiros de negócios estivessem envolvidos ou beneficiassem da morte de Shapiro, e tivessem ligações com o importante sindicato do crime sediado em New York.

No entanto, Wexner e The Limited também parecem ter tido um relacionamento com a CIA. Em 1995, a Southern Air Transport (SAT), uma empresa de fachada bem conhecida da CIA, mudou-se de Miami, Flórida, para Columbus, Ohio. Fundada pela primeira vez no final da década de 1940, a SAT de 1960 a 1973 pertencia directamente à CIA, que tentava usar a empresa como cobertura para operações secretas. Depois de 1973, a empresa foi colocada em mãos privadas, embora todos os seus subsequentes proprietários tivessem vínculos com a CIA, incluindo James Bastian, ex-advogado da CIA, dono da SAT no momento da sua mudança para o Ohio.

A SAT estava intimamente envolvida no caso Irão-Contra, tendo sido usada para canalizar armas e drogas de e para os Contras da Nicarágua, sob o pretexto de fornecer “ajuda humanitária”, ao mesmo tempo que enviava armas americanas a Israel, armas que depois foram vendidas ao Irão em violação do embargo de armas dos EUA. Somente em 1986, a SAT transportou do Texas para Israel 90 toneladas de mísseis anti-tanque TOW, que foram vendidos ao Irão por Israel atravês de intermediários ligados ao Mossad, como o traficante de armas saudita Adnan Khashoggi.

Embora as ligações da CIA com a companhia aérea fossem bem conhecidas, a empresa de Leslie Wexner, The Limited, tentou convencer a SAT a mudar a sua sede de Miami, Flórida, para Columbus, Ohio, uma medida que foi realizada em 1995. Quando Edmund James, presidente da James and A Donohew Development Services, disse ao diário Columbus Dispatch em Março de 1995 que a SAT estava a mudar-se para o campo de Rickenbacker em Columbus, afirmou que “a nova presença da Southern Air em Rickenbacker começa em Abril com dois vôos de carga regulares 747 por semana de Hong Kong”, citando opresidenet da SAT William Langton. “No Outono, isso pode aumentar para quatro voos por semana. As negociações estão em andamento para os vôos de Rickenbacker para o Extremo Oriente … Grande parte da carga de Hong Kong para Rickenbacker será da The Limited ”, a empresa de Wexner. “Isso é algo grande para o centro de Ohio. Na verdade, é enorme”, disse James na época.

No dia seguinte à conferência de imprensa, Brian Clancy, que trabalhava como analista de carga na MergeGlobal Inc., disse ao Journal of Commerce que o motivo da mudança da SAT para o Ohio era em grande parte o resultado da lucrativa rota de Hong Kong para Columbus que a SAT teria coberto por conta da empresa de Wexner. Clancy declarou especificamente que o facto de “[The] Limited Inc., o maior varejista do País, estar baseado em Columbus … sem dúvida, contribuiu em grande parte para a decisão da Southern Air”.

De acordo com documentos obtidos pelo jornalista Bob Fitrakis da Rickenbacker Port Authority, o governo de Ohio também tentou facilitar o acordo para transferir a SAT em Columbus, com o fim de agradar os poderosos empresários de Ohio como Wexner. Orquestrada pelo então chefe de gabinete do Governador, George Voinovich, a Autoridade Portuária de Rickenbacker e o Departamento de Desenvolvimento de Ohio criaram um pacote de vários incentivos financeiros, financiados pelos contribuintes de Ohio, para atrair a companhia aérea. O Journal of Commerce descreveu o “generoso generoso de incentivos do Estado do Ohio” como “incluindo um crédito de 75% contra o seu passivo tributário corporativo pelos próximos 10 anos, um empréstimo de 5 milhões de Dólares a juros baixos e um subsídio de 400.000 Dólares em formação para o trabalho”. Em 1996, o então porta-voz da SAT, David Sweet, havia dito à Fitrakis que a companhia aérea ligada à CIA tinha-se mudado para Columbus porque “o acordo [organizado pelo Departamento de Desenvolvimento] era bom demais para ser recusado”.

Embora a SAT tivesse prometido ao governo do Ohio a criação de 300 empregos em três anos, rapidamente demitiu vários trabalhadores e não conseguiu construir a instalação de manutenção projectada, apesar de já ter recebido 3.5 milhões de Dólares em fundos dos contribuintes para esse e outros projectos. À medida que os problemas financeiros da empresa aumentavam, o governo do Ohio recusou recuperar os milhões que emprestou à empresa, mesmo depois de ter sido alegado que 32 milhões na conta bancária de Mary Bastian, esposa do proprietário da SAT e ex-advogado da CIA James Bastian, eram na verdade fundos da empresa. Em 1 de Outubro de 1998, a SAT aresentou um pedido de falência. Foi no mesmo dia em que o inspector geral da CIA publicou um relatório abrangente sobre o envolvimento ilícito da companhia aérea no narcotráfico.

Além disso, Fitrakis observou que, além de Wexner, as outras figuras importantes para garantir a mudança da SAT para Ohio eram Alan D. Fiers Jr., ex-chefe da Força-Tarefa da América Central da CIA, e o Major-General da Força Aérea Richard Secord, chefe de logística aérea da ação secreta da SAT no Laos entre 1966 e 1968, enquanto a empresa ainda era conhecida como Air America. Secord também foi coordenador de logística aérea na rede ilegal de reabastecimento dos Contra para Oliver North durante o Irão-Contra. Fiers foi uma das principais pessoas envolvidas no Irão-Contra, que mais tarde foi perdoado por George H.W. Bush com a assistência do então Procurador Geral Bill Barr. O mesmo Barr que actualmente trabalha como Procurador Geral na Administração Trump e como chefe da principal da cadeia de comando do DOJ na investigação sobre a morte de Epstein na prisão.

Apesar do envolvimento desses homens ligados à CIA, bem como de Leslie Wexner, conectados ao crime organizado, o então presidente da SAT disse ao Columbus Dispatch que a companhia aérea “não estava mais conectada à CIA”.

Notavelmente, foi durante esse mesmo período que Epstein exerceu o seu controle substancial sobre as finanças de Wexner; e, de acordo com Fitrakis e os seus extensos relatórios sobre Wexner desse período, foi Epstein quem orquestrou a logística das operações comerciais da Wexner, incluindo The Limited. Como foi revelado no ficheiros do assassinato de Arthur Shapiro e nos laços entre a SAT e a The Limited, grande parte da logística da The Limited envolvia figuras e empresas ligadas ao crime organizado e à intelligence dos EUA.

Além disso, durante esse período, Epstein já tinha começado a morar na agora infame cobertura de New York que havia sido comprada por Wexner em 1989. Aparentemente, Wexner instalou equipamentos de gravação num estranho banheiro na casa após a compra, e nunca morou em casa, como foi observado na Parte III desta série.

Numa entrevista exclusiva, Bob Fitrakis disse ao MintPress que o envolvimento de Epstein e Wexner com a mudança da SAT para o Ohio causou suspeitas entre algumas importantes autoridades estatais e locais de que os dois estivessem a trabalhar com a intelligence dos EUA. Fitrakis declarou especificamente que o então inspetor geral do Ohio, David Strutz, e o então xerife do condado de Franklin, Earl Smith, lhe haviam dito pessoalmente que acreditavam que Epstein e Wexner tivessem laços com a CIA. Essas alegações corroboram ainda mais o que foi relatado por Nigel Rosser no diário Evening Standard, segundo qual Epstein afirmou ter trabalhado para a CIA no passado.

Fitrakis também disse ao MintPress que Strutz havia referido à rota da SAT entre Hong Kong e Columbus em nome da empresa de Wexner, The Limited, como “a corrida Meyer Lansky”, pois acreditava que a associação da Wexner com a SAT estivesse relacionada com as ligações a elementos do crime organizado que estavam ligados ao sindicato nacional do crime criado por Lansky. Além disso, Catherine Austin Fitts, o ex-banqueiro de investimentos e funcionário do governo que investigou extensivamente a intersecção entre crime organizado, mercados negros, Wall Street e o governo na economia dos EUA, foi informada por um ex-funcionário da CIA que Wexner era um dos cinco principais gerentes dos fluxos de caixa do crime organizado nos Estados Unidos.

Como essa série observou em relatórios anteriores, Meyer Lansky foi pioneiro em operações de chantagem sexual e estava profundamente conectado aos serviços secretos dos EUA e ao Mossad de Israel. Além disso, muitos membros do chamado Mega Group, que Wexner cofundou, tinham vínculos directos com o sindicato do crime de Lansky.

 

O perdão de Marc Rich e a “alavancagem” de Israel sobre Clinton

Outra figura sombria com conexões com Mega Group, Mossad, intelligence dos EUA e crime organizado é o “financeiro fugitivo” Marc Rich, cujo perdão durante os últimos dias da Casa Branca de Clinton é conhecido e ainda submergido em controvérsias anos após o facto.

Marc Rich era um comerciante de mercadorias e gerente de fundos de hedge, mais conhecido por fundar a gigante Glencore de comércio e mineração e por fazer negócios com inúmeras ditaduras, muitas vezes violando sanções. Trabalhou particularmente de perto com Israel e, de acordo com o Haaretz:

Nos anos que se seguiram à Guerra do Yom Kippur de 1973 e ao subsequente embargo mundial ao petróleo árabe, num período em que ninguém queria vender petróleo para Israel, durante quase 20 anos Rich foi a principal fonte das necessidades de petróleo e de energia do País.

Foi o comércio em nome de Israel que, em 1983, levou Rich a ser acusado de violar o embargo de petróleo dos EUA ao Irão ao vender petróleo iraniano a Israel. Rich também foi acusado de sonegação de impostos, fraude eletrônica, extorsão e vários outros crimes.

Haaretz também observou que os negócios de Rich eram “uma fonte de financiamento para acordos financeiros secretos” e que “os seus escritórios em todo o mundo, de acordo com várias fontes confiáveis, frequentemente serviam agentes do Mossad, com o seu consentimento”. Rich também tinha vínculos directos com o Mossad. Por exemplo, a sua fundação (a Rich Foundation) era administrada pelo ex-agente do Mossad, Avner Azulay. Rich também era amigo de importantes políticos israelitas, incluindo os ex-Primeiros Ministros Menachem Begin e Ehud Barak, e era um frequente provedor de “serviços” para a intelligence israelita, serviços que ele voluntariamente oferecia.

Marc Rich, à direita, é retratado com o israelita Shimon Peres numa foto de “The King of Oil”, de Mark Daneil Ammann.

De acordo com o biógrafo de Rich, Daniel Ammann, Rich também forneceu informações à intelligence dos EUA, mas recusou-se a fornecer detalhes. “Ele não quis dizer com quem cooperou das autoridades americanas ou a qual ramo do governo dos EUA forneceu informações”, disse Ammann em entrevista ao Daily Beast.

Uma pista sobre a natureza do relacionamento de Rich com a intelligence dos EUA sã os seus aparentes laços com o BCCI. O relatório The BCCI Affair menciona Rich como uma pessoa para ser investigada em relação ao banco e afirma:

Os empréstimos do BCCI a Rich na década de 1980 totalizaram dezenas de milhões de Dólares. Além disso, as empresas de commodities de Rich foram usadas pelo BCCI em conexão com o envolvimento do BCCI em programas de garantia dos EUA por meio do Departamento de Agricultura. A natureza e a extensão do relacionamento de Rich com o BCCI exigem uma investigação mais aprofundada.

Rich também estava profundamente vinculado ao Mega Group, pois era um dos principais doadores da instituição de caridade Birthright Israel, juntamente com o co-fundador do Mega Group, Charles Bronfman, e Michael Steinhardt, membro também do Mega Group. Steinhardt esteve particularmente próximo de Rich, conhecendo primeiro o comerciante de commodities na década de 1970 e depois administrando 3 milhões de Dólares por conta de Rich, da então esposa de Rich, Denise, e do sogro de Rich desde o início dos anos ’80 até meados dos anos ’90 através de seu fundo de hedge. No final dos anos ’90, Steinhardt alistou outros membros do Mega Group, como Edgar Bronfman, no esforço de arrumar as acusações criminais contra Rich, o que acabou por acontecer com o controverso perdão de Clinton em 2001. Steinhardt alegou ter tido a idéia de um perdão presidencial para Rich no final de 2000.

O perdão de Rich foi controverso por várias razões, e muitos meios de comunicação afirmaram que “cheirava a recompensa”. Como observou o New York Post em 2016, no período que antecedeu o perdão presidencial, a ex-esposa do finaneiro Denise doou 450.000 Dólares para a recém nascida Biblioteca Clinton e “mais de 1 milhão para as campanhas democratas na era Clinton”. Além disso, Rich havia contratado poderosos advogados com importantes vínculos nos partidos democrata e republicano, bem como na Casa Branca de Clinton, incluindo Jack Quinn , que anteriormente actuou como consultor geral do governo Clinton e como ex-chefe de gabinete do vice-Presidente Al Gore.

No entanto, pelas próprias palavras de Clinton e outras evidências, a principal razão por trás do perdão dos Rich foi a pesada actividade de lobby dos serviços secretos israelitas, de políticos israelitas e de membros do Mega Group como Steinhardt, com as doações de Denise Rich que provavelmente adocicaram o negócio.

Entre os lobistas mais ardentes pelo perdão de Rich estavam o então Primeiro Ministro israelita Ehud Barak, o ex Primeiro Ministro Shimon Peres, o então Prefeito de Jerusalém Ehud Olmert, o ex-Ministro das Relações Exteriores Shlomo Ben-Ami e o ex-Director do Mossad Shabtai Shavit. Segundo o diário Haaretz, Barak era tão inflexível com Clinton acerca do perddo de Marc Rich que foi ouvido gritar com o Presidente em pelo menos uma ocasião. O ex-conselheiro de Barak, Eldad Yaniv, afirmou que Barak tinha gritado que o perdão era “importante … não apenas pelo aspecto financeiro, mas também porque ele ajudou o Mossad em mais de uma ocasião”.

O esforço de lobby de Israel teve a ajuda considerável do membro do Mega Group, Michael Steinhardt, bem como de Abe Foxman, da Liga Anti-Difamação (ADL), que na época era fortemente financiada por membros do Mega Group, incluindo Ronald Lauder e Edgar Bronfman.

Houve especulações durante anos que a decisão de Clinton de perdoar Rich pode ter sido o resultado duma “alavancagem” ou chantagem que Israel tinha conseguido através das actividades do então Presidente. Como foi observado na Parte III deste relatório, o escândalo de espionagem “Mega”, vinculado ao Mossad, estourou em 1997, enquanto a intelligence israelita estava a controlar o esforço de Clinton para intermediar um acordo de paz entre Israel e a Palestina e surgiu o termo “Mega”, provavelmente uma referência ao Mega Group, para obter um documento sensível.

Além disso, sabe-se que Israel adquiriu conversas telefônicas entre Clinton e Monica Lewinsky antes do seu caso ser tornado público. O autor Daniel Halper, contando com entrevistas registradas com ex-funcionários e centenas de páginas de documentos compilados no caso da acção legal da Lewinsky contra Clinton, determinou que Benjamin Netanyahu disse a Clinton que havia obtido gravações telefónicas de cariz sexual durante as negociações da Wye Plantation entre Israel e a Palestina em 1998. Netanyahu tentou usar essas informações para fazer com que Clinton perdoasse o espião israelita Jonathan Pollard. Clinton pensou em perdoar Pollard, mas decidiu contra isso depois que o Director da CIA, George Tenet, ameaçou renunciar se o perdão fosse concedido.

O jornalista investigador e autor Gordon Thomas fez alegações semelhantes anos antes e afirmou que o Mossad tinha obtido cerca de 30 horas de conversas telefónicas de cariz sexual entre Lewinsky e Clinton e as usou como uma “alavanca”. Além disso, uma reportagem da revista Insight em Maio de 2000 afirmou que a intelligence israelita havia “penetrado quatro linhas telefónicas da Casa Branca e era capaz de retransmitir as conversas destas linhas em tempo real para fora da Casa Branca, directamente a Israel para ouvir e gravar”.

Aparentemente, essas ligações telefônicas foram muito além da Casa Branca, conforme revelado por um relatório investigativo de Dezembro de 2001 de Carl Cameron para a Fox News. De acordo com o relatório de Cameron:

[A empresa israelense de telecomunicações Amdocs] ajudou a Bell Atlantic a instalar novas linhas telefónicas na Casa Branca em 1997 [e] um funcionário de nível sênior da Amdocs tinha uma linha telefônica de dados T1 separada, instalada na sua base nos arredores de St. Louis, conectada diretamente a Israel

[Os] investigadores estão a verificar se o proprietário da linha T1 tinha capacidade em ‘tempo real’ de interceptar telefonemas da Casa Branca e de outros escritórios do governo em Washington, e se a linha foi mantida por algum tempo, disseram as fontes. Fontes familiarizadas com a investigação dizem que os agentes do FBI no caso procuraram um mandado de prisão para o funcionário de St. Louis, mas os funcionários do Departamento de Justiça [de Clinton] o anularam.

Segundo o jornalista Chris Ketcham:

[A Amdocs e a Verint Inc. (anteriormente Comverse Infosys)] estão baseadas em Israel, tendo ganho proeminência no mercado de tecnologia da informação naquele País, e são fortemente financiadas pelo governo israelita, com conexões com as forças armadas e os serviços secretos de Israel.

As operações das empresas, sugerem as fontes, foram infiltradas por espiões freelancers que exploraram backdoors criptografadas na tecnologia Verint / Amdocs e colectaram dados sobre americanos depois transferidos para a intelligence israelitas e outros clientes (principalmente do crime organizado).

Dada a extensão das infiltrações nas ligações telefônicas do governo dos EUA por parte das empresas israelitas ligadas à intelligence e o anterior uso de Netanyahu de telefonemas interceptados para pressionar Clinton a perdoar Jonathan Pollard, é inteiramente razoável especular que algum outro tipo de comunicação interceptada poderia ter sido usada para pressionar Clinton a perdoar Rich nas últimas horas da sua presidência.

Também é notável o facto de que várias figuras que pressionaram fortemente Clinton pelo perdão de Rich tinham vínculos com Epstein, que também estava ligado com a intelligence israelita e às empresas de tecnologia ligadas aos serviços secretos israelitas, conforme discutido na Parte III desta série. Por exemplo, Ehud Barak, amigo íntimo e sócio de negócios da Epstein, e Shimon Peres, que apresentou Barak a Epstein, foram os principais actores para convencer Clinton a perdoar Marc Rich.

Além disso, como será mostrado numa subsequente secção deste relatório, Jeffrey Epstein havia desenvolvido laços com o governo Clinton a partir de 1993 e esses laços expandiram-se, principalmente em 1996, quando estava em andamento a operação de chantagem sexual ligada à rede de intelligence de Epstein. Mais tarde, Clinton voaria no infame jacto particular de Epstein, apelidado de Lolita Express; depois Epstein doaria à Fundação Clinton e alegaria ter desempenhado um papel fundamental na criação da Clinton Global Initiative.

Além do papel das figuras próximas a Epstein em garantir o perdão de Rich, o próprio Epstein parecia compartilhar algum nível de conexão com os ex-parceiros de negócios de Rich. Por exemplo, Felix Posen (que dirigiu as operações de Rich em Londres durante anos e que a Forbes descreveu como “o arquitecto de negócios imensamente lucrativos, mas de repente muito controversos, com a União Soviética”) aparece no livro de contactos de Epstein. Além disso, o veículo de investimento estruturado offshore (SIV) da Epstein, o Liquid Funding, tem o mesmo advogado e director de várias entidades da Glencore: Alex Erskine, do escritório de advocacia Appleby.

O significado dessa conexão, no entanto, não é claro, uma vez que Erskine estava conectado a um total de 274 entidades offshore no momento em que explodiu o escândalo Paradise Papers em 2014. Catherine Austin Fitts [ex Secretária Assistente do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos, ndt] disse ao MintPress que poderia sugerir que o Liquid Funding de Epstein (40% dos quais pertencia ao banco Bear Stearns e que pode ter recebido um resgate “secreto” do Federal Reserve) faz parte da mesma economia paralela do sindicato do crime, tal como a Glencore.

Essa possibilidade merece uma investigação mais aprofundada, uma vez que a Glencore é parcialmente detida pelo financeiro britânico Nathaniel Rothschild, cujo pai, Jacob Rothschild, faz parte do conselho de consultores da Genie Energy, que inclui Michael Steinhardt e vários supostos associados de Epstein, como Bill Richardson [ex Governador do México, Embaixador dos EUA na ONU e Secretário da Energia com a Clinton, ndt] e Larry Summers [economista chefe do Banco Mundial, Secretário do Tesouro com CLinton, ndt]. Além disso, Lynn Forester de Rothschild, prima de Nathaniel Rothschild por casamento, é associada de longa data de Jeffrey Epstein, com laços consideráveis com a “máquina de Roy Cohn” na cidade de New York. Marc Rich tinha laços de longa data com a família Rothschild já no início dos anos ’70, quando iniciou o comércio de mercadorias na empresa Philipp Brothers.

 

O surpreendente interesse de Lynn Forester de Rothschild em Epstein

Após a prisão de Epstein, primeiro em 2007 e depois em 2019, surgiram numerosos relatos dos media detalhando os vínculos entre Epstein e Clinton, afirmando que eles tinham-se encontrado pouco tempo depois do Presidente deixar o cargo em 2001 e, como mencionado recentemente, ter emitido o controverso perdão de Marc Rich.

Esses relatórios alegavam que o relacionamento de Epstein-Clinton havia sido facilitado pela namorada de longa data de Epstein, Ghislaine Maxwell. No entanto, documentos obtidos na biblioteca presidencial de Clinton, revelaram que os laços entre Epstein e Clinton datam mais cedo e foram facilitados por indivíduos poderosos que escaparam amplamente ao escrutínio das conexão do caso Epstein.

Um actor importante que tem sido amplamente esquecido ao juntar Epstein e os Clintons é Lynn Forester de Rothschild. Notavelmente, o Forester de Rothschild está há muito tempo conectado aos funcionários da era neoconservadora de Reagan, a rede Lewis Rosenstiel / Roy Cohn descrita nas Partes 1 e 2 desta série, bem como ao Mega Group, que foi detalhado na Parte 3 desta série.

Lynn Forester de Rothschild envolveu-se no mundo da política do Partido Democrata no final da década de 1970, quando trabalhou na campanha de 1976 do Senador Daniel Patrick Moynihan ao lado do agora notório neoconservador Elliott Abrams, que continuaria a desenvolver um papel importante no caso Irão-Contra durante a era Reagan para agora servir no Departamento de Estado sob Trump. Lynn Forester de Rothschild também foi apresentada ao seu segundo marido, Evelyn de Rothschild, por Henry Kissinger numa conferência do Grupo Bilderberg. Vários dos indivíduos conectados ao Mega Group e ao magnata dos media ligado ao Mossad, Robert Maxwell, (incluindo Mark Palmer, Max Fisher e John Lehman) foram assessores ou consultores de Henry Kissinger.

Hilary Clinton, Evelyn De Rothschild, Bill Clinton e Lynn Forester no Kensington Palace em Londres. Foto: Alan Davidson

Antes de entrar na família Rothschild em 2000, Lynn já tinha sido casada com Andrew Stein, uma figura importante na política democrática de New York, com o qual quem teve dois filhos. O irmão de Andrew, James Finkelstein, casou-se com Cathy Frank, neta de Lewis Rosenstiel, o empresário ligado à máfia que dirigia uma operação de chantagem sexual que explorava garotos menores de idade, conforme discutido na Parte 1 desta série. O protegido de Rosenstiel, Roy Cohn, era advogado de Cathy Frank e de James Finkelstein e foi a seu pedido que Cohn tentou enganar Rosenstiel quase em coma para nomear Cohn, Frank e Finkelstein como executores e administradores das suas propriedades, avaliadas em 75 milhões (mais de 334 milhões em Dólares de hoje).

De acordo com o New Yorker, Lynn Forester de Rothschild solicitou “ajuda financeira” de Jeffrey Epstein em 1993, durante o divórcio de Andrew Stein.

Quanto aos vínculos de Forester de Rothschild com o Mega Group, ela actualmente faz parte do conselho de administração da empresa Estee Lauder, que foi fundada e ainda pertence à família de Ronald Lauder, um membro do Mega Group, ex-funcionário da Administração Reagan, amigo da família de Roy Cohn e suposta fonte do agora infame passaporte austríaco de Jeffrey Epstein. Além disso, a Forester de Rothschild também fez parceria com Matthew Bronfman, filho do membro do Mega Group Edgar Bronfman e neto de Samuel Bronfman (que tinha estreitos laços com Meyer Lansky) na criação da empresa de consultoria de investimentos Bronfman E.L. Rothschild LP.

Não está claro quando Lynn Forester de Rothschild conheceu Jeffrey Epstein, mas ela era uma de suas principais defensoras e tinha o ouvido do então Presidente Bill Clinton no início dos anos ’90, conversou com Clinton especificamente sobre Epstein durante os seus “quinze segundos de acesso” ao Presidente e também apresentou Epstein ao advogado Alan Dershowitz em 1996.

Forester de Rothschild é uma associada de longa data dos Clintons e é um dos principais doadores de Bill e Hillary Clinton desde 1992. Os seus laços eram tão íntimos que Forester de Rothschild passou a primeira noite de lua de mel no Lincoln Bedroom [a suite para hospedes na Casa Branca, ndt] enquanto Clinton era Presidente. Além disso, um e-mail descoberto entre Forester de Rothschild e Hillary Clinton via a Clinton pedir “perdão” à Forester de Rothschild por pedir que Tony Blair a acompanhasse nos assuntos oficiais enquanto ela era Secretária de Estado, impedindo assim que Blair efectuasse uma visita social planeada na casa de Forester de Rothschild em Aspen, no Colorado. Pedir humildemente perdão não é algo para o qual Hillary Clinton seja conhecida, já que um seu ex-guarda-costas uma vez disse que poderia “fazer Richard Nixon parecer Mahatma Gandhi”.

Em 1995, Lynn Forester de Rothschild, então membro do Conselho Consultivo Nacional de Infraestrutura de Informação de Clinton, escreveu o seguinte ao então Presidente Clinton:

Prezado Sr. Presidente: Foi um prazer vê-lo recentemente na casa do Senador Kennedy. Havia muito a discutir e muito pouco tempo. Ao usar os meus quinze segundos de acesso para discutir de Jeffrey Epstein e da estabilização da moeda, deixei de falar com você sobre um tópico próximo e querido ao meu coração. Ou seja, a acção afirmativa e o futuro.

Forester de Rothschild afirma que foi solicitada a preparar um memorando em nome de George Stephanopoulos, ex-director de comunicações de Clinton e actualmente jornalista da ABC News. Stephanopoulos participou num jantar oferecido por Epstein na sua mansão em Manhattan em 2010, após a libertação de Epstein da prisão por ter solicitado sexo a um menor.

Embora não se saiba o que a Forester de Rothschild discutiu com Clinton sobre Epstein, uma ideia pode estar nas ligações da Forester de Rothschild e Epstein com o Deutsche Bank. O jornalista Vicky Ward relatou em 2003 que Epstein gabava-se da “habilidade em jogar no mercado das moedas com somas muito grandes” e parece ter feito isso através do seu relacionamento de longa data com a Deutsche Bank.

O New York Times noticiou em Julho de 2019:

[Epstein] parecia estar a fazer negócios e tratar moedas através da Deutsche Bank até alguns meses atrás, segundo duas pessoas familiarizadas com as suas actividades comerciais. Mas, à medida que a possibilidade das cobranças federais se aproximava, o banco encerrou o seu relacionamento com o Sr. Epstein. Não está claro qual era o valor dessas contas no momento em que foram fechadas.

No caso da Forester de Rothschild, ela actuou como consultora do Consórcio de Microfinanças da Deutsche Bank por vários anos e actualmente é membro do conselho da Sociedade de Diálogo Internacional Alfred Herrhausen da Deutsche Bank.

No mesmo ano em que Forester de Rothschild fez os comentários acima mencionados a Bill Clinton sobre Jeffrey Epstein, Epstein participou num outro evento de arrecadação de fundos para Clinton, realizado por Ron Perelman [banqueiro, investidor e, obviamente, filántropo, dono da MacAndrews & Forbes Incorporated, através da qual controla acções de outras empresas como  AM General, Deluxe Entertainment, Revlon SIGA Technologies RetailMeNot, Merisant, Scantron, Scientific Games Corporation, ndt] na sua casa pessoal, algo muito exclusivo pois a lista de convidados incluía apenas 14 pessoas.

 

A evolução da relação Epstein-Clinton

Mesmo antes da reunião de Lynn Forester de Rothschild com Clinton em 1995, Epstein já era um doador estabelecido de Clinton. Os registros obtidos pelo Daily Beast revelaram que Epstein havia doado 10.000 Dólares para a Associação Histórica da Casa Branca e participado a uma recepção de doadores de Clinton ao lado de Ghislaine Maxwell em 1993.

O Daily Beast sugere que o amigo de longa data de Bill Clinton dos seus tempos de faculdade, A. Paul Prosperi, foi o facilitador desse relacionamento inicial, pois Prosperi teve um relacionamento de décadas com Epstein e até visitou-o pelo menos 20 vezes enquanto estava na prisão em 2008. Prosperi esteve intimamente envolvido com a recolha de fundos de 1993 para a Associação Histórica da Casa Branca mencionada acima.

O relacionamento entre Epstein e Clinton continuaria bem depois do Presidente ter deixado o cargo em 2001, um facto bem documentado pelos infames vôos de Bill Clinton no jacto particular de Epstein, frequentemente chamado de Lolita Express. Clinton voou no Lolita Express não menos de 26 vezes no início dos anos 2000, de acordo com os registros de voo. Em alguns desses voos, Clinton foi acompanhado pelos Serviço Secreto, mas não foi acompanhado em outros voos.

Sem dúvida, o vôo mais famoso de Clinton no jacto de Epstein foi uma longa viagem à África, onde o actor Kevin Spacey, que também foi acusado de estuprar menores; Ghislaine Maxwell e Ron Burkle (um amigo bilionário de Clinton que foi acusado de solicitar os serviços de “meninas de alto nível”) também estavam presentes. Clinton solicitou especificamente que Epstein disponibilizasse o seu jacto com antecedência, com Doug Band [advogado, inestidor e conselheiro de Clinton enquanto Presidente, ndt] como intermediário.

Além dos vôos, uma fundação administrada por Epstein deu 25.000 Dólares à Fundação Clinton de acordo com a declaração dos impostos de 2006 da antiga instituição de caridade de Epstein, a C.O.U.Q. Foundation. Notavelmente, os advogados de Epstein, Alan Dershowitz entre eles, alegaram em 2007 que Epstein havia sido “parte do grupo original que concebeu a Iniciativa Global Clinton, que é descrita como um projecto ‘que reúne uma comunidade de líderes globais para criar e implementar soluções inovadoras. para alguns dos desafios mais prementes do mundo’”.

Antes que as ligações entre Epstein e a Casa Branca de Clinton, no início dos anos ’90, fossem divulgadas, pensava-se que Ghislaine Maxwell fosse a ponte entre Epstein e a família Clinton por causa do seu relacionamento íntimo com a família. No entanto, o estreito relacionamento entre Maxwell e os Clintons parece ter-se desenvolvido nos anos 2000, com a organização Politico que relata que começou depois de Bill Clinton ter deixado o cargo. Doug Band, também associado ao Clinton, era amigo de Ghislaine Maxwell, tendo ele aparecido num jantar exclusivo organizou na residência da Maxwell em New York em 2005. Maxwell mais tarde tornou-se paticularmente próxima de Chelsea Clinton, saindo de férias com Chelsea em 2009 e participando no seu casamento um ano depois. Maxwell também foi associada à Iniciativa Global Clinton pelo menos até 2013.

Jeffrey Epstein e Bill Clinton

Outros associados e funcionários próximos de Clinton no início dos anos ’90 também tiveram um relacionamento notável com Jeffrey Epstein, incluindo Mark Middleton, que era um assistente especial do chefe de gabinete de Clinton; Mack McClarty, a partir de 1993, que encontrou-se com Epstein em pelo menos três ocasiões na Casa Branca durante os primeiros anos da Administração Clinton; além disso, a secretária social da Casa Branca de Clinton, Ann Stock, aparece no “livrinho preto” de Epstein, assim como Doug Band, uma vez referido pelo New York Magazine como o “portador de malas de Bill Clinton, guardacostas e porteiro de uso geral”. Band também aparece várias vezes nos registros de vôo do jacto particular de Epstein.

Epstein também esteve associado a Bill Richardson, ex-Embaixador da ONU e ex-Secretário da Energia de Clinton, e Larry Summers, Secretário do Tesouro de Clinton. Richardson e Summers fazem parte do conselho consultivo da controversa empresa de energia Genie Energy, ao lado do Director da CIA sob Clinton, James Woolsey; Roy Cohn; o magnata dos media Rupert Murdoch; o membro do Mega Group, Michael Steinhardt; e Lord Jacob Rothschild. A Genie Energy é controversa principalmente pelso seus exclusivos direitos de perfurar as Colinas de Golã, ocupadas por Israel. Bill Richardson também tem vínculos com Lynn Forester de Rothschild, dado que ela estava no Conselho Consultivo da Secretaria da Energia enquanto Richardson era Secretário da Energia.

Bill Richardson parece estar entre as autoridades da era Clinton mais próximas de Jeffrey Epstein, tendo visitado pessoalmente o rancho de Epstein no New México e recebido doações de Epstein de 50.000 Dólaress para as suas campanhas governamentais de 2002 e 2006. Richardson devoldeu a doação de Epstein de 2006 para a caridade depois que as alegações contra Epstein foram tornadas públicas. Richardson também foi acusado em documentos judiciais recentemente divulgados de praticar sexo com vítimas de Epstein menores de idade, uma alegação que ele negou.

 

O escândalo de Jeffrey Epstein: um post-mortem

Em 1990, Danny Casolaro iniciou a sua fatídica investigação de um ano sobre The Octopus, uma investigação que não teve um papel pequeno na sua prematura morte. Logo depois dele ter sido encontrado sem vida na banheira dum hotel, a amiga de Casolaro, Lynn Knowles, foi ameaçada e disse o seguinte: “O que Danny Casolaro estava a investigar é um negócio … Quem faz muitas perguntas acaba por morrer”.

Quase trinta anos depois, o mesmo “polvo” e os seus “negócios” permanece connosco; e tornou-se cada vez mais envolvido nas alavancas do poder, particularmente nos mundos da governação, das finanças e dos serviços secretos.

Esta série de investigação do MintPress esforçou-se para mostrar a natureza dessa rede e como o mundo de The Octopus é o mesmo mundo em que Jeffrey Epstein e os seus antecessores (Craig Spence, Edwin Wilson e Roy Cohn entre eles) operaram e lucraram. É um mundo em que tudo o que importa é o constante esforço para acumular cada vez mais riqueza e mais poder, e manter a rede a funcionar a qualquer custo.

Embora essa rede tenha sido capaz de garantir o sucesso por meio do uso da chantagem sexual, muitas vezes adquirida com a exploração de crianças, também tem sido uma força motriz por trás de muitos outros males que atormentam o nosso mundo e que vai muito além de seres humanos e do tráfico de crianças. De facto, muitas das figuras nessa mesma sórdida rede desempenharam um papel importante no comércio ilícito de drogas e armas, na expansão de prisões com fins lucrativos e nas guerras sem fim que causaram um número incalculável de mortes em todo o mundo, enquanto enriquece muitos desses mesmos indivíduos.

Não há como negar que essa rede é “grande demais para falir”. No entanto, falhará, caso contrário esse ciclo de décadas de abusos, assassinatos e fraudes continuará inabalável, destruindo e tirando ainda mais vidas.

 

Ipse dixit.

Relacionados:

Fonte: Government by Blackmail: Jeffrey Epstein, Trump’s Mentor and the Dark Secrets of the Reagan Era 

O artigo original contém todas as ligações para as fontes utilizadas durante a investigação (frases ou palavras em amarelo, são dezenas: é só clicar para acedere à fonte).

Um agradecimento particular para a jornalista Whitney Webb que possibilitou a tradução e a publicação do seu trabalho investigativo.

2 Replies to “Pedofilia e Poder: das origens aos nossos dias – Parte IV”

  1. Pelo jeito, nesse mar de sujeiras, o boquete da Monica Lewinski no Bill Clinton foi café pequeno.

    Histórias de poder sempre envolveram sexo , intrigas , traições e principalmente : queima de arquivos.
    Aqui na terra brasilis , o expediente utilizado para eliminação de testemunhas e delatores, não inclui a simulação de suicídio. Simplesmente , manda-se matar e pronto, sem nem se preocupar em disfarçar algum sentimento de respeito a vitima.

    O caso da vereadora Marielle Franco é um dos mais icônicos. É muita ingenuidade acreditar que ela foi morta por ser defensora da causa LGBT. Sua sentença de morte foi assinada quando começou a denunciar e combater as atividades das milicias no Rio de Janeiro e também quando se tornou a favorita a preencher a vaga no senado, concorrendo com o filho do Bozo, ( Flavio Bozo, que se elegeu por sinal ). Os filhos do presidente-fake , mantem uma estreita ligação com grupos de milicianos, a ponto de membros condenados serem homenageados com a medalha Tiradentes ( alta condecoração do legislativo do RJ ) por Flavio , na época em que era deputado. Além disso, ele apresentou projetos para evitar a coação as praticas desses grupos.

    https://www.cartacapital.com.br/politica/existe-ligacao-entre-o-suspeito-de-matar-marielle-e-o-cla-bolsonaro/

    O principal suspeito do atentado a vereadora, mora no mesmo condomínio do presidente-fake Bozo. Em reportagem da Rede Globo ( quem diria ? ) mostrou que o suspeito, na noite do crime, esteve nesse mesmo condomínio procurando por algum do clã Bolsonaro.

    Com dizem, “seria cômico, sem não fosse trágico” assistir a briga e troca de “carinhos” entre a Globo e o Bozo.É briga de cachorro grande, ou melhor, de hiena grande.

    Forte abraço Max.
    Boa sorte na sua cirurgia. Caso seja em algum lugar muito importante, saiba que a ciência já desenvolveu maravilhas na área de implantes. Pensou besteira ? Estou falando em cabelo.

  2. Terminei de ler, e reli: muito bom mesmo. Uma causa do desastre individual desses desprezíveis é o fato de se considerarem insuspeitos e inatingíveis dentro da rede de tráficos, mortes e chantagens. Isso acontece mais seguidamente quando são os insuspeitos midiáticos que encantam os sonhos dos babacas. E, se não existe um objeto de chantagem, se inventa, vale tudo no mundo real.
    Mas, hoje acordei dando risada. Porque? Depois que o estúpido ministério da economia nativo pretendeu um mega leilão da parte onerosa do petróleo brasileiro (aquele que excede as previsões da companhia), acabou que a Petrobras comprou a Petrobras. Divertido, não.
    Pensei que eu só poderia me divertir com o que acontece com os “hermanos”, mas não. Recentemente, coisa de poucos meses , também acordei rindo, graças a Cristina Kirschner. Pois, assim como Lula no Brasil, a Cristina tinha seu destino lacrado pelo império: mofar na prisão. Felizmente ela não é Lula e o peronismo não é o PT. Quando percebeu irreversível seu aprisionamento, reuniu meia dúzia de juízes de sua total confiança (aqui nenhum juiz é de confiança de ninguém, é um salve-se quem puder, especialmente depois do muito possível assassinato de um do STF) e, de surpresa mandou a polícia invadir a “casamata” de d Alécio, recolhendo milhares de documentos comprometedores de todo mundo. e o incansável diretor dos serviços da DEA, CIA, e narco tráfico, tudo junto em território argentino,. Como sempre o desprezível insuspeito usou a clássica premissa: “ustedes sapen con quién estan ablando?”. Ao que ouviu a resposta que corresponde no Brazil aquela também clássica: “Teja preso!!!” Enquanto a apreensão ocorria, Cristina denunciava d Alecio para a ala mais feroz do peronismo e, em uma hora reunia mais de 500mil peronistas aos berros frente à Casa Rosada: “No nos sacaram a Cristina !!!!”. Pronto, a prisão de Crstina foi prontamente esquecida. Isso é viver no mundo real (não brincar de guerrinha como na minha terra natal). Quando ameaçada (o) , o ou a poderosa reage com força letal, tiro certo na cabeça do império. Não é a toa que Putin considera a Cristina como uma das líderes políticas mais inteligentes do mundo. Tomara que Cristina não vá se convencendo do seu poder, porque aí começará sua derrocada, como aconteceu com Lula. Mas acredito que não. Sua escola foi o peronismo radical e não o petismo das conciliações e negociações.

Obrigado por participar na discussão!

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