Do atentado “quase antissemita” na Alemanha e da agricultura chinesa

O Podcast de Informação Incorrecta
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Episodio 17: Aquecimento global - Os dados

Há aquecimento global? Há. É culpa do Homem? Não. Os dados publicados são de confiança? Às vezes. O Dióxido de Carbono é o grande culpado? Nem pensar. É o caso para ficarmos preocupados? Sim: do nosso sistema que polui, explora os recursos naturais de forma indiscriminada e prejudica o futuro de todos em nome do lucro.

Primeiro assunto: falamos de ficção. Ontem na Alemanha houve a estreia da nova temporada da série “Os Atentados Improváveis”. Depois da saga do Estado Islâmico e do sucesso de audiência sobretudo na França, eis que começa a segunda temporada.

O juízo acerca deste primeiro episódio é globalmente positivo mas temos que registrar algumas novidades. Para já, mudaram os protagonistas, uma escolha corajosa por parte da produção e dos argumentistas: costuma dizer-se “equipa que ganha não se mexe”, mas a verdade é que já não temos improváveis atentadores islâmicos contra cristãos; a nova temporada, numa reviravolta histórica, tem agora como protagonistas os cristãos que perseguem os pobres hebraicos. Acho ter sido esta uma boa opção, pois o único defeito da passada temporada era o facto de começar a tornar-se um pouco previsível.

Mas além desta mudança, o episódio de ontem deixou um pouco de amargura. Por qual razão? Porque acho o que diferencia uma boa série duma série apenas discreta é a atenção aos pormenores. Não sei se foi apenas pelo facto de ter sido o primeiro episódio, o assim chamado episódio-piloto, mas a verdade é que ontem houve umas pequenas falhas.

Vamos resumir: o atentador ao longo de amplos minutos vagueia pelas ruas da cidade, dispara aos calhas, da polícia nem a sombra. Até aqui tudo bem, nada a apontar. Só que depois o atentador, que no episódio desenvolve o papel dum antissemita, entra numa loja turca de kebab. Agora, uma loja turca de kebab não é o lugar mais indicado para encontrar hebraicos, uma loja turca de kebab é o melhor lugar para encontrar kebab e turcos. E os turcos são muçulmanos. É aqui no meu entender que podemos encontrar o tal pormenor que destoa: numa temporada em que, supostamente, deveriam morrer hebraicos, ontem não morreu hebraico nenhum.

É uma pena, pois o resto do cast actuou conforme o esperado. O Primeiro Ministro de israel falou do ataque como da expressão do antissemitismo europeu, o Site de Rita Katz logo proporcionou falsas provas neste sentido, portanto tudo fiel ao novo roteiro, com actores que evidentemente tinham estudado a parte. Mas depois, eis o tal detalhe que arrisca estragar tudo. Sim, houve mortos, tudo bem, mas um atentado contra hebraicos no qual não morrem hebraicos, do meu ponto de vista, tem uma pequena falha.

Vamos esperar pelos próximos episódios para ver como as coisas vão desenrolar-se. E acho que vão desenrolar-se bem. Reparem: passaram 24 horas da estreia do novo episódio e até agora a BBC não sabe dizer quem foram as vítimas. Uma outra falha, outro detalhe que destoa? Acho que não: parece-me óbvio que alguém da produção reparou nos erros, provavelmente foram mortos um ou até dois muçulmanos, e foi decidido não falar do assunto porque um atentado antissemita no qual morrem islâmicos e nenhum semita até poderia parecer uma piada. Portanto, a produção está ciente do problema, está a trabalhar no assunto e isso faz bem esperar para os próximos episódios.

A agricultura chinesa

Por enquanto abandonamos a ficção e falamos de coisas sérias. Falamos de agricultura. Gostam de agricultura? Eu não porque é cansativa, mas não deixa de ser uma actividade fundamental mesmo hoje que estamos rodeados de tecnologia, ou alegada tal, por todos os lados.

Segundo as previsões, dentro de trinta anos é possível que a população mundial suba para 10 biliões. Alimentar todos sem sobrecarregar o ambiente parece uma perspectiva impossível de enfrentar, mas é uma tarefa que deve ser pensada. Estas são afirmações que conhecemos e não desde hoje; da mesma forma, sabemos que OvershootDay (que indica o limite dos recursos naturais disponíveis para o ano) chega cada vez antes.

É difícil avaliar quão científicos sejam os dados apresentados, mas podemos pensar duma forma muito simples: o planeta é um rochedo de dimensões limitadas, pelo que os seus recursos são necessariamente limitados também. É uma mera questão de matemática: pode ser que o OvershootDay não seja calculado da forma mais correcta, pode ser que os 10 biliões de habitantes sejam alcançados em 40 anos e não em 30, mas o problema existe, continua aí.

E a produção de alimentos é um dos factores que mais contribuem para a rápida exploração dos recursos: segundo as Nações Unidas, em todo o mundo existem pelo menos 500 milhões de empresas agrícolas, especialmente de pequenas dimensões. Este número de 500 milhões dá a ideia da importância que a questão da comida tem.

Portanto, a pergunta é: o que está a ser feito? Para responder vamos espreitar o que acontece naquela que agora é a primeira economia mundial e que, sozinha, tem que alimentar a cada dia pelo menos 1.4 biliões de cidadãos: a China. É muito interessante olhar para a China porque o País tem uma enorme população e, ao mesmo tempo, parece estar na vanguarda no âmbito do problema da alimentação.

Em 2005, a Universidade Agrícola da China, de Pequim, iniciou um projecto que envolvia vários milhões de pequenas quintas (principalmente produtoras de trigo, milho e arroz) para ajudá-las a maximizar a produtividade e minimizar os impactos das substâncias poluentes. O governo chinês encarou o assunto de forma muito séria, com vários milhares de estudos no terreno e o envolvimento de centenas de cientistas de 33 universidades diferentes.

Mas não só: paralelamente, teve começo uma outra iniciativa, igualmente inovadora: o projecto Science and Technology Backyard (a partir de agora BTS). A ideia do BTS é simples: professores e estudantes universitários vivem juntos durante meses em aldeias e quintas, lado a lado com os agricultores para estudar, juntos, as estratégias de renovação das culturas e a implementação da tecnologia.

Conforme relatado num estudo publicado na revista Nature em Março de 2018, o esforço de dez anos (entre 2005 e 2015) da Universidade de Pequim levou a um crescimento na produtividade agrícola de 11% e a uma redução de até 18% no uso de fertilizantes baseados no nitrogénio. Em termos económicos, esses números significam um ganho de mais de 12 biliões de Dólares, sem mencionar os benefícios a longo prazo na contenção dos impactos ambientais.

Proporcionar o sustento de uma população já por si enorme e em constante crescimento é um desafio enorme. E se a agricultura depende de uma enorme constelação de quintas e pequenas empresas, muito pouco informadas nas práticas da sustentabilidade ambiental, o objectivo torna-se cada vez mais distante. É por isso que os resultados alcançados pela China numa década foram vistos como uma esperança para outros Países em desenvolvimento e para todo o planeta.

De facto, o benefício não diz respeito apenas à China, uma vez que um quarto do grão consumido em todo o mundo é produzido aqui, assim como, mais no geral, acontece com os recursos alimentares para um quinto da população mundial, isso segundo os dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Graças a uma campanha de disseminação de boas práticas agrícolas, com o apoio de 65.000 funcionários da administração pública e quase 140.000 funcionários do sector privado, a iniciativa assumiu um carácter nacional bastante forte, tanto que, em 2014, o governo decidiu rejuvenescer as políticas agrícolas, mudando o foco desde a produção antiquada baseada nos altos rendimentos para a mais moderna produção sustentável (que significa segurança alimentar e sustentabilidade ambiental), anunciando o compromisso de reduzir para zero a quantidade de produtos químicos usados ​​nos campos até 2020. O mérito desse sucesso, deve ser encontrado, em primeiro lugar, no envolvimento de milhões de pequenos agricultores, conduzidos passo a passo por especialistas da Universidade de Pequim. Mas não especialistas sentados atrás duma mesa: os funcionários saíram para as ruas, para os campos, para ensinar mas antes para aprender, para entender as necessidades dos agricultores, das plantas e do terreno.

Este modelo funcionou e, após esse resultado, era inevitável pensar numa implementação mais ampla. Assim, em 2009, o grupo de especialistas expandiu-se, abrindo-se à participação de professores e estudantes. Desta forma nasceu o já citado projecto BTS, que segue o espírito do que foi feito até a altura, isso é, o desenvolvimento de tecnologias inovadoras baseadas nas solicitações dos agricultores, acrescentando um componente de serviço social fornecido pela presença fixa de estudantes de pós-graduação no local.

A primeira sede do BTS foi instalada há dez anos em Baizhai, condado de Quzhou, província de Hebei, quase na fronteira com o Vietnam. Em 2017, as estações do BTS era 88, espalhadas por toda a China em áreas com diferentes características ecológicas, abrangendo trigo, milho, arroz e pequenas culturas, como aquelas dos pomares.

A estrutura típica do BTS é bastante simples. De facto, prevê um quintal, um pátio ou um espaço físico distinguível entre as casas e os pontos de trabalho dos agricultores, que actua como local de reunião; a presença permanente de um especialista, pelo menos dum professor ou dum estudante; instalações tecnológicas para comunicar com o exterior e o interior da aldeia; espaços para testes e demonstrações científicas.

Num estudo publicado em Fevereiro deste ano, Xiaoqiang Jiao, da Universidade Agrícola da China, especifica que o procedimento seguido pelos operadores do BTS é definido pela abreviatura “1-3-5-1” que significa:

  • 1 teste no campo com dois tratamentos;
  • 30 agricultores;
  • 50 campos cultivados;
  • 100 campos de demonstração.

O desenvolvimento de novos produtos e o calendário das culturas são substancialmente organizados pelos especialistas, seguindo os padrões típicos de um laboratório de pesquisa. No entanto, prosseguem apenas depois de ter ouvido os agricultores, as suas informações, os seus problemas e as necessidades práticas, num processo de interacção que pode durar várias semanas.

Diferentemente do tradicional modelo de pesquisa top-down, de cima para baixo, no BTS o processo continua apenas após a resolução, um por um, dos problemas detectados no terreno. Isso significa que implementação em larga escala pode contar com um processo mais claro e rico em dados continuamente actualizados.

A troca de conhecimentos entre agricultores e académicos é contínua: as colheitas escolhidas, os novos fertilizantes, as soluções identificadas para possíveis problemas, as novas tecnologias testadas, tudo isso é também divulgado com cartazes nas margens dos campos e nas aldeias.

Além da contribuição à pesquisas segundo o modelo bottom-up, de baixo para cima, há um elemento que é considerado essencial para o sucesso dos projecto: o elemento “social” da coabitação entre estudantes e agricultores. Na prática, os estudantes não são limitados aos estudos teóricos mas participam activamente no processos de produção, conhecem os agricultores, estabelecem ligações com estes, entram no ambiente das famílias agrícolas. Pelo que, se dum lado os agricultores beneficiam das técnicas inovadoras, doutro lado a China poderá contar com especialistas que sabem do que falam por ter vivido em primeira pessoa no meio agrícola.

Em 2017, quando as sedes do BTS já tinham aumentado para 120, havia cerca de 250 estudantes de pós-graduação e 80 agricultores, com mais de 200 trabalhos publicados sobre as tecnologias desenvolvidas: e estes números crescem a cada ano.

Os efeitos dos novos produtos desenvolvidos com esse modelo “participativo” já estão certificados: no município da primeira sede do BTS , a colheita de grão aumentou 8 toneladas por ano, sem um aumento de fertilizantes. Isso enquanto numa outra aldeia do projecto, em 2015 foi registrado um aumento de 20% na colheita sem o uso de fertilizantes químicos.

De acordo com as actuais previsões de crescimento populacional, até 2050 a actual produção de alimentos terá que pelo menos dobrar. O projecto Science and Technology Backyard mostra qual o ingrediente secreto para conseguir alcançar o sucesso: o ingrediente é abandonar as aulas e os laboratórios, ir, ver, mexer com as mãos para perceber o que é a agricultura de verdade, sobretudo para falar com quem conhece a terra. Os livros, os gráficos, as análises sozinhas não chegam: a solução passa pelas palavras de “comunicação” e “experiência”.

 

Ipse dixit.

Fontes: Science and Technology Backyard, FAO, Nature, ScienceDirect Science and technology backyards: a novel approach to empower smallholder farmers for sustainable intensification of agriculture in China (link para o download do ficheiro Pdf, em idioma inglês)

Música: Indie/Rock Instrumental by Hyde – Free Instrumentals, https://soundcloud.com/davidhydemusic, music promoted by https://www.free-stock-music.com, Creative Commons Attribution 3.0 Unported License, https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/deed.en_US

2 Replies to “Do atentado “quase antissemita” na Alemanha e da agricultura chinesa”

  1. Se esta “série” continuar fazendo erros na produção deste montante, vai diminuir a audiência. Falta sangue, não importa de quem. Eram “turcos semitas” e pronto, já melhoraria. Derramar um balde de água colorida e corpos desaparecidos, depois de testemunharem o massacre gente confiável, já deixaria o povo esperando que o serviço secreto alemão, apoiado pela “imprescindível” CIA e também Mossad, descem conta do mistério. Bolas, essa gente poderia me contratar.

    Na China, tudo que eu sempre soube, e até parece que eles leram Paulo Freire: façam o diagnóstico da realidade, codifiquem e decodifiquem a situação juntos, especialistas e agricultores, insuficiências, necessidades, métodos possíveis de resolução dos problemas, análise e compartilhamento dos resultados, determinem e alcancem metas. Como o pedagogo brasileiro dizia “ninguém ensina ninguém, as pessoas aprendem entre si, na convivência horizontal, no diálogo”.
    Detesto esse pessoal que vem me falar de a insuficiência alimentar é decorrente do aumento populacional. A única coisa que produz a fome na terra é a mão inescrupulosa do capitalismo predatório que:
    1. Mata os solos com fertilizantes químicos e pesticidas,
    2. Contamina os fluxos de água doce com tais produtos e todo tipo de dejetos,
    3. Interfere no clima de forma caótica e irresponsável, desviando chuvas, poluindo os mares como consequência de desastres e explosões nucleares, prejudicando todos os ciclos naturais e dizimando populações animais, vegetais e humanas
    4. Investe na mono cultura e na produção de comida para animais criados em cativeiro
    5. Determina políticas que esmagam a cultura familiar e o uso de sementes criolas, pois isso é patrimônio das multinacionais.
    Este conjunto de atividades é ideal para o conluio entre impérios “democráticos” e colônias “democráticas”.
    A China acordou em tempo. Reduziu os nascimentos quando a situação ainda estava fora de controle, mas logo que as coisas entraram nos eixos deixou a natureza humana dar conta do recado.
    Adorei este texto: este tipo de agricultura de pequenas fazendas é tentado em qualquer lugar que realmente põe a máquina da vida a funcionar em benefício da vida. Não há revoluções pela soberania e auto sustentação que não instaure coisa semelhante.Toda reforma agrária que visa entregar terra a quem nela trabalha, de uma maneira ou de outra, investe em políticas assim. È preciso coragem, determinação e afastamento de mitos como capitalismo selvagem que melhora a economia (de quem????), democracia representativa é o ideal político, a terra não aguenta tanta gente.

  2. É a continuidade das políticas de Mao Tsé-Tung que sempre deram ênfase ao relacionamento entre os cidadãos do campo e da cidade, numa prespectiva de benefício mútuo e constante aprendizagem bem como a partilha de conhecimentos, sendo que hoje os métodos utilizados pelo governo da República Popular da China (RPC) são superiores a nível tecnológico e adaptados à realidade actual tanto na prática como no pensamento.

Obrigado por participar na discussão!

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