O Testamento de Informação Incorrecta – Parte III

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Os Estados Unidos apresentavam um único governo com uma autoridade económica central, enquanto a Europa era um conglomerado de diferentes povos e culturas, com governos muitas vezes em conflito uns com os outros. O processo de ocupação da América política através das ideias antes mencionadas aconteceu sobretudo por meio dum esforço de lobby e financeiro, coordenado em larga escala. Uma tentativa idêntica foi considerada muito complicada e cara se aplicada à Europa. Portanto, a ideia para o Velho Continente foi a criação duma Europa unida, liderada por funcionários não eleitos e controlados por uma lobby financeira não oficial, para conferir uma força sobre-nacional. Esta foi a maneira com a qual foi possível controlar (hoje) e eliminar (amanhã) os Parlamentos nacionais e até mesmo a ideia de Estado nacional.

Esta nova Europa precisava duma moeda totalmente fora do controle dos Estados e sem uma verdadeira autoridade económica central autónoma e independente: o Euro. Esta fraude foi “vendida” aos eleitores europeus como um passo em direcção a um futuro económico mais brilhante e a uma Europa mais civil. Na União Europeia (UE), a criação dos tratados de Maastricht e Lisboa de facto aboliram a soberania legislativa: hoje, a Europa está a experimentar o absurdo paradoxo de ter uma Comissão Europeia muito poderosa, que governa todos com normativas supranacionais, mas que nenhum europeu alguma vez elegeu; e um parlamento europeu que é eleito pelos cidadãos, mas que não pode propor leis. Os parlamentos nacionais são eficazmente evitados porque os Tratados estabelecem especificamente a supremacia das leis da UE, tanto sobre as leis nacionais como sobre as Constituições (!!!). Uma análise desses Tratados, sem dúvida, demonstra que todo o edifício foi criado para o benefício das elites financeiras e dos grandes grupos industriais, sem qualquer atenção ao social ou ao sistema de redistribuição da riqueza. A soberania monetária é destruída pelos Tratados, de acordo com as intenções originais das elites de impedir que os Estados operem com despesas em favor dos cidadãos.

Na UE, isto foi conseguido com a introdução do Euro, que é uma moeda não soberana emitida por 19 bancos centrais (reunidos no Banco Central Europeu) e que deve ser emprestada a todos os 19 governos da Zona Euro. Mas quem é que empresta o Euro? Os mercados de capitais privados que adquirem directamente o Euro logo à sua emissão. Isso limita quase totalmente as prerrogativas económicas dos Estados, com as consequências catastróficas que estamos a experimentar hoje. É aqui que os tecnocratas muito poderosos do Velho Continente tiveram um papel fundamental na protecção dos interesses das elites. Os mais conhecidos foram:

  • os franceses Jean Monnet (desde os anos ’30 partner comercial de Wallenberg, Bosch, Solvays e Rockefeller);
  • Robert Schuman (um dos fundadores da NATO),
  • François Perroux (Assistente do Secretário Geral da Família e da Juventude durante a Republica de Vichy e membro do Conselho de Administração do Institut Scientifique de Recherches Economiques et Sociales financiado por Rockefeller, do qual fazia parte também Jean Monnet)
  • Jaques Attali (trashumanista),
  • Jacques Delors (socialista, membro de Unesco, Instituto Aspen, Clube de Roma, fundador do think tank Notre Europe do qual faz parte o português António Vitorino),
  • os ex-Presidentes François Mitterrand (antigo apoiante do Marechal Petain durante a República de Vichy) e Valéry Giscard D’Estaing (Comissão Trilateral, Convention on the Future of Europe);
  • Jean Claude Trichet (Bank for International Settlements, Grupo dos Trinta, Comissão Trilateral, Grupo Bilderberg, Goldman Sachs);
  • os italianos Romano Prodi (Goldman Sachs, Unilever, ONU, Grupo Bilderberg),
  • Mario Draghi (Banco Mundial, Goldman Sachs, Bank for International Settlements, Grupo dos Trinta, BCE);
  • Carlo Scognamiglio (Instituo Aspen),
  • Mario Monti (Comissão Trilateral, Grupo Bilderberg, Goldman Sachs, Coca-Cola, Moody’s),
  • Tommaso Padoa-Schioppa (Grupo Bilderberg, think tank Notre Europe);
  • os alemães Helmut Schmidt (um antigo líder da Juventude Hitleriana, AEI World Forum),
  • Theo Weigel (Alcatel, SwissAir, Siemens, German Council on Foreign Relations),
  • Helmut Kohl (Morgan Stanley);
  • o holandês Wim Duisenberg (Air France, Grupo Bilderberg) e, no Luxemburgo, Jean Claude Juncker (Banco Mundial, Siemens, admirador de Fidel Castro e grande apreciador de bebidas alcoólicas).

Estes indivíduos, como é óbvio, não são o Verdadeiro Poder: são os executores dos planos da elite, são a fachada que todos podemos ver ao ler um jornal.

Concluindo, podemos observar claramente que existe um único elemento comum a todas estas ideias e dogmas económicos: limitar as políticas económicas dos Estados para impedir que operem com gastos em favor dos governos, dos trabalhadores, de pequenas e médias empresas, de cidadãos em geral. Em outras palavras: matar a galinha com os ovos de ouro que toda a sociedade civil poderia ter possuído.

Os primeiros actores

O regresso ao poder quase absoluto das elites, já foi dito, foi aperfeiçoado a partir dos anos ’70 para diante. O principal objectivo era colocar um muro entre as funções soberanas das democracias dos cidadãos e o potencial de criação de riqueza da MMT que essas democracias poderiam ter usado no interesse público. No entanto, o pano de fundo do ataque moderno da elite contra o bem comum foi preparado nas últimas quatro décadas e deve ser explicado se quisermos entender todos os eventos subsequentes.

Os primeiros actores já podem ser encontrados no intervalo entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Naqueles anos, as preocupações mais prementes das elites não eram de natureza puramente económica, pelo menos não inteiramente. Em vez disso, o fenómeno que consideravam mais preocupante eram as pessoas (além, claro está, do nascimento das democracias e dos Estados soberanos, como já mencionado). As elites entenderam correctamente que o elemento menos controlável no contexto das mudanças históricas daquela época eram as massas, que cresciam enormemente e mostravam desejos democráticos cada vez maiores, acompanhadas pelo progresso do Socialismo na Europa do Leste. Era possível enfrentar os Estados: afinal de contas, até pelo menos a Primeira Guerra Mundial, boa parte da classe política vinha quase exclusivamente das fileiras da classe dominante elitista. Mas com as pessoas o quadro mudava: as massas tinham que ser firmemente controladas e isso não era simples numa era que não toleraria mais massacres, tortura e brutalidades medievais como métodos de controle.

Para fornecer as ideias necessárias a alcançar esses objectivos, havia cinco homens: Walter Lippmann, Edward Berneys, ambos intelectuais americanos, e os já citados Robert Schuman, Jean Monnet, François Perroux, políticos franceses e economistas. Nos anos entre 1920 e 1945, eles, independentemente uns dos outros, deram origem às ideias para inverter 250 anos de História, pois o Tridente tinha que ser aniquilado, representava o perigo absoluto para a oligarquias absolutistas modernas: isto é, aniquilar Estados, leis e cidadãos. Estes últimos eram a massa-obstáculo sentada no meio do caminho de redenção e a neutralização dos cidadãos foi o cerne do pensamento de Lippmann e Berneys.

Considerado pelos contemporâneos como intelectuais “progressistas”, cujas ideias até chegaram perto do governo Kennedy (e que não espante: os Kennedy estão em circulação desde pelo menos o séc. X d.C como Cennétig. Mas com um pouco de paciência é possível encontrar as origens ainda mais remotas, que vão muito além daquela época), Lippmann e Berneys sabiam bem que os tempos de baionetas e Cayenna tinha acabado: era necessário inventar algo para trazer as pessoas de volta à posição correcta, nas margens. Lippmann falou sem rodeios em definir que os cidadãos são meddlesome outsiders, que podemos traduzir com “estranhos intrometidos”. Nada menos: as pessoas eram aos seus olhos um apêndice irritante do poder. Mas já antes, em 1914, este homem tinha deixado escrito nas páginas do seu livro Drift and Mastery que o crescente poder do povo ameaçava a ordem capitalista. Será numa conferência na Europeu, em 1938, que Lippman inventou o termo Neoliberalismo para definir a grande redenção dos liberalistas económicos ofuscados pelo Tridente.

Entretanto, na Europa, Schuman e Monnet seguiam perfeitamente os mesmos conceitos quando argumentavam que o futuro sistema deveria ser uma hierarquia de ordens com absoluta supremacia da elite sobre a “massa ignorante”. Lembramos que Schuman e Monnet são hoje glorificados quais “Pais Fundadores da União Europeia” (e Schuman também da Nato).

Existência Comercial e Visibilidade Mediática

Mas foram as ideias dos dois americanos que fizeram a maior parte do trabalho. Inventaram a arma letal, aquela que realmente teria em poucos anos incapacitado a participação democrática dos cidadãos: a Existência Comercial e a cultura da Visibilidade Mediática. Resumindo estes dois conceitos: a Existência Comercial leva os indivíduos a empregar uma fatia cada vez maior do seu tempo para adquirir meios que consigam reforçar a auto-estima. Nós somos porque compramos.

A razão desta necessidade esmagadora de reforçar a auto-estima fica na Visibilidade Mediática, que desde a mais tenra idade ensina aos cidadãos que para ser é preciso ser visíveis, isto é, contar, aparecer, ser “alguém”. Os visíveis obtêm, são amados por muitos e respeitados, têm personalidades reconhecidas, são vencedores, muito lhes é permitido.Os não visíveis não são, não existem, não contam, não têm poder, são indistinguíveis, são a massa repugnante e sempre pagam por tudo e todos. Aqueles que sentem ser parte da massa não gostam disso, porque há a eterna comparação com os visíveis, os que contam e que podem, tudo feito com o apoio incessante dos media. Não ser visível, não ser “alguém, destrói a auto-estima. Mas sem auto-estima um ser humano não respira, sufoca, fará qualquer coisa para recupera-la. E aqui novamente entra em cena a Existência Comercial, que obriga os invisíveis a adquirir para vestir-se duma certa maneira, poder mostrar um certo automóvel, etc., na ilusão de ficar cada vez mais perto dos Vips.

Presas sem esperança na armadilha. Mas umas presas que, no esforço económico para obter visibilidade, entram numa outra armadilha, aquela financeira: porque parecer custa dinheiro. Um círculo vicioso que vai acorrenta-los para sempre.

Goebbels? Um amador, obrigado a suicidar-se. Lippmann, Berneys, Schuman e Monnet? Frios, calculadores e ainda hoje venerados.

(continua)

 

Ipse dixit.

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