O desaparecimento da Amazónia

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O Brasil em crise económica está a comer-se a Amazónia. Não há surpresa: estava nas promessas eleitorais de Bolsonaro, com a redenção nacional e o retorno às glórias dos Bric, o conjunto dos Países emergentes do planeta. Quando a Direita afirma que é preciso relançar a economia, as árvores estremecem.

Recentes estimativas da Comissão Económica para a América Latina e o Caribe, CEPAL, previam o desenvolvimento de toda a área na casa dum misero 0.5%:  uma percentual menor do que o anteriormente comunicado pela mesma Comissão, que esperava para o Brasil um aumento do PIB (Produto Interno Bruto) de apenas 0.8%, enquanto as tendências económicas de quinze dos vinte Países da região estão a piorar.

Solução: procurar recursos na terra dos outros pessoas. Por exemplo dos nativos da floresta amazónica. Desenvolvimento a todo ou custo: menos restrições por parte dos órgãos estaduais sobre a conservação do pulmão verde do planeta, permitir que os agricultores e pesquisadores de minerais prossigam com o desmatamento na área do mundo considerada essencial para o bem estar do planeta, graças à enorme quantidade de dióxido de carbono que absorve transformando-o em oxigénio.

Os dados de satélites recolhidos pelo Instituto Nacional de Investigações Espaciais do Brasil (INPE) falam de mais de 2.255 quilómetros quadrados de floresta cortados no mês passado, três vezes o que tinha sido cortado em Julho do ano passado. O fenómeno do desmatamento aumentou 67% nos primeiros sete meses de 2019, resultando no desaparecimento de 4.699 quilómetros quadrados da floresta amazónica desde o início do governo Bolsonaro, enquanto no ano anterior os quilómetros desaparecidos tinham sido “apenas” 2.818.

O governo contesta a veracidade dos dados e lança acusações contra os pesquisadores que, segundo as instituições governamentais, querem espalhar falsas verdades entre a população, prejudicando os interesses económicos do País.

Jair Bolsonaro definiu “falsos” os dados divulgados pelo INPE e demitiu o director Ricardo Galvão, segundo ele culpado de ter prejudicado as negociações comerciais que o Brasil está a conduzir com a União Europeia, cujos representantes levantaram a questão da conformidade ambiental como pré-condição para um acordo. Na lógica do presidente brasileiro pouco importa que os dados divulgados pelo INPE tenham sido confirmados por pesquisadores independentes e ambientalistas: o que mais conta é que o aumento do desmatamento seja uma realidade que também alarma a Europa, que pode exercer o seu peso e fazer ouvir a sua voz quando estão em jogo as relações económicas com o País sul-americano.

“Pode”? Bom, “poderia”: porque até agora muito pouco foi feito. Ou até nada além das palavras. E há uma razão.

Amazon Watch publicou um relatório que evidencia as ligações entre empresas ocidentais e desmatamento da floresta, obviamente com a cumplicidade do governo brasileiro e de realidades onde floresce a corrupção. Madeira, carne, soja, pele, açúcar e minerais são as principais causas da desflorestação.

Os nomes das empresas que costumam abastecer-se com os recursos amazónicos?

  • Archer Daniels Midland Company (ADM) é uma empresa de Chicago (EUA) que opera no sector de comida e commodities: os principais accionistas são State Farm, Vanguard, BlackRock e State Street, mas estão presentes também bancos quais Barclays, Bank of America, Citigroup, JPMorgan Chase e BNP Paribas.
  • A Bunge (New York, EUA) vê a participação de Vanguard, T. Rowe Price, BlackRock, ABN Amro, ING Group, JPMorgan Chase e Deutsche Bank.
  • A Cargill (Minnesota, EUA): BNP Paribas, JPMorgan Chase, Barclays e Bank of America.
  • A Louis Dreyfus (Rotterdam, Holanda) é uma empresa privada. No entanto, também recebe financiamento significativo de outros actores como os bancos HSBC, BNP Paribas, Credit Suisse, Crédit Agricole e ABN Amro os maiores financiadores.
  • A JBS éuma empresa sediada no Brasil (São Paulo), no entanto tem participações de accionistas americanos e europeus: Capital Group, BlackRock, Fidelity Investments, Vanguard, Santander, JPMorgan Chase e Barclay.
  • Também de São Paulo é a MARFRIG, subsidiada por Brandes Investment Partners, Storebrand, Azimut, Vanguard, HSBC, Santander e Morgan Stanley.
  • A MINERVA Food, mais uma vez de São Paulo, inclui acções de BNP Paribas, Credit Suisse, Vanguard, Invesco, HSBC, Bank of America, JPMorgan Chase e Santander.

Mas a lista é comprida e dela fazem parte muitas empresas norte-americanas e europeias que, através o trabalho de empresas sediadas no Brasil, exportam para o resto do planeta os recursos originários da Amazónia.

 

Ipse dixit.

Fontes: Amazon Watch: Complicity in Destruction (ficheiro PDF, inglês)

2 Replies to “O desaparecimento da Amazónia”

  1. Oi Max: pretendo adicionar uma ou duas coisinhas:
    O governador geral da terra brasilis afirmou ser as reservas dos índios enormes territórios onde mora gente pobre encima de solo rico. Na verdade há alguns equívocos nessa fala: só em Roraima aproximadamente metade do território é de reservas, ali não mora gente simplesmente, ali a posse é determinada por lei,e a propriedade é do Estado brasileiro ( os índios não consideram que a terra possa ser propriedade de quem quer que seja, mas limitam-se às terras demarcadas pelo governo ). O solo da Amazônia é pobre ou seja, não resiste, tirada a camada de húmus que sustenta a floresta tropical, a um cultivo e a poucos anos de pastagem, vira terra arrasada. O subsolo é ríco em minerais valiosos e, com a floresta e o aquífero guarani mantem-se um incontável número de rios de planície.
    Desde sempre os mistérios desta floresta foram buscados e encontrados por ongs, seitas religiosas, aventureiros e empresas estrangeiras, grileiros que desmatam e criam gado, todos empobrecendo o lugar, e enriquecendo muitos: ouro, diamante, caucho, plantas e bichos exóticos, únicos daqui , produzindo substâncias cuja patentes sempre foram registradas fora. Fez-se a rodovia trans amazônica com o propósito de facilitar os negócios.
    Mas a floresta já foi imensa imensa, tomando metade do território nacional, parte do Peru, da Venezuela e das Guianas, e aos poucos o mundo foi se dando conta que ela ia diminuindo. Em 84 eu viajei da Califórnia para São Paulo e o avião comercial levava 2h e meia (contadinhas no meu relógio) para atravessar o colosso verde, onde se via a serpente do rio Amazonas lá de cima e uns poucos olhos de civilização avermelhados e vazios. Seis anos depois fiz a mesma viagem, atravessando a Amazônia em duas horas e vendo uma miríade de olhos da civilização em meio à mata. Parece pouco, só meia hora, mas não é. A devastação é muito maior daquilo que mapas e estatísticas mostram. Eu não precisei de satélite nem drone para ver isto.
    A diferença é que agora são oficiais a grilagem, a matança indiscriminadas das tribos índias, as minerações,em reservas e onde o dinheiro desejar, inclusive a maior mineradora canadense vai operar no Xingu e envenenar um dos maiores afluentes do Amazonas, o rio Xingu com mercúrio e um derivado do produto que o pessoal do exército e outros que tem acesso usam para morrer rápido e sem sofrimento (agora não lembro o nome).
    Pois é gente: não só os índios os rios, os bichos e as plantas que estão morrendo hoje, nós brasileirinhos também. Ocorre que era a Amazônia que garantia a umidade do ar que em correntes vinham para o centro sul do país. Isso é passado. Hoje, cidades como SP padecem com a falta de água, e até nós na bela e Santa Catarina dos olhos azuis, em várias cidades falta água. ( Estou cedendo água do poço de Terra âncora porque a água aqui não se extingue – existe uma muralha de mata de 400 metros montanha acima, com um aclive que não dá para a civilização chegar)
    Se o governador geral soubesse disto pois já diria que a população pode ficar aí (já que tem olhos azuis), mas encima de um subsolo de águas minerais- termais a ser vendido.

    1. Como sempre a Maria disse tudo. Para complementar, fiquei sabendo desta ontem:

      https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/decreto-de-bolsonaro-que-poupa-industrias-de-sal-e-ilegal-diz-procuradoria.shtml

      E não é só meio ambiente, a liberdade de expressão e a democracia estão sendo atacadas. Estabeleceu-se o estado policial e amedrontador.

      Não sei em que situação iremos parar quando as sandices desse governo acabar. Acho que retrocederemos algumas décadas em todos os sentidos.

      Peço, peço não, imploro para vc, Max e demais leitores de outras nacionalidades: divulguem em suas redes sociais .
      o que está acontecendo no brasil. Porque a grande maioria da nossa população é cega ou se faz de cega.

      #OBOZONÃOMEREPRESENTA

Obrigado por participar na discussão!

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