Venezuela: a amostra de golpe, operação mediática

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Qual o sentido? Que dizer, uma pessoa observa o tentado mini-golpe na Venezuela e pergunta qual pode ser o sentido de tudo isso. Não temos números confiáveis, mas parece bastante claro que a adesão não foi nada impressionante. Possível um erro de avaliação tão flagrante? Duvido.

Do outro lado, fala-se de “rios de pessoas” que saíram à rua para defender Maduro. E também aqui é preciso realçar como as imagens (as poucas disponíveis) mostrem alguns militantes com tanto de estrelinha vermelha no chapéu que invocam punições exemplares para com os traidores. Mas nada de “marés” de pessoa.

Aliás, as (repito: poucas) imagens transmitem a ideia de ruas semi-desertas, com alguns blindados, gente que atira pedras, gases lagrimantes, policiais furtivos. As imagens mais naturais dum golpe pensado mal e acabado pior.

Um “acidente”? Não acho. Os Estados Unidos, os mandantes de Guaidó, são especialistas destas revoluções “espontâneas”: além de poderem contar com a informação recolhida no exterior, há também o controle da situação actuado a partir do interior da Venezuela. Então deve ter sido óbvio desde logo que esta amostra de golpe não teria tido as pernas para andar. Mesmo assim, Washington deu luz verde. A razão? Melhor falar em “razões”, no plural.

  • Guaidó tem boas probabilidades de ficar preso. O que seria um erro por parte de Maduro porque iria criar um mártir, figura ausente até então na crise da Venezuela. Doutro lado, Maduro já anunciou que quer averiguar as responsabilidades e punir os responsáveis: e Guaidó é o primeiro entre os responsáveis.
  • Guaidó preso seria uma boa carta a ser utilizada no plano internacional: o “libertador” da Venezuela martirizado nas prisões da pátria não por culpa da violência (Guaidó teve muita atenção nisso: falou só em processo “de paz”) mas por causa das suas ideias “liberais”. Portanto: mel aos olhos das ONG dos direito humanos, de Amnesty International e da tralha toda.
  • Guaidó é dispensável. Morto ou preso um Guaidó, eis que Washington pode fornecer um Guaidó novinho em folha no prazo de poucas horas. Guaidó é um dos muitos úteis idiotas que tanto bem fazem ao poder.
  • Acabe como acabar esta amostra de golpe, um sucesso já foi alcançado: ficou demonstrado que o regime não é aquela criatura monolítica que o mesmo Maduro quer apresentar. A verdade é que houve deserções no seio das forças armadas, e nada de multidões oceânicas em defesa da revolución. Sem esquecer que a o caso-Venezuela ocupa ininterruptamente inteiros canais televisivos desde ontem.
  • Acabe como acabar esta amostra de golpe, um outro objectivo foi alcançado também: foi enviado o sinal claro de que o regime de Maduro não pode ficar descansado pois o cerco aperta cada vez mais. Já não são apenas as medidas económicas coercitivas, pois este é o segundo mini-golpe desde o passado mês de Janeiro.

Pelo que, esta amostra de golpe pode ter conseguido alguns (fracos) resultados, mas não passa dum outro degrau no caminho que leva até a queda da Venezuela. É aquela que os anglo-saxónicos definem como escalation. E só uma questão de tempo: é preciso realçar como os Estados Unidos ainda não implementaram o Manual do Bom Revolucionário Pago, aquele já utilizado na Ucrânia. Não há por aqui Embaixadores que distribuem bolachas, não parece haver demasiados esforços para corromper elementos das forças armadas com propostas “irrecusáveis”, sobretudo não entraram ainda em acção os atiradores como em Maidan (Kiev). Esta falta em acusar o regime de Maduro de violência contra os seus próprios cidadãos é uma peça importante, algo sempre presente nas intervenções “humanitárias” dos “libertadores” com matricula dos Estados Unidos. Quando haverá o verdadeiro golpe, será difícil ter dúvidas pois começará a conta das vítimas.

E acerca disso acho que não pode haver muitas dúvidas. A agência de notícias Reuters, num artigo assinado por Aram Roston e Matt Spetalnick, lança a ameaça de Erik Prince, o fundador da Academi, controversa (este é um eufemismo) empresa de segurança privada de mercenários. Segundo a imprensa, a Blackwater (antigo nome da Academi) está a trabalhar num plano para enviar um exército privado na Venezuela em apoio ao autoproclamado Presidente Guaidò. Quem fala duma intervenção directa dos Estados Unidos não sabe do que fala: porque Washington não tenciona provocar uma crise maior daquela que já tomará forma e porque, afinal, os EUA não precisam arriscar as suas tropas na América do Sul.

Ao que parece, o simpático Prince procura investimentos e apoio político para essa operação na Venezuela. E a ideia seria ter patrocinadores importantes, incluindo muitos partidários do Presidente Trump e influentes venezuelanos no exílio. A soma necessária para a operação, cerca de 40 milhões de Dólares, não seria um problema e do ponto de vista militar um contingente de 5 mil mercenários seria suficiente. E nem podemos esquecer o cómodo apoio das bases colombianas. O exército da Academi seria recrutado entre mercenários peruanos, equatorianos, bolivianos mais vários e eventuais. Todavia, sempre segundo Prince, é necessário “criar um evento dinâmico para romper o impasse político no País”.

Na prática, o que Prince afirma é que não quer ser ele a atirar a primeira pedra: o que faz sentido, pois uma empresa privada que desencadeie um golpe num País soberano abriria cenários novos e imprevisíveis. Muito melhor se fosse uma situação criada por um “evento dinâmico” a “requer” a intervenção. A velha e querida guerra civil? Não sabemos.

Para já ficamos com esta amostra de golpe, uma operação mediática cujos alvos podem ser igualmente repartidos entre o interior e o exterior da Venezuela. Tudo adiado.

 

Ipse dixit.

7 Replies to “Venezuela: a amostra de golpe, operação mediática”

  1. Com diria por aqui, um velho barbudo presidiário: “mais um espetáculo midiático pirotécnico”.

    Guaidó ( “democraticamente” autodeclarado presidente) poderá contar com os soldadinhos do Bozo ? Acho pouco provável.
    Generais brasileiros teriam que tirar a bunda da cadeira , pois passam o dia inteiro ” atrás da mesa com o cu na mão” (Renato Russo).

    Também acho pouco provável uma maior ajuda de Putin ao Maduro ( legitimo presidente eleito pelo povo venezuelano.
    Ah… diriam uns : ” mas houve fraude” . Também não dizem que o Al Gore foi roubado pelo Bush filho ? , Qual a diferença ?).

    E novamente e como sempre, o sofrimento fica com o população do país vizinho, dividida entre revoltados, alienados e aproveitadores ( idem ao brasil ).

    O disputa pelo ouro negro no hemisfério sul , seria bem diferente com Lula e Chaves no poder. Sabiam disso e trataram de tirá-los do jogo. Como disse a Maria , seus sucessores , Dilma e Maduro , não tem o mesmo cacife de sues antecessores.
    Como o brasi é um gigante e a Venezuela, não , o golpe ecoou mais para um presidente não tão maduro ( desculpe-me pelo trocadilho infame)

    Abraço.

  2. Meu caro Max, lamento discordar, parece-me haver outra interpretação para o que se passou na Venezuela,todos as revoluções e golpes de estado são precedidos por “tentativas de golpe”, estas tentativas são uma forma de testar e criar tensão nas defesas do regime, ao mesmo tempo os altos quadros do estado principalmente nas Forças Armadas vão começando a tomar consciência que ou mudam de lado ou estão sujeitos a, da noite par o dia, serem julgados por traição, e de tentativa em tentativa vai-se criando uma antevisão de como vai reagir da próxima vez ao mesmo tempo que se vai aliciando os Altos quadros do estado a mudarem de lado,( Quantas tentativas de golpe aconteceram em Portugal antes do 25 de Abril ? )É um processo. Este tipo de operações é orquestrado por militares que sabem que é necessário um treino e um estudo real antes de consolidar a tomada de posse. É absolutamente necessário coagir os altos responsáveis a mudar de lado, são necessários quadros com conhecimento para gerir o pais, é muito mais útil reciclar um inimigo a nosso favor do que encarcera-lo ( Quem construiu o programa espacial Americano? Quem construiu os serviços secretos americanos na Europa depois da 2.a G.M. ? ) o que já esta aqui a ser pensado é a governação depois de Maduro, chamem-lhe … uma proposta musculada de contrato coletivo…

  3. A Venezuela virará uma “democracia colonial” a qualquer preço, mesmo que os EUA tenham de esgotar todo o seu manual intervencionista. Naturalmente não tem nada a ver com ideologia, mas com economia. As corporações do petróleo nos EUA precisam desesperadamente do petróleo venezuelano para cobrirem as conveniências do Estado estadunidense para que haja folga na dependência da Arábia Saudita na aquisição e transporte pelo Estreito de Orrmust, e assim estarem com possibilidades estratégicas de efetivarem seus planos contra o Irâ, Hesbol e mais alguns . A Venezuela só não caiu até agora porque deve muito à Rússia e China e paga em petróleo. Estes Estados não querem levar calote. Assim, enquanto as instituições de segurança norte americanas treinam mercenários em territórios “amigos” na América do Sul para atuarem na Venezuela, Rússia aumenta seu negócio de armamento na Venezuela, e manda inteligência russa e chinesa para controlar a situação. Maduro, a trancos e barrancos vai levando, mas esquece que uma boa ideologia fica na barriga. Três milhões de Venezuelanos estão dispersos desde o Chile até Equador, Colômbia e Brasil. Esse pessoal não tem sido bem tratado em lugar algum. Logo um belo soldo em dólares fá-los “cambiar la ideologia en un rato de tiempo”

  4. Estão a testar, fazer reconhecimento e depois atuar e não existe volta atrás. É o hemisfério deles como diz Bolton e Pompeu.
    https://youtu.be/xmAe-2TeV64 https://youtu.be/mlz3-OzcExI ou onde existem guerras e é de onde surgem ou fogem pessoas Siria, Afeganistão, Iraque etc… mais tarde Iemen os que ninguem quer(exeto mãos de obra barata a quase escrava) ver Almeria no sul de Espanha e outros sitios.
    Academi ou Blackwater? Existe um conflito de interesses, ver China e não só.
    Mas se exercitos privados(mercenários) começam a fazer o trabalho de regulares forças armadas (tem que ser aprovado pelo senado, assembleia primeiro?) vai-se saber, é inevitável seria o pior possivel tanto para as relações externas de T. (qualquer um estaria sujeito).
    Alem dos neo cons/libs existe o fator I***L portanto o Irã também vai ter confusões, se é que não tem lá infiltrados já.
    Não esquecer que a emigração que sobe pelo México foi precedida de golpes de estado nas Honduras, eventos estranhos em El Salvador e Guatemela a que depois se juntarão Venezuela e outros a caminho do eldorado.
    Várias facções(?) estão a criar uma confusão enorme a sul para depois criar caos tanto na Europa como nos Estados Unidos. Social/económica/politica/civilizacional a que se juntam algumas ONGs na África subsáriana. Como se não bastassem rasgar acordos, ou pura e simplesmente não cumprir, hoje uma coisa amanhã outra, tudo atrvés o twitter.
    Isto pode acabar mal, estamos governados por irresponséis ávidos de ainda mais poder.

    nuno

      1. Acho que existem vários cenários, conforme que tem o poder sobre os testas de ferro: Pepe Escobar ví ontem ve de outra forma: https://youtu.be/1C9yynr3cAQ
        mas fala no renascimento Al Baghdadi(!), o SITE, Notre Dame(falaram na TF1 outra versão) e ao mesmo tempo: https://br.historyplay.tv/noticias/mesquita-historica-de-jerusalem-pega-fogo-na-mesma-hora-em-que-catedral-de-notre-dame… foi no dia 1 de Maio…a conclusão vai sempre a dar ao mesmo.

        n

      2. Já aqui coloquei uma visão Pepe Escobar e outros nao fogem muito, deve ter ido para o spam.
        Blackwater trabalha mauoritamaiorita para governo chinê, e nem o chefe se quer para ja meter-se lá. Existem entrevistas com o Eric Price bem claras, se usam mercenários é mau para eles e o próprio governo que os autoriza.

        N

Obrigado por participar na discussão!

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