As alegres Testemunhas de Jeová

As Testemunhas de Jeová não brincam em serviço. Pegam na Bíblia, uma calculadora, e eis que são capazes de fazer previsões espantosas.

Em 1899, Charles Taze Russell, o fundador do movimento, é claro: o Apocalipse começará em 1914. “A batalha do grande dia de Deus, o Todo-Poderoso, que terminará em 1914 d.C. com a reversão completa do actual domínio da terra, já começou”. Portanto: fim do Mundo. Horror!

Em 1914 o Apocalipse não começa mas mesmo assim há a Primeira Guerra Mundial: melhor do que nada, e em qualquer caso trata-se dum claro sinal do Fim dos Tempos. O mesmo Russel sabe disso e, em 1917, escreve: “A actual grande guerra na Europa é o começo do Armageddon descrito pelas Escrituras” (Russell’s Sermons, 1917, p. 676). Como não dar-lhe razão? O fim do Mundo está próximo.

Em 1918 pequena desilusão: a guerra acaba, é a altura da paz. Pouco mal, afinal trata-se apenas de refazer os cálculos com um pouco mais de atenção. “Portanto, podemos esperar que 1925 marque o regresso de Abraão, Isaque, Jacó e dos fiéis profetas do passado, especialmente aqueles designados pelo Apóstolo em Hebreus 11” (C. Russell, Milhões que Agora Vivem Jamais Morrerão, p. 89). E não apenas o regresso dos profetas mas até de Jesus: “A data de 1925 é ainda mais claramente indicada pelas Escrituras do que aquela de 1914” (A Sentinela, 1 de Setembro de 1922, página 262). Verdade: está indicada. Não sei onde, mas algures está.

E chega 1925: “O ano de 1925 está aqui. Os cristãos esperaram este ano com grandes expectativas. Muitos esperavam com confiança que todos os membros do corpo de Cristo mudariam em glória celestial durante este ano. Isso pode ser alcançado. (A Sentinela, 1 de Janeiro de 1925, página 3). Assim, em 1925, Jesus, Abraão, Isaque e Jacó regressam. Mas evidentemente não gostam do que encontram e decidem ir-se embora. Fim do mundo adiado, uma pena. Tranquilos: trata-se de esperar só mais uns 15 anos, o Armageddon é uma questão de tempo.

“1940 certamente será o ano mais importante, porque o Armageddon está muito próximo” (“Informante”, Maio de 1940).

Portanto Fim do Mundo, não apenas em 1940 como também em 1941. Dois anos seguidos: melhor abundar.

Receberemos o presente, as crianças marcharão firmemente, não um brinquedo para o prazer mas ferramentas do Senhor para um trabalho mais eficaz nos meses que faltam antes do Armageddon. (“A Sentinela”, 15 de Setembro de 1941, página 288).

Pensando bem… não pode ser em 1946? Por qual razão não deveria haver um Fim do Mundo também em 1946? Alguém tem algo contra o ano de 1946? “O desastre do Armageddon, maior do que o que aconteceu em Sodoma e Gomorra, está à porta.” (Seja Deus Verdadeiro, 1946, pág. 194). E eis que, de facto, o Mundo acaba em 1946. Ou em 1975. Talvez seja mesmo em 1975, os cálculos não mentem.

Neste século XX, foi realizado um estudo independente que não segue cegamente algum cálculo cronológico tradicional do cristianismo, e o cálculo impresso do tempo resultante desse estudo independente indica a data da criação do homem como 4026 a.E.V. [antes de Cristo, ndt]. De acordo com essa cronologia bíblica de confiança, seis mil anos a partir da criação do homem terminarão em 1975, e o sétimo período de mil anos da história humana começará no outono de 1975, em E.V. [depois de Cristo]. (“A vida eterna na liberdade dos filhos de Deus”, pág. 28-29).

Por estranho que possa parecer, em 1975 acontecem várias coisas mas não o Armageddon. São formados os Iron Maiden, Charlie Chaplin é nomeado baronete pela rainha Elizabeth e Bill Gates cria a Microsoft Corporation. Mas o Armageddon? Zero. Talvez porque o ano de 1975 deve ser entendido como algo metafórico: escreve-se 1975 mas lê-se 1984.

A contagem regressiva que está a ocorrendo há cerca de seis milénios está a chegar agora à sua conclusão. É tão próxima que as pessoas que estavam vivas em 1914, e que agora são muito velhas, não morrerão antes dos eventos eletrizantes sobre a reivindicação da soberania de Jeová tenham lugar.

Portanto sim, é o 1984. Ou talvez o 2000. Deve ser isso, o ano de 2000, antes que comece o século 21º haverá o Armageddon, desta vez não há dúvidas também porque 2000 é um ano bonito, com muitos zeros.

Apocalipse 16:16 chama isso de guerra do grande dia de Deus, o Todo-poderoso, Armageddon. Esta guerra vai estourar no século XX. (Despertai!, 22 de Junho de 1961).

O apóstolo Paulo […] lançou as bases para um trabalho que seria completado no nosso século XX. (A Sentinela, 1º de Janeiro de 1989).

…e mesmo que não seja em 2000 será num ano que anda por aí perto. Que tal o 2034? Gostam deste ano? Mas porquê o ano de 2034? Simples, sigam o raciocínio que podemos encontrar na revista Sentinela de 15 de Dezembro de 2003, página 15. Deve-se notar que a partir do momento em que Noé foi instruído a construir a arca até a data do dilúvio, passaram 120 anos. Então observamos: passaram cerca de 90 anos desde que começaram os últimos dias, em 1914. Portanto: 1914 + 120 = 2034. É uma questão de matemática. E a matemática não mente.

 

 

Os sagrados cálculos

Levíssima dúvida: mas como é que as Testemunhas de Jeová conseguem descortinar a verdade? Quais maravilhosos cálculos estão na base destas profecias sistematicamente acertadas?

A resposta é: fé e estudo. Só um constante esforço de análise das Sagradas Escrituras permite descobrir os segredos que a sabedoria dos Antigos quis transmitir. Tudo parte duma constatação: o Mundo durará exactamente 49.000 anos. Como é que sabemos isso? As Testemunhas explicam: porque 49.000 é o resultado de 7 (os dias da Criação) vezes 7.000, que é o número de…, pois, de quê? Bom, é 6.999 mais 1 e isso deve ter a sua importância, não é?

Portanto, destes 49.000 anos, 48.045 já passaram porque a Criação teve lugar 46.026 anos antes de Cristo e 46.026 + 2019 = 48.045. Agora, se 48.045 anos passaram, sobram 995 anos antes do final dos Tempos. Mas atenção, porque os últimos 1.000 anos da Humanidade não serão tão tranquilos como os anteriores. Os últimos 1.000 começam com o Armageddon e este, como vimos, já chegou em 1914, em 1917, em 1925, em 1940, em 1941, em 1946, em 1975, em 1984, em 2000. E começará outra vez em 2034: todos estes são factos e não podemos discutir os factos.

E há mais uma prova: se for verdade que o Mundo durará 49.000 anos, não podemos esquecer que a raça humana não ultrapassará os 7.000 anos. Entende-lo é simples: basta multiplicar os dias da Criação vezes 1.000. O que dá exactamente 7.000 anos. Incrível, quase desumano!

Donde chega esta sabedoria toda? Só dum livro, aliás do Livro: a Bíblia. Aí está escondida a chave para interpretar o nosso futuro tal como as normas que devemos seguir para uma existência digna do Senhor (que é Jeová). As Testemunhas de Jeová são os mais puros porque seguem a doutrina do Cristianismo do primeiro século após a vinda de Cristo. É daí que trazem a força e as convicções.

O nome de Deus

Começamos pelo nome: as Testemunhas sabem que o nome de Deus não é Jeová. Este foi fruto dum erro de tradução, pois o nome verdadeiro é Yahweh:

É quase certo que o Nome de Deus foi originalmente pronunciado Yahweh (“A Sentinela”, 01/02/1961, página 95).

Portanto, as Testemunhas decidiram identificar o seu culto com o nome errado de Deus, mesmo sabendo que estava errado. Muito astuto. É como se eu mudasse o nome do blog em Informácio Inkorrasta. “Porquê?” poderia perguntar alguém; “Simples” responderia eu, “porque o nome correcto é Informação Incorrecta”.

Jesus

As Testemunhas acreditam que Jesus seja o Cristo mas negam que seja parte da Trindade. Tudo bem, pontos de vista. Mas quem é de verdade Jesus? É o arcanjo Miguel. As Testemunhas afirmam que Jesus é o primeiro dos anjos, chefe do exército angélico que lutará contra o Demónio e o exército dele “no final dos tempos” (isso é, depois dos últimos 1.000 anos começados em 1914, em 1917, em 1925…).

Declaram que Jesus ressuscitou apenas espiritualmente e que o verdadeiro nome Dele, Miguel, é um sinónimo de Jesus assim como a palavra Abaddon. O que é bastante curioso porque do ponto vista de Hebraico, Protestante e Mórmon, Abbadon é um demónio. Mas as Testemunhas é que sabem: raramente se enganam.

O Além

No Dia do Juízo, todos os mortos serão ressuscitados. O que é uma boa notícia. Mas há um senão: a Ressurreição estará dividida em duas classes, como nos combóios. Na primeira classe encontrarão lugar apenas 144.000 pessoas que viverão na eternidade ao lado de Jesus, governando o Mundo com Ele a partir do Paraíso. Os outros? Aqueles da segunda classe nada de Paraíso: ficarão na Terra, perdoados e absolvidos, já chega.

Donde provém esta ideia dos 144.000? Do Apocalipse, 14,1:

E olhei, e eis que estava o Cordeiro sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, que em suas testas tinham escrito o nome de seu Pai.

Pessoal, está escrito: mais uma prova da justeza das Testemunhas.

Como conseguir fazer parte destes 144.000? Ehhhh, isso é complicado porque boa parte deles foi já escolhida em 1914 e 1935 (não pergunte a razão). Tentem portar-se bem para ganhar uma simples ressurreição de segunda classe, que já não é mal.

Vida social

Do ponto de vista social, as Testemunhas estão muito a frente: podemos considera-los uns progressistas.

Nada de relações sexuais antes do casamento: justo assim. Nada de adultério, nada de relações homossexuais (consideradas uma perversão) e, obviamente, nada de aborto.

O casamento com um não-crente (isto é, com uma pessoa que não é membro das Testemunhas de Jeová) é fortemente reprovado. Divórcio? Não brinquemos. Um segundo casamento? É adultério. Só no caso de adultério por parte do marido ou da esposa é possível abrir excepções. Ou, naturalmente, em caso de morte do conjugue.

Métodos contraceptivos? Sim, mas só dentro da vida sexual de casal e, em qualquer caso, a mulher não pode assumir a pílula do dia seguinte, porque é uma forma de aborto.

Nada de tabaco, substâncias estupefacientes, álcool só em módicas quantias.

Estudo da Bíblia e pensamento

O estudo da Bíblia é considerado essencial. Mas não é a Bíblia “normal”, é uma versão revista e adaptada que difere em vários pontos do original. O que pouco importa porque o estudo da Bíblia não é “interpretação” mas “leitura”: aliás, qualquer forma de interpretação é proibida. As Testemunhas são explicitamente convidadas a não pensar porque os Anciões já pensam por todos. Cómodo, assim poupa-se o esforço.

Transfusões

Referindo-se à Bíblia, as Testemunhas acreditam, desde 1961, que as transfusões de sangue constituem uma séria violação doutrinária, uma razão para a expulsão do membro da congregação que a utiliza. E é uma proibição também válida para crianças.

Mas qual é a origem desta crença? Foi Noé que proibiu comer sangue, porque o sangue é vida. Génesis 9, 4 e 5:

A carne, porém, com sua vida, isto é, com o seu sangue, não comereis.
Certamente requererei o vosso sangue, o sangue das vossas vidas; da mão de todo o animal o requererei; como também da mão do homem, e da mão do irmão de cada um requererei a vida do homem.

Em boa verdade Noé fala de “não comer” o sangue: entende “nada de actos de canibalismo”, “nada de rituais sangrentos”. Mas as Testemunhas não querem problemas ou dúvidas: nada de transfusões também. Não está escrito “requererei o vosso sangue”? No Dia final Deus irá medir quantos litros de sangue cada um de nós tem, verificando que seja tudo nosso. Praticamente o Armageddon será um grande Dia das Análises Clínicas e as Testemunhas, que não são parvas, entenderam isso.

Os oito pontos, as Pirâmides e as Plêiades

Na internet é possível encontrar com facilidade histórias de pessoas que saíram do grupo das Testemunhas e descrevem a vida de quem segue aquele movimento. Falam de coerção, violências psicológicas, censuras, enormes problemas familiares provocados pela crença. Em particular, relatam oito pontos:

  1. que os guias espirituais tendem a assumir o controle total dos outros membros;
  2. que são utilizadas técnicas de pressão psicológica sobre os membros;
  3. que é imposto um estilo de vida muito rígido que toca todas as áreas da vida pública e privada;
  4. que distorcem o significado de certos termos para adaptá-los ao seu culto;
  5. que todas as outras igrejas são condenadas sem apelação;
  6. que qualquer crítica é vista como um acto persecutório;
  7. que no recrutamento existe a tendência para pressionar os sujeitos mais fracos e mais facilmente manipuláveis;
  8. que não há maneira pacífica de deixar a seita, sofre-se um isolamento total por parte dos outros membros, inclusive dos familiares.
Charles Taze Russell, de olhar vivo e perspicaz

Nós, aqui, recusamos estas histórias: quanto relatado neste artigo é suficiente para mostrar a seriedade das Testemunhas, que, é bom não esquecer, em todo o Mundo são mais de oito milhões. Podem 8 milhões de pessoas estarem erradas? Podem ser um pouco atrasadas talvez, até ridiculamente atrasadas, provavelmente obtusas até a medula e se calhar infinitamente estúpidas e ainda mais, mas erradas não, isso nunca; e merecem todo o respeito devido a qualquer estúpido.

Há só um pormenor acerca do qual não é possível concordar e até custa falar disso. Charles Taze Russell, este santo dum homem que antes de fundar as Testemunhas tinha já previsto o regresso de Cristo para o ano de 1874, estava convencido de que as pirâmides egípcias tivessem sido criadas pelo próprio Deus. O que é absurdo, porque hoje sabemos sem sombra de dúvida que foram os Sete Anões.

Além disso, Russel acreditava que Deus vivia na área da constelação das Plêiades (Estudos das Escrituras, vol. 3, pág. 237). Todavia é claro que a Ciência em 1800 não estava tão desenvolvida como hoje, pelo que Russell está amplamente desculpado: doutro lado, a ideia foi abandonada pelas Testemunhas já por volta de 1950.

Mas, além destes insignificantes pormenores, qualquer Leitor chegado até aqui terá percebido que não há nada que possa pôr em causa a seriedade das Testemunhas de Jeová. E, nesta altura, a escolha é bem complicada: Testemunhas de Jeová ou IURD? Pena não poder seguir ambas…

 

Ipse dixit.

5 Replies to “As alegres Testemunhas de Jeová”

  1. Os filmes representados nos cartazes que ilustram esta publicação, ainda se encontram em exibição no cinema?

    «…Charles Taze Russell, este santo dum homem que antes de fundar as Testemunhas tinha já previsto o regresso de Cristo para o ano de 1874, estava convencido de que as pirâmides egípcias tivessem sido criadas pelo próprio Deus. O que é absurdo, porque hoje sabemos sem sombra de dúvida que foram os Sete Anões…»

    Max, sempre pensei que as pirâmides do Egipto tivessem sido construídas por extraterrestres.

  2. O JF já falou antes, mas justamente ia te perguntar se, tirando o nome da revistinha, não dava para considerar capas de DVD de filmes de ficção ou até de documentários científicos? As pessoas são profundamente atraídas por catástrofes anunciadas. A hora de maior audiência na TV são aquelas que falam sobre desgraças, mesmo que repetidas mil vezes, relembradas ad infinitum, as pessoas gostam de ver sangue escorrendo da telinha. Os jogos que mais atraem os adolescentes são os de guerra, destruição, violência. Os heróis são os que vencem, independente de como e para que venceram. No catolicismo, o sagrado e o puro são atingidos pela tortura, o crucificado é o seu ícone, e todos os que sofrem merecerão o reino dos céus.
    O que se quer, com tudo isso? Manter viva a morte em vida, mas a garantia que os bons triunfarão. Alguém se considera mau por excelência? Alguém deixa de encontrar motivos fortes para justificar suas vilezas? Então…deixa o planeta ser um circo de horrores, alimente-se o fogo das violências, ao mesmo tempo a fé na “bondade” humana e a certeza que no final os bons serão salvos de uma jeito ou do outro.
    Não é um pouco estranho tudo isso? A mim causa espécie, porque eu leio tudo ao contrário.

  3. Obrigado pelo artigo Max.
    Sempre ao melhor nível.

    Fiquei sem ter a confirmação acerca da regra de ter 2 testemunhas para poder averiguar uma denúncia de abuso sexual, mas já seria pedir demais heheh

    Abraço!

    1. Sim, a regra das duas testemunhas existe e deriva dum passo da Bíblia, Deuteronômio 19:15:

      “Uma só testemunha contra alguém não se levantará por qualquer iniquidade, ou por qualquer pecado, seja qual for o pecado que cometeu; pela boca de duas testemunhas, ou pela boca de três testemunhas, se estabelecerá o fato.

      Quando uma testemunha de Jeová comete uma transgressão séria, como agressão sexual ou abuso infantil, os anciãos da congregação podem formar um comitê judiciário para determinar se o culpado deve ser expulso da congregação. Mas sem a confissão ou a palavra de duas testemunhas para endossar as acusações, os anciões não procedem. Além disso, se a pessoa que abusar se arrepender, é correto perdoá-la: desta forma, tudo permanece dentro da organização. A ideia é que todos podem cair em erro e somente Jeová poderia julgá-lo. Quem não se adequar à regra fica expulso.

      No Youtube há muitos vídeos acerca do assunto, procurar: “testemunhas de jeová regra das duas testemunhas”.

      Fui!

Obrigado por participar na discussão!

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