União Europeia: o suicídio de Laura Pignataro

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Laura Pignataro pede a Lorenza, a amiga na cuja casa está a passar alguns dias, para acompanhar a filha de quatorze anos até a paragem do autocarro escolar: não está a sentir-se bem, afirma. Uma vez sozinha, Laura vai até o último andar do prédio e atira-se no vazio: morre instantaneamente. Para a polícia belga é suicídio: mais um (são entre 140 e 200 por ano em Bruxelas). Para nós é o começo duma curta história turva à sombra da turva União Europeia.

Laura Pignataro era uma pessoa que contava no “clube europeu”. O diário francês Libération define-a como “uma brilhante jurista, filha de um alto magistrado, formada na Itália, nos Estados Unidos, na França e na Espanha”. Fazia parte da elite de altos funcionários da Comissão da União. A partir de 1995 a italiana fazia parte do prestigioso Serviço Jurídico (SJ), onde em 2016 tinha sido promovida a Chefe do Departamento de Recursos Humanos. Esta é a função que a levou a desempenhar um papel fundamental na gestão do caso Martin Selmayr. Um caso interessante: ex-chefe da equipe alemã de Jean-Claude Juncker, promovido Secretário-Geral da Comissão Europeia em 21 de Fevereiro de 2018, “em violação das regras dos estatutos da função pública europeia”. Um escândalo que não deixa de causar ondas, um verdadeiro “golpe de Estado” tentado em Abril de 2018, travado no Parlamento Europeu em 13 de Dezembro do mesmo ano quando a esmagadora maioria (71% dos votos) pediu a demissão de Selmayr. Mas os problemas de Laura Pignataro tinham começado antes, em 28 de Fevereiro de 2018.

A nomeação de Selmayr ocupava espaço nos diários que já falavam de Selmayrgate por causa do evidente conflito de interesses: Selmayr é o braço direito de Juncker, trabalhou por conta dele, não pode ser eleito para um cargo tão importante numa organização (a Comissão Europeia) da qual Juncker é o Presidente. Mais: para encontrar o lugar de Selmayr foi aposentado antecipadamente o holandês Alexander Italianer, até então Secretário Geral. A Comissão de Controle Orçamentário do Parlamento Europeu decidiu abrir uma investigação, enviando uma lista de 134 perguntas à Comissão. “Foi o pânico”, confessa um eurocrata que pede o anonimado: o problema, acrescenta, é que o serviço legal (aquele da Pignataro) foi contornado, “porque sabiam que não teria permitido esse engano”. Juncker e Selmayr estão em silêncio há mais de dois anos sobre a questão: em 21 de Fevereiro de 2018, perante o plenário dos Comissários, tinham anunciado a reforma antecipada do holandês, sem especificar as razões, e Martin Selmayr já tinha sido nomeado para o cargo.

Uma reunião para tentar preparar as respostas foi convocada em 24 de Março de 2018, mas a Comissão de Controle Orçamentário não ficou convencida dos argumentos e prepararam uma segunda lista de perguntas, outras 61. Em 2 de Abril de 2018 nova reunião para preparar as 61 novas respostas, sempre com a presença inoportuna de Selmayr. “Laura, ao sair dessas reuniões, estava furiosa”, revela uma das suas amigas: “Ela sabia que estava a ser envolvida num conflito de interesses. Como advogada leal à instituição, percebeu que a nomeação de Selmayr não era legal”.

Em Maio, a mediadora irlandesa Emily O’Reilly começou a sua investigação no meio duma atmosfera de tensão. Pediu acesso ao servidor da Comissão Europeia: permissão rejeitada. Solicitou a transmissão de todas as mensagens de correio eletrónico relativas à nomeação da Selmayr: nova recusa. Até que convocou Laura Pignataro: “Eu não podia mentir”, disse Laura a um parente: “Dei todos os ficheiros à mediadora”. Selmayr não soube imediatamente da colaboração da Pignataro com a mediadora, estava tranquilo. Publicado em 4 de Setembro, o relatório do mediador foi esmagador: a nomeação de Selmayr tinha sido preparada já em Janeiro de 2018, o protegido de Juncker nunca duvidou do silêncio dos funcionários, mas nesta altura entende que o seu “problema” tem um nome: Laura Pignataro.

Pelo que, a italiana recebe novas instruções: ligaram para ela no meio da noite para explicar como tinha que mentir perante as perguntas da O’Reilly. Em Dezembro, Laura Pignataro confiou ao seu grupo de trabalho que a sua carreira em Bruxelas estava praticamente encerrada. Um amigo afirmou que “parecia estar aterrorizada pela hostilidade de Selmayr”. Quatro dias depois, o trágico mergulho no vazio.

Luis Romero, o Diretor do serviço legal no qual Laura trabalhava, soube do suicídio na manhã seguinte. Confiou uma mensagem aos seus colegas com a rede interna da União: “Luis Romero lamenta ter que lhe dar a triste notícia da morte de Laura Pignataro”. Nem Martin Selmayr nem Günther Oettinger, Comissário para a administração, nem o próprio Juncker consideraram oportuno enviar as suas condolências à família, nem participar ou ser representados na cremação, realizada em 21 de Dezembro em Bruxelas. Aliás, naquele mesmo dia todos os funcionários receberam uma mensagem de “boas festas” de Selmayr. Uma clara e cínica advertência. “Ficamos todos chocados”, disse um dos amigos de Laura Pignataro. Selmay também estava ausente na cerimónia em 31 de Janeiro para comemorar Laura, apesar de conhece-la bem, tendo colaborado com ela directamente durante dez meses. “Humanamente, a Comissão é um lugar horrível”, disse um funcionário da instituição ao jornal francês. “A brutalidade é parte integrante desta casa”, declarou o próprio Selmayr em 2017.

A morte da Pignataro? “Um assunto inteiramente privado” corta rápido Alexander Winterstein, um dos porta-vozes de Selmayr”. Lembra um de seus antigos chefes, Giulano Marenco, Vice-Director Geral do departamento jurídico: “Foi uma excelente e brilhante jurista, uma colega muito apreciada. É difícil entender o seu gesto: era alegre, forte e cheia de energia”. Mas com uma situação familiar complicada: seu marido, Michel Nolin, funcionário público francês no departamento jurídico, lutou durante anos contra a Comissão por causa de questões relacionadas com o trabalho e a carreira dele. E há quem suspeite que a nomeação de Laura nessa posição, particularmente delicada e desconfortável, poderia ter sido uma retaliação.

O concurso para substituir Laura Pignataro foi publicado no passado dia 4 de Março, quase três meses depois da morte dela. Conclui Jean Quatremer de Libération: “Já sabemos que Selmayr vai chamar um de seus fiéis, alemães como ele”. A União Europeia no seu melhor.

 

Ipse dixit.

Fonte: Libération

One Reply to “União Europeia: o suicídio de Laura Pignataro”

  1. É interessante como até pessoas cultas, inteligentes, fortes, acreditam na lisura das instituições “democráticas”. Essa senhora, Laura “não podia mentir”. Se ela não pudesse mentir jamais poderia trabalhar nestes antros institucionais porque a mentira é a primeira regra que lhe permitiria a permanência. E essa crença de confiança na lisura das instituições que corresponde à lisura dos ocupantes dos altos cargos da justiça e demais poderes institucionais atravessa a mentalidade social por todos os quadrantes, ainda que provado e reprovado que não é assim que funciona. São na maior parte das vezes personagens que aliando sorte, interesses políticos e econômicos diversos, indicações supostamente disfarçadas em notório saber vão construir grupos importantes de poder, majoritariamente a serviço de quem pode mante-los, retirá-los ou “apagá-los”, conforme as conveniências do(s) dono(s) do “cassino”, que também se digladiam entre si, e aparentemente as coisas mudam. Atuar, de dentro dessas instituições em favor das maiorias esmagadoras que assistem o jogo, sem reconhecer do que se trata é tarefa hercúlea destinada a pouquíssimos exímios jogadores de boa vontade, e por curtos períodos. Só o conhecimento das populações da realidade permitiria estes poucos exímios jogadores permanecer no poder por mais tempo.Essa “revelação” depende de não crentes, e de seu contínuo crescimento em meio a multidões de crentes.
    É sempre bom exemplificar com o que nos é próximo:
    Lula está preso, consequentemente é corrupto e ladrão. Estar preso corresponde à prova de delito. Neste caso aquele quase 1 milhão de desgraçados que transbordam das prisões brasileiras são todos (as) bandidos(as) que não valem a marmita podre que comem. E os presos políticos presos são todos criminosos de colarinho branco. Para acabar com a bandidagem é bom encarcerar adolescentes e crianças, e matar os adultos que estão nas favelas e periferias, porque gente de bem não está lá. O culto às instituições “democráticas” aliado à certeza que o sistema só pode ser assim, dá nisso por aqui.

Obrigado por participar na discussão!

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